“Cantai ao Senhor um canto novo, porque ele fez maravilhas;
e revelou sua justiça diante das nações, aleluia!”(Cf. Sl. 97, 1s)
Meus queridos Irmãos,
Depois de termos contemplado no
domingo passado Jesus como a porta que dá acesso ao Reino dos Céus à liturgia
deste domingo nos convida a ver em Jesus como o CAMINHO, A VERDADE E A VIDA. O
acesso ao Pai passa por Jesus. Assim, o sentido destes três termos que
constituem a unidade – o Caminho da Verdade e da Vida – é apresentado através de uma pequena
encenação. Jesus (cf. Jo 14,1-12) inicia sua despedida dizendo que é uma viagem
necessária, para lhes preparar um lugar, e que eles conhecem o caminho. Tomé
responde que não. Jesus explica que ele mesmo é o caminho da Verdade e da Vida,
o caminho pelo qual se chega ao Pai. Toda pessoa piedosa sonha ou deseja, ou
melhor, quer ver e conhecer a Deus. Mas, nos anuncia João no prólogo de seu
Evangelho, que ninguém jamais o viu... (cf. Jo 1,18). Agora, Jesus explica a
Filipe, que lhe pede para mostrar-lhe o Pai, e a resposta de Jesus é a
seguinte: “Quem me vê, vê o Pai!”(cf. Jo
14,9). Em outras palavras: em Jesus, o Cristo contemplamos Deus. Nosso
perguntar encontra Nele resposta, nosso espírito, verdade; nossa angústia, a
fonte da vida. Neste sentido, ele mesmo é o caminho que nos conduz ao Pai e, ao
mesmo tempo, a Verdade e a Vida que se tornam acessíveis para nós.
Estimados Irmãos,
Jesus hoje nos ensina que
Ele e o Pai são um só. Jesus nos ensina que Ele voltará para junto do Pai; que
as criaturas humanas têm um destino eterno; Jesus nos ensina que Ele é o único
caminho de acesso a Deus, e que os apóstolos, em conhecendo esse caminho,
deviam encher-se de fé e de confiança na sua misericórdia.
O homem e a mulher vivem,
nestes tempos de sociedade líquida, sempre apreensivo. A apreensão faz parte da
natureza humana e não poderia ser diferente com os apóstolos. Todos nós
queremos ver ao Pai, sentindo um desejo, menor ou mais intenso, de ver o rosto
de Deus. E na procura de Deus, precisamos de pontos de referência para não nos
perder. Jesus se coloca como ponto de referência, seja para vencer a angústia
pelo que pode acontecer, seja para encontrar a Casa do Pai e fazer comunhão com
Ele.
Amados e amadas,
O
Evangelho de hoje (cf. Jo 14,1-12) é o Testamento de Jesus. Por isso os
ensinamentos são repletos de emoção, conselho e de encantamento espiritual.
E o
testamento de Jesus nos deixa verdades acerca de nossa fé: Jesus é igual ao
Pai; toda a obra de Jesus é divina e salvadora; a criatura humana tem um
destino e um horizonte eterno; esse horizonte e destino é garantido por Jesus
aos que tiverem fé nele; Jesus é o caminho que une a terra ao Céu e por esse
caminho a criatura humana pode chegar a Deus; por Jesus conhecemos toda a
verdade em torno de Deus; a vida não se esgota aqui na terra e Jesus reparte
com o homem o poder de salvar.
Estas são
as verdades fundamentais do cristianismo, por isso não podemos deixar o nosso
coração se perturbar por coisas pequenas diante da normalidade da vida.
Jesus
confia no homem e na mulher e o cobre com seu manto protetor! Por isso o próprio Cristo anunciou aos seus: “Eu estarei convosco todos os dias até a
consumação dos tempos” (cf. Mt 28,20). Jesus não só assumiu a condição
humana nos anos de sua vida terrena, mas para todo o sempre. Jesus é o nosso companheiro de caminhada, de
trajetória e por isso nos encoraja.
Irmãos e Irmãs,
Jesus no
Evangelho de hoje anima e consola os seus discípulos. Por isso nada deve
perturbar o coração do discípulo fiel. Isso porque na hora de nossa morte,
Jesus virá ao nosso encontro pessoalmente. Vê-lo-emos face a face. Será pela
mão de Jesus que entraremos no céu. Ele virá para nos julgar com misericórdia e
justiça, conforme professamos em nosso Credo.
A
misericórdia de Cristo é a misericórdia que vem ao nosso socorro e que em cada
sacrifício Eucarístico repetidos com fé: “ajudados
pela Vossa Misericórdia, sejamos protegidos de todos os perigos, enquanto
aguardamos a vinda do Cristo Salvador”, depois da recitação da Oração que o
Senhor nos ensinou.
