Meus queridos irmãos,
A
Comemoração da Ressurreição do Cristo Senhor ocorre, desde a mais remota
memória da Tradição da Igreja, na noite de sábado para domingo, pois na manhã
de domingo, o dia do Senhor e primeiro daí da semana, o Senhor já não está no
sepulcro. Além disso a Tradição cristã associou a noite da Ressurreição à noite
da Páscoa descrita em Ex 12,42: “uma noite de vigília em honra do Senhor”.
É à noite da libertação. E mais ainda: esta noite ganha o sentido de uma
recapitulação do universo, o começo da criação nova e escatológica, pois o
Senhor Ressuscitado é a primícia da nova criação. A Ressurreição de Jesus é o
penhor da renovação do universo.
Estimados Irmãos,
Nas
sedes diocesanas, na Sé Catedral Diocesana, a Vigília é celebrada como a “Mãe de todas as vigílias”. Em todas as
Matrizes, Igrejas, Comunidades, Capelas e Oratórios, também, esta noite santa
se misturam a espera com a realidade, a esperança com a certeza. Estamos
vivendo a noite de Páscoa, noite que “resplandece
como pleno dia”. Nesta noite ressoa por todos os cantos da terra o anúncio
pascal: Cristo Ressuscitou! Cristo está vivo! Cristo está vitorioso em nosso
meio! A Ressurreição de Jesus é a maior e decisiva verdade da nossa fé em Jesus
Cristo, criada e vivida como verdade central pela primeira comunidade cristã,
transmitida e pregada a todos como parte essencial do Mistério Pascal e do
Mistério da Cruz. Estamos recordando estes dois santos mistérios, o da morte e
o da ressurreição do Senhor, para nos integrarmos neles.
Irmãos e Irmãs,
A
vida nova que estamos comemorando nesta noite podem ser expressas pelo Fogo e
pela Luz: símbolos de Jesus ressuscitados. A Vigília se inicia no escuro da
noite e com a benção do fogo novo, símbolo do Cristo vivo, por sua força
destruidora e transformadora vamos celebrar a vida plena. Fogo que destrói a escuridão do pecado e da
morte. Jesus já não está no meio dos mortos. Irrompeu a morte e vive
plenamente!
Noite
bendita de transformação. Noite em que o Cristo vencendo o mal e a morte,
trouxe a libertação para todo o gênero humano e abriu o caminho, através do
deserto da vida, à Terra Prometida. Quando Deus quis ditar a Moisés os Dez
Mandamentos, no Sinai, desceram do céu “em
meio ao fogo”, e todo o monte santo “chamegava
como se fora uma fornalha” (cf. Ex 19,18). Com sua ressurreição, Cristo se
torna em definitivo, em sua pessoa e em suas palavras, o novo mandamento de
Deus para o povo.
Deus,
nas palavras de Moisés, é o “fogo
abrasador” (cf. Dt 4,24). Abrasador, porque destruiria os falsos deuses e o
crime da traição da fé. Abrasador, porque purificaria o povo da ganga dos
pecados, para fazer dele ouro precioso e puro, capaz de dar ao único Deus,
honra, glória e louvor e adoração. E o
novo fogo abrasador é Jesus de Nazaré, morto pelos nossos pecados e
infidelidades, que Deus ressuscitou dos mortos para abrasar as criaturas e
fazer de cada um de nós tochas de fé para iluminar a noite do mundo.
Da
chama do fogo novo, acendemos o Círio Pascal, outro símbolo do Cristo
ressuscitado. A luz esteve presente na história da salvação desde o início. Mas
hoje a Luz Pascal é o Cristo ressuscitado, o Filho de Deus, “luz verdadeira que ilumina toda criatura”,
no dizer de São João 9,5: “Eu sou a Luz
do mundo”. Luz santíssima que ilumina a humanidade redimida pelo seu
sangue. Luz que é a presença viva de Cristo a iluminar a nossa comunidade fiel.
Luz que é o Cristo ressuscitado e vitorioso em nosso meio. Luz que é o Cristo
que permanece conosco para sempre iluminando o gênero humano, conforme o
cântico do Exsultet: “Ó noite de alegria
verdadeira, que une de novo ao céu a terra inteira, pondo na treva humana a luz
de Deus”.
