O Papa Leão XIV que ganhou a simpatia do
mundo com a sua alegria discreta e sua firmeza teológica, na esteira de Santo
Agostinho, bispo e doutor da Igreja, nos guia no conhecimento da Inteligência
Artificial – IA –. No 135º aniversário da “Rerum novarum”, o Pontífice reflete,
em sua primeira encíclica, “Magnifica humanitas”, sobre a Doutrina Social da
Igreja na era da inteligência artificial. O apelo para preservar “uma magnífica
humanidade habitada por Deus”, promovendo a verdade, a dignidade do trabalho, a
justiça social e a paz. Na era digital, é preciso desarmar a IA e superar a
teoria da “guerra justa”, relançando o diálogo e o multilateralismo.
“A magnífica humanidade criada por Deus
encontra-se hoje diante de uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel
ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos”. O incipit da
primeira encíclica de Leão XIV – Magnifica humanitas, “sobre a
salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial” – resume suas
razões fundamentais e seu objetivo. Publicada hoje, segunda-feira, 25 de maio,
foi assinada pelo Pontífice no último dia 15 de maio, no 135º aniversário da
promulgação da Rerum novarum de Leão XIII. E de seu
predecessor, o Papa Prevost recolheu a herança, escrevendo uma encíclica social
que aborda um dos principais desafios da época contemporânea: a inteligência
artificial. Dividida em cinco capítulos, Magnifica humanitas parte
de um pressuposto: a tecnologia não é uma “força antagônica em relação à
pessoa” (4), nem “um mal em si mesma” (9). No entanto, ela “não é neutra, pois
assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam”.
Daí, o apelo do Pontífice para “construir o bem” e “permanecer humanos”,
seguindo a lógica da corresponsabilidade corajosa e da comunhão.
A Doutrina Social da Igreja. O primeiro
capítulo – Um pensamento dinâmico fiel ao Evangelho –
repercorre a Doutrina Social da Igreja (DSI) no magistério recente e no
Concílio Vaticano II, destacando “o seu caráter dinâmico” (17). Longe de ser
“um manual de princípios e normas a serem aplicados”, a DSI é antes uma
“teologia da comunhão na história” (27) que orienta a leitura dos
acontecimentos à luz do Evangelho. No segundo capítulo, Leão XIV enumera
os Fundamentos e princípios da Doutrina Social da Igreja: entre os
primeiros, inclui a dignidade da pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus;
a inviolabilidade dos direitos humanos, entre os quais o direito à vida “desde
a concepção até ao seu fim natural”; o reconhecimento dos direitos das
minorias, com especial atenção às mulheres, para que sejam verdadeiramente
ouvidas e valorizadas (57).
É inaceitável subjugar uma nação: Quanto
aos princípios da DSC, Leão XIV aponta cinco: o primeiro é o bem comum, “forma
social da dignidade reconhecida a cada um” (59). Em um ponto, o Papa é
particularmente firme: “A promoção do bem comum nunca pode ser separada do
respeito ao direito dos povos de existir, de preservar sua identidade e de
contribuir com sua originalidade para a família das nações”. Consequentemente,
“qualquer tentativa ou projeto de eliminar ou subjugar uma nação é gravemente
imoral e, portanto, inaceitável” (64).
A tecnologia não deve estar nas mãos de
poucos: O segundo princípio diz respeito à destinação universal dos bens: aí e
em outros pontos da encíclica, Leão XIV insiste na necessidade de que as
tecnologias não se concentrem nas mãos de poucos, alimentando a disparidade
entre os incluídos e os excluídos da revolução digital (67). Daí decorrem o
terceiro e o quarto princípios, a saber, a subsidiariedade (68) – que exige a
superação do paternalismo e do assistencialismo em favor da corresponsabilidade
– e a solidariedade (73), “princípio e virtude” que se opõe à indiferença.
