“Como crianças recém-nascidas, desejai o puro
leite espiritual para crescerdes na salvação, aleluia!” (cf. 1Pd 2,2).
Meus queridos irmãos,
Somos convidados
nestes domingos seguintes ao Domingo da Páscoa a conviver com a primeira
comunidade cristã. As primeiras leituras são uma seqüência de Leituras dos Atos
dos Apóstolos e com o Evangelho de São João. As segundas leituras são tiradas
das Cartas de Pedro. Assim, neste domingo, o tema da fé batismal, permeia toda
a celebração. Os fiéis são “como crianças recém-nascidas” e
reza-se por um mais profundo entendimento do mistério da ressurreição e do
batismo. Neste tempo, não existe, necessariamente, uma estreita coerência
temática entre as três leituras. Porém, todas elas nos fazem participar do
espírito do mistério pascal.
Assim,
na primeira leitura deste domingo (At 2,42-47), os Atos dos Apóstolos nos
apresentam como deve ser a comunidade dos cristãos batizados, que deve ter como
centro a comunhão fraterna, repartindo tudo em comum, a exemplo de Cristo.
Comunhão que deve ser testemunho, vivência para os que não crêem. Logo depois
da Páscoa os cristãos davam demonstração de como deveria ser a sua vida: um
convite permanente para restabelecermos a pureza cristã das origens. Assim, com
o Salmo Responsorial, podemos cantar as alegrais da criação e do Senhor: DAI
GRAÇAS AO SENHOR, PORQUE ELE É BOM! ETERNA É A SUA MISERICÓRDIA!
Nestes dias é
importante ressaltarmos que a verdadeira comunidade nasce do Espírito Santo e
do testemunho dos apóstolos. Uma comunidade que vive em comunhão fraterna,
identificada com Cristo e com a vida de Cristo que anima cada batizado que
forma o Corpo de Cristo. Esta comunidade deve ser assídua ao ensino dos
apóstolos, empenhada em conhecer e acolher a proposta de salvação que vem de
Jesus, pelo testemunho dos apóstolos. Centrada na pessoa de Jesus, o seu
projeto, os seus valores, a sua vida doada por nós e entregue na Cruz. Esta
comunidade celebra liturgicamente a sua fé na “fração do pão” e as “orações”. A “fração do pão” parece ser
uma expressão técnica para designar o memorial da “ceia do Senhor”, ou
“eucaristia”. Era a celebração que resumia toda a vida do Senhor Jesus, feita
doação da vida e entrega até à morte. Acompanhada, em geral, de uma refeição
fraterna, ela comportava ainda orações, uma pregação e, talvez, gestos de
comunhão e de partilha entre os cristãos. Era um momento de alegria, em que a
comunidade celebrava a sua união a Jesus e a comunhão fraterna que daí
resultava. Temos, ainda, as “orações”. A comunidade de Jesus é, portanto, uma
comunidade que se junta para rezar, para louvar o seu Senhor.
Significativo para a comunidade dos
batizados é que esta é uma comunidade que partilha os bens. Da comunhão com
Cristo, resulta a comunhão dos cristãos entre si; e isso tem implicações
práticas. Em concreto, implica a renúncia a qualquer tipo de egoísmo, de
auto-suficiência, de fechamento em si próprio e uma abertura de coração para a
partilha, para o dom, para o amor. Expressão concreta dessa partilha e desse
dom é a comunhão dos bens: “tinham tudo em comum; vendiam propriedades e bens e
distribuíam o dinheiro por todos, conforme as necessidades de cada um” – vers.
44-45). É uma forma concreta de mostrar que a vida nova de Jesus, assumida
pelos batizadod, não é “conversa fiada”; mas é uma libertação da escravidão do
egoísmo e um compromisso verdadeiro com o amor, com a partilha, com o dom da
vida.
Por tudo isso a comunidade dos
batizados é aquela, que por excelência que dá testemunho. Os gestos realizados
pelos apóstolos enchiam toda a gente de temor (vers. 43) – quer dizer,
infundiam em todos aqueles que os testemunhavam a inegável certeza da presença
de Deus e dos seus dinamismos de salvação. Além disso, a piedade, o amor
fraterno, a alegria e a simplicidade dos crentes provocavam a admiração e a
simpatia de todo o povo; esse jeito de viver interpelava os habitantes de
Jerusalém e fazia com que aumentasse todos os dias o número dos que aderiam à
proposta de Jesus e à comunidade da salvação (vers. 47). A primitiva comunidade
cristã, nascida do dom de Jesus e do Espírito é verdadeiramente uma comunidade
de homens e mulheres novos, que dá testemunho da salvação e que anuncia a vida
plena e definitiva.