Estimados amigos,
Refletimos
nesta Vigília Pascal os grandes passos da história da salvação: a criação do
homem à imagem e semelhança de Deus; a criação do povo eleito através da
promessa feita a Abraão, promessa inteiramente realizada na pessoa de Jesus de
Nazaré, descendente de Abraão e oferecido em holocausto pela humanidade
pecadora; a recriação do mundo e da humanidade na morte e ressurreição do
Senhor, como escutamos na Carta aos Romanos. Nós somos este novo mundo, este
povo eleito, este povo da nova e eterna aliança, a aliança de salvação. Nós
somos a nova família de Deus, a criatura nova que caminha numa vida nova. Por
esta ressurreição santa nos tornamos consangüíneos de Cristo.
O
velho homem, crucificado com Cristo, sepultado com Cristo, hoje ressuscita com
o Salvador e Redentor. A Igreja nasceu desse mistério pascal, doce mistério do
Cristo Ressuscitado, o Redentor, em cujas mãos santíssimas Deus colocou o homem
e a mulher, elevando-os a condição digna de filhos e filhas de Deus. Da Morte
nasceu a Vida, e vida plena.
Celebramos
a Ressurreição de Jesus. E com esta Ressurreição celebramos a ressurreição de
todos nós, porque tudo o que se realizou no Cristo deve ser participado por
nós. O destino de Cristo pode tornar-se o nosso destino: a sua paixão; a sua
ressurreição, a nossa ressurreição. Se somos um corpo só com o Cristo
ressuscitado, devemos viver como Cristo e frutificar como Ele. Fomos redimidos,
mas nossa redenção frutifica à medida que nossos atos e nosso comportamento se
medirem pelos atos e pelo comportamento de Jesus.
Irmãos e Irmãs,
Somos
convidados nesta noite santa a renovar o nosso batismo, a nossa adesão ao
Cristo Ressuscitado! A água é o terceiro grande símbolo da pascal. Nesta noite
santa celebramos a recriação do mundo, o começo do Novo Testamento. É nesta
noite que ressoam as palavras de Jesus no templo de Jerusalém: “Se alguém tiver sede, venha a mim e beba!
Quem crer em mim, do seu interior correrão rios de água viva!” (cf. Jo.
7,38). Jesus se referia ao Espírito de Deus que receberiam aqueles que
acreditassem nele. “Receberiam”, com
sentido futuro, acrescenta João, porque “ainda
não fora dado o Espírito, pois Jesus não tinha ainda sido glorificado” (cf. Jo 7,39). Esta é a noite da
glorificação de Jesus. Esta é a noite do Espírito Santo de Deus, que renova a
face da terra. Por isto ao consagrar a água batismal, o celebrante mergulha na
água três vezes o Círio Pascal, símbolo do Cristo ressuscitado, com a súplica: “Pai, pela obra de teu Filho, desça nesta
água a força do Espírito Santo, para que todos os que nela forem batizados,
sepultados com Cristo na morte, com Ele renasçam para a vida imortal”.
Caros irmãos,
As leituras da
liturgia desta noite, retiradas do Antigo Testamento: Gn 1,1-2,2; Gn
22,1-2.9a.10-13.15-18; Êx 14,15-15,1; refletem as ações de libertação e
salvação de Deus ao longo da tradição judaico-cristã. Partem da criação, em que
se reconhece a Deus como fonte de toda vida, que manifestam a generosidade
divina. O homem e a mulher são criaturas entre as demais. Há íntima relação
entre o ser humano e a natureza… O sétimo dia, ponto alto do relato da criação,
invoca a importância da gratuidade e da contemplação, para além da exploração
utilitarista, a fim de promover a “fraternidade e a vida no planeta” (I
leitura: Gn 1,1-2,2).
O sacrifício
de Isaac prefigura o de Jesus. Abraão é caracterizado como aquele que deseja
seguir a Deus, o único absoluto. Aprende que Deus é o defensor da vida,
diferentemente de outras práticas existentes na época. A obediência a Deus está
relacionada com a ruptura com toda espécie de opressão e morte (II leitura: Gn
22,1-18). É o que se constata também no acontecimento do êxodo: Deus suscita o
movimento e a organização das pessoas oprimidas em vista de uma sociedade nova.
