“Deus habita em seu templo santo, reúne seus filhos em sua casa; é ele
que dá forças e poder a seu povo.”
(cf. Sl
67,6s.-36s.)
Irmãos e Irmãs,
Nos tempos em que a
Santa Igreja coloca os pobres no centro da atenção pastoral, resgatando a sua
dignidade, atentamo-nos tanto para essa triste realidade de alguns
desafortunados que corremos o risco de nos esquecer do exemplo de algumas
pessoas ricas, como o caso o rei Salomão. Ele não pediu a Deus riqueza, e sim
sabedoria, isto é, o dom de distinguir entre o bem e o mal (cf. 1Rs 3,5ss).
Neste sentido, Salomão prefigura o negociante da parábola da pérola, homem de
bem, mas perspicaz: arrisca tudo o que tem num investimento melhor.
A
primeira leitura – 1 Reis 3,1.7-12 – nos apresenta um sonho: os catequistas
deuteronomistas vão utilizar este recurso literário para apresentar Salomão
como “o escolhido” de Deus, a quem Deus comunica os seus projetos e a quem
confia a condução do seu Povo. O “sonho” de Salomão está estruturado na forma
de um diálogo entre Deus e Salomão. Há, em primeiro lugar, uma interpelação de
Deus (“que posso Eu dar-te?”); e há, depois, uma resposta de Salomão:
consciente da grandeza da sua tarefa e das suas próprias limitações, o jovem
rei pede a Deus que lhe dê um coração “sábio” para governar com justiça. A
prece do rei é atendida e Deus concede a Salomão uma “sabedoria” inigualável
(na continuação – que, todavia, o nosso texto de hoje já não apresenta – Deus
acrescenta ainda outros três dons: a riqueza, a glória e a longa vida – cf. 1
Re 3,13-14).
Em termos religiosos, qual a
mensagem que os autores deuteronomistas pretendem deixar com esta “ficção”?
Antes de mais, o nosso texto deixa claro que, em Israel, o rei é o “instrumento
de Deus”, o intermediário entre Deus e o seu Povo. É através da pessoa do rei
que Deus governa, que intervém na vida do seu Povo e o conduz pela história.
Depois, o texto mostra que Salomão não concebeu o seu papel como um privilégio
pessoal que podia ser usado em benefício próprio, mas sim como um ministério
que lhe foi confiado por Deus.
Salomão tinha consciência de
que a autoridade é um serviço que deve ser exercido com “sabedoria” e que o
objetivo final desse serviço é a realização do bem comum. Finalmente (e é
talvez o aspecto mais significativo para o tema da liturgia deste domingo), os
autores deuteronomistas sublinham a “qualidade” da resposta de Salomão: ele não
pede riqueza nem glória, mas pede as aptidões necessárias e a capacidade para
cumprir bem a missão que Deus lhe confiou. Salomão aparece aqui como o modelo
do homem que sabe escolher as coisas importantes e que não se deixa distrair
por valores efémeros. Dizer que a súplica de Salomão “agradou ao Senhor” (vers.
10) é propor aos israelitas que optem pelos valores eternos, duradouros e
essenciais.
Infelizmente, nestes tempos
difíceis em que vivemos, algumas pessoas e grupos com um peso significativo na
opinião pública procuram vender a ideia de que a realização plena do indivíduo
está num conjunto de valores que decidem quem pertence à elite dos vencedores,
dos que estão na moda, dos que têm êxito. Em muitos casos, esses valores
propostos são realidades efêmeras, materiais, secundárias, relativas. Quase
sempre, por detrás da proposição de certos valores, estão interesses particulares
e egoístas, a tentativa de vender determinada ideologia ou a preocupação em
tornar o mercado dependente dos produtos comerciais de determinada marca.
O “sábio”, contudo, é aquele
que está consciente destes mecanismos, que sabe ver com olhar crítico os
valores que a moda propõe, que sabe discernir o verdadeiro do falso, que
distingue o que apenas tem um brilho dourado daquilo que, na essência, é um
tesouro que importa conservar. O “sábio” é aquele que consegue perceber o que
efetivamente o realiza e lhe permite levar a cabo, dentro da comunidade, a
missão que lhe foi confiada.
