Um dos grandes temas da Escritura é a escuta da Palavra de Deus.
Vem desde o Gênese, percorre todos os profetas e é uma das chamadas
constantes dos Evangelhos.
Um dos milagres esperados do Messias era a cura da surdez. Não a surdez
física, mas o fechamento diante da Palavra do Senhor.
Ao longo de toda a história, o homem se faz de auto-suficiente e quer
satisfazer apenas seus desejos.
Em torno deles, reza e trabalha. Mas isso não satisfaz a raiz do ser
humano. Um de seus dramas é sair de seus próprios interesses que, ao final,
perfazem um círculo vicioso, e alcançar o transcendente.
Jesus, hoje, nos diz que essa fome se sacia na escuta da Palavra de
Deus.
Essa escuta não impede o trabalho, mas lhe dá sentido e se torna
condição de boa oração.
Jesus falando do primeiro e do maior mandamento acentuou a dimensão
horizontal do amor. Neste Evangelho que acabamos de meditar, acentua a dimensão
vertical.
Na oração do Pai Nosso acentuará a dimensão comunitária, que funde e
equilibra a horizontal e a vertical.
UMA PARADA ESTRATÉGICA, UMA PARADA DE AMIZADE
Jesus estava viajando. Chegando a um povoado, uma mulher, chamada Marta,
o recebeu em sua casa.
Maria, irmã dela, foi sentar-se aos pés do Senhor, e estava ouvindo os
seus ensinamentos. Enquanto Marta ficava fazendo o trabalho todo da casa.
Aí, ela chegou para Jesus e disse: “O Senhor não está vendo que eu estou
fazendo tudo sozinha? Deixe a minha irmã vir me ajudar!”
Então Jesus falou assim com ela: “Marta, Marta! Você está aflita e
preocupada com tantas coisas! Uma só chega! Maria escolheu primeiro o que é
melhor. E isto ninguém, vai tomar dela! (Lc 10,38-42)
O Evangelho nos coloca diante de duas
mulheres privilegiadas dentro da vida pública de Jesus: Marta e Maria, irmãs de
Lázaro, a quem Jesus ressuscitara depois de quatro dias de morto. (Jo 11)
Jesus era amigo pessoal dos três. (Jo
11,5) e costumava hospedar-se em sua casa todas as vezes que ia a Jerusalém.
Eles moravam em Betânia, um lugarejo distante quinze quilômetros de Jerusalém,
situado no sopé do Monte das Oliveiras, porém, na encosta contrária àquela que
se volta para Jerusalém e onde se situava o horto da Paixão.
Vindo pelo caminho que beirava o
Jordão, subia-se por Betânia, passava-se por Betfajé e, do alto da colina, se
avistava a cidade santa.
Ora, para entrar em Jerusalém, os
peregrinos costumavam lavar-se antes.
Era em Betânia, na casa de Lázaro,
Marta e Maria, que Jesus costumava cumprir este ritual.
Entende-se, assim, melhor a cena de
hoje: Uma cena familiar, que Lucas soube transformar em grande lição.
Ele é o único evangelista a descrever o
fato. Banho tomado, Jesus e os apóstolos descansavam da viagem e esperavam a
refeição.
Maria escutava Jesus. Qualquer dona de
casa sabe que dar de comer a treze homens chegados de viajem, exige uma série
de preparativos rápidos.
Era o que Marta estava fazendo,
exatamente como qualquer dona-de-casa faria e faz ainda hoje.
Há um pormenor: Ao colocar as duas
mulheres quase no centro da cena, Lucas de novo se mostra um evangelista
universal, isto é, que chama sempre a atenção para o fato de que Jesus viera
para todos.
As mulheres, naquele tempo, não eram
contadas para nada, nem sequer lhes era permitido ouvir um rabino para se
instruir.
A ESCUTA DA PALAVRA DÁ SENTIDO À ORAÇÃO
Outra observação ainda: Lucas coloca o episódio não em ordem histórica
ou geográfica, mas numa seqüência de ensinamentos.
Jesus acabara de responder ao doutor da lei qual era o maior mandamento
e exemplificara com a parábola do bom Samaritano (Lc 10,25-37).
Acentuara portanto, a caridade, o amor transformado em obra prática.
Logo depois da lição de hoje, vem o ensinamento do Pai Nosso. Parece-me então,
que devemos ler o trecho de hoje iluminado pela caridade verdadeira e pela
sadia oração.
A caridade pressupõe a oração, e esta, necessariamente, leva à caridade.
Entre as duas, está a escuta da Palavra de Deus, para que a caridade
tome sentido divino, e a oração não se torne egoísta e vazia.
Se olharmos dentro do nosso coração, veremos que inúmeras vezes nossas
obras caritativas não passam de gestos vaidosos, e a nossa oração é um
comentário egoísta de nossos interesses pessoais.
A PRÁTICA DA VIDA CRISTÃ NASCE DA ESCUTA DA PALAVRA
A expressão “estava ocupada com muitos afazeres” ou “andava atarefada
com o serviço” é uma tradução não inteiramente exata do vocábulo grego
original, que traz consigo a idéia de “distração”
Marta estava atarefada sim, porém seu trabalho a fazia ficar distraída
(não ouvia a Palavra de Jesus).
O trabalho é necessário e bom. O trabalho (como de Marta) pode ser
expressão de caridade. Mas só o será se não for empecilho para a escuta da
Palavra de Deus. E a oração rezada só terá sentido se ligada à escuta da
Palavra de Deus.
E o que é escutar a Palavra de Deus?
São Paulo, na carta aos Romanos, dirá que “a fé nasce da escuta da
Palavra de Cristo” (Rm 10,17).
Em certo momento, Jesus elogia a grandeza de sua mãe, não apenas pela
maternidade, mas por “escutar a Palavra de Deus” (Lc 11,28).
E diz aos judeus que o pecado deles consiste em “não escutar a palavra
de Deus” (Jo 8,43).
Escutar a Palavra de Deus é não só lê-la com os olhos ou ouvi-la com os
ouvidos, mas transformá-la em prática de vida, em forma de oração e em obras
(Mt 7,24).
A todos é dada esta graça. Todos são chamados a essa experiência, a esse
esforço. Condição, aliás, para se entender o que significa viver cristãmente.
Padre Wagner Augusto Portugal
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