Estimados irmãos,
A
Segunda Leitura, retirada de Pedro (cf. 1Pd 1,3-9), é uma espécie de homilia
batismal. Na perspectiva de seu autor, a volta gloriosa do Senhor estava
próxima; os cristãos deviam passar por um tempo de prova, como ouro na
fornalha, para depois brilhar com Cristo na sua glória. Neste horizonte, a fé
batismal se concebe como antecipação da plena revelação escatológica: é amar e
crer naquele que ainda não vimos, o coração já repleto de alegria com vistas à
salvação que se aproxima e que já é alcançada na medida em que a fé nos coloca em
verdadeira união com Cristo.
A Carta de São
Pedro é uma ação
de graças, ao estilo das bênçãos judaicas. No entanto, apresenta, desde logo,
os temas principais que, depois, vão ser desenvolvidos ao longo da carta. O
autor lembra aos batizados que, pelo batismo, se identificaram com Cristo; e
isso significa, desde logo, renascer para uma vida nova – de que a ressurreição
de Cristo é modelo e sinal. Conscientes de que Deus oferece a salvação àqueles
que se identificam com Jesus, os batizados vivem na alegria e na esperança:
eles sabem que – aconteça o que acontecer – lhes está reservada a vida plena e
definitiva. É verdade que a caminhada dos batizados pela história é uma
experiência de sofrimento, de provações, de perseguições. Os sofrimentos, no
entanto, são uma espécie de “prova”, durante a qual a fé dos batizados é
purificada, decantada de interesses mesquinhos, fortalecida; e, nesse processo,
o batizado vai sendo transformado pela ação do Espírito, até se identificar com
Cristo e chegar à vida nova (para exemplificar o processo, o autor lembra que o
próprio ouro tem de ser purificado pelo fogo, antes de aparecer em todo o seu
esplendor).
De qualquer forma, o percurso
existencial dos batizados – cumprido simultaneamente na alegria e na dor – é
sempre uma caminhada animada pela esperança da salvação definitiva. O grande
apelo do autor da primeira carta de Pedro é este: identifiquemo-nos com aquele
a quem amamos sem o termos visto (Cristo) – nomeadamente com a sua entrega por
amor ao Pai e aos homens – a fim de chegarmos, com Ele, à ressurreição.
A Palavra de Deus é um chamamento para
tomar consciência de que, pelo batismo, nos identificamos com Cristo. A nossa
vida tem de ser, como a de Cristo, vivida na obediência ao Pai e na entrega aos
homens nossos irmãos: é esse o caminho que conduz à ressurreição. A lógica do
mundo nos diz que servir e dar a vida é um caminho de fracos e perdedores; a
lógica de Deus diz-nos que a vida plena resulta do amor que se faz dom. A
questão do sentido do sofrimento (sobretudo do sofrimento que atinge o justo) é
tão antiga como o homem; as respostas que o homem foi encontrando para essa
questão foram sempre parciais e insatisfatórias… A Segunda Leitura que hoje nos
é proposta não esclarece definitivamente a questão, mas acrescenta mais uma
achega: o sofrimento nos ajuda, muitas vezes, a crescer, a amadurecer, a
despirmo-nos de orgulhos e auto-suficiências, a confiar mais em Deus. Somos
convidados a tomar consciência de que o sofrimento pode ser, também, um caminho
para ressuscitarmos como homens novos, para chegarmos à vida plena e
definitiva.
Somos convidados a percorrer a nossa
vida com esperança, olhando para além dos problemas e dificuldades que dia a
dia nos fazem tropeçar e vendo, no horizonte, a salvação definitiva. Isto não
significa alhearmo-nos da vida presente; mas significa enfrentar as
contrariedades e os dramas de cada dia com a serenidade e a paz de quem confia
em Deus e no seu amor.
Irmãos e Irmãs,
Estamos
celebrando os 50 dias do mistério pascal. Este tempo é chamado de um grande
domingo, ou seja, um grande Dia do Senhor. Assim, como na Eucaristia, tudo é
iniciado com o Ato Penitencial, a liturgia de hoje é iniciada com a
reconciliação e a pacificação. Jesus se encontra com seus apóstolos, que se
tinham comportado covardemente durante a Paixão e Morte. Mas Jesus, manso e
misericordioso, não se mostra decepcionado e nem os repreende. Jesus vem e
deseja a PAZ. A PAZ ESTEJA CONVOSCO! (cf. Jo 20, 19). Paz que é sinônimo de
amor e de misericórdia! Paz que é sinônimo de perdão e de acolhida do
diferente. Paz que tudo supera e que tudo ama! E Jesus dá aos seus discípulos o
poder divino de perdoar os pecados, assim transmitindo a graça de Deus e a
santificação do povo de Deus. O próprio Cristo dá este poder aos seus
apóstolos: “A quem perdoardes os pecados, eles lhe serão perdoados; a quem os não
perdoardes, eles lhe serão retidos”.
