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SOLENIDADE DA ASCENÇÃO DO SENHOR, A

“Homens da Galiléia, por que estais admirados, olhando para o céu? Este Jesus há de voltar do mesmo modo que o viste subir, aleluia!” (Cf. At 1,11).

 

Meus queridos irmãos,

 

            Quarenta dias depois da Páscoa, a Santa Mãe Igreja celebra a Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Celebramos hoje toda a realidade da glorificação de Jesus, aquilo que a cristologia das origens chamou de “estar sentado à direita do Pai”. Assim, a última aparição de Jesus aos apóstolos aponta para uma realidade que ultrapassa o quadro da narração. Jesus, depois de sua ressurreição, não veio para retomar sua atividade de antes, nem para implantar um reino político de Deus no mundo, como muitos achavam que ele deveria ter feito. Definitivamente não. Jesus realiza-se agora numa outra dimensão, a dimensão de sua glória, de seu senhorio transcendente. A atividade aqui na terra, ele a deixa para nós – que somos as suas testemunhas... até os confins da terra, e nós é que devemos reinventá-la a cada momento. Na ressurreição, Jesus volta a nós, não mais “carnal”, mas em condição gloriosa, para nos animar com seu Espírito.

 

Estimados Irmãos,

 

            A festa da Ascensão é repleta de significado para a vida cristã: Cristo reassume triunfante todo o seu poder. E, na glorificação de sua carne, glorifica-se toda a carne humana. No início da história, houve a expulsão do paraíso. As criaturas sempre sentiram saudades do paraíso perdido, da vida junto de Deus. Hoje, reentrando no Paraíso, Jesus reabre as portas para os homens e para as mulheres. O paraíso, que podíamos sonhar apenas “em saudades”, se torna lugar novamente acessível à criatura humana, porque, na pessoa de Jesus de Nazaré, a humanidade reentrou na posse dos céus. Daqui da terra, enquanto aqui peregrinamos, podemos erguer os olhos esperançosos para o Cristo nos céus, fundamentados na sua promessa de onde Ele estiver, o Cristo quer que todos estejam também, ou seja, no céu.

            A Ascensão é a festa do envio dos apóstolos. Os apóstolos devem continuar a missão de Jesus: construir o Reino de Deus. Uma missão que não é só do Cristo, mas de todos nós que devemos, com nossas alegrias e nossas esperanças, e mesmo com nossas fraquezas e nossas dificuldades, anunciar o Evangelho para todo o mundo. A missão que é de todos nós: fazer todos os seus discípulos, não só discípulos, mas discípulos-missionários no jeito novo de ser seguidor de Cristo ensinado pela V Conferência de Aparecida, batizar as pessoas e levá-los a observar os mandamentos e o Evangelho.

 

Estimados Amigos,

 

            Somos convidados a acreditar e crer que Jesus ressuscitou verdadeiramente. Mateus faz a Ascensão acontecer sobre um monte da Galiléia. Mais do que lugar geográfico, o monte aqui é símbolo. Na Galiléia Jesus começara a vida pública. Na Galiléia Jesus a termina. Falar do alto de um monte, rezar no alto de um monte tinha sempre qualquer coisa de divino. Mateus, que tantas vezes usara a figura do monte para significar a autoridade divina de Jesus, não podia escolher outro lugar mais sugestivo que um monte na Galiléia, para declarar solenemente que era Senhor dos céus e da terra, para transmitir aos apóstolos, como Senhor, a missão de continuar sua obra na terra, e “subir aos céus e assentar-se à direita do Pai”, como professamos no Credo de cada missa que rezamos!