Foi a aventura dos onze apóstolos
reunidos numa sala, em Jerusalém. Estavam cheios de medo, mas lançaram-se,
algum tempo mais tarde, pelas ruas da Palestina e para além disso. Sentiram-se
possuídos pelo Espírito recebido no Pentecostes. É a aventura das crianças que,
nestes dias, vão começar a comungar: são convidadas ao Banquete do Senhor, vão
responder a este convite. É a aventura dos jovens que, por ocasião da sua
profissão de fé, decidiram dar um passo para Deus, ousando dizer: “Creio!”. É a
aventura dos jovens que, em certo período do ano, vão ser confirmados, um passo
que lhes faz pedir a ajuda do Espírito. Somos todos convidados a dar um passo,
para o Senhor e para os nossos irmãos. Sim, sejamos cristãos a caminho.
Prezados irmãos,
Na primeira
leitura (cf. At 6,1-7) o Evangelista São Lucas está interessado fornecer-nos um quadro
teológico que nos permita conhecer o rosto da Igreja e entender a forma como
ela se apresenta ao mundo. Nesta perspectiva, há quatro ideias fundamentais
para a reflexão: A primeira resulta
do relato bíblico: a Igreja aparece, nesta história, não como um quadro ideal
de perfeição, mas como uma comunidade bem real e bem normal, formada por homens
e mulheres, onde as tensões, os preconceitos, as rivalidades, as invejas e os
ciúmes marcam a experiência diária de caminhada. Isto não deve assustar-nos ou
decepcionar-nos: resulta das limitações e finitude que também fazem parte da
nossa existência histórica. A Igreja não é uma comunidade de homens e mulheres
perfeitos; mas é uma comunidade que está – ou tem de estar – em contínuo
processo de conversão, ao longo de cada passo da sua caminhada na história. A segunda diz respeito à estrutura
hierárquica e ao modo de exercer (na Igreja) o serviço da autoridade. Não há
dúvida que Lucas conhecia, já, uma estrutura hierárquica em que os Doze
desempenhavam o serviço da orientação e da direção da comunidade. Por isso,
eles aparecem na nossa história como as referências fundamentais, a quem os
membros da comunidade recorrem, a fim de resolver a questão das diferenças
entre os vários grupos. Os Doze Apóstolos não estão interessados em esquemas de
poder absoluto; antes, procuram envolver a comunidade no processo, fazendo com
que todos participem na procura de soluções para os problemas comuns. A terceira revela a Igreja como uma
comunidade de serviço. Fala-se na escolha de sete homens “cheios do Espírito
Santo”, cuja missão é o serviço das mesas. Na verdade, estes “sete” aparecem,
noutros episódios, mais ligados ao serviço da Palavra do que ao serviço das
mesas De qualquer forma a comunidade cristã é uma realidade que tem no centro
da sua dinâmica o serviço – seja o serviço da Palavra, seja o serviço de
assistência aos irmãos mais pobres. É impensável uma comunidade cristã onde não
esteja bem viva esta dimensão diaconal. A
quarta tem a ver com o papel relevante que o Espírito Santo desempenha nas
“crises” de crescimento que fazem parte da caminhada comunitária. O Espírito Santo
aparece ligado, seja à vocação (dos que são chamados a exercer a diaconia – cf.
At 6,3), seja à missão (o gesto de impor as mãos pode significar, quer a
escolha para um serviço comunitário, quer a invocação do Espírito para que eles
possam concretizar a missão que lhes foi confiada). A Igreja é a comunidade do
Espírito, criada, animada e dinamizada pelo Espírito. A perícope da primeira
leitura termina com um pequeno sumário (cf. At 6,7) cujo objetivo é assinalar o
avanço irresistível da Boa Nova, por acção dos discípulos de Jesus, animados
pelo Espírito.
A Igreja aparece como uma comunidade
de serviço em que os membros da comunidade são convidados a seguir Jesus, que
fez da sua vida uma entrega total ao serviço de Deus, ao serviço do Reino e ao
serviço dos homens. Quando Deus concede determinados dons e confia determinadas
missões, não se trata de privilégios que conferem à pessoa mais dignidade ou
mais importância: trata-se de dons que devem ser postos ao serviço da
comunidade, em ordem à construção da comunidade. As missões que nos são
confiadas no âmbito comunitário não podem ser utilizados para promoção pessoal
ou para concretizar sonhos egoístas; mas devem ser missões que desempenhamos
com verdadeiro espírito de serviço, em benefício dos irmãos.
Caríssimos amigos,
Jesus
ao se proclamar como o Caminho único de se chegar ao Pai lembra que é possível
chegar ao Pai somente por meio dele. Assim a segunda leitura (cf. 1Pd 3,15-18),
continuação da Carta de Pedro canta a dignidade do povo constituído em Cristo,
construído com pedras vivas sobre a pedra rejeitada pelos construtores, que se
tornou à pedra angular.
