Solenidade de Todos os Santos
“Alegremo-nos todos no Senhor, celebrando a festa de todos os santos. Conosco alegram-se os anjos e glorificam o Filho de Deus”.
Irmãos e irmãs,
Ao se aproximar o final do Ano Litúrgico, a Santa Igreja oferece-nos momentos especiais para a meditação do que há-de vir. Neste mês de novembro, especialmente, três solenidades marcam este momento: a celebração de Todos os Santos, a solenidade de todos os Fiéis Defuntos e, ao final do mês, Cristo Rei. São três instantes marcantes: a celebração da Igreja Triunfante, a da Igreja Padecente e o triunfo de Nosso Senhor ao final dos séculos.
Envolvido pela grandeza desta solenidade, vem-me à lembrança as palavras de um pregador que me fascinaram na infância, povoando minha imaginação com aquela homilia fenomenal: “Hoje o céu assume a terra. A terra assume o céu. A Igreja militante neste mundo se une à Igreja Padecente do Purgatório para glorificar e louvar a Igreja Triunfante do Céu, na presença da Trindade Santíssima”.
Com estas lembranças que enchem a minha alma de doce saudade e esperança cristã, celebramos a festa do José, da Maria, do Antônio, do Pedro, da Conceição, santos da terra unida à multidão de santos consagrados e anônimos, como Ambrósio, Inácio de Loyola, Pedro e Paulo, Bento, Atanásio, Clara, Rita de Cássia, Teresa de Jesus, Teresa do Menino Jesus, Paulina, José, Anchieta, Camilo de Léllis, Affonso de Ligório, Escrivá, Hurtado, Antônio de Pádua, Geraldo Majela, Antônio Galvão, João Paulo II, João XXIII, Paulo VI, bem como dos Beatos Nhá Chica, Pe. Victor, e tantos outros santos de nossa devoção que nos ensinam o cotidiano da vida cristã, rumo à Jerusalém Celeste.
Celebramos hoje as três dimensões de nossa vida cristã: a vocação à santidade futura no céu; a santidade do passado – daqueles que nos precederam na visão beatífica - e celebramos a santidade gratuita de Deus na nossa caminhada neste vale de lágrimas rumo ao Absoluto.
A Mãe Igreja nos convida hoje para celebrar os seus filhos, os canonizados e os não canonizados, os conhecidos e os desconhecidos, os que morreram em defesa da fé, como mártires, e os que também tombaram confessando com fidelidade a nossa fé. Celebramos todos os santos que uniram fé e práxis de vida comunitária, testemunhando Jesus Ressuscitado na sua realidade e em seu estado de vida.
Mas por que celebrar os santos do céu e da terra? Porque todos nós somos convidados à vida de santidade atendendo ao mandato bíblico: “Vivei a santidade, santificando uns aos outros, porque Deus, o Poderoso, é o Santo dos Santos”.
A santidade é um caminho espinhoso. Combatendo o bom combate, todos são convidados a trilhar este árduo caminho, especialmente a partir da dimensão comunitária, a dimensão paroquial, de engajamento no projeto de evangelização, para aproximar-se mais e mais da plenitude da eternidade, no amor de Deus.
O Evangelho desta festa é a doce alegria cristã das Bem-aventuranças (Mt 5,1-12a). Bem-Aventuranças que é o programa, o ideário, o caminho ideal para se alcançar a santidade de estado e de vida. A santidade ela é uma conquista, é a vitória no “combate espiritual” que pugnamos no dia a dia, sempre tendo presente que a santidade provém de Deus.
E como a santidade chega aos homens? Com a encarnação do Redentor, pela sua morte na Cruz, pela remissão dos pecados de todo o gênero humano, homens e mulheres devem se espelhar neste maravilhoso evento onde se haure a santidade divina.
As bem-aventuranças, apresentadas na Liturgia da Palavra, devem ser consideradas como o caminho da felicidade. A CNBB nos convida, com as Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, a reler este Evangelho como caminho de santidade, lançando as redes em águas mais profundas, atentos à exortação de São João Paulo II: “Duc in altum!”.
Mas, queridos irmãos, o que é ser santo? O Concílio Ecumênico Vaticano II nos ensina que, considerando a vida daqueles que seguiram fielmente a Cristo, “somos incitados a buscar, por novas motivações, a cidade futura e, simultaneamente, instruídos sobre o caminho seguríssimo pelo qual, entre as vicissitudes do mundo, segundo o estado e a condição de cada qual, podemos chegar à perfeita união com Cristo, ou seja, à santidade”.
Ser santo, portanto, é seguir e imitar os exemplos, palavras e obras de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ser santo é ser pobre, no sentido de desprendido dos bens do mundo, e ávido pelos bens do céu, aberto aos excluídos sob todos os aspectos, aos famintos da graça divina, aos mendigos da misericórdia de Deus. Ser santo é acolher e perdoar. Ser santo é ser pacífico, é ser generoso, é ser caridoso, é ser acolhedor, é chorar com os que choram, é dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede. Ser santo é tirar o seu agasalho e agasalhar a quem tem frio e está no relento.
