“A cruz
de nosso Senhor Jesus Cristo deve ser a nossa glória: nele está nossa vida e
ressurreição; foi ele que nos salvou e libertou” (cf. Gl 6,14).
O Tríduo Pascal é inaugurado com a
celebração desta noite. Celebramos nesta noite um “adeus”: a despedida de
alguém que vai voltar para o Pai, mas que concomitantemente, deixa uma profunda
nostalgia, sobretudo por causa do modo como essa despedida será levada a
efeito, na noite seguinte. Assim, esta
celebração está envolvida de um mistério de alegria, de júbilo, de
encamentamento, principalmente quando cantamos o Glória, o Hino de Louvor, ao
som dos sinos manifestando a grandeza da misericórdia de Deus. Mas é uma
alegria em tom menor, misturada com lágrimas e lamentos, uma alegria reticente,
uma alegria inibida. É a única celebração litúrgica do ano em que se entoa o
glória e não se canta o Aleluia! Isso porque esta liturgia reflete bem o
espírito dos fiéis diante dos últimos acontecimentos de Jesus. Eles sabem o que
os Apóstolos naquela noite não sabiam: que Jesus está trilhando o horizonte, o
seu caminho até a glória. Ao mesmo tempo, porém, sentem profundamente a dor
desta noite de traição e de aflição.
Estimados
Irmãos,
Estamos diante do Testamento que
Jesus nos legou: a Eucaristia, o Sacerdócio e o Amor Fraterno. Celebramos a
última Ceia do Senhor, porque nessa noite Jesus foi traído por Judas
Iscariotes. Nesta noite Jesus foi preso no Jardim das Oliveiras. Nesta noite
Jesus foi levado, amarrado, à casa de Caifaz, e acusado de se fazer Filho de
Deus. Aquele que assumira a condição humana por amor, sofre o ódio e a
perseguição. Aquele que passou pelo mundo fazendo o bem; é preso e é açoitado
como criminoso. Essa é à noite da traição. Essa é à noite do beijo de Judas.
Noite do não da parte da criatura humana à verdade de Deus.
Mas não viemos aqui para celebrar a
maldade. Viemos aqui para celebrar o amor e a fidelidade. Vamos atualizar o
mistério da instituição da Eucaristia, como dom de Deus para cada um de nós.
Queremos celebrar, viver o amor e a fidelidade de Deus, encarnados na pessoa
santíssima de Jesus de Nazaré, manifestados em três grandes gestos que podem
ser o seu testamento: a instituição da Eucaristia, a instituição do Sacerdócio
Ministerial e o anúncio do seu Evangelho que consiste no amor fraterno. Tudo
isso foi legado na sala do Cenáculo, uma casa particular, para ser anunciado e
vivificado por todos os seus Seguidores. Instituídos no interior de uma
residência estes tesouros são levados para o mundo, como sinais da nova aliança
de Deus com a humanidade. Nova aliança que gera e transforma esta noite, de
noite da traição em noite do amor e da fraternidade, em noite da misericórdia e
da acolhida, em noite da santidade e da graça.
Estimados
irmãos,
Vamos refletir um pouco sobre o
mistério que celebramos com fé: a Santa Eucaristia. Com a instituição da
Eucaristia Jesus permanece em nosso meio, em forma de alimento, de comida, na
fração do pão que se transforma no corpo e na espécie do vinho que se transforma
no sangue do Redentor. Jesus está em nosso meio como família, como alimento
pascal, como alimento eterno. O próprio Cristo instituiu a Eucaristia ao
afirmar: “Tomai todos e comei. Isto é meu
Corpo; Tomei e bebei, Isto é o meu Sangue!” Jesus é o próprio Pão Vivo que
desceu do céu para nos salvar. Quem comer deste pão viverá eternamente.
Promessa feita por Jesus que foi realizada na última Ceia e que nós atualizamos
diariamente nas Igrejas do mundo inteiro, fazendo memória do mesmo sacrifico do
Cristo. Na forma visível, palpável do pão, mas numa presença misteriosa, real e
verdadeira, que encanta nossa existência nos tornando filhos do Senhor presente
em nosso meio.
Eucaristia mistério que nossa
inteligência não pode explicar, mas que devemos com candura de coração e de
alma acreditar. Este inaudito mistério, o mistério inefável, isto é, que não
pode ser expresso por palavras, mas vivido e acreditado, porque a Eucaristia é “o fundamento, o centro e o ponto mais alto
da vida cristã”.
