“Ao entrar no
mundo, Cristo disse: Eis-me aqui, ó Pai, para fazer a tua vontade!” (cf. Hb
10,5.7).
A Solenidade da Anunciação do Senhor é sempre celebrada
em função da Solenidade do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Todo ano, a
25 de março, ela é celebrada. A Igreja sempre cercou de especial devoção os
nove meses transcorridos desde a concepção e o nascimento de Nosso Senhor. E
foi assim, que a partir da data do nascimento de Cristo, chegou-se àquela de
sua concepção. Cálculos medievais afixavam para o mesmo dia 25 de março a data
da criação do mundo e da crucifixão – recriação do mundo em Cristo. Mas o mais
importante, certamente, é que, pelo “Sim” de Maria, toda a Igreja é inserida no
mistério da redenção!
Nossa Senhora recebe a grande dádiva divina: a filha de
Santana e de São Joaquim é a escolhida para ser a Mãe de Jesus. E Nossa Senhora
será a portadora da proposta de Deus de salvação aos homens e às mulheres de
boa vontade. Por isso o radical e pronto Sim da Virgem Santíssima permite que o
Pai realize plenamente a Aliança Salvadora com a humanidade pelo seu Filho
Jesus Cristo. O
Papa Paulo VI, ensinou que: “Para a solenidade da Encarnação do Verbo, no
Calendário romano, com motivada decisão, foi reatado o título antigo
“Anunciação do Senhor”; no entanto, a celebração era e continua a ser festa,
conjuntamente, de Cristo e da Virgem Maria: do Verbo que se torna “filho de
Maria” (Mc 6,3) e da Virgem que se torna Mãe de Deus. Relativamente a Cristo, o
Oriente e o Ocidente, nas inexauríveis riquezas das suas Liturgias, celebram
tal solenidade em memória do “fiat” “salvífico” do Verbo Encarnado, que ao
entrar no mundo disse: “Eis-me, eu venho... para fazer, ó Deus, a tua vontade”
(Hb 10,7; Sl 39,8-9); em comemoração do início da Redenção e da indissolúvel e
esponsal união da natureza divina com a humana na única Pessoa do Verbo.
Relativamente a Maria, por sua vez, é celebrada como festa da nova Eva, virgem
obediente e fiel, que, com o seu “fiat” generoso (cf. Lc 1,38), se torna, por
obra do Espírito Santo, Mãe de Deus, mas ao mesmo tempo também, Mãe dos
viventes, e, ao acolher no seu seio o único Mediador (cf.1Tm 2,5), verdadeira
Arca da Aliança e verdadeiro Templo de Deus; ademais, em memória de um momento
culminante do diálogo de salvação entre Deus e o homem, e em comemoração do
livre consentimento da Santíssima Virgem e do seu concurso no plano da
Redenção”(Cf. Marialis Cultus, n. 6).
Caros irmãos,
A Primeira Leitura da
Solenidade de hoje nos apresenta a Leitura do Profeta Isaías (Is 7,10-14;8,10).
O rei de Jerusalém, Acaz, vê
vacilar o seu trono devido à aproximação de exércitos inimigos. A sua primeira
reação é entrar numa política de alianças humanas. Isaías, pelo contrário,
propõe a resolução do problema pela confiança em Deus. Convida o rei a pedir um
“sinal” (v. 11) que seja confirmação da assistência divina. Acaz recusa a
proposta: “não tentarei o Senhor” (v. 12). Acaz fala que não tentará o Senhor
por hipocrisia, e não por verdadeiro sentido religioso. O Profeta Isaías
insiste que, apesar da recusa do rei, Deus lhe dará um sinal: “Pois bem, o
próprio Senhor vos dará um sinal. Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um
filho, e lhe porá o nome de Emanuel, porque Deus está conosco!”(Is 7,14.8,10).
O sentido imediato destas palavras refere-se a Ezequias, filho de Acaz, que a
rainha está para dar à luz. O seu nascimento, nesse momento histórico, é
interpretado como sinal da presença salvadora de Deus em favor do seu povo
aflito. Mais profundamente, as palavras de Isaías são profecia de um futuro rei
Salvador. A tradição cristã sempre viu neste oráculo o anúncio profético do
nascimento de Jesus, filho de Maria Virgem.