Num mundo tão cruel, com tanta fome, tanta miséria, tanta guerra, tanta violência, tanto desentendimento, a exemplo dos santos e santas que a Igreja no-los apresenta, devemos anunciar o Evangelho da acolhida, do amor, do perdão e da multiplicação de dons e bens.
Irmãos caríssimos,
O convite para lançar as redes nas águas mais profundas é o comovente convite para a busca incessante da santidade. Todos, pecadores e santos, somos convidados, porque Deus conhece os nossos corações e nos chama à conversão. Somos convidados a ser santos, santos, santos e cada vez mais santos e imaculados. A vocação universal dos cristãos é a santidade: “Sede santos, como o Pai celeste é santo” (Mt 5,48).
A santidade é o doce chamado desta liturgia sagrada. Uma santidade que começa na família, na comunidade, na Paróquia, entre os amigos, no trabalho, enfim, que permeia a vida como um todo. A santidade não é inatingível, porque ela deve ser vivenciada nas coisas simples, nas coisas comuns, no cotidiano da vida cristã, procurando viver os mandamentos cristãos com grande e eloqüente simplicidade, em íntima sintonia com a Santíssima Trindade.
Ao mirarmos a imagem dos santos – ao contrário do que os injuriosos e incompreendidos dizem que adoramo-las – recordamos os exemplos edificantes de vida desses paradigmas de vida cristã, de constante sintonia com o Deus Trindade, e inspirados neles traçamos nossa caminhada rumo ao definitivo, à visão beatífica de Deus.
Ter a um santo ou a uma santa como intercessor junto de Deus é como olhar o porta-retrato do pai ou da mãe no criado-mudo da cama e passar a mão naquela fotografia que nos relembra a pessoa querida e nos interpela a ser santo ou a evangelizar como aquela pessoa, cuja ausência se torna uma presença pelo amor que lhe devotamos.
Adoramos o Deus Trindade. Veneramos nossos santos e a Virgem Maria, presença forte, determinante, inspiradora para todos os cristãos. Afinal, quem não se ufana da Mãe que tem? Sem o amor sacrossanto do papai com a mamãe, não estaríamos hoje aqui. Por isso, veneramos nossos santos, como nossos pais, como nossos motivadores para a santidade de vida.
A primeira leitura (Ap 7,2-4.9-14) realça que as primeiras perseguições tinham feito destruições cruéis nas comunidades cristãs, ainda tão jovens. Iriam estas comunidades, acabadas de fundar, desaparecer? As visões do profeta cristão trazem uma mensagem de esperança nesta provação. É uma linguagem codificada, que evoca Roma, perseguidora dos cristãos, sem a nomear diretamente, aplicando-lhe o qualificativo de Babilônia. A revelação proclamada é a da vitória do Cordeiro. Que paradoxo! O próprio Cordeiro foi imolado. Mas é o Cordeiro da Páscoa definitiva, o Ressuscitado. Ele transformou o caminho de morte em caminho de vida para todos aqueles que o seguem, em particular pelo martírio, e eles são numerosos; participam doravante ao seu triunfo, numa festa eterna. A primeira leitura retirada do Livro do Apocalipse (Ap. 7,2-4.9-14), nos apresenta a esperança concretizada. João vê a santidade que foi plantada, regada, frutificada e colhida ao longo da história da salvação. As situações concretas da vida cotidiana são, às vezes, carregadas de sofrimento. Feliz é quem permanece fiel em momentos de angústia, de perseguição e crise. Em linguagem apocalíptica, feliz é quem alveja suas vestes no sangue do Cordeiro. Essa expressão significa assumir a veste nova do batismo em situação de perseguição, sofrimento e martírio, a ponto de se identificar com o Cristo crucificado. Os santos são aqueles cuja consciência de pertença a Cristo é tão forte, que os leva a tudo realizar por amor a Deus. O que alimenta as suas ações é o amor; o mesmo amor oblativo que moveu Jesus Cristo na oferta da própria vida na Cruz. Os membros desta inumerável multidão não estão mortos, mas vivos. Não são membros de um grupo fechado e elitista. Pertencem não somente a todas as nações, tribos, povos e línguas, como ainda a todas as religiões e confissões. Cada qual escutou, na vida, o apelo das Bem-aventuranças. Cada qual, segundo a sua vida e à sua maneira, respondeu ao convite do Senhor. Podemos dizer que no Dia de Todos os Santos, a Igreja apresenta a humanidade reunida na unidade.