A figura de Salomão interpela
também todos aqueles que detêm responsabilidades na comunidade (seja em termos
civis, seja em termos religiosos). Convida-os a uma verdadeira atitude de
serviço: o seu objetivo não deve nunca ser a realização dos próprios esquemas
pessoais, mas sim o benefício de toda a comunidade, a concretização do bem
comum.
Meus irmãos e minhas irmãs,
Estamos caminhando
no Tempo Comum, refletindo neste domingo a necessidade de procurar viver o
seguimento do Senhor (cf. Am 5,6). Nesse sentido, a Liturgia nos leva a
refletir da necessidade de nos desfazermos de tudo o que possuímos para
adentrar na realização do projeto do Reino de Deus entre nós.
O Reino de Deus
para Jesus é tão significativo na vivência do seguimento cristão que tudo
aquilo que está ao largo passa a ser considerado “resto”.
O Evangelista São
Mateus nos coloca duas parábolas no Evangelho de hoje, em que fala de dois
homens, um lavrador e um comerciante, que trabalham, procuram, encontram,
compram e vendem... todas essas atividades que as pessoas comuns praticam no
quotidiano de suas vidas. O que nos retém, entretanto, na mente em importância
sintática são as palavras tesouro e pérola. Tesouro e pérola,
numa alusão à sabedoria que é colocada pelo Antigo Testamento, para se
aproximar da figura que se tornou realidade, chamada REINO DOS CÉUS.
Irmãos e Irmãs,
Continuamos nossa
caminhada de fé estudando e degustando os significados quotidianos da palavra
de Jesus que nos chega, pelo terceiro domingo consecutivo, pelas figuras de
linguagem presentes nas parábolas descritas no capítulo 13 do Evangelista
Mateus. Parábolas que contêm símbolos e
comparações. É difícil falar das coisas de Deus em palavras, daí a necessidade
de recorrermos tantas vezes a símbolos e comparações, exatamente como fez
Jesus.
O Reino dos Céus,
da forma como nos expõe o Evangelho deste domingo(cf. Mt 13,44-52), refere-se à
presença ativa de Deus, embora sempre misteriosa, no mundo e entre as criaturas
humanas. Trata-se de um modo de viver, aqui e agora, na presença divina,
invisível, mas, de certo modo, sensível por seus sinais.
Devemos que ter
presente um comportamento consciente e conseqüente que constrói a vida segundo
o modelo da própria vida de Jesus na terra. Os dois homens, ambos da vida de
cada dia, ou seja, o agricultor e o comerciante, não fazem nada de
extraordinário, concorrendo apenas para encontrar um tesouro ou descobrir uma
pérola, porque o Reino de Deus não é um privilégio, mas uma conquista de
caridade, de misericórdia e de perdão.
Irmãos e Irmãs,
Jesus coloca que o “Reino dos Céus é um tesouro, que se busca com
justiça e santidade”, como algo que provém do Divino Salvador. O
Evangelho deste domingo ensina que o Reino de Deus vale mais do que todos os
outros bens que um homem possa ter, como terras, carros, propriedades, nomes e
sobrenomes famosos. Para se conquistar o Reino de Deus, vale a pena desfazer-se
de tudo o que se tem. Não importa se temos muito ou pouco. Importa, entretanto,
é que se troque tudo pelo Reino de Deus, deixando tudo que oprime ou escraviza
de lado.
O lavrador conseguiu grande alegria
porque consegui o Reino dos Céus.
A parábola da pedra
preciosa nos é apresentada com o mesmo significado da parábola do tesouro: a
procura da graça de Deus, do reino das bem-aventuranças. Por isso, todos nós
somos convidados, com insistente pedido, a procurar “o Reino dos Céus em
primeiro lugar” (cf. Mt 6,33). Essa busca é colocada com o mesmo
empenho em que o Filho de Deus veio “buscar o que estava perdido” (cf. Lc
19,10), pelo que todos nós somos convidados a lançar as redes mais profundas e
voltar nossas ações, pensamentos e atitudes para o Reino das Bem-aventuranças.
Busca difícil!