A justiça social: O quinto princípio da
DSC é a justiça social: na era digital, ela deve garantir a todos um acesso
equitativo às oportunidades, proteger os mais vulneráveis, combater o ódio e a
desinformação e submeter o uso das tecnologias ao controle público. Leão XIV aponta
os migrantes como um “teste decisivo” nesse campo: a maneira como a sociedade
os trata demonstra “se a ideia de justiça é guiada pelo medo ou pela
fraternidade”. Daí, o apelo tanto para salvaguardar “o direito à esperança”
daqueles que são forçados a partir, garantindo-lhes vias seguras e legais,
acolhimento digno e integração; quanto para promover “o direito de permanecer”
de cada um em sua terra, em paz e segurança, enfrentando “as causas profundas”
das migrações (81). O Pontífice entende que os cinco princípios acima
mencionados se dirigem também à Igreja, chamada a “um exame de consciência”, a
ouvir as “vítimas de abusos espirituais, econômicos, institucionais, sexuais,
de poder e de consciência”, pois isso “é parte integrante de um caminho de
justiça, que compreende o reconhecimento do dano, a reparação justa e a
prevenção” (89).
Um código ético para a IA: O terceiro
capítulo – Técnica e domínio. A grandeza da pessoa humana diante das
promessas da IA – ressalta que é preciso abordar a IA com cautela,
mantendo clareza sobre as responsabilidades em todas as suas etapas (accountability)
e apostando em políticas e marcos jurídicos adequados, vigilância independente
e educação dos usuários. Acima de tudo, é necessário um código ético submetido
a critérios de justiça social compartilhada, pois “não serve uma IA mais moral
se essa moral for decidida por poucos” (107). Sem deixar de lado o impacto
ambiental das novas tecnologias, que exigem grandes quantidades de energia e
água, afetando a Criação (101).
Desarmar a IA: É preciso “desarmar a IA” –
prossegue Leão XIV – para subtraí-la à lógica da competição militar, econômica
e cognitiva; para romper a equivalência entre poder técnico e direito de
governar; para subtraí-la aos monopólios e impedir que domine o humano. Amplo
espaço é dedicado à crítica do transumanismo e do pós-humanismo,
que interpretam o progresso como a superação dos limites do humano. Em vez
disso, o limite não é um defeito a ser eliminado, mas uma dimensão constitutiva
da pessoa, pois é na fragilidade e na finitude que amadurecem a relação e a
abertura a Deus e ao outro. Fazer a tecnologia crescer eliminando os limites do
humano significa, portanto, fazer o coração regredir. Magnífica e, ainda assim,
ferida, a humanidade “não deve ser substituída nem superada”. A tecnologia pode
aliviar seus sofrimentos e abrir-lhe novas possibilidades, mas não deve negá-la
naquilo que lhe é próprio: “a capacidade de relação e de amor” (126). Diante da
IA, a verdadeira alternativa não está entre o entusiasmo e o medo, mas entre
duas formas de construir o progresso: a serviço da pessoa e dos povos ou das
lógicas do poder (129).
Uma ecologia da comunicação: No quarto
capítulo – Preservar o humano na transformação. Verdade, trabalho,
liberdade –, a encíclica defende uma “ecologia da comunicação” baseada
na verdade. O Papa pede transparência nos critérios de seleção de conteúdos,
proteção dos dados pessoais, um jornalismo sério fundamentado na argumentação e
na verificação, uma nova consciência no uso “correto e crítico” da IA e a
integração dos conhecimentos. Uma comunicação transparente e leal é exigida
também da Igreja, sobretudo nos casos de injustiças e abusos. É fundamental
também o apelo a uma aliança educativa renovada, para que nos jovens não se
apague “o desejo de fazer perguntas” por causa de máquinas perfeitas que fazem
parecer inútil o pensamento humano (140). Leão XIV pede ainda que se aposte na
escola como lugar onde se aprende a “buscar e amar a verdade” (147).
