Pular para o conteúdo principal

6o. DOMINGO DO TEMPO PASCAL, A.

 “Anunciai com gritos de alegria, proclamai até os extremos da terra: o Senhor libertou o seu ovo, aleluia!”(Cf. Is. 48,20).

Meus queridos irmãos,

            A liturgia de hoje nos apresenta um discurso de despedida de Jesus – Jo 14,15-21 –. Poderíamos dizer que Jesus pronunciou este discurso em forma de testamento. Foi pronunciado na última Ceia. O conteúdo é repleto de emoção, teologicamente mais profundo, onde se misturam certeza e esperança, amor e fé, vida terrena e vida eterna, destino humano e destino divino.

               A exegese do texto de hoje nos mostra a glorificação de Jesus e anuncia a vinda de um outro Paráclito, isto é, de alguém da parte de Deus para fazer os apóstolos compreenderem os passos e os ensinamentos do Messias, testemunhá-los diante das comunidades, distinguirem entre verdade e erro, e vencerem todas as dificuldades que são apresentadas.

               E Jesus dá um grande presente aos seus convidados e a todos nós: promete continuar presente entre os apóstolos, amá-los como o Pai o ama e, um dia, fazê-los participantes da mesma glorificação, da vida eterna.

Estimados amigos,

               E o que Jesus pede em contrapartida de tudo isso que nos oferece? Nos pede a sua fidelidade aos seus mandamentos. Fidelidade ao amor que pode ser sintetizado em uma única frase: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesmo!”.

               E quem vai caminhar conosco para velar por esta fidelidade é o Paráclito, o Santo Espírito.

               Assim, os homens e as mulheres, que são possuídos por Deus, que tem o Espírito Santo que vem ao seu socorro, devem testemunhar que o Cristo é o Filho de Deus vindo a este mundo para nos salvar, para nos justificar, para nos santificar. Jesus está vivo no meio dos seus, porque os homens são templo e morada de Deus.

Irmãos e Irmãs,

               Amar a Deus e guardar os seus mandamentos é a mesma coisa! E Jesus hoje ressalta exatamente isso: amar e ser amado. Isso porque quem ama a Deus “guarda a sua palavra” e o Pai vai amar esta pessoa. Assim a história de cada batizado é uma história de amor. Amor que vem de Deus. Por isso não se ama a Deus se não se observa os mandamentos.

               Assim por amor Cristo anuncia que Deus vai nos conceder um advogado. Mas um advogado? Para que? Para nos defender dos inimigos e do mal. O fruto desse amor de Deus aos apóstolos fiéis é o Espírito Santo, que ele Enviará, a pedido de Jesus, para ser o Paráclito dos crentes, dos discípulos fiéis.

               Paráclito significa ADVOGADO, PROTETOR, DEFENSOR. Mais do que isso o Paráclito pode ser a TESTEMUNHA, o garante, aquele que ajuda, que protege, que defende, que inspira, que testemunha a favor.

               O mundo estava prestes a julgar Jesus. Era preciso de que os apóstolos ficassem firmes na sua fé ao verem levar o Mestre do Tribunal para a Morte. O Paráclito não virá para defender Jesus, mas para fazer com que os apóstolos compreendam os passos de Jesus e não se escandalizem com a sua paixão e morte.

               É preciso que os apóstolos tenham a serena coragem de enfrentar todas as tribulações em nome e na força do Cristo.

               Jesus, também, é nosso Paráclito, porque Ele nos defende, lavando-nos com seu sangue redentor. Por isso Jesus diz que não nos deixará órfãos. Mas Jesus nos anuncia que Ele ficará conosco todos os dias até a consumação dos tempos.

O “caminho” que Jesus propõe aos seus discípulos: o “caminho” do amor, do serviço, do dom da vida; parece, à luz dos critérios com que a maior parte dos homens do nosso tempo avaliam estas coisas, um caminho de fracasso, que não conduz nem à riqueza, nem ao poder, nem ao êxito social, nem ao bem estar material – afinal, tudo o que parece dar verdadeiro sabor à vida dos homens do nosso tempo. No entanto, Jesus garantiu-nos que era no caminho do amor e da entrega que encontraríamos a vida nova e definitiva.

