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23º Domingo do Tempo Comum, A.

 


23º DOMINGO DO TEMPO COMUM, A

“Vós sois justo, Senhor, e justa é a vossa sentença; tratai o vosso segundo a vossa misericórdia” (cf. Sl. 118,137.124).

Refletimos na liturgia de hoje a “Igreja, comunidade de salvação”. O profeta é o homem que enxerga por cima dos telhados, que tem uma visão de conjunto da realidade eclesial, é aquele que faz uma análise das coisas certas e das coisas erradas, anunciando a vontade de Deus, o hoje da salvação. O profeta enxerga o lado interior das coisas, principalmente as coisas surpresas e as maldades dos corações. O profeta é uma sentinela, que deve dar o alerta se enxergar algo suspeito no comportamento dos fiéis e na caminhada da comunidade. É o profeta que faz com que a comunidade volte para o caminho da verdade, da salvação e da fraternidade.

A primeira leitura tirada do livro de Ezequiel (Ez 33, 7-9) nos adverte que como cristãos, todos temos responsabilidades uns para com os outros. Somos sentinelas da fidelidade para com Deus e para com o próximo.

Ao contemplar os planos de Deus e a vida do mundo, o profeta dá-se conta do desfasamento entre uma realidade e outra. Apercebe-se de que a realidade da vida dos homens é muito diferente dessa realidade que Deus projetou. Diante disto, o que é que o profeta faz? Sacode a água do capote e diz que não é nada com ele? Fecha-se no seu mundo cômodo e ignora as infidelidades dos homens aos projetos de Deus? Demite-se das suas responsabilidades e não se incomoda com as escolhas erradas que os seus irmãos fazem? Não. O profeta recebeu um mandato de Deus para alertar a comunidade para os perigos que a ameaçam. Custe o que custar, doa a quem doer, o profeta tem que dizer a todos – mesmo que os seus concidadãos não o compreendam ou recusem escutá-lo – que continuar a trilhar esses caminhos errados não pode senão conduzir à infelicidade, ao sofrimento, à morte.

O profeta/sentinela é, em última análise, um sinal vivo – mais um – do amor de Deus pelo seu Povo. É Deus que o chama, que o envia em missão, que lhe dá a coragem de testemunhar, que o apoia nos momentos de crise, de desilusão e de solidão. O profeta/sentinela é a prova de que Deus, cada dia, continua a oferecer ao seu Povo caminhos de salvação e de vida. O profeta/sentinela demonstra, sem margem para dúvidas, que Deus não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva.

Deus continua a chamar, todos os dias, profetas/sentinelas que alertem o mundo e os homens. Pelo Batismo, todos nós fomos constituídos profetas. Recebemos do nosso Deus a missão de dizer aos nossos irmãos que certos valores que o mundo cultiva e endeusa são responsáveis por muitos dos dramas que afligem os homens.

O que é que devemos denunciar? Tudo aquilo que contradiz os projetos de Deus. Portanto, o profeta/sentinela tem de ser alguém que vive em comunhão com Deus, que medita a Palavra de Deus, que dialoga com Deus e que, nessa intimidade, vai percebendo o que Deus quer para os homens e para o mundo. Aliás, é dessa relação forte com Deus que o profeta/sentinela tira também a coragem para falar, para denunciar, para agir. Portanto, dificilmente seremos fiéis à nossa missão profética sem um relacionamento forte com Deus.

É preciso também que o profeta/sentinela desenvolva uma consciência crítica sobre o mundo que o rodeia. Ele tem de estar atento aos acontecimentos da vida nacional e internacional (o profeta tem de ouvir as notícias e ler o jornal!), tem de conhecer a fundo as questões que os homens debatem (senão, a sua intervenção dificilmente será levada a sério); e tem, especialmente, de aprender a ler os acontecimentos à luz de Deus e do projeto de Deus.

Finalmente é preciso que o profeta/sentinela não se acomode no seu cantinho cômodo, demitindo-se das suas responsabilidades. Tudo o que se passa no mundo, tudo o que afeta a vida de um homem ou de uma mulher, diz respeito ao profeta.

Irmãos e Irmãs, Jesus hoje nos ensina como deve ser o comportamento cristão diante do pecador, de quem peca, de cada um dos irmãos, que pecamos quotidianamente, na caminhada para a santidade.

Jesus nos adverte que a lei fundamental do cristianismo é a lei do amor, que tudo perdoa, tudo acolhe, tudo ama. A correlação fraterna deve ser ditada pelo amor fraterno e pressupõe a correspondente humildade e compreensão da parte de quem corrige. O orgulhoso não tem autoridade para corrigir.

A ovelha desgarrada é o pecador. Jesus se comporta diante do pecador de maneira diferente da dos homens: vai à sua procura com interesse e carinho e sente alegria em encontrar o pecador. Assim não foi com Zaqueu que desceu da árvore para atender ao apelo convocatório do Mestre que dizia que iria hospedar-se na sua casa, a casa de um pecador, anunciando que naquele dia a salvação havia entrado na sua casa. Jesus nos aponta o comportamento correto dos cristãos: o perdão e acolhida devem ser as maiores novidades do Novo Testamento. Mas amar, perdoar e acolher é uma tarefa árdua, às vezes inatingível, porque o orgulho e a auto-suficiência campeiam a mentalidade dos homens e das mulheres de nossos dias.