Caros
amigos,
A segunda reflexão desta noite é
sobre o Sacerdócio. O Sacerdócio foi instituído para que a Eucaristia fosse
celebrada como dimensão maior da expressão do amor divino pela humanidade. Ao
celebramos a Santa Missa, celebramos o amor, o Sacramento da Vizinhança de
Deus, o Sacramento da presença de Deus, o Sacramento da Comunhão. Assim Jesus
instituiu os Sacerdotes, o seu segundo gesto grandioso como divindade,
misterioso como a Eucaristia, mas cem por cento humano: instituiu o sacerdócio,
fez o padre e o ligou para sempre à origem e à finalidade da Eucaristia. A
partir da última Ceia, é o sacerdote – e exclusivamente o sacerdote de Cristo –
que faz a Eucaristia, que a celebra. Ela é a principal e central razão do ser
do sacerdócio. Sacerdote, dom divino que o Cristo, sumo e eterno sacerdote do
Pai, quis repartir com o homem; e significa também aquele que faz as coisas
sagradas, o dispensador dos mistérios divinos e o santificador do povo de Deus.
Sobre a vida sacerdotal, na Missa do
Crisma que em tempos saudosos, no dia 15 de março de 2008, o então Senhor
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora, DOM EURICO DOS SANTOS VELOSO, assim
vaticinou: “queridos padres, meus irmãos, vamos fazer a nossa reflexão sobre o
único aspecto de São José: PAI DE JESUS CRISTO, É A SUA PATERNIDADE QUE TEM
CERTA ANALOGIA COM A NOSSA FRATENIDADE, Padre = pai.
Por isso
podemos cantar: Vinde alegres cantemos, a Deus demos louvor.
A um Pai exaltemos sempre com mais fervor.
São
José a vós nosso amor,
sede nosso bom protetor.
Aumentai
em nós o fervor.
Será que a nossa paternidade
sacerdotal tem afinidades com a de São José?
Será que a nossa vida
sacerdotal comporta a fidelidade às virtudes das quais José nos deu o exemplo?
Vejamos...
A
paternidade de José e a nossa.
Pedindo-nos a renúncia de ser
pais segundo a carne, o Senhor nos ofereceu uma outra paternidade, de
origem infinitamente superior: uma paternidade que eu diria virginal,
sim virginal, em relação a Ele, em
seu Ser Eucarístico, e uma, não menos virginal, para
com as Pessoas nas quais misticamente, Ele quer nascer e crescer. (Eucaristia
- Batismo).
Ainda ressoa em nossos
ouvidos as palavras daquele que nos fez presbíteros: “Recebe o poder de
oferecer o Sacrifício a Deus.” (accipe potestatem oferre sacrificium
Deo”)... e nas admoestações: “Ainda que todo o povo de Deus seja em Cristo um
sacerdócio régio, Jesus Cristo escolheu alguns discípulos, escolheu você, a
mim, para exercermos, em Seu nome e publicamente na Igreja, o ofício
sacerdotal, em favor da humanidade.”.
A nos cabe continuar
a sua função de Mestre, Sacerdote e Pastor e assim fomos constituídos para
servir ao Cristo Mestre, para servir ao Cristo Sacerdote e para servir ao
Cristo Pastor, edificando e fazendo crescer o Seu Corpo que é a Igreja, Novo
Povo de Deus, Templo do Espírito Santo. Meus caros padres, fomos
constituídos para celebrar o Culto Divino, principalmente no Sacrifício do
Senhor, que pelas nossas mãos é oferecido sobre o altar.
E isto, meu caro padre, cada vez que
celebramos a Santa Missa, fazemos eucaristicamente nascer Jesus para o
mundo. E não é também sem um gemido interior, onde a ação de graças se mistura
às dores do parto, que fazemos nossas, as palavras de Paulo, resumindo
admiravelmente a nossa missão referente às pessoas: “Meus filhinhos, que de
novo estou dando a luz na dor, até que Cristo seja formado em vós.” (Gal.
4,19)”.
Caros
irmãos,
A Primeira Leitura (Ex 12,1-8.11-14)
demonstra para os cristãos que a narração da celebração da Páscoa israelita
está inserida no contexto do movimento de libertação da escravidão no Egito. É
a atualização de um ritual antigo, realizado entre os pastores, para
reconciliar-se com a divindade, afastar os maus espíritos e, assim, assegurar o
bem-estar das famílias com seus rebanhos. A experiência da libertação dos
escravos no Egito torna-se a marca registrada de sua própria identidade. O povo
de Israel nasceu com o êxodo. Diversos grupos de diferentes origens unem-se ao
redor de um projeto de liberdade e autonomia. Pouco a pouco, vai se firmando a
consciência de pertença ao “povo de Deus”. De fato, somente sob a intervenção
divina foi possível a caminhada de libertação. Essa certeza atravessa as
gerações, conforme constatamos nos diversos escritos do Primeiro Testamento.