Prezados irmãos,
A Segunda Leitura desta Solenidade, da Carta aos Hebreus (Hb 10,4-10) nos
mostra que o sacrifício de Cristo é superior aos sacrifícios do Antigo
Testamento. O autor da Carta aos Hebreus relê o Salmo 39 – utilizado pela
liturgia desta solenidade como Salmo Responsorial – como se fosse uma
declaração de intenções do próprio Cristo ao entrar no mundo, no momento da
Encarnação. Esta é também a atitude obediencial do povo da antiga aliança e de
todo o piedoso cantor do salmo: “Eis que venho fazer, com prazer, a vossa
vontade, Senhor!”, por isso a Encarnação como atitude obediencial acontece no
dia da Anunciação do Senhor a Maria. Esse dia inaugura a peregrinação
messiânica que conduzirá à doação do corpo de Cristo no sacrifício salvífico,
novo e inovador, único e indispensável, que se completa no sacrifício da cruz.
Amados e amadas,
A Anunciação é um mistério divino, como nos proclama o Evangelho (Lc
1,26-38). O mensageiro respeita a condição humana de uma garota virgem que
recebe uma proposta inesperada: ser mãe do Messias. Maria, a virgem prometida
como esposa a José, aproxima-se progressivamente do mistério, deixando-se
conscientemente envolver por ele, disponibilizando-se e adequando à proposta de
Deus o seu próprio projeto. E termina pronunciando o seu “Eis-me aqui!”
O Papa Bento XVI ensina, com
maestria e simplicidade, o significado da solenidade hodierna: “Vejamos, antes
de tudo, o que significa a Encarnação. No Evangelho de São Lucas, ouvimos as
palavras do anjo a Maria: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do
Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai nascer será
chamado Filho de Deus» (Lc 1, 35). Em Maria, o Filho de Deus faz-Se
homem, cumprindo-se assim a profecia de Isaías: «A virgem conceberá e dará à
luz um filho e o seu nome será “Emanuel”, porque Deus está conosco» (Is
7, 14). Sim, Jesus, o Verbo feito carne, é o Deus-conosco, que veio habitar
entre nós e partilhar a nossa própria condição humana. O apóstolo São João
exprime isto mesmo do modo seguinte: «O Verbo fez-Se carne e habitou no meio de
nós» (Jo 1, 14). A expressão «fez-Se carne» indica a realidade humana
mais concreta e palpável. Em Cristo, Deus veio realmente ao mundo, entrou na
nossa história, habitou no meio de nós, realizando assim a profunda aspiração
do ser humano de que o mundo seja realmente uma casa para o homem. Pelo
contrário, quando Deus é posto de lado, o mundo transforma-se num lugar
inospitaleiro para o homem, frustrando ao mesmo tempo a verdadeira vocação da
criação que é ser o espaço para a aliança, para o «sim» do amor entre Deus e a
humanidade que Lhe responde. E assim fez Maria, primícias dos crentes, com o
seu «sim» dado sem reservas ao Senhor. Por isso, quando contemplamos o mistério
da Encarnação, não podemos deixar de voltar os nossos olhos para Ela, enchendo-nos
de admiração, gratidão e amor ao ver como o nosso Deus, para entrar no mundo,
quis contar com o consentimento livre duma criatura sua. Só a partir do momento
em que a Virgem respondeu ao anjo: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim
segundo a tua palavra» (Lc 1, 38), é que o Verbo eterno do Pai começou a
sua existência humana no tempo. É comovente ver como Deus não só respeita a
liberdade humana, mas parece ter necessidade dela. E vemos também como o início
da existência terrena do Filho de Deus está marcado por um duplo «sim» à
vontade salvífica do Pai: o de Cristo e o de Maria. É esta obediência a Deus
que abre as portas do mundo à verdade, à salvação. De fato, Deus criou-nos como
fruto do seu amor infinito; por isso viver segundo a sua vontade é o caminho
para encontrar a nossa verdadeira identidade, a verdade do nosso ser, enquanto
o distanciamento de Deus nos afasta de nós mesmos e precipita-nos no vazio. A
obediência na fé é a verdadeira liberdade, a autêntica redenção, que permite
unirmo-nos ao amor de Jesus no seu esforço por Se conformar com a vontade do Pai. A
redenção é sempre esse processo de levar a vontade humana à plena comunhão com
a vontade divina (cf. Lectio divina com os párocos de Roma,
18 de fevereiro de 2010)”(Conferir Homilia do Papa Bento XVI, 26 de março de
2012, em Cuba).