Mas Deus, que
agregou a si até o pecado, perdoando os pecadores, é quem nos dá força para
buscar as coisas do Alto, com amor e compreensão. Quanto mais perto da pessoa
amada se chega, tanto maior ela se torna. E quanto mais compreendemos um
assunto, mais extenso e mais profundo se nos depara. “Estou onde está o meu
pensamento – nos diz a Imitação de Cristo – e o meu pensamento, de ordinário,
está onde está o que amo” (cf. Livro III cap. 48, 5). Logo, se nos deixamos
seduzir pelo amor e a compreensão divinas, estaremos sempre unidos a Deus.
O Reino de Deus tem
valor infinito e nenhuma jóia tem algum valor perante a grandiosidade da
misericórdia do Reino das Bem-aventuranças. Mas, para alcançarmos essa
bem-aventurança, temos que abominar o pecado e acolher o pecador, ter
capacidade de desprendimento, de perdão, de solidariedade, de amizade, de
recomeçar, de caminhar juntos, de amar e de servir, dentro da dialética do
Reino de Deus. Em suma, temos que relativizar todos os bens do mundo e
valorizar os bens do Céu, cujo mandamento máximo é o seguinte: “Amar a
Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”.
Caros irmãos,
Para São Mateus,
não há qualquer dúvida: ser cristão é ter como prioridade, como objetivo mais
importante, como valor fundamental, o Reino. O cristão vive no meio do mundo e
é todos os dias desafiado pelos esquemas e valores do mundo; mas não pode
deixar que a procura dos bens seja o objetivo número um da sua vida, pois o
Reino é partilha. O cristão está permanentemente mergulhado num ambiente em que
a força e o poder aparecem como o grande ideal; mas ele não pode deixar que o
poder seja o seu objetivo fundamental, porque o Reino é serviço. O cristão é
todos os dias convencido de que o êxito profissional, a fama a qualquer preço
são condições essenciais para triunfar e para deixar a sua marca na história;
mas ele não pode deixar-se seduzir por esses esquemas, pois a realidade do
Reino vive-se na humildade e na simplicidade. O cristão faz a sua caminhada num
mundo que exalta o orgulho, a autossuficiência, a independência; mas ele já
aprendeu, com Jesus, que o Reino é perdão, tolerância, encontro, fraternidade.
A decisão pelo
Reino, uma vez tomada, não admite meias tintas, tibiezas, hesitações, jogos
duplos. Escolher o Reino não é agradar a Deus e ao diabo, pactuar com
realidades que mutuamente se excluem; mas é optar radicalmente por Deus e pelos
valores do Evangelho.
Mais uma vez o
Evangelho nos convida a admirar (e a absorver) os métodos de Deus, que não tem
pressa nenhuma em condenar e destruir, mas dá tempo ao homem – todo o tempo do
mundo – para amadurecer as suas opções e fazer as suas opções.
Irmãos e Irmãs,
Observando a
Segunda Leitura desta Celebração, encontramos um dos textos maiores da Carta
aos Romanos(cf. 2Rom 8,28-30). Mostra-nos Deus que, como um bom empreiteiro,
faz todo o necessário para o bem daqueles que O amam, levando a termo a
execução de seu “desenho”. De antemão, Ele conheceu os que queria
edificar, como um arquiteto tem sua obra na cabeça; Ele os projetou conforme o
protótipo: Jesus mesmo, seu filho querido, com quem ele gostaria que todos se
assemelhassem.
E aos que assim
planejou, também os escolheu, os justificou e, arrematando sua obra, os
glorificou. Como bom empreiteiro, Deus faz tudo o que for preciso para
arrematar a salvação naqueles que se dispõem para ela. E, mais ainda, como
conhece o coração de cada um, Ele também perscruta os que se prestam à salvação
e os que não se dispõem a participar de sua obra de misericórdia.
A teologia paulina
é clara a este respeito: o projeto salvador de Deus está aberto a todos aqueles
que querem acolhê-l’O. O que São Paulo sublinha é que se trata de um dom
gratuito de Deus e que esse dom está previsto desde toda a eternidade.
Em todas as cartas
de Paulo transparece o espanto que o apóstolo sente diante do amor de Deus pelo
homem. Este tema está, contudo, especialmente presente na Carta aos Romanos. O
nosso texto nos convida a dar conta – outra vez – desse fato extraordinário que
é o amor de Deus (amor que o homem não merece, mas que Deus, com ternura,
insiste em oferecer, de forma gratuita e incondicional), traduzido num projeto
de salvação preparado desde sempre, e que leva Deus a enviar ao mundo o seu
próprio Filho para conduzir todos os homens e mulheres a uma nova condição.