A passagem do povo de Israel pelo mar Vermelho nos oferece a convicção de que a
presença divina na história humana garante as condições de superação de todas
as dificuldades que impedem uma vida baseada na liberdade, na justiça e na
fraternidade (III leitura: Ex 14,15-15,1).
As próximas
quatro leituras refletem a teologia que emerge da situação dos israelitas
exilados na Babilônia. Por meio do profeta Isaías, Deus dirige-se ao povo
sofredor, oferecendo-lhe amor de esposo, incapaz de abandonar a sua esposa,
pois é sempre fiel à aliança. Ele é o Redentor, o Protetor e o Doador da paz
(IV leitura: Is 54,5-14). Deus se revela a fonte de todos os bens e sacia todo
o povo de modo gratuito e generoso. Deixa-se encontrar por todos os que o
buscam e atende a todos os que o invocam. O povo no exílio pode contar com ele,
pois ele está bem perto. Seus projetos, muito acima dos nossos, realizar-se-ão
em favor da vida do ser humano, conforme anunciado pela sua palavra (V leitura:
Is 55,1-11).
Por meio da
profecia de Baruc, Deus apresenta-se como fonte de sabedoria. Ele oferece ao
povo os “preceitos de vida” para que este possa reconquistar a terra e
habitá-la em paz com longevidade. A prudência, a força e a inteligência
verdadeiras baseiam-se na sabedoria divina que tudo criou, tudo conhece e tudo
governa. É necessário voltar o coração para os desígnios de Deus (VI leitura:
Br 3,9-15.32-4,4). Não é Deus o responsável pela situação crítica em que vive o
povo; são as más ações deste, baseadas na violência e na idolatria, que atraem
as desgraças. O profeta Ezequiel anima a esperança do povo exilado, dizendo-lhe
que, apesar de seu mau comportamento, Deus é fiel e cheio de amor; por isso
mesmo, intervém para salvá-lo, perdoa-lhe as faltas e lhe dá um coração novo;
fará que ande em seus caminhos e oferece-lhe uma nova aliança: “Sereis o meu
povo e eu serei o vosso Deus” (VII leitura: Ez 36,16-17a.18-28).
Prezados
irmãos,
As leituras do
Primeiro Testamento desta Vigília Pascal são uma espécie de caminho revelador
da história da salvação de Deus à humanidade. O ponto alto é a ressurreição de
Jesus. O crucificado pela maldade humana é o ressuscitado pela bondade divina,
manifestada desde a criação do mundo.
Algum tempo
depois desses fatos, Paulo de Tarso também foi contemplado com a experiência de
Jesus ressuscitado, que transformou radicalmente a sua vida. Escrevendo aos
romanos (cf. Rm 6,3-11), duas décadas depois de sua conversão, expressa o
significado da morte e ressurreição de Jesus para os cristãos. Para ele, o
batismo é o mergulho na morte de Jesus como passagem para uma vida nova. A fé
em Jesus Cristo, morto e ressuscitado, desdobra-se em prática cotidiana:
crucificar a “velha criatura”, escrava do pecado, para ressuscitar como
“criatura nova”, liberta de todo egoísmo e imersa na vida divina. Enfim, a vida
da pessoa batizada está íntima e decisivamente relacionada com o próprio ser de
Jesus Cristo. Em outras palavras, o que caracteriza o cristão é a permanente
“vigília pascal”, no sentido de prosseguir a mesma causa de Jesus, cultivando o
mesmo jeito de viver, morrer e ressuscitar.
Caros irmãos,
O
Evangelho desta Vigília é de Mt 28,1-10. Jesus ressuscitou e vai à vossa frente
para a Galileia. Os três relatos têm um fundo em comum: primeiro dia da semana,
as mulheres como protagonistas, a pedra removida, o anúncio da ressurreição com
a recordação do que Jesus havia dito. Porém, Marcos e Mateus têm em comum a
ordem de anunciar o fato aos discípulos e convidá-los a dirigir-se à Galileia.
Esta e a base de interpretação de todos os evangelistas.
Não
houve testemunhas para ver Jesus sair do sepulcro. Mesmo os soldados ao
sepulcro não são testemunhas do fato físico, mas antes da má vontade do mundo,
que pretende encobrir a glória do Cristo. O importante, na narração da manhã
pascal, são as palavras do anjo e de Cristo mesmo: o que morrera, vive, e reúne
os seus irmãos.