Caros irmãos,

Na primeira leitura (cf. At 5,8.14-17) podemos dividir a carta em duas partes: na primeira parte (vers. 5-8), temos um sumário que resume a atividade missionária de Filipe entre os samaritanos. Filipe pregava “o Messias” – isto é, apresentava aos samaritanos Jesus Cristo e a sua proposta de salvação e de libertação. Diante da interpelação que o Evangelho constituía, os samaritanos “aderiam unanimemente às palavras de Filipe”. Dessa adesão, nascia a comunidade do “Reino”, isto é, começava a aparecer uma comunidade de homens livres, iluminados pela luz libertadora de Jesus, e que possuíam a vida nova de Deus. Desta nova realidade brotava uma profunda alegria: a alegria é um dos traços característicos que, na obra de Lucas, acompanha a erupção da comunidade do “Messias”. Na segunda parte (vers. 14-17), Lucas refere a chegada à Samaria dos apóstolos Pedro e João. Quando a comunidade cristã de Jerusalém soube que a Samaria tinha já acolhido a mensagem de Jesus, despachou para lá Pedro e João em visita de inspecção. Lucas não diz qual a reação de Pedro e João ao constatarem o avanço do Evangelho; apenas refere que os samaritanos, apesar de batizados, ainda não tinham recebido o Espírito Santo. Que significa isto? Provavelmente, significa que a adesão dos samaritanos ao Evangelho era superficial (talvez mais motivada pelos gestos espectaculares que acompanhavam a pregação de Filipe, do que por uma convicção bem fundada) e que não havia ainda, entre eles, uma verdadeira consciência de pertencer a essa grande família de Jesus que é a Igreja universal. Logo que chegaram – refere Lucas – Pedro e João impuseram as mãos aos samaritanos, a fim de que também eles recebessem o Espírito. O Espírito aparece, aqui, como o selo que comprova a pertença dos samaritanos – depois de unidos à Igreja universal e em comunhão com ela – à Igreja de Jesus Cristo. A mensagem é a seguinte: para que uma comunidade se constitua como Igreja, não basta uma aceitação superficial da Palavra, nem manifestações humanas. É preciso que qualquer comunidade cristã tenha consciência de que não é uma célula autônoma, mas que é convidada a viver a sua fé integrada na Igreja universal, em comunhão com a Igreja universal. Toda a comunidade que quer fazer parte da família de Jesus deve, portanto, acolher a autoridade e buscar o reconhecimento dos pastores da Igreja universal. Só então se manifestará nela o Espírito, a vida de Deus.

Uma comunidade cristã é uma comunidade onde se manifesta a comunhão com Jesus e a comunhão com todos os outros irmãos que partilham a mesma fé. É na comunhão com os irmãos, é no amor partilhado, é na consciência de que fazemos parte de uma imensa família que caminha animada pela mesma fé, que se manifesta a vida do Espírito. Cada comunidade precisa de desenvolver a consciência de que não é um grupo autônomo e sem ligações, mas uma parcela de uma Igreja universal, chamada a viver na comunhão, na partilha, na solidariedade com todos irmãos que, em qualquer canto do mundo, partilham a mesma fé.

“Deus escreve direito por linhas tortas”: de uma situação má (perseguição aos batizados), nasce a possibilidade de levar a Boa Nova da libertação a outras comunidades. Às vezes, Deus tem que usar métodos drásticos para nos obrigar a sair do nosso cantinho cómodo e levar-nos ao compromisso. Muitas vezes, os aparentes dramas da nossa vida fazem parte dos projectos de Deus. É necessário aprender a olhar para os acontecimentos da vida com os olhos da fé e aprender a confiar nesse Deus que, do mal, tira o bem.

Estimados Irmãos,

               Jesus chama pelo Paráclito que ele anuncia          que é o Espírito da Verdade. A Verdade irrenunciável como anuncia o amado Papa Bento XVI. A Verdade que é o próprio Cristo. A Verdade se que sobrepõe ao erro e ao pecado, na luta quotidiana contra o mal e o erro. A Verdade que é esperança cristã. A Verdade que só pode ser assimilada, vivida e festejada com o auxílio do Santo Espírito.

