A parábola do semeador generoso: oração e virtudes cardeais em três terrenos
Neste 15º Domingo do Tempo Comum (Ano A) entramos no capítulo 13 de Mateus, o grande discurso das parábolas de Jesus. O Evangelho de hoje na sua versão mais longa (Mt 13,1-23), traz a parábola do semeador e a sua explicação. “Saiu o semeador a semear” (Mt 13,3). Quem é o semeador? Quem são os terrenos? Vamos meditar sobre isso, tentando fazer uma correlação dos três tipos de terreno que não deram fruto com três das virtudes cardeais e com o ensinamento de Santa Teresa de Jesus (Teresa D’Ávila) sobre a oração, para sermos mais espertos do que o Maligno, que tenta nos roubar a boa semente do Senhor (cf. Lc 16,8).
1. A saída de Jesus e a preparação para a oração
O primeiro ponto são os verbos do início do texto: Jesus “saiu de casa e foi sentar-se à beira do mar” (Mt 13,1); depois “entrou numa barca e sentou-se, enquanto a multidão ficava de pé na praia” (Mt 13,2). Esta “saída” de Jesus lembra a saída de Deus, que envia o seu Filho: Jesus é o Enviado do Pai (cf. Jo 3,17). Ele “saiu” do seio da Trindade e veio até nós. E sentar-se é a posição do mestre que ensinava nas antigas sinagogas, onde havia a chamada cadeira de Moisés. Jesus “entra na barca”, que é um símbolo da Igreja; Ele vem ao nosso encontro e entra também na nossa casa. Ele podia ter ensinado a partir da casa de Pedro, mas quis “sair” e “sentar-se na barca” para atingir mais pessoas: às margens do mar da Galileia, o terreno desce como um anfiteatro natural, e quem está no barco fica visível e audível para todos na praia.
História
Essas atitudes de Jesus nos ensinam a necessidade de sairmos para um lugar reservado e apropriado para a nossa oração, longe do burburinho que nos atrapalha. Mesmo dentro de casa há sempre algo que pode nos afastar. Então: saia, sente-se, entre no seu interior, entre no seu coração, e ali você vai escutar o Senhor e Sua Palavra.
2. Por que Jesus falava em parábolas
As parábolas são pequenas comparações do dia a dia das pessoas com quem Jesus tratava. Em todas elas há sempre algo inusitado, que surpreende, e dali Jesus tira uma conclusão. Os Evangelhos trazem cerca de 44 parábolas: Lucas é o que tem mais, 31, Mateus tem 22 e Marcos apenas seis. A parábola do semeador está nos três sinóticos.
Aqui há algo que pode nos questionar: Porque este semeador lança suas sementes na beira do caminho, no terreno pedregoso e entre os espinhos? Parece um desperdício. Mas Deus é generoso: o Senhor sai para semear em todo tipo de terreno, porque o Evangelho deve ser anunciado a todos, e não apenas para alguns ou retido para si. Não pense: “Aquela pessoa não vale a pena, ali só tem espinhos ou é terreno pedregoso”. Jesus quer que você anuncie em todo lugar.
As parábolas têm um fundo concreto e um ensinamento que vai além das palavras, com um sentido escatológico, voltado aos últimos tempos, e para a nossa salvação. Por isso o evangelista cita o profeta Isaías (cf. Is 6,9-10; Mt 13,14-15). No fim, o Senhor mostra a surpresa da colheita: o bom terreno produz “cem, sessenta e trinta por um” (Mt 13,8). Hoje uma boa colheita de trigo pode render até 60 por um, mas no tempo de Jesus rendia de três a cinco por um. O Senhor vai sempre além.
3. A beira do caminho: as distrações e a virtude da justiça
O primeiro terreno é a semente que caiu à beira do caminho e vieram os pássaros e a comeram (cf. Mt 13,4). Jesus explica que é como o Maligno, que vem e rouba a semente lançada, antes mesmo de entrar no terreno (cf. Mt 13,19). Como ser mais espertos do que o Maligno? “Os filhos das trevas são mais espertos do que os filhos da luz” (cf. Lc 16,8); sejamos filhos da luz espertos, para não deixar que ele roube a Palavra lançada no nosso coração.
Aqui vem a lembrança de Santa Teresa de Jesus, que diz que as distrações na oração roubam a Palavra: quando estamos distraídos, ouvimos de qualquer jeito, e ela entra por um ouvido e sai pelo outro. Teresa fala de cinco faculdades interiores da alma: memória, afetividade, imaginação, inteligência e vontade. O pecado original feriu a pessoa inteira, deixando a natureza humana desordenada e inclinada ao mal, de modo que todas essas potências precisam da graça para serem curadas e reordenadas na oração (cf. CIC 405). Neste primeiro terreno pesa de modo especial a imaginação. É preciso esclarecer: Teresa não chama a imaginação de “a louca da casa”; o que ela diz é que não se deve prestar atenção à imaginação, assim como não se dá atenção a um louco. Deixemo-la falar sem ligar para ela. Ainda assim, Teresa sofreu com as distrações até nas sétimas moradas: é uma luta para a vida toda, mas isso não significa dar atenção a elas.