O
cenário deste acontecimento foi no oitavo dia após a Páscoa. Tomé, duvidoso e
incrédulo, embora zeloso apóstolo de Jesus, representa muitos cristãos que,
distanciados da Páscoa no tempo, devem viver perto dela pela fé e fazer da
Ressurreição o fundamento de sua vida. Tudo
isso para que nós e todo o povo, de ontem, de hoje e de sempre, sejamos
testemunhas autênticas do Senhor Ressuscitado, para que “creais que Jesus é o Cristo, o
Filho de Deus, e para que, crendo tenhais a vida em seu nome” (cf. Jo 20,31).
Crer
em Deus, o Deus da vida, que irrompeu a morte e nos deu a possibilidade de
sermos elevados à condição de filhos e filhas de Deus.
Estimados Irmãos,
Oh
dúvida providencial a de Tomé. E não foi só Tomé que demorou a acreditar na
Ressurreição. A dúvida de Tomé é positiva. É sempre parte do caminho andado na
procura da verdade. Por isso mesmo, Jesus não repreendeu Tomé. Ajudou-o a
superar a dúvida e o levou a uma perfeita profissão de fé: “Meu Senhor e Meu Deus!” (cf. Jo
20,28). Esses dois títulos juntos, de Senhor e Deus meu, na antiga
aliança era designação de JAVÉ, O NOSSO DEUS!
Tomé não só passou a acreditar que Jesus ressuscitara, porque aí estava
e ele podia por o dedo nas chagas, mas também viu nele o Cristo de Deus. A
Palavra SENHOR, para designar Jesus, só aparece depois da Ressurreição nos
Escritos Sagrados. Assim somos convidados a ver, com Tomé, com novos olhos e um
novo jeito o Senhor, ouvindo a sua voz e tendo a sua presença em nosso meio
pela fé que celebramos, fé eucarística, porque o SENHOR ESTEJA CONVOSCO, ELE
ESTÁ NO MEIO DE NÓS!
Amigos e amigas,
O
poder das chaves que é confiado por Cristo aos discípulos é o poder de morte e
de vida, de ressurreição e de condenação eterna. Jesus reparte hoje com seus
seguidores o poder de santificar, de salvar, o poder de arrancar alguém do
pecado e da morte eterna. Isso porque a criatura humana sozinha é incapaz de
salvar-se e de salvar quem quer que seja. Mas na forca do Espírito Santo, dado
por Cristo ressuscitado, prolongamos o poder redentor de Jesus na história
humana. Jesus dá aos seus discípulos os meios de serem suas testemunhas, isto
é, de afirmarem sua divindade e a sua missão, repartindo o perdão, a benção, a
graça. Ligado a esse poder está o envio por partes de Cristo. Ele foi enviado
pelo Pai e por sua vez está enviando a nós para a missão, para a evangelização.
Envio
que é comunidade. Envio que é convivência. Envio que benção. Envio que é
partilha. Envio que é santidade. Envido que é perdão. Envio que é amor pleno.
Como o Pai enviou Jesus hoje é Ele que nos envia para a missão.
E
Jesus nos envia com o seu espírito de conciliação, de misericórdia, de
caridade, de aceitar o diferente, de sempre perdoar os “tomés” que surgirem no nosso horizonte.
Aí
está, queridos amigos, o Jesus humilde que reparte tudo conosco, até os seus
poderes. Isso porque somente quem é humilde sabe repartir. Porque só o humilde
acolhe e tem misericórdia. Jesus perdoa a traição de seus apóstolos nos
ensinando que essa deve ser a nossa atitude, o perdão sempre.
Caros irmãos,
A comunidade cristã gira em torno de
Jesus, constrói-se à volta de Jesus e é d’Ele que recebe vida, amor e paz. Sem
Jesus, estaremos secos e estéreis, incapazes de encontrar a vida em plenitude;
sem Ele, seremos um rebanho de gente assustada, incapaz de enfrentar o mundo e
de ter uma atitude construtiva e transformadora; sem Ele, estaremos divididos,
em conflito, e não seremos uma comunidade de irmãos.A comunidade tem de ser o
lugar onde fazemos verdadeiramente a experiência do encontro com Jesus ressuscitado.
