Coragem, Sou eu, não tenhas medo! Senhor, salva-me! Sejamos fortes na fé!
Ao meditarmos o Evangelho deste XIX Domingo do Tempo Comum – Mt 14,22-33 –, podemos concluir que o mesmo não é um simples relato puramente histórico ou sentimental de um prodígio realizado na Galileia. Na arquitetura teológica do Evangelho de São Mateus, este texto é uma profunda catequese eclesiológica e cristológica, estruturada com rica simbologia do Antigo Testamento e da tradição apostólica.
Para compreendermos a profundidade da mensagem que o Espírito Santo hoje nos transmite, precisamos descer aos detalhes do texto em sua linguagem original e no seu contexto teológico. Cada verbo e imagem nesta passagem traz uma densidade teológica fundamental. Detenhamo-nos, inicialmente, nas figuras do mar e da noite. No Antigo Testamento e no pensamento semítico, o mar agitado não é apenas um corpo d'água; é a representação do caos, do abismo e das forças demoníacas hostis a Deus (cf. Sl 107, 23-30; Jó 38, 8-11). A noite escura simboliza o tempo da prova, do ocultamento e da ausência física do Esposo (cf. Jo 13, 30). Outro elemento de profundo simbolismo: a quarta vigília da noite. O tempo romano dividia a noite em quatro vigílias. A quarta vigília compreende o período entre 3h e 6h da manhã, o limiar da alvorada. É a hora bíblica da intervenção divina por excelência: a mesma hora em que Yahweh dividiu o Mar Vermelho libertando o povo do Egito (cf. Ex 14, 24).
Tais elementos já seriam o bastante para uma densa reflexão, mas o Evangelho nos permite ir além. Vejamos o que está por detrás do “caminhar sobre o mar”: no Antigo Testamento, caminhar sobre as águas do abismo é uma prerrogativa exclusiva da divindade. Diz o Livro de Jó: “Só Ele estende os céus e caminha sobre as ondas do mar” (Jó 9, 8). Quando Jesus caminha sobre as águas, Mateus está fazendo uma solene declaração da sua Divindade. Não obstante, há também a revelação da fórmula Teofânica (Eu sou): quando os discípulos gritam de medo achando ver um fantasma, Jesus responde com a fórmula divina: "EU SOU; não tenhais medo!". “Eu Sou” é a tradução do nome inefável de Deus revelado a Moisés na sarça ardente (Ex 3, 14: Yahweh). Jesus não está apenas dizendo "sou eu, o Mestre", mas proclamando: "O Deus Vivo está aqui no meio de vós!"
E para completar a riqueza de detalhes: a "Barca". Desde a patrística primitiva, a barca açoitada pelas ondas é a imagem da Navis Ecclesiae — a Barca da Igreja — impulsionada pela missão no mar da história, sob ventos contrários. Esta leitura exegética nos permite ler a própria História da Igreja. A promessa de Cristo a São Pedro — "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mt 16, 18), desdobra-se plasticamente nesta cena do Mar de Galileia, conteúdo este que meditaremos posteriormente, ao avançarmos para o XXI Domingo do Tempo Comum.
Ao longo de mais de dois milênios, a Barca de Pedro tem navegado sob as mais violentas tempestades da História. A noite das perseguições do Império Romano: quando a Barca parecia prestes a submergir no sangue dos mártires, o “Eu Sou” fez brotar a vitória da fé das catacumbas até a conversão do império. A Tempestade das heresias dos primeiros séculos: quando os ventos do Arianismo, do Gnosticismo e do Nestorianismo ameaçavam despedaçar a doutrina apostólica, a voz de Cristo através dos grandes Padres da Igreja e dos Primeiros Concílios Ecumênicos acalmou as águas e preservou o Depósito da Fé (Depositum Fidei). As crises medievais e a noite da reforma e do cisma: diante da decadência moral interna e das rupturas históricas, a Barca permaneceu de pé porque a Pedro foi dada a chave da autoridade e a garantia da oração do Mestre (cf. Lc 22, 31-32). Os Totalitarismos do século XX e a ilusão do secularismo contemporâneo: do Nazismo ao Comunismo, os impérios que prometeram enterrar a Igreja ruíram; a Barca de Pedro, porém, continua a sulcar o mar do tempo.