Cristianismo
Vale aqui o conselho do padre Saulo Dantas: se você vai rezar, não fique deitado, porque pode acabar pensando noutras coisas, ou pior, dormindo; ajoelhe-se, sente-se, pegue um livro. Teresa dizia que durante anos não conseguia rezar sem um livro que a ajudasse a se recolher, e recomendava livros enriquecedores, lidos aos poucos, um parágrafo ou dois, só para nos recolher em Deus. Aqui a virtude cardeal
relacionada a este terreno é a justiça, que é dar a cada um o que lhe é devido e o caso particular dela que é a virtude da religião. Alguns até questionam isso, pois nunca podemos dar a Deus o que, de fato, lhe é devido. Por isso devemos a Ele o nosso louvor, o nosso tempo, a melhor hora, a nossa gratidão pela vida e por todos os bens recebidos. Daí nasce, como boa obra de justiça e de religião, a partilha dos bens, por exemplo, no dízimo, entendido não como uma contabilidade estrita, mas como um devolver a Deus, com gratidão e caridade, aquilo que d’Ele recebemos, tendo sempre a caridade e o bem concreto da vida da Igreja como critério.
4. O terreno pedregoso: a memória e a virtude da fortaleza
O segundo terreno é o pedregoso, pouco espesso: a semente logo brotou, mas, sem raiz, o sol a queimou e ela não produziu (cf. Mt 13,5-6). Jesus explica que é quem recebe a Palavra com alegria, mas não tem raiz: quando vêm as tribulações e as perseguições por causa da Palavra, logo desiste (cf. Mt 13,20-21). E por que desiste? Porque não se lembra. Aqui está o dom da memória, também decaída: quando não nos lembramos dos feitos de Deus, falta gratidão e falta perseverança. O Senhor já havia dito que viriam perseguições e sofrimentos; não prometeu ausência de cruz, mas prometeu estar conosco.
Aqui a virtude cardeal que nos ajuda é a fortaleza: ter firmeza mesmo na perseguição e nas provações, a segurança que o Senhor dá, o dom da coragem que sustenta os mártires até o fim. E um fruto muito concreto da memória curada é a esperança: quando você relembra os grandes feitos do Senhor, não há como não ter esperança do que Ele há de fazer no futuro. É o que os Salmos fazem sem cessar: “precipitou no mar o cavalo e o cavaleiro” (cf. Ex 15,1), e o exemplo de Davi, que recordou o passado de proteção de Deus diante do leão e do urso e sabe o que Ele há de livrá-lo das mãos do filisteu blasfemo. E vale também o contrário: quando a esperança cresce no coração, ela vai curando a memória, e passamos a louvar a Deus até por coisas que eram feridas profundas. Quando vierem as dificuldades Teresa contrapõe com a “determinada determinação”: “Venha o que vier, aconteça o que acontecer, murmure quem murmurar não deixe a vida de oração…” Persista e não desista: mesmo sem ver frutos na oração, você não reza pelos frutos, você reza por Jesus, e os frutos chegarão, talvez não os que você quer, mas outros.
5. O terreno com espinhos: a ilusão da riqueza e a virtude da temperança
O terceiro terreno é o que caiu entre os espinhos: a semente brotou, mas os espinhos cresceram junto e a sufocaram. Jesus explica que “as preocupações do mundo e a ilusão das riquezas sufocam a Palavra, e ela fica sem fruto” (Mt 13,22). No Sermão da Montanha Jesus ensina: “não vos preocupeis… o vosso Pai celeste cuida de vós” (cf. Mt 6,25-34). Aqui pesa a afetividade, também decaída, que nos torna melindrosos e pouco afeitos às dificuldades e aos espinhos da vida.
História
A virtude cardeal é a temperança: a têmpera dos mártires, confiar na Providência e na Palavra do Senhor, com a ascese como caminho de santificação. A riqueza proporciona coisas boas, mas pode favorecer a acomodação e a ilusão de que temos
“direito” a tudo; e o mundo de hoje mostra tantas pessoas perdidas na ilusão da riqueza, gastando a vida inteira para ficarem ricas. “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). Uma coisa é ser bem-sucedido e um bom profissional na sua área, o que é bom testemunho; outra é querer ser rico pela riqueza em si, o que pode revelar um problema. Como diz São Paulo, os atletas deste mundo se esforçam por uma coroa perecível, e nós, por uma coroa imperecível (cf. 1Cor 9,25). A Palavra de Deus é quase o contrário do acúmulo: fala de dar-se, de servir os pobres, de dar sem esperar receber (cf. Lc 6,35).
Não citamos aqui a prudência, que é a mãe das virtudes cardeais e dirige todas as outras (cf. CIC 1806), mas ela faz correlação com cada uma delas.
Não comentamos o terreno bom, que produz “cem, sessenta e trinta por um” (Mt 13,8.23), justamente porque são os três terrenos que não deram fruto que pedem mais atenção, para sermos mais espertos.
Encerramos com uma palavra de Dom Adélio Tomazim, bispo de Quixadá, numa homilia na Catedral de Quixadá, em 1999, sobre este Evangelho. No meio do sertão do Ceará, seco, mas que fica todo verde quando a chuva cai, ele dizia, com o seu forte sotaque italiano de sessenta anos no Brasil: “O nosso coração é terra boa”. Se o Senhor semeia no nosso coração e deixamos o Espírito Santo regá-lo, ele dará fruto. A questão é que muitas vezes não deixamos: transformamos o coração em terreno pedregoso, deixamos os passarinhos pousarem e os espinhos sufocarem a semente. Porém, se nos deixarmos guiar pelo Espírito Santo, o nosso coração vai gerar fruto, porque o nosso coração é terra boa.
Sejamos terreno bom para a Palavra de Deus frutificar em nossa vida!
Padre Wagner Augusto Portugal.

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