Prezados irmãos,
O evangelista Lucas situa claramente o
acontecimento no tempo e no espaço: “no sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado
por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré. Foi a uma virgem, prometida
em casamento a um homem chamado José... o nome da Virgem era Maria” (Lc 1,
26-27). Mas para compreender o que aconteceu em Nazaré há dois mil anos,
devemos voltar à leitura tirada da Carta aos Hebreus. Este texto permite-nos
escutar uma conversa entre o Pai e o Filho acerca do desígnio de Deus para
toda a eternidade. “Tu não quiseste sacrifício nem oferta. Em vez disso,
deste-me um corpo. Holocaustos e sacrifícios não são do teu agrado. Por isso Eu
disse: Eis-me aqui, ó Deus... para fazer a Tua vontade” (10, 5-7). A
Carta aos Hebreus diz-nos que, obedecendo à vontade do Pai, o Verbo Eterno veio
entre nós a fim de oferecer o sacrifício que supera qualquer sacrifício
oferecido na precedente Aliança. O seu é o sacrifício eterno e perfeito que
redime o mundo.
O desígnio divino é revelado gradualmente
no Antigo Testamento, sobretudo nas palavras do profeta Isaías, que acabámos de
ouvir: “Ficai sabendo que Javé vos dará um sinal. A jovem concebeu e dará
à luz um filho, e chamá-lo-á Emanuel” (7, 14). Emanuel: Deus
conosco. Com estas palavras é prenunciado o acontecimento único que se iria
realizar em Nazaré na plenitude dos tempos, e é este evento que celebramos hoje
com alegria e felicidade intensas.
Prezados irmãos,
No
texto da Carta aos Hebreus (Hb 10,4-10), o hagiógrafo refere ou interpreta a
anunciação de Cristo; no texto de Lucas (Lc 1,26-38), o evangelista narra a
anunciação a Maria. Cristo toma a iniciativa de declarar aquilo que Ele mesmo
compreende; Maria recebe uma palavra que vem de fora de si mesma, uma palavra
cheia de propostas de um Outro. O paralelismo transforma-se em coincidência na
explicitação da disponibilidade de ambos para fazerem a vontade divina; é uma
disponibilidade separada por qualidade e quantidade de consciência, mas que
converge na finalidade de obediência total ao projeto de Deus: Ecce
venio, ecce ancilla, eis-me aqui! Eis a serva! A
atitude de obediência irá aproximar a mãe e o filho, Maria “anunciada” e Jesus
Cristo “anunciado”. Ambos pronunciam o seu “Eis-me aqui!”. Ambos se exprimem
com voz quase idêntica: “faça-se em mim segundo a tua palavra”, “Eis que venho
para fazer, ó Deus, a tua vontade”. Ambos entram na fisionomia de “serva” e de
“servo” do Senhor. Esta sintonia encoraja os discípulos à disponibilidade para
servir a palavra de Deus, porque o próprio Filho de Deus é servo e porque a Mãe
de Deus é serva; ambos são servos de uma palavra que salva quem a serve e que
traz salvação.
Prezados irmãos,
A festa da Anunciação recorda a encarnação do Senhor seio de
Maria, que dá início a uma nova história. É interessante notar que Deus não
envia o anjo a Jerusalém, ao Templo, mas à Galileia, uma região desprezada, por
ser refúgio de pagãos descrentes; Ele o envia a Nazaré, uma cidade nunca
mencionada no Antigo Testamento.
Com a anunciação, Maria reflete, dialoga consigo mesma e com o
anjo; por isso, pergunta qual o significado e como tudo aquilo iria acontecer.