A imagem fundamental da segunda
leitura é a da “pedra” (vers. 4.5.6.7.8), que é usada, sobretudo, referida a
Cristo. A imagem leva-nos a Is 28,16, onde se refere ao novo Templo que o
próprio Jahwéh, no futuro, vai construir e que será um sinal da intervenção de
Deus em favor do seu Povo. Isaías anuncia que Deus vai colocar em Sião uma
pedra, provada, angular, de alicerce, que terá uma inscrição: “quem nela se
apoia, não vacila”. Cristo é essa pedra escolhida, preciosa, viva (alusão à
ressurreição, significa, também, que é dela que brota vida para o Povo de
Deus), sobre a qual Deus fundamenta a sua intervenção salvadora em favor dos
homens. Os batizados são convidados a aproximar-se de Cristo (isto é, a aderir
à sua proposta, a segui-l’O no caminho do dom da vida, a cimentarem a sua
comunhão com Ele) e a entrar na construção do edifício de Cristo – um edifício
espiritual, cujo fim é “oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus”
(vers. 5). No antigo Templo de Jerusalém – construído com pedras materiais –
ofereciam-se sacrifícios de animais para expressar a comunhão do Povo com
Jahwéh; mas, no novo Templo (que tem Cristo como pedra angular e os cristãos
como pedras vivas, ligadas a Cristo), oferecer-se-ão sacrifícios espirituais:
uma vida santa, vivida na entrega a Deus e no dom aos irmãos. Os membros desta
“construção” serão um povo de sacerdotes, que diariamente oferecerão a Deus
aquilo que têm de mais precioso: a sua vida e o seu amor. Esta “construção”
será rejeitada pelos homens (alude-se, aqui, à paixão e morte de Jesus;
alude-se, também, às dificuldades que os crentes em geral e os destinatários da
carta em particular encontram na vivência e no testemunho da sua fé); mas, para
Deus, esta comunidade/Templo será uma “geração eleita, sacerdócio real, nação
santa, povo adquirido por Deus para anunciar os louvores” (vers. 9). A citação
leva-nos a Ex 19,5-6, onde se refere à comunidade da “aliança”: o seu uso neste
contexto significa que, agora, apesar da rejeição do mundo, os cristãos são a
comunidade da “nova aliança”, o povo que Deus libertou, que Deus conduziu da
escravidão para a liberdade e a quem Deus encarregou de testemunhar diante do
mundo o seu projeto de salvação.
Prezados irmãos,
Neste 5º domingo da Páscoa, as
leituras nos situam diante da identidade da Igreja (primeira e segunda
leituras) e de Jesus (Evangelho) para pensarmos nosso modo de ser e agir no
mundo atual.
Os discípulos,
perturbados com a proximidade da morte de Jesus, são consolados pela promessa
de uma morada na casa do Pai. Para tanto, devem seguir o caminho, a verdade e a
vida reveladora do Pai em sua existência humana. O que aprenderam de Jesus deve
se tornar prática cotidiana.
Assim, a
comunidade de fé constitui um grupo formado de seguidores que veem a Deus na
humanidade de Jesus e buscam viver à sua maneira no mundo contemporâneo.
Devemos perceber que Jesus revela a imagem de Deus, que
visita a história humana e se preocupa com ela. A comunidade deve perceber o
rosto de Jesus nas pessoas, fazendo da celebração eucarística também um
encontro de fraternidade.
Os cristãos são “pedras vivas” de um
“templo espiritual” do qual Cristo é a “pedra angular”. A imagem traduz a
realidade de uma comunidade que se junta à volta de Cristo, que vive em união
com Ele, que comunga do seu destino, que assume totalmente o seu projecto. A
esta comunidade chama-se Igreja. As “pedras vivas” do Templo do Senhor formam um Povo de
sacerdotes, cuja missão é viver uma vida coerente com os compromissos assumidos
no dia do Baptismo – isto é, viver (como Cristo) na entrega a Deus e no amor aos
irmãos.
O próprio Cristo foi rejeitado pelos
homens; mas a sua fidelidade aos projetos do Pai fizeram d’Ele a “pedra
angular” da construção de Deus. É esse exemplo que devemos ter diante dos
olhos, quando doer mais a incompreensão do mundo.Nem mesmo os conflitos da comunidade iniciante
dos Atos pode nos abalar. Devemos dar louvor ao Deus bom e fiel, ou seja, a
providência de Deus para todos os seus. Ele vem em nosso auxílio e em nosso
refúgio. Com Jesus estamos no Pai, somos conduzidos ao Pai, participando de sua
vida e do seu amor. Que Deus nos ajude e nos conduza todos ao único caminho,
sempre lembrando do chamado da Igreja que peregrina no Brasil – pelos nossos
Pastores – onde somos convidados a Ver Jesus, único Caminho, Verdade e Vida.
Amém!
Padre Wagner Augusto Portugal.
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