 

Amados e amados irmãos,

 

            Jesus nos promete hoje que vai permanecer conosco até o fim dos tempos. Isso porque alguns discípulos tinham medo, duvidavam, não sabiam o que fazer nem imaginavam o que poderia acontecer. Sentiam-se seguros e felizes na presença do Cristo; mas confusos e tristes sem Ele. O outro Evangelista, aquele que Ele amava, demora-se nesse problema na última Ceia, no discurso de despedida de Jesus. Mas o próprio Cristo anuncia que “Não se perturbem, não tenham medo de nada!”(Cf. Jo 14,1). E o Cristo promete que tanto Ele, quanto o Espírito Santo, acompanhariam os apóstolos em todos os momentos e circunstâncias. E que nos acompanhariam também, todos os batizados.

            Jesus é o companheiro de caminhada. E isso está representado no Círio Pascal que, no dia de Pentecostes, deixa o lugar no presbitério e é levado ao Batistério, ao lugar onde os cristãos começam seu itinerário na comunidade cristã. O neobatizado recebe em suas mãos a luz tirada do Círio Pascal, símbolo do Cristo Ressuscitado. Esta luz como que firma um pacto: o cristão, tornado filho de Deus pela graça divina, enquanto aguarda a herança do céu, se obriga a professar a fé no mistério do Senhor e Jesus e a testemunhá-lo diante de todos através da missão e da evangelização, na busca da santidade.

 

Caros irmãos,

Na primeira leitura (cf. At 1,1-11), que chamamos de prólogo são apresentados os protagonistas do livro – o Espírito Santo e os apóstolos, ambos vinculados com Jesus. Depois da apresentação inicial, vem o tema da despedida de Jesus (vers. 3-8). O autor começa por fazer referência aos “quarenta dias” que mediaram entre a ressurreição e a ascensão, durante os quais Jesus falou aos discípulos “a respeito do Reino de Deus”. O número quarenta é, certamente, um número simbólico: é o número que define o tempo necessário para que um discípulo possa aprender e repetir as lições do mestre. Aqui define, portanto, o tempo simbólico de iniciação ao ensinamento do Ressuscitado.
As palavras de despedida de Jesus (vers. 4-8) sublinham dois aspectos: a vinda do Espírito e o testemunho que os discípulos vão ser chamados a dar “até aos confins do mundo”. Temos aqui resumida a experiência missionária da comunidade de Lucas: o Espírito irá derramar-se sobre a comunidade crente e dará a força para testemunhar Jesus em todo o mundo, desde Jerusalém a Roma. O autor quer mostrar com a sua obra que o testemunho e a pregação da Igreja estão entroncados no próprio Jesus e são impulsionados pelo Espírito. O último tema é o da ascensão (vers. 9-11). Temos, em primeiro lugar, a elevação de Jesus ao céu (vers. 9a). Não estamos a falar de uma pessoa que, literalmente, descola da terra e começa a elevar-se; estamos a falar de um sentido teológico a ascensão é uma forma de expressar, simbolicamente, que a exaltação de Jesus é total e atinge dimensões supra-terrenas; é a forma literária de descrever o culminar de uma vida vivida para Deus, que agora reentra na glória da comunhão com o Pai. Temos, depois, a nuvem (vers. 9b) que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos. Pairando a meio caminho entre o céu e a terra a nuvem é, no Antigo Testamento, um símbolo privilegiado para exprimir a presença do divino (cf. Ex 13,21.22; 14,19.24; 24,15b-18; 40,34-38). Ao mesmo tempo, simultaneamente, esconde e manifesta: sugere o mistério do Deus escondido e presente, cujo rosto o Povo não pode ver, mas cuja presença adivinha nos acidentes da caminhada. Céu e terra, presença e ausência, luz e sombra, divino e humano, são dimensões aqui sugeridas a propósito de Cristo ressuscitado, elevado à glória do Pai, mas que continua a caminhar com os discípulos.
Temos, ainda, os discípulos a olhar para o céu (vers. 10a). Significa a expectativa dessa comunidade que espera ansiosamente a segunda vinda de Cristo, a fim de levar ao seu termo o projecto de libertação do homem e do mundo. Temos, finalmente, os dois homens vestidos de branco (vers. 10b). O branco sugere o mundo de Deus – o que indica que o seu testemunho vem de Deus. Eles convidam os discípulos a continuar no mundo, animados pelo Espírito, a obra libertadora de Jesus; agora, é a comunidade dos discípulos que tem de continuar na história a obra de Jesus, embora com a esperança posta na segunda e definitiva vinda do Senhor. O sentido fundamental da ascensão não é que fiquemos a admirar a elevação de Jesus; mas é convidar-nos a seguir o “caminho” de Jesus, olhando para o futuro e entregando-nos à realização do seu projecto de salvação no meio do mundo.