A dignidade do trabalho: Na “quarta
revolução industrial” representada pela transição digital, o Pontífice ressalta
então a importância de proteger a dignidade do trabalho, projetando sistemas
centrados na pessoa e não apenas no desempenho. A tecnologia pode certamente
aliviar o homem de tarefas pesadas ou repetitivas, mas não deve levar ao
desemprego em nome da redução de custos e do aumento do lucro. Nesse sentido,
espera-se também uma renovação das organizações sindicais.
Paz e desenvolvimento: O Pontífice
destaca, em seguida, a necessidade de superar o PIB como parâmetro do grau de
desenvolvimento de um país, apostando, em vez disso, na dignidade do trabalho,
na prosperidade compartilhada, na redução das desigualdades e na preservação do
meio ambiente. A finança pela finança é, de fato, diferente da finança para o
desenvolvimento (159-160). E, seguindo os passos de São Paulo VI, destaca-se a
interdependência entre paz e desenvolvimento, almejando uma cooperação
internacional capaz de definir estratégias comuns, sobretudo em favor dos
países e dos grupos mais vulneráveis, pois a prosperidade contribui para a paz
“somente se for difundida, inclusiva e sustentável” (163). É forte, ainda, a
referência à família, fundada na união estável entre um homem e uma mulher: ela
é “bem social primário”, “célula fundamental e insubstituível de toda
organização comunitária” (165), que deve ser apoiada também por meio de
políticas do trabalho em favor da estabilidade e de ritmos humanos, para assim
proteger a capacidade social de “construir o futuro”.
A “arquitetura da visibilidade”: Por fim,
a questão da liberdade humana: numa época em que as plataformas digitais são
projetadas para capturar o tempo dos usuários e explorar suas fragilidades, é
preciso fortalecer a liberdade interior de cada um, enfrentando também o risco
do controle social decorrente da coleta massiva de dados e do uso de sistemas
algorítmicos. Perfilar, prever e orientar comportamentos, de fato, é “um novo
poder” (171) que corre o risco de discriminar os mais fracos. O Papa deplora,
em particular, a “arquitetura da visibilidade” que amplifica apenas o que é
visível, moldando as opiniões.
Novas formas de escravidão e novo
colonialismo: A IA também gera novas formas de escravidão, como a dos “corpos
marcados, mutilados, consumidos” (173) daqueles que trabalham na extração das
“terras raras” necessárias à tecnologia. Portanto, a luta contra as novas
formas de escravidão é outro “teste decisivo para o discernimento ético” da
transformação digital. Leão XIV ressalta que “a Igreja renova sua firme
condenação contra toda forma de escravidão, tráfico e mercantilização de
pessoas”. Ao mesmo tempo, o Papa pede “sinceramente perdão” pelo atraso com que
a Igreja, no passado, condenou “o flagelo da escravidão” (174-176). A encíclica
também faz referência às “novas terras raras do poder”, ou seja, as informações
vitais – por exemplo, sobre saúde e demografia – utilizadas para orientar
estratégias econômicas: trata-se de uma face inédita do colonialismo que
transforma vidas pessoais em informações exploráveis, tornando o ambiente
digital um “espaço de predação” (178-179).
Superar a teoria da “guerra justa”: No
quinto capítulo — A cultura do poder e a civilização do amor —,
Leão XIV volta seu olhar para a guerra: “A revolução digital está modificando a
gramática dos conflitos” e, sem uma abordagem ética, as decisões sobre a vida e
a morte das pessoas serão cada vez mais impessoais, com o recurso à força
considerado uma “opção imediata e viável” (182-183). Na base de tudo está uma
“cultura do poder” que normaliza a guerra e a reabilita como “instrumento de
política internacional”, favorecendo o rearmamento. Sobre a opinião pública
pesam hoje também as narrativas midiáticas polarizadoras, bem como “uma
preocupante perda de memória histórica” que priva de uma visão de longo prazo
(191). Consequentemente, hoje a paz não é mais entendida como uma tarefa a ser
assumida, mas como um intervalo entre os conflitos. Por isso, Leão XIV reitera
que – sem prejuízo do direito à legítima defesa no sentido mais estrito – é
preciso superar a teoria da “guerra justa”, promovendo, em vez disso, o diálogo,
a diplomacia e o perdão (192).