               Assim, a Segunda Leitura (cf. 1Pd 3,15-18) nos conscientiza de que estamos em processo com o mundo. O mundo pede contas de nós, mas é a Deus que devemos prestar contas. O mundo pode matar, como matou Jesus. Mas no Espírito que fez viver o Cristo viveremos. Assim vive e reza a esperança cristã.

Qual deve ser a atitude dos batizados, confrontados com a hostilidade do mundo? Como é que os batizados devem reagir, diante das provocações e das injustiças? Os batizados devem, antes de mais, reconhecer nos seus corações a “santidade” de Cristo, que é “o Senhor” (o “Kyrios” – isto é, o próprio Deus, Senhor do mundo e da história). Desse reconhecimento da santidade e da soberania absoluta de Cristo, brota a confiança e a esperança; e, dessa forma, os batizados nada temerão e poderão enfrentar a injustiça e a perseguição (vers. 15a). Os batizados devem, também, estar sempre dispostos a apresentar as razões da sua fé e da sua esperança – isto é, a dar testemunho daquilo em que acreditam (vers. 15b). No entanto, devem fazê-lo sem agressividade, com delicadeza, com modéstia, com respeito, com boa consciência, mostrando o seu amor por todos, mesmo pelos seus perseguidores. Dessa forma, os perseguidores ficarão desarmados e sem argumentos; e todos perceberão mais facilmente de que lado está a verdade e a justiça (vers. 16). Os batizados devem, ainda, em qualquer circunstância – mesmo diante do ódio e da hostilidade dos perseguidores – preferir fazer o bem do que fazer o mal (vers. 17). A carta remata a sua exortação, apresentando aos batizados a razão fundamental pela qual os crentes devem agir desta forma tão “ilógica”: o próprio “Cristo morreu uma só vez pelos nossos pecados – o justo pelos injustos – para nos conduzir a Deus” (vers. 18a). Ora, se Cristo propiciou, mesmo aos injustos, a salvação, também os cristãos devem dar a vida e fazer o bem, mesmo quando são perseguidos e sofrem. Aliás, esse caminho de dom da vida não é um caminho de fracasso e de morte: Cristo, que morreu pelos injustos, voltou à vida pelo Espírito; por isso, os cristãos que fizerem da vida um dom – como Cristo – também ressuscitarão.

A esperança cristã que foi confirmada na primeira leitura quando o diácono Filipe batizou novos cristãos na Samaria. Depois, vieram os Apóstolos Pedro e João de Jerusalém para confirmar os batizados, impondo-lhes as mãos, para que recebessem o Espírito Santo. Assim, os apóstolos, predecessores dos Bispos, completaram e confirmaram o batismo.

Prezados irmãos,      

Somos convidados, como batizados, à missão de evangelizar: anunciar a mensagem da Boa-nova de Jesus a quem necessita, sobretudo a quem está adoecido e a todos os que estão sem esperança. Contemplemos a pneumatologia, a ação do Espírito Santo na vida da Igreja, sobretudo para o que o Espírito vem realizando em prol da comunidade e de seus fiéis. Neste domingo vamos nos unir aos que são perseguidos por causa da fidelidade ao Evangelho, percebendo que todos nós, se fiéis à mensagem de Jesus, teremos de lidar com tais perseguições, mas sempre com mansidão, sem perder a tenacidade da fé.