Numa época marcada
por uma certa indiferença face a Deus, este texto nos convida a tomar
consciência de que Deus nos ama, vem continuamente ao nosso encontro,
aponta-nos o caminho da vida plena e verdadeira, desafia-nos à identificação
com Jesus, convida-nos a integrar a sua família. Nós, os batizados, somos
convidados a conduzir a nossa vida à luz desta realidade; e somos convocados a
testemunhar, com palavras, com ações, com a vida, no meio dos irmãos que dia a
dia percorrem conosco o caminho da vida, o amor e o projeto de salvação que
Deus tem.
Diante da oferta de
Deus, somos livres de fazer as nossas opções – opções que Deus respeita de
forma absoluta. No entanto, a vida plena está no acolhimento desse “valor mais
alto” que é o seguimento de Jesus e a identificação com Ele.
Escolher o Reino
não é agradar a Deus e ao diabo, pactuar com realidades que mutuamente se
excluem; mas é optar radicalmente por Deus e pelos valores do Evangelho. A
minha opção pelo Reino é uma opção radical, sincera, que não pactua com
desvios, com compromissos a “meio gás”, com hipocrisias e incoerências?
Quem optar por
acentuar a linha escatológica desta Liturgia, nunca se esqueça que nenhum bem
terreno deve impedir o nosso desejo de salvação. A alegria do Reino poderá não
ser a alegria que o mundo propõe. Entrar no Reino dos Céus nos faz lembrar as
palavras de Santa Paulina: “Há anos não gozo tanta paz como agora, embora
o Senhor mande sempre alguma coisa para sofrer, como a sujeição nos ofícios
etc, mas tudo é suavizado pela caridade. Enfim, Deus seja bendito em todas as
coisas”.
Investir no Reino de Deus é amar, servir e
perdoar, do contrário nos espera o Reino das Trevas....
Caros irmãos,
Sempre temos muitas opções para escolher. A escolha de algo implica perda
de outras coisas. O desafio ordinário está em optar pelo que realmente é
importante e desapegar-se do que é desnecessário.
A orientação da primeira leitura é pedir a Deus sabedoria, que não
significa informações a respeito de algo, mas capacidade de discernimento e de
ação para a vida prática. O Evangelho instiga nossa mente para refletirmos
sobre o que buscamos e propõe um tesouro a ser descoberto na interioridade da
oração. Quando esse bem maior é encontrado, todas as outras coisas perdem
valor. Por fim, Paulo nos recorda que somos destinados para o eterno amor de
Deus, e não para a fascinação do que é provisório.
Entre as muitas possibilidades que temos, o Evangelho sempre se apresenta
como a melhor de todas. Por ele optaram inúmeras testemunhas ao longo da
história, e ainda hoje podemos reconhecer, em nosso meio, como a experiência de
fé em Cristo muda a vida das pessoas e a nossa própria.
Prezados irmãos,
Numa sociedade de
consumo, a pessoa vale pelo que tem, por seu status, conexões e
riqueza. Muitos “seguem” tais pessoas como “gurus” espirituais, em busca de
encontrar satisfação pessoal imediata, nos bens materiais e na notoriedade.
Essa busca desenfreada por notoriedade não seria ânsia vã de preencher uma
existência sem sentido? O tema central desta liturgia dominical é o
investimento da pessoa naquilo que é seu valor supremo. Acolher o Reino
significa acolher Jesus, sua vida e ensinamentos. Significa estarmos dispostos
a investir “tudo”, o que temos e somos, numa pessoa concreta, Jesus Cristo,
como o mais precioso de todos os bens. E, a exemplo de Jesus, viver uma
existência em prol dos irmãos e irmãs.
Quanto à
predestinação, não significa que Deus escolheu de antemão um grupo de “santos”,
uma categoria privilegiada de cristãos, para participar de seu projeto de
salvação. O chamado de Deus dirige-se a todos os seres humanos, pois todos são
vocacionados a responder ao desígnio amoroso de Deus. Contudo, é pela fé, pela
adesão a Jesus, o primogênito dentre os mortos, que o cristão assume
efetivamente essa vocação em sua vida.
Padre Wagner Augusto
Portugal.
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