Todos sabemos que a celebração da Páscoa foi sendo adotada
por Israel como memória exemplar do acontecimento fundador do êxodo. Ela
atualiza a presença de Deus na história do povo. É uma presença atenta e
atuante na defesa da vida das pessoas oprimidas. Unindo elementos antigos e
novos, a narrativa da Páscoa enfatiza a necessidade da celebração por ordem
divina, num dia preciso, no “primeiro mês do ano”. Corresponde ao início da
primavera, tempo em que desabrocha a vida nova. O cordeiro é essencial nessa celebração:
é a oferta de cada família e de toda a comunidade, em reconhecimento à bondade
divina. Para isso, é escolhido e preparado um cordeiro, sem defeito, para
imolá-lo. A integridade física do animal é o que de melhor o povo pode ofertar
a Deus como sinal de gratidão por tudo o que ele oferece.
A refeição é feita num clima de urgência: “rins cingidos,
sandálias nos pés e cajado na mão” (cf. Ex 12.11), atualizando assim a
movimentação do povo escravizado em vista de sua libertação. Com ervas amargas,
para lembrar a vida difícil do povo enquanto escravo no Egito; com pães ázimos,
pois a pressa não permite que o fermento possa levedar a massa. O pão puro é
símbolo de fidelidade ao projeto de libertação, que inclui a caminhada pelo
deserto, animados pelo sonho da terra prometida. Como se vê, o ritual da Páscoa
é memória ligada ao compromisso de caminhar na conquista de um mundo de
liberdade, paz e dignidade.
Prezados irmãos,
A segunda leitura (cf. 1Cor 11,23-26) fala da instituição
da Eucaristia. São Paulo revela ser a transmissão do que ele mesmo recebeu do
Senhor: trata-se da tradição dos apóstolos, a qual, por serem eles testemunhas
oculares de Jesus histórico, é respeitada com veneração.
A ceia celebrada pelas comunidades cristãs é celebração da
nova aliança, inaugurada por Jesus, da qual os cristãos se tornam
participantes, em que se evidencia os elementos essenciais da eucaristia. Jesus
a instituiu como memória de sua morte. É sacrifício (= ação sagrada), dom total
de Jesus, em consciência e liberdade, pela vida do mundo. É sustento para os
que dela participam, comprometidos na vivência do amor, até que Jesus venha.
Deve-se ressaltar que a Igreja de Corinto se reunia, com o
propósito de participar da ceia, sem o principal requisito para a celebração: a
solidariedade com os pobres. Quem não é solidário para com os pobres não pode
celebrar a Eucaristia ou receber a Eucaristia.
A divisão existente
na comunidade revelava uma conduta egoísta e discriminatória. A participação do
mesmo pão e do mesmo cálice é comunhão com o Corpo do Senhor, a qual não pode
estar dissociada da comunhão com os irmãos, ainda mais com o agravante de serem
pessoas necessitadas.
Caros fiéis,
No Evangelho (Jo
13,1-15) João introduz um gesto original de Jesus após a ceia: o lava-pés.
Prestes a cumprir a sua missão, o seu êxodo definitivo, o caminho do calvário,
o gesto do lava-pés é, por excelência, o modelo de comportamento que os
seguidores de Jesus deverão seguir. O Mestre e Senhor se faz servo dos seus
discípulos, também daquele que já consentira em traí-lo. O seu amor é
incondicional, como revelara em toda a sua missão. Por isso, rompera com todas
as instituições que discriminam e matam. Chegou sua “hora”, e Jesus a acolhe
com plena consciência e responsabilidade. Entrega sua vida não arrastado pelas
circunstâncias, mas na liberdade, demonstrando o seu amor até o extremo,
coerente com sua opção de fidelidade ao plano de salvação de Deus.
Estamos todos ligados
nos gestos eloquentes do Papa Francisco que, pela terceira vez, retorna a um
Cárcere para lavar os pés de pessoas privadas de liberdade, os lascados da
sociedade. O gesto do lava pés é o cartão de visita de Jesus e dos seus
seguidores, particularmente de seus ministros ordenados, que são chamados a
ajoelhar e beijando os pés que são lavados demonstram a misericórdia e a
ternura de um Deus que morreu na Cruz para nos salvar e que se dá a cada um de
nós em cada Eucaristia que participamos. O lava-pés simboliza o amor como
doação plena. Dá-se em forma de serviço. Cai por terra todo espírito de poder.