O próprio Jesus nunca deixará de ser nosso parakletós, como prometeu aos discípulos: “Não vos deixarei órfãos: eu virei a vós” (v. 18). Mas, além dele, ele promete “outro Defensor, para que permaneça sempre convosco” (v. 16). Refere-se ao Espírito Santo. “Com efeito, o primeiro Paráclito é o Filho encarnado, que veio para defender o homem do acusador por antonomásia, que é satanás. No momento em que Cristo, tendo cumprido a sua missão, volta ao Pai, este envia o Espírito como Defensor e Consolador, para que permaneça sempre com os fiéis, habitando dentro deles. Assim, graças à mediação do Filho e do Espírito Santo, entre Deus Pai e os discípulos instaura-se uma íntima relação de reciprocidade: ‘Eu estou em meu Pai, vós em mim e eu em vós’ (v. 20)”

“Meditando estas palavras de Jesus – diz-nos o Papa Francisco –, hoje nós compreendemos com sentido de fé que somos o povo de Deus em comunhão com o Pai e com Jesus, mediante o Espírito Santo. (…) Hoje o Senhor chama-nos a corresponder generosamente à vocação evangélica do amor, pondo Deus no centro da nossa vida e dedicando-nos ao serviço dos irmãos, de maneira especial dos mais necessitados de ajuda e de consolação”

               Vivamos, pois, com grande entusiasmo a nossa vocação de batizados e de crismados. Jesus que nos chama a santidade caminha conosco. Não nos deixa órfãos! Envia o Santo Espírito para permanecer e nos velar para que nunca traiamos a verdade que é sintetizada no amor e no perdão, na acolhida e na misericórdia. Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Deus Pensa em Você

Deus está sempre pensando em você e amando você! Às vezes, podemos cair na crença de que Deus não se importa conosco e está ausente em nossas vidas, quando, na verdade, Ele está sempre pensando em nós. Durante nossas horas mais sombrias, é comum acharmos que Deus não nos ama ou que, de alguma forma, nos abandonou em nossa miséria. É justamente nesses momentos que precisamos ser lembrados do amor constante de Deus por nós e de como Ele está sempre atento a cada um de nós. Estamos em seus braços neste exato momento. São João Eudes, sacerdote do século XVII conhecido por promover a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, refletiu sobre essa realidade em um texto incluído no livro Meditações sobre diversos assuntos. Ele se concentra, em particular, no fato de que Deus pensa em nós a cada instante de nossa vida: “Desde o momento da minha criação até agora, Ele me carregou em seus braços, em seu seio e em seu Coração, com mais cuidado e amor do que uma mãe carrega seu filho, e não...

Tio Antônio Machado Rocha

  Tio Antônio Machado Rocha. Nascido em Campo do Meio, MG, em 04 de janeiro de 1945. Falecido em Campo do Meio, MG, em 26 de janeiro de 2026.             A semana iniciou-se mais triste com o repentino falecimento nas primeiras horas de hoje, dia 26 de janeiro de 2026, em Campo do Meio, MG, do querido Tio Antônio Machado Rocha. Ele nasceu em 04 de janeiro de 1945.           Do seu matrimônio com a irmã de minha mãe, Tia Vanda Inês Viana Rocha, em 30 de julho de 1972 na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, em Campo do Meio, MG, nasceram quatro filhos: Sheila, Cleiton Alexandre, Gleib e Luiz Ricardo.           Servidor público municipal dedicado passou a sua vida centrado em três pilares: sua família, sua fé católica firme e o trabalho dedicado como calceteiro do Município de Campo do Meio.        ...

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS E DOS HOMENS

“Hoje surgiu a luz para o mundo: O Senhor nasceu para nós. Ele será chamado Admirável, Deus, Princípe da paz, Pai do mundo novo, e o seu reino não terá fim” (Is 9,2.6; Lc 1,33)   Meus queridos Irmãos,               A Solenidade de Hoje é muito antiga dentro da Tradição Litúrgica da Igreja Católica. Remonta ao Concílio Ecumênico de Éfeso, que foi realizado nesta cidade no ano de 431 da era cristã, em que a Igreja concedeu a Virgem Maria o Título de “Mãe de Deus”. Se Maria é Mãe de Deus, também por ser por obra e graça do Espírito Santo Mãe de Cristo, ela também é Mãe de todos os viventes, de todos os homens e de todas as mulheres.             Maria, pela celebração de hoje, está inscrita no livro da vida eterna. Está inserida no projeto de salvação e, também, se reafirma que Jesus Cristo é o verdadeiro Filho de Deus encarnado em Maria. Professar a Maternidade...