Nenhum algoritmo torna a guerra moralmente
aceitável: O Papa Prevost não deixa de deplorar o crescimento da indústria
bélica, a corrida aos armamentos nucleares e o surgimento de novos atores
armados – entre os quais os jihadistas – que visam perpetuar os conflitos como
fonte de poder e de renda. É clara, ainda, a advertência contra o uso de armas
ligadas à IA, pois “não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente
aceitável”. São necessárias restrições éticas rigorosas, compartilhadas
internacionalmente, baseadas na responsabilidade pessoal e na proteção dos
civis, pois “toda tecnologia que facilita atacar sem ver o rosto do outro
abaixa o limiar moral do conflito” (199).
A crise do multilateralismo: A cultura do
poder decorre também da crise do multilateralismo e do surgimento de um
“multipolarismo desordenado e conflituoso” (201). A força do direito é
substituída pelo direito do mais forte; as lógicas do poder prevalecem sobre a
construção da paz e as instituições criadas para zelar pelo destino comum dos
povos estão agora enfraquecidas. A esse respeito, o Papa deseja para a ONU
“reformas profundas” que superem a atual crise de valores em favor do bem comum
(226).
A civilização do amor: O cristão é chamado
a responder à cultura do poder construindo “a civilização do amor” e escolhendo
entre alimentar a lógica da força ou zelar pela paz. O Papa aponta cinco
“caminhos de responsabilidade”: desarmar as palavras dizendo a verdade;
construir a paz na justiça; assumir o olhar das vítimas tomando posição, pois
há conflitos em que “não é justo permanecer neutro”; cultivar “um saudável
realismo” que busque caminhos de paz viáveis com os fatos, não apenas com
palavras. Por fim, relançar o diálogo, passando de uma cultura do poder para
uma cultura da negociação. É decisivo também “o diálogo entre as religiões”,
portador de uma mensagem de paz: “Quem usa o nome de Deus para legitimar o
terrorismo, a violência ou a guerra trai o seu rosto” é a advertência de Leão
XIV (223).]
A magnífica humanidade: Ao concluir a
carta, o Pontífice convida os fiéis a viver as novas tecnologias à luz do
Evangelho, seguindo “um itinerário de vida cristã sóbrio e exigente”. Para que,
mesmo na era da IA, todos possam testemunhar “a beleza de uma magnífica
humanidade habitada por Deus”.
A primeira Encíclica do Papa Leão
XIV, Magnifica humanitas, deve ser recebida como um convite a
encarar a tecnologia com confiança, discernimento e vigilância. O documento
exige limites éticos para a Inteligência Artificial, garantindo que a inovação
sirva ao desenvolvimento humano integral. Proteção da Dignidade: O
risco de novas formas de desumanização exige que o homem mantenha sua liberdade
interior, seu discernimento crítico e não seja dominado pela lógica
automatizada dos algoritmos. Continuidade Social: A encíclica foi
assinada no aniversário de 135 anos da Rerum Novarum (do Papa
Leão XIII), demonstrando o foco da Igreja em defender os vulneráveis e garantir
que a tecnologia não beneficie apenas a elite ou resulte em desemprego. Cuidado
e Consciência: Associando o texto aos ensinamentos ecológicos
anteriores, lembramos que, sem sabedoria, o poder técnico pode se transformar
em domínio violento sobre a humanidade e o meio ambiente.
Vamos colocar em prática a nova Encíclica
do amado Papa Leão XIV humanizando as redes sociais e a IA.
Padre Wagner Augusto Portugal.

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