Mateus
coloca sua narrativa entre o dado dos guardas postos à frente do sepulcro (cf.
Mt 27,62-66) e o do boato por eles espalhado: os discípulos roubaram o corpo de
Jesus (cf. Mt 29,11-15). Confrontados com 28,6c, os dois dados afirmam que
tanto os que crêem como os que não crêem sabem que o túmulo está vazio. Os
guardas não são testemunhas da ressurreição; só o discípulo pode sê-lo. Além
disso, Mateus descreve a ressurreição paralelamente à morte, como uma teofania.
Para Mateus, Jesus é agora aquele que apareceu sobre as nuvens do céu (cf. Mt 26,64)
e recebeu todo poder (cf. Mt 28,18). Outra particularidade é ser o anúncio do
anjo (cf. Mt 28,7) repetido pelo próprio Jesus (cf. Mt 28,10).
Prezados irmãos,
Criação e libertação são duas notas características do
agir de Deus. Gratuitamente, ele criou todas as coisas; fez-nos à sua imagem e
semelhança e nos deu a missão de administrar os bens com justiça e
fraternidade. Toda forma de ganância e de concentração de bens é uma afronta à
bondade e à generosidade divinas. Caracteriza-se como roubo do que é dom de
Deus para a vida de todos os povos. O futuro de boa parte da humanidade,
atingida pelo flagelo da fome, está ameaçado por causa da utilização egoísta dos
recursos disponíveis. Porém, não há situação que não possa ser transformada.
Deus nos possibilita um coração novo; liberta-nos do egoísmo e nos indica
caminhos de vida em abundância. Para isso, a Campanha da Fraternidade nos
oferece sugestões para ações concretas.
A ressurreição de Jesus é a boa notícia que transforma o
mundo. A morte foi vencida definitivamente. A exemplo das mulheres na madrugada
do primeiro dia da semana, nós acreditamos, sem duvidar, que Jesus ressuscitou
e vive em nosso meio. Assumimos a missão de discípulos missionários,
testemunhando a fé e o amor, a começar de nossa casa. Como batizados,
crucificamos o egoísmo na cruz de Jesus para viver como novas criaturas,
promovendo relações de diálogo, reconciliação, justiça, paz e fraternidade.
Os símbolos da celebração da Vigília Pascal evocam a
vitória do bem sobre o mal, da vida sobre a morte. Queremos viver com a veste
resplandecente de Cristo ressuscitado, purificados pela água batismal, no fogo
do seu amor e na luz de suas palavras. Seguindo Jesus, anunciamos a aurora de
um mundo novo.
Amigos e Amigas,
O
ponto alto da Celebração da Vigília Pascal é a Eucaristia, ação de graças por
excelência, celebração da nova Páscoa de Cristo participada pela Igreja. A vida
que nasce do Batismo e é animada pelo Espírito Santo alimenta-se na mesa do
Cordeiro pascal. Os cristãos dão testemunho da Morte e RESSURREIÇÃO do Senhor
Jesus e comprometem-se a ser vida, corpo dado e sangue derramado numa vida de
ação de graças a Deus e ao próximo. Assim, inaugura-se um novo céu e uma nova
terra.
Cremos
na ressurreição. Cremos na vida nova inaugurada pela Ressurreição do Senhor
Jesus. Por isso, irrompendo a alegria pascal, renovemos as nossas promessas
batismais, para que tudo o que somos e temos, os acontecimentos em torno de nós
e dentro de nós, os problemas pessoais e sociais que nos preocupam e nos
rodeiam, fiquem definitivamente marcados pelo mistério pascal, e cada momento
de nossa vida seja uma imersão, sempre mais percebida e sempre mais plena, até
o mergulho total de nossa humilde vida na vida infinita de Deus, na eternidade.
O fogo, a luz do Círio pascal, a água do Batismo nos recorde a energia, a luz e
a vida que brotam para todos do Cristo Jesus, nosso Salvador Ressuscitado!
Busquemos
a água limpa que é Jesus Ressuscitado, porque D’Ele correm rios de água viva!
Feliz Páscoa, Aleluia, Aleluia, Aleluia!
Padre Wagner Augusto Portugal.
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