Meus irmãos, o perdão é difícil de entender e mais difícil de viver. O Antigo Testamento não conheceu o perdão gratuito. Foi Jesus quem o trouxe, anunciou e viveu pela primeira vez na sua própria vida. O Antigo Testamento ensinou a vingança, depois a lei de talião, olho por olho, dente por dente. Entretanto, Jesus no sermão da Montanha lembrou a norma jurídica e a declarou insuficiente e superada. Jesus virou a mesa dando um passo significativo, muito adiante do seu tempo e do tempo em que vivemos: Jesus instituiu o perdão gratuito, nunca olhando o tamanho da ofensa, mas dimensionando o tamanho superior da acolhida e do perdão. Se Deus no céu nos perdoa de todas as nossas infidelidades, quem seremos nós os homens para não acolher esta diretiva de perdão, perdoar hoje, amanhã e sempre. Voltar ao irmão que foi vilipendiado e abaixar-se se humilhando no perdão misericordioso. Os cristãos têm o grave dever de ser “os mensageiros da reconciliação”, os “mensageiros do perdão”. A Igreja, ao defender aos excluídos, deve ser a mensageira no mundo da mensagem evangélica e do mandato apostólico do perdão e da reconciliação. Jesus foi o próprio modelo de quem sabe perdoar gratuitamente. Mesmo na Cruz, depois de tanto vilipêndio, injustiças e traições ele suplicou: “Pai, perdoar-lhes, eles não sabem o que fazem”. E olhando para o ladrão arrependido, São Dimas exclamou: “Hoje mesmos estarás comigo no paraíso” (Cf. Lc 23,43), perdoando-lhe os seus pecados: “Os teus pecados te são perdoados” (Cf. Lc 7,48).

Meus amigos, a repreensão tem o sentimento e o gosto do perdão. Tudo isso por que o pecado, mesmo cometido por uma só pessoa, tem sentido e significado comunitário. Por que isso? Porque se corrigirmos um irmão individualmente, depois se ele não aceita, é pedido que se chame a Igreja. Quando o Padre perdoa os pecados ele age em nome da Igreja, agindo em nome de um poder que foi a ela confiada em nome de Jesus Cristo. Dentro do cristianismo e repreensão já tem o gosto de perdão. Está, portanto, muito longe de certo sadismo que sentem alguns que vivem julgando todo mundo e se arrogam o direito de corrigir os da direita, os da esquerda e os de trás, bem como os da frente. A repreensão significa compreensão e coração dilatado para a abertura.

Nós cristãos formamos uma comunidade. “Igreja” significa comunidade de crentes. Por isso Jesus admitiu a possibilidade de duas ou mais pessoas terem de repreender, quando alguém errou e não quis ouvir em particular uma reprimenda. Jesus fala em “testemunhas” ao falar de correção. Ao falar em correção Jesus quis resguardar que a Igreja não se transformasse numa seita de pequenos, mesquinhas e puros, bem ao estilo dos judeus de então. Jesus não exclui, Jesus, ao contrário, acolhe.

Caros irmãos, a palavra “tolerância” é uma palavra profundamente cristã, que sugere o respeito pelo outro, pelas suas diferenças, até pelos seus erros e falhas. O Evangelho deste domingo (cf. Mt 18,15-20) sugere a nossa responsabilidade em ajudar cada irmão a tomar consciência dos seus erros. Convida-nos a respeitar o nosso irmão, mas a não pactuar com as atitudes erradas que ele possa assumir. Amar alguém é não ficar indiferente quando ele está a fazer mal a si próprio; por isso, amar significa, muitas vezes, corrigir, admoestar, questionar, discordar, interpelar. É preciso amar muito e respeitar muito o outro, para correr o risco de não concordar com ele, de lhe fazer observações que o vão magoar; no entanto, trata-se de uma exigência que resulta do mandamento do amor.

Amigos, amados, Jesus não falou em nenhum momento em julgar. Ele apenas conjugou o verbo perdoar. O perdão necessita de recolhimento, de intimidade com o Senhor, de enxergar o hoje de Deus. A misericórdia de Deus ultrapassa todos os limites imagináveis da justiça e se expressou no sangue do Filho bendito, derramado na cruz para o perdão de nossos pecados, assim o nosso perdão, fundamentado no amor e embebido no sangue do Senhor deve ir além da justiça humana e muito, muito além das satisfações que nosso coração possa exigir. Desenvolver o senso de justiça sem perdão não adianta. A justiça é apanágio da acolhida e do perdão.

Caros Irmãos, a segunda Leitura (cf. Rm 13,8-10) nos ensina que São Paulo, nas suas exortações resume a prática da vida cristã não ficar devendo nada aos outros senão a caridade, que é sempre insuficiente. Pois a caridade é o resumo de tudo. Vamos nesta semana refletir e colocar em prática a caridade que é o resumo da liturgia de hoje. Se nos esforçamos pela caridade salvamos automaticamente todas as outras obrigações: “O amor é pleno cumprimento da lei” (Cf. Rm 23,8-10).