Caem por terra a vingança e toda espécie de violência. Jesus inverte os valores
dominantes na sociedade. Constitui uma nova comunidade humana, cuja nota
característica é o serviço mútuo. Pedro, o líder do grupo, num primeiro momento
não consegue entender. É representante dos que ainda procuram um Messias
triunfalista, distante das realidades conflituosas deste mundo. O seguimento de
Jesus, porém, dá-se pelo caminho da “cozinha” e do “avental”. Tudo o que
simboliza o lava-pés, cuja síntese é o amor-serviço, leva à participação da
mesma vida de Jesus. Pedro entenderá o verdadeiro significado após a morte do
Mestre. Por causa de sua opção pelo seguimento de Jesus, será também perseguido
e partilhará do mesmo destino dele.
Estimados
Irmãos,
O amor deve ser sempre o sinônimo da
acolhida que, por conseguinte gera a paz. Amor, perdão que gera comum união com
o Cristo, que é a terceira lição que Jesus nos dá na noite de hoje. Jesus
levanta-se da mesa, coloca um pano sobre a sua cintura, pega um pouco de água,
se ajoelha e começa a lavar os pés dos apóstolos, dos seus discípulos, um por
um. Lavar os pés para o povo hebreu era o maior gesto de humildade e até de
humilhação. Mas Jesus quis ensinar os seus sacerdotes que este deveria ser o
gesto de todos os seus seguidores: estar a serviço do outro, especialmente
daqueles que passam necessidades especiais. Lavar os pés, amar o irmão,
perdoar, servir, fazer todos os gestos de justiça de misericórdia e de amizade.
E celebrando estes gestos presidir a Eucaristia colocando em prática o que dá
no testemunho.
Viver estas obras de caridade no
quotidiano, assim a Eucaristia só se torna verdadeira comunhão, verdadeira
comum/união, se aprendermos a viver a lição do Lava-pés: a lição do amor, a
lição do perdão, a lição da amizade, que nos permite seguir o nosso egoísmo,
mas ensina a servir a todos; que não nos permite a exploração de ninguém, mas
nos ensina a conviver em volta da mesma mesa, respeitando as diferenças e os
carismas de cada um.
Prezados
irmãos,
Celebrar a
Páscoa é pôr-se em caminhada. O povo de Israel reconhece a presença libertadora
de Deus na medida em que se organiza para libertar-se da opressão. Cada família
é chamada a entrar no grande mutirão pela liberdade e pela vida. Cada pessoa é
chamada a participar do êxodo, caminho para uma terra de paz e justiça. A
fraternidade depende do empenho de cada um de nós. O povo de Deus tinha pressa
para libertar-se. Hoje, também, é urgente a necessidade de nos unirmos, em
busca de vida digna para todos, com trabalho, justiça social, sem exploração
nem fome. O Tríduo Pascal é tempo propício de reconhecer a presença salvadora
de Deus em nosso meio e de renovar, por meio de gestos concretos, nossa
fidelidade ao seu plano de vida digna para todos os povos, habitantes desta
casa comum chamada Terra.
Celebramos
hoje a instituição da Eucaristia. É o próprio Jesus que se doa inteiramente
para a vida do mundo. Participar da Eucaristia é acolher, com gratidão, a
grande graça de Jesus, que nos alimenta com seu próprio corpo e sangue. É
comprometer-nos a viver na comunhão com Deus e com o próximo. É
responsabilizar-nos pela administração justa dos bens. Participarmos juntos da
mesma mesa sagrada é nos reconhecermos como irmãos. São Paulo lembra aos
cristãos de Corinto e a nós que Eucaristia e solidariedade estão vinculadas. O
amor efetivo às pessoas que sofrem é o requisito fundamental para que a
Eucaristia se torne sacramento de salvação.
Jesus é o
modelo do verdadeiro amor. Ele, antes de sua morte, institui a nova comunidade
humana, representada pelos discípulos. Pelo gesto do lava-pés, revela-lhe o
caminho que garante as relações de igualdade e justiça: o serviço mútuo. O
Filho de Deus se faz servidor. Somos chamados a viver como seus discípulos
missionários. Jesus nos chama deste modo: “Vocês dizem que eu sou o Mestre e o
Senhor. E vocês têm razão… Vocês devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei
o exemplo: vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz”. Como isso se concretiza
no cotidiano da vida de cada um de nós?
Amigos,
Celebremos com fé, com a Igreja,
Comunidade de amor, alimentada e expressa pela Eucaristia e animada pelos
ministros ordenados, o mistério pascal de Cristo. Nesta noite ele é entregue e
entrega-se aos discípulos como Corpo dado e Sangue derramado, antecipação de
sua total entrega ao Pai.
Que possamos todos, fiéis e
presbíteros, todos sacerdotes pelo mesmo Batismo, sair desta celebração vivendo
intensamente o mistério do amor de Cristo que nos chama a conversão e a
vivência de uma fé misericordiosa e participativa, gerando compromisso de autenticidade
cristã. Assim Seja!
Padre
Wagner Augusto Portugal.
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