Assim que a História prova a verdade do dogma: a Igreja é indefectível. As fraquezas da tripulação, os pecados de seus membros, o medo dos apóstolos, as hesitações de Pedro, revelam que a sustentação da Igreja não repousa em estratégias políticas ou virtudes puramente humanas, mas na presença de Cristo, que nunca abandona o leme do Seu Corpo Místico. Diante dessa inabalável verdade histórica e teológica, a liturgia do XIX Domingo do Tempo Comum nos provoca pessoalmente. Pedro, ao ouvir a voz de Jesus, diz: "Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro sobre as águas" (Mt 14, 28). Pedro arrisca a fé. Caminha sobre o impossível enquanto mantém o olhar fitado no Mestre. Contudo, ao reparar na força do vento, o medo o domina e ele começa a submergir. É nesse exato segundo de desespero que Pedro eleva a menor e mais perfeita oração de toda a Escritura: "Senhor, salva-me!", ao que Jesus estende a mão imediatamente; Ele não espera Pedro afundar completamente para depois resgatá-lo, a Graça previne e socorre o homem na sua indigência. Para nós, fiéis católicos que compomos esta embarcação sagrada, o Evangelho de hoje oferece quatro pilares concretos para vivermos uma fé autêntica em meio às tempestades dos dias atuais.
O primeiro trata de fixar o olhar na pessoa de Jesus: nossa vida espiritual rui quando gastamos mais tempo contemplando o "vento" (as crises políticas, as más notícias, a decadência moral da sociedade, os escândalos) do que contemplando o Mestre. Fixar os olhos em Cristo significa priorizar a Oração Pessoal, a Lectio Divina diária e a Adoração Eucarística.
O segundo corresponde à centralidade da vida sacramental e eclesial: a salvação de Pedro deu-se na presença dos outros discípulos e no contexto da barca. Nenhum católico se salva sozinho ou fora da comunhão eclesial (Extra Ecclesiam nulla salus, na sua dimensão teológica de comunhão com Cristo e Seu Corpo). A frequência semanal, e se possível diária, aos Sacramentos da Confissão e da Eucaristia é o oxigênio que impede o fiel de afundar no mar do pecado.
O terceiro pilar se concretiza na invocação constante do Nome do Senhor: transformemos o brado de Pedro em nossa oração contínua. Diante das tentações, das crises familiares, do desánimo ou das incertezas profissionais, repitamos no silêncio do coração: "Senhor, salva-me!" A oração do coração atrai imediatamente a mão estendida de Cristo.
Por último, o quarto pilar, acerca da promoção da unidade e da obediência ao Magistério: a autêntica vivência da fé nos exige rejeitar todo espírito de divisão, fofoca, soberba teológica ou contestação leviana contra o Papa e os Bispos em comunhão com ele. Ser o "novo Pedro" significa ser um construtor de pontes dentro da própria paróquia e comunidade, alimentando o sentire cum Ecclesia (sentir com a Igreja).
Queridos irmãos e irmãs no Senhor: não tenhais medo! Olhai para a História e olhai para o Evangelho de hoje. A noite pode ser escura, a quarta vigília pode parecer demorar e os ventos deste século podem soar aterrorizantes. Mas a Barca de Pedro não afundará. Ela traz a bordo aqu’Ele que dominou os ventos e o mar. Não vos deixeis seduzir pelas vozes que convidam a abandonar a Igreja, nem pelo desespero daqueles que julgam que o mal venceu. O vosso papel junto à Santa Mãe Igreja é fundamental: vós sois os remadores do Mestre, os testemunhos vivos de que a graça de Deus é real. Se sentirdes as vossas forças fraquejarem, lembrai-vos de que a mão de Cristo já está estendida. Dobrai os joelhos, renovai a vossa profissão de fé e proclamai com toda a Igreja reunida neste domingo: "Verdadeiramente, Tu és o Filho de Deus!" (Mt 14, 33)
Que a Santíssima Virgem Maria, Estrela do Mar, Refúgio dos navegantes, Consoladora dos aflitos, nos guarde sob o seu manto protetor e nos conduza firmes e fiéis na Barca de Pedro até o porto da eternidade. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Para sempre seja louvado!
Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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