Maria não entra em pânico e não se deixa levar pela emoção. Pelo contrário,
demonstra ser uma mulher corajosa, que, diante de uma coisa inédita, mantém a
prudência. Assim, à luz de Deus, ela avalia tudo e decide.
O Espírito Santo reveste a vida de Maria, tornando-a idônea para a
sua missão: Ele o fez na Anunciação e no Cenáculo. Logo, Maria se reveste do
Espírito, graças ao qual e em quem tudo se torna possível.
“Eis-me aqui” de Maria: O “Fiat” de Maria transforma a humilde
casa da “sua” vida em Casa de Deus, tornando-se Tabernáculo do Santíssimo
Jesus. Era suficiente um simples “Eis-me aqui”, apenas um sinal de
disponibilidade para confiar na ação do Espírito. Desta forma, Deus entrou na
história, aceitando tornar-se história na vida de todos os que disseram e
continuarão a dizer seu “Eis-me aqui”!
A primeira atitude de Maria foi acreditar, confiar e entregar-se a
Deus, na certeza de que nada é impossível para Ele. Deus não teme o período da
perplexidade, reflexão, compreensão. Deus não obriga a liberdade, mas educa à
liberdade, para que cada um possa dizer seu “Eis-me aqui”.
A sua segunda atitude foi a de aceitar participar do tempo de Deus
e dos seus ritmos. Os tempos de Deus requerem tempo, descer em profundidade.
Deus pede um "sim" mas também para entrar no seu "ritmo" e
no seu "tempo": um tempo que não é, simplesmente, deixar passar as
horas, mas o tempo de Deus, ou seja, um tempo oportuno e total, um tempo de
oportunidades e de graça.
Caros irmãos,
Com alegria contemplamos o Mistério do Deus Todo-Poderoso que na
origem do Mundo cria todas as coisas com sua Palavra, porém desta vez escolhe
depender da palavra de uma frágil ser humana, a Virgem Maria, para poder
realizar a Encarnação do Filho Redentor: ‘No sexto mês, o anjo Gabriel foi
enviado por Deus… a uma jovem… Alegra-te, ó tu que tens o favor de Deus… Não
temas, Maria… engravidarás e darás à luz um filho… e lhe darás o nome de Jesus.
Maria Santíssima disse ao anjo: Como se fará isso? O anjo lhe respondeu: O
Espírito Santo virá sobre ti Maria disse então: Eu sou a serva do Senhor.
Aconteça-me segundo a tua Palavra!’ (Lc 1,26-38).
A Anunciação do Senhor é um Mistério grande, mistério sublime é o
da Encarnação, para cuja compreensão não basta decerto a fraqueza da nossa
mente, incapaz como é de entender as razões do agir de Deus. Nele devemos
sempre ver, em posição de primária evidência, Jesus Cristo, como o Filho de
Deus que Se encarna, e ao lado d’Ele Aquela que coopera na encarnação dando-Lhe
com amor de Mãe a sua própria carne. A Anunciação do Senhor, deste modo, nada
tirará à função e ao mérito de Maria, que precisamente pela sua maternidade
será, com o seu Filho divino, bendita nos séculos.
Mas este mesmo mistério deveremos sempre vê-lo não já separado,
mas coordenado e ligado com todos os vários mistérios da vida oculta e pública
de Jesus, até ao outro e sublime mistério da Redenção. De Nazaré ao Calvário
há, de facto, uma linha de ordenado desenvolvimento, na continuidade de um
indiviso e indivisível desígnio de amor. É por isto que no Calvário
encontraremos ainda Maria, que ali se manifesta precisamente como Mãe, vigiando
e orando junto da Cruz do Filho moribundo, e ao mesmo tempo como "associada",
ou seja, como colaboradora na Sua obra salvífica, "servindo o mistério da
Redenção sob a Sua dependência e com Ele, pela graça de Deus omnipotente"
(cf. Lumen gentium, 56).
Por isso com esta solenidade é o dia de fazermos memória do início
oficial da Redenção de TODOS, pois: ‘O Verbo Divino se fez carne e habitou
entre nós‘ (Jo1, 14).
Padre Wagner Augusto Portugal.
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