A ressurreição/ascensão de Jesus garante-nos, antes de mais, que uma vida, vivida na fidelidade aos projetos do Pai, é uma vida destinada à glorificação, à comunhão definitiva com Deus. Quem percorre o mesmo “caminho” de Jesus subirá, como Ele, à vida plena.

A ascensão de Jesus recorda-nos, sobretudo, que Ele foi elevado para junto do Pai e nos encarregou de continuar a tornar realidade o seu projecto libertador no meio dos homens nossos irmãos.

 

Irmãos e Irmãs,

 

            A Ascensão é um santo mistério. Ao celebrarmos a Ascensão celebramos a glorificação do Cristo, por isso temos que tomar consciência de nossa própria vocação à glória, como exprime a Segunda Leitura de Efésios (cf. Ef 1,17-23). Assim somos chamados a contemplar a nossa vocação em Cristo ressuscitado: a esperança que o seu chamado encerra, a riqueza da glória da sua herança entre os santos e a extraordinária grandeza de seu poder para nós.

À ação de graças, São Paulo une uma fervorosa oração a Deus, para que os destinatários da Carta conheçam “a esperança a que foram chamados” (vers. 18). A prova de que o Pai tem poder para realizar essa “esperança” (isto é, conferir aos crentes a vida eterna como herança) é o que Ele fez com Jesus Cristo: ressuscitou-O e sentou-O à sua direita (vers. 20), exaltou-O e deu-Lhe a soberania sobre todos os poderes angélicos (Paulo está preocupado com a perigosa tendência de alguns cristãos em dar uma importância exagerada aos anjos, colocando-os até acima de Cristo – cf. Col 1,6). Essa soberania estende-se, inclusive, à Igreja – o “corpo” do qual Cristo é a “cabeça”.
O mais significativo deste texto é, precisamente, este último desenvolvimento. A ideia de que a comunidade cristã é um “corpo” – o “corpo de Cristo” – formado por muitos membros, já havia aparecido nas “grandes cartas”, acentuando-se, sobretudo, a relação dos vários membros do “corpo” entre si (cf. 1 Cor 6,12-20; 10,16-17; 12,12-27; Rom 12,3-8); mas, nas “cartas do cativeiro”, Paulo retoma a noção de “corpo de Cristo” para reflectir sobre a relação que existe entre a comunidade e Cristo.

Na perícope da segunda leitura há dois conceitos muito significativos para definir o quadro da relação entre Cristo e a Igreja: o de “cabeça” e o de “plenitude” (em grego, “pleroma”). Dizer que Cristo é a “cabeça” da Igreja significa, antes de mais, que os dois formam uma comunidade indissolúvel e que há entre os dois uma comunhão total de vida e de destino; significa, também, que Cristo é o centro à volta do qual o “corpo” se articula, a partir do qual e em direcção ao qual o “corpo” cresce, se orienta e constrói, a origem e o fim desse “corpo”; significa, ainda, que a Igreja/corpo está submetida à obediência a Cristo/cabeça: só de Cristo a Igreja depende e só a Ele deve obediência. Dizer que a Igreja é a “plenitude” (“pleroma”) de Cristo significa dizer que nela reside a “plenitude”, a “totalidade” de Cristo. Ela é o receptáculo, a habitação, onde Cristo Se torna presente no mundo; é através desse “corpo” onde reside que Cristo continua todos os dias a realizar o seu projecto de salvação em favor dos homens. Presente nesse “corpo”, Cristo enche o mundo e atrai a Si o universo inteiro, até que o próprio Cristo “seja tudo em todos” (vers. 23).