São Paulo exorta os batizados de Roma a construir toda a sua vida sobre o amor. O cristianismo sem amor é uma mentira. Os cristãos não podem nunca deixar de amar os seus irmãos. Essa exigência, contudo, nunca estará completamente realizada. Qualquer dívida pode ser liquidada de uma vez; mas o amor não: em cada instante é preciso amar e amar sempre mais. O cristão nunca poderá cruzar os braços e dizer que já ama o suficiente ou que já amou tudo: ele tem uma dívida eterna de amor para com os seus irmãos. O amor está no centro de toda a nossa experiência religiosa. No mandamento do amor, resume-se toda a Lei e todos os preceitos. Os diversos mandamentos não passam, aliás, de especificações da exigência do amor. A ideia – aqui expressa – de que toda a Lei se resume no amor não é uma “invenção” de Paulo, mas é uma constante na tradição bíblica (cf. Mt 22,34-40).

Na última ceia, despedindo-se dos discípulos, Jesus resumiu desta forma a proposta que veio apresentar aos homens: “amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 15,12). Este não é “mais um mandamento”, mas é “o mandamento” de Jesus. Entretanto, algures durante a nossa caminhada pela história, esquecemos “o mandamento” de Jesus e distraímo-nos com questões secundárias. Preocupamo-nos em discutir ritos litúrgicos, problemas de organização e de autoridade, códigos de leis, questões de disciplina e esquecemos “o mandamento” do amor. Já é tempo de voltarmos ao essencial. O cristão é aquele que, como Cristo, ama sem cálculo, sem contrapartidas, sem limite, sem medida. Na nossa experiência cristã, só o amor é essencial; tudo o resto é secundário.

Prezados irmãos, o tema da fraternidade, dos vínculos, era muito caro para Jesus. De fato, desde o princípio, Jesus enviou os discípulos “dois a dois” (Mc 6,7-8). Trata-se de iniciar pela convivência, pelo relacionamento, na experiência do amor. O conteúdo, as ideias, a busca pelas razões são consequências de um estilo de vida fraternal. A correção fraterna é um dos caminhos para alcançar a desejada fraternidade. No Evangelho deste domingo, Jesus propõe uma pedagogia da reconciliação que não pode ser deixada de lado diante dos desafios do nosso tempo, a fim de que possamos viver o amor, “cumprimento perfeito da Lei”, conforme ensinou São Paulo à comunidade de Roma.

Seguir Jesus Cristo é uma questão de vínculos! Não se pode fazer sozinho! Este tempo, marcado pelo individualismo, pelo egoísmo, pelo narcisismo, vai na contramão da proposta de Jesus e entra em choque com o dinamismo comunitário. A comunidade é o lugar dos irmãos que aprendem a conviver e amar, mas também erram, fracassam e precisam ser reintegrados mediante a correção fraterna, que só o verdadeiro amor consegue alcançar. É preciso muita atenção para que a correção não se torne humilhação, julgamento, ironia. O Evangelho é direto e pontual: o outro é o “teu irmão”. Na comunidade cristã, o primado é da fraternidade!

Caros irmãos, urge reconhecermos a necessidade de viver em Igreja, a comunidade discipular de Jesus. Recordemos que somos todos pecadores, mas, ao mesmo tempo, somos convidados à vigilância, assumindo a posição de sentinelas, capazes de ajudar os irmãos e irmãs na prática da justiça e do direito, que fundamentam uma ética cristã. Deve ficar cristalino que somos capazes de reconstituir o tecido de nossa convivência fraterna, rasgado pelo pecado. O perdão e a oração são práticas fundamentais, que ultrapassam a mesquinharia do julgamento e da condenação.

As nossas comunidades cristãs, a exemplo da primitiva comunidade cristã de Jerusalém, deviam ser comunidades fraternas onde se notam as marcas do amor. Os que estão de fora deviam olhar para nós e dizer: “eles são diferentes, são uma mais valia para o mundo, porque amam mais do que os outros”.

É importante sentirmos que a nossa dívida de amor nunca está paga. Podemos, todos os dias, realizar gestos de partilha, de serviço, de acolhimento, de reconciliação, de perdão..., mas é preciso, neste campo, ir sempre mais além. Há sempre mais um irmão que é preciso amar e acolher; há sempre mais um gesto de solidariedade que é preciso fazer; há sempre mais um sorriso que podemos partilhar; há sempre mais uma palavra de esperança que podemos oferecer a alguém. Sobretudo, é preciso que sintamos que a nossa caminhada de amor nunca está concluída.

Rezemos, com fé, neste dia e que nossa semana seja iluminada por este pensamento: Deus justo e bom, se eu não interpelar o irmão ou a irmã que se perde, estou em dívida para contigo, porque me torno cúmplice do mal que não me esforço de impedir. Que o teu Espírito seja para mim fonte de discernimento e de coragem!

Padre Wagner Augusto Portugal.

 

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