Caros irmãos,
A segunda leitura (1Jo. 3,1-3) desta solenidade proclama nossa atual santidade, por sermos filhos de Deus e templos do Espírito Santo, embora ainda não seja manifesto o que “seremos” após o Juízo, de acordo com a nossa caminhada de fé. Por isso, celebramos hoje, também, a Igreja Militante, que caminha neste mundo, com suas alegrias e misérias, sob a inspiração da Igreja Triunfante, com muita vontade de lançar as redes em águas mais profundas, em busca da santidade que nos envolve e nos eleva: “Duc in altum”. Por isto na segunda leitura (1Jo. 3,1-3), ao escrever para uma de suas comunidades, o mesmo São João, lembra aos seus membros e fiéis que pela filiação divina todos recebemos o mesmo chamado. O chamado de revelar ao mundo a santidade de Deus através de nossa própria santificação. Para João, se Deus, no seu imenso amor, faz de nós seus filhos, não nos pode abandonar. Por isto, em Jesus e na sua Ressurreição, contemplamos já o futuro de todos que pertencem à família divina: seremos semelhantes a Ele. O texto da segunda leitura apresenta os traços característicos dos filhos e filhas de Deus, que é o amor traduzido em ações. O amor a Deus e ao próximo deve estar no “DNA” do cristão. O ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus; em consequência, a criatura humana é chamada a cuidar da obra da criação, no sentido mais amplo da palavra, com amor. As obras do mal, como vingança, violência, mentira, corrupção, roubo, por exemplo, não podem habitar o coração dos filhos e filhas de Deus. O cristão tem uma missão no mundo, que é a vivência da caridade e dos valores evangélicos. Em Jesus Cristo, o amor de Deus se revelou em plenitude. Jesus veio para iluminar as trevas e distinguir quem caminha na luz de quem caminha na escuridão. A leitura é grande convite para perseverarmos no amor divino, que habita em nós pela água e pelo Espírito, derramados sobre nós no batismo, e no amor de Cristo, pelo qual Deus nos concede a vida eterna. Ser membro da comunidade de fé significa pertencer à grande família dos filhos e filhas de Deus, que rejeitam todas as obras do mal.
Prezados irmãos,
No Evangelho (Mt 5,1-12a) as Bem-aventuranças revelam a realidade misteriosa da vida em Deus, iniciada no Batismo. Aos olhos do mundo, o que os servidores de Deus sofrem são, efetivamente, formas de morte: ser pobre, suportar as provas (os que choram) ou as privações (ter fome e sede) de justiça, ser perseguido, ser partidário da paz, da reconciliação e da misericórdia, num mundo de violência e de lucro… tudo isso aparece como não rentável, votado ao fracasso, à morte. Mas que pensa Cristo? Ele, pelo contrário, proclama felizes todos os seus amigos que o mundo despreza e considera como mortos, consola-os, alimenta-os, chama-os filhos de Deus, introdu-los no Reino e na Terra Prometida.
Meus irmãos,
Todas as leituras desta solenidade abrem-nos o espírito e o coração para seguirmos um caminho de santidade com o olhar para a realidade além deste mundo. Para alcançar a glória da ressurreição, tudo o que se passou com Jesus também se realizou e se realiza na vida de quem abraça a fé cristã.
Como membros da grande família dos filhos e filhas de Deus, temos traços em comum, dos quais o principal é a vivência do mandamento do amor na sua concretude. A solenidade deste domingo reúne inúmeros testemunhos de santos e santas que trazem em si a imagem e semelhança de Deus; rostos de uma humanidade transfigurada. Os santos não se consideravam pessoas perfeitas e, de fato, não eram. Somente Deus é perfeito. Não obstante, esforçaram-se para se aproximar da imagem de Jesus Cristo, buscando a cada dia crescer como seres humanos, como discípulos e discípulas, tendo como meta a fidelidade ao Evangelho.
Prezados irmãos,
A Solenidade de Todos os Santos abre-nos assim o espírito e o coração às consequências da Ressurreição. O que se passou em Jesus realizou-se também nos seus bem-amados, os nossos antepassados na fé, e diz-nos igualmente respeito: sob as folhas mortas, sob a pedra do túmulo, a vida continua, misteriosa, para se revelar no Grande Dia, quando chegar o fim dos tempos. Para Jesus, foi o terceiro dia; para os seus amigos, isso será mais tarde.
A tudo isso se une a primeira leitura, com a visão antecipada do Apocalipse sobre a plenitude de todos aqueles que aderiram a Deus. Quem aderiu a Deus participará das núpcias do Cordeiro, como eleitos.
Eis, pois, como todos somos convidados a santidade. Nós, Igreja Militante, com homens e mulheres do povo sofrido, somos convidados a caminhar rumo à Igreja Triunfante, na firme certeza de que a santidade é a meta básica da vida cristã. É preciso ser santo: isso é o principal! O resto é consequência do amor gratuito de Deus pelos homens.
A santidade é a perfeição de vida que se conquista no dia-a-dia, com altos e baixos, momentos de alegria e momentos de tristeza. Nossa grande esperança, a armadura que com que nos revestimos confiante nessa batalha, é a cruz que venceu o medo, o pecado e a morte, o capacete da vitória cristã.
Em tudo isso está a frase que marcou o meu cristianismo: “Enquanto o mundo, gira a cruz permanece de pé! Cruz da vitória da morte sobre o pecado. Cruz da vitória de Deus contra a soberba. Cruz, sofrimento diário que abre as portas do Céu”.
Padre Wagner Augusto Portugal.

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