Na nossa peregrinação pelo mundo, convém termos sempre presente “a esperança a que fomos chamados”. A ressurreição/ascensão/glorificação de Jesus é a garantia da nossa própria ressurreição/glorificação. Formamos com Ele um “corpo” destinado à vida plena. Esta perspectiva tem de dar-nos a força de enfrentar a história e de avançar – apesar das dificuldades – nesse “caminho” do amor e da entrega total que Cristo percorreu.

 

Caros irmãos,

            No Evangelho (cf. Mt 28,16-20) Jesus foi ao encontro do Pai, depois de uma vida gasta ao serviço do “Reino”; deixou aos seus discípulos a missão de anunciar o “Reino” e de torná-lo uma proposta capaz de renovar e de transformar o mundo. Celebrar a ascensão de Jesus significa, antes de mais, tomar consciência da missão que foi confiada aos discípulos e sentir-se responsável pela presença do “Reino” na vida dos homens. A missão que Jesus confiou aos discípulos é uma missão universal: as fronteiras, as raças, a diversidade de culturas, não podem ser obstáculos para a presença da proposta libertadora de Jesus no mundo.

Com esta solenidade devemos anunciar que Jesus está no meio de nós, que nossas comunidades não se encontram órfãs nem abandonadas, pois Ele é quem preside a vida da Igreja, animando os ministros e os fiéis leigos na missão evangelizadora. Que nossas comunidades estejam firmadas na certeza de que a ascensão de Jesus não constitui uma despedida fatídica, na qual a vida dele é apartada da nossa, mas sim um ganho para a humanidade, que, em sua humildade, é acolhida na realidade celestial por Deus. Com esta solenidade nós nos preparamos para a festa solene de Pentecostes, pedindo ao Espírito os dons diversos para que a evangelização continue acontecendo.

Com esta Solenidade celebramos o 60º. Dia Mundial das Comunicações Sociais, que tem como tema: Tema: "Preservar vozes e rostos humanos", definido pelo Papa Leão XIV. A mensagem foca na dignidade humana frente à inteligência artificial, promovendo o encontro e a presença autêntica na comunicação digital. focando na ética e humanização na era da inteligência artificial. O Papa Leão XIV sublinha que voz e rosto são sagrados e únicos, constituindo o encontro humano contra a substituição por máquinas.

O Papa Leão introduz com a expressão: “O rosto e a voz são traços únicos, distintivos, de cada pessoa; manifestam a própria identidade irrepetível e são o elemento constitutivo de cada encontro”. “O rosto e a voz são sagrados. Foram-nos doados por Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança, chamando-nos à vida com a Palavra que Ele próprio nos dirigiu”. O Pontífice continua sua introdução recordando que “preservar rostos e vozes humanas significa preservar o “reflexo indelével do amor de Deus. Não somos uma espécie feita de algoritmos bioquímicos, definidos antecipadamente. Cada um de nós tem uma vocação insubstituível e inimitável que emerge da vida e que se manifesta precisamente na comunicação com os outros”.

A comunicação pública exige julgamento humano, não apenas esquemas de dados. O desafio é garantir que a humanidade continue sendo o agente orientador. O futuro da comunicação deve garantir que as máquinas sejam ferramentas a serviço e à conexão da vida humana, e não forças que corroem a voz humana.

Assim, a Mãe Igreja nos convida a refletir sobre o autêntico papel dos meios de comunicação social na sociedade hodierna, tendo em consideração o crescente risco de que estes Meios de Comunicação Social se tornem referência de si mesmos, e não mais instrumentos a serviço da verdade, que deve ser buscada e compartilhada no Redentor. Em Cristo, elevado aos céus e presente na comunidade e na Eucaristia, já vivemos, na esperança, o que nos espera para sempre na glória, Aleluia!

 

Padre Wagner Augusto Portugal.

 

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