É nos gestos de amor, de partilha, de serviço, de encontro, de fraternidade,
que encontramos Jesus vivo, a transformar e a renovar o mundo. Não é em experiências
pessoais, íntimas, fechadas e egoístas que encontramos Jesus ressuscitado; mas
encontramo-l’O no diálogo comunitário, na Palavra partilhada, no pão repartido,
no amor que une os irmãos em comunidade de vida. No segundo Domingo da Páscoa, a Igreja celebra a Festa da Divina
Misericórdia. São João Paulo II soube valorizar a experiência mística de Santa
Faustina Kowalska. Aliás, a Igreja tem sempre a graça de contar com pessoas que
se deixam enamorar-se pela grandeza do amor de Deus, para anunciá-lo aos
outros. Continua muito válido recorrer aos místicos, cuja percepção dos
mistérios vai além dos pobres raciocínios humanos.
Caros irmãos,
Os apóstolos foram as testemunhas da ressurreição de Jesus.
Eles puderam ver o Ressuscitado e por isso acreditaram. Tomé foi convidado por
Jesus a tocar nas chagas das mãos e do lado (Evangelho). Tomé pôde verificar e
acreditou: “Meu Senhor e meu Deus!” Nós não temos esse privilégio. Seremos
felizes se crermos sem ter visto (Jo 20,29). Para que isso, porém, seja
possível, os apóstolos nos deixaram os Evangelhos, testemunho escrito do que
eles viram e da fé no Cristo e Filho de Deus que abraçaram (Jo 20,30-31).
O Cristo descrito nos Evangelhos é visto com os olhos da fé
dos apóstolos. Um incrédulo o veria bem diferente. Nós cremos em Jesus como os
apóstolos o viram. A participação na fé dos apóstolos nos dá a possibilidade de
“amar Cristo sem tê-lo visto” e de “acreditar nele (como Senhor e fonte de
nossa glória futura), embora ainda não o vejamos” (II leitura).
Acreditamos na fé dos apóstolos e da Igreja que eles nos
deixaram. Então, nossa fé não é coisa privada. É apostólica e eclesial. Damos
crédito à Igreja dos apóstolos. Os primeiros cristãos faziam isso
materialmente: entregavam seus bens para que ela os transformasse em
instrumentos do amor do Cristo. Crer não é somente aceitar verdades. É agir
segundo a verdade do ser discípulo e seguidor do Cristo.
É inútil querer verificar e provar nossa fé sem passar
pelos apóstolos e pela corrente de transmissão que eles instituíram, a Igreja.
É impossível verificar, por evidências fora do âmbito dos Evangelhos, a
ressurreição de Cristo. Ora, o importante não é “verificar”, ao modo de Tomé,
mas viver o sentido da fé que os apóstolos (incluindo Tomé) transmitiram. A fé
dos apóstolos exige que creiamos em seu testemunho sobre Jesus morto e
ressuscitado e também que pratiquemos a vida de comunhão fraterna na comunidade
eclesial que brotou de sua pregação.
Num tempo de hiperindividualismo, como é o nosso, essa
consciência de acreditarmos naquilo que os apóstolos acreditaram é muito
importante. Deles recebemos a fé, nossa “veste branca”, e, na comunidade que
eles fundaram, nós a vivemos. Ora, por isso mesmo é tão importante que essa
comunidade, por todo o seu modo de viver o legado do Ressuscitado, seja digna
de fé.
Estimados Irmãos,
Jesus
é o grande sinal de Deus entre os homens. Por isso a fé da comunidade
apostólica é a nossa. Através da comunidade apostólica, da primeira leitura,
nós somos partícipes da fé, antecipação da comunhão eterna com Cristo e nossa
salvação. Por isso, este domingo, antigamente chamado de domingo “in
albis”, no tempo em que os batizados da noite pascal depunham as vestes
brancas do batismo, encerrando a oitava da Páscoa nos convida a todos para que
sejamos testemunhas do Ressuscitado renovando o nosso compromisso de batizados,
crismados e de homens e mulheres que buscam na Eucaristia o alimento que dá combustível a nossa fé, fé
apostólica, fé nossa de cada dia, porque a Páscoa não é só hoje, a páscoa é
todo dia e se eu levar o Cristo em minha vida tudo será um eterno aleluia!
Amém! Aleluia!
Padre Wagner
Augusto Portugal.
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