“Alegra-te,
Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais; vós que estais tristes, exultai de
alegria! Saciai-vos com a abundância de suas consolações” (Cf. Is 66,10-11).
Meus
queridos irmãos,
Celebramos hoje o Domingo “Laetare”, ou seja, o domingo em que somos convidados a alegria. A própria antífona da entrada da Santa Missa dá o tom que celebramos: “Alegra-te, Jerusalém! (cf. Is 66,10)”. O sacerdote pode usar, por concessão litúrgica, a estola ou a casula rosácea. Assim a liturgia nos coloca na companhia dos que jubilosos sobem a Jerusalém. Somos nós, também, convidados a subir a Jerusalém. Subir a Jerusalém, nesta Quaresma, para contemplarmos as maravilhas que Deus vem operando em nossas vidas, neste caminho de penitência, de jejum e de oração para Ver Jesus, Caminho, Verdade e Vida.
Meus irmãos,
O tema da alegria vai permear toda a
Liturgia, desde a oração da coleta até a oração sobre as oferendas. A Segunda
Leitura (cf. Ef 5,8-14) nos ensina que Cristo vai iluminar as nossas
trajetórias. Cristo, iluminando a nossa vida, para relembrar o Batismo, tema
que iniciamos a nossa reflexão no domingo passado, que entendemos, melhor, no
Evangelho, aonde Cristo é colocado como a luz do mundo, que abre os olhos ao
cego pelo banho no “Siloé, que significa:
Enviado” (cf. Jo 9,7). Carregado de simbolismo batismal, o Santo Evangelho
de João (cf. Jo 4,5-42, ou mais breve Jo 4,5-15.19b-26.39a.40-42), é também uma
profunda e rica lição de fé: os diálogos revelam sempre mais firme e decidida a
fé do ex-cego, enquanto cresce a má vontade em aceitar Jesus e os seus sinais
pelos fariseus. Por fim, o homem é excluído da sinagoga pelos hebreus – sorte
de muitos judeu-cristãos no fim do século I – mas, ao reencontrar Jesus, chega
a professar sua fé e a adorar Jesus, fazendo jus ao sinal que recebera – a
abertura dos olhos, sinal do Batismo.
Mas, devemos nos perguntar: Como estamos vivendo o nosso Batismo? Depois que fomos batizados estamos vivendo a coerência de filhos e filhas de Deus? Por isso os batizados devem ser alegres, porque receberam a Luz de Cristo, que iluminará a nossa vida, como iluminou o dia santo em que recebemos a luz de Cristo representada pela vela acessa.
Caros irmãos,
A segunda leitura (cf. Ef 5,8-14) fala imagem da “luz” e das
“trevas”, que é uma imagem que aparecia frequentemente na catequese primitiva,
como sugere o seu uso nos textos neo-testamentários, sobretudo em João e Paulo
(cf. Jo 1,4-5; 3,19.21; 8,12; 1 Jo 1,5-7; 2,9-11; Rm 2,19; 2Cor 4,6; 1 Ts
5,4-7). O símbolo “luz/trevas” aparece, também, nos escritos de Qûmran para
definir o mundo de Deus (luz) e o mundo que se opõe a Deus (trevas). Para São
Paulo, viver nas “trevas” é viver à margem de Deus, recusar as suas propostas,
viver prisioneiro das paixões e dos falsos valores, no egoísmo e na
auto-suficiência. Ao contrário, viver na “luz” é acolher o dom da salvação que
Deus oferece, aceitar a vida nova que Ele propõe, escolher a liberdade,
tornar-se “filho de Deus”.
Os cristãos são
aqueles que escolheram viver na “luz”. São Paulo, dirigindo-se aos cristãos da
parte ocidental da Ásia Menor, exorta-os a viverem na órbita de Deus, como
Homens Novos, e a praticarem as obras correspondentes à opção que fizeram pela
“luz”. Em concreto, Paulo pede-lhes que as suas vidas sejam marcadas pela
bondade, pela justiça e pela verdade. A propósito, São Paulo cita um velho hino
cristão batismal, que convoca os crentes para viverem na “luz” (vers. 14). Mais
ainda: o cristão não é só chamado a viver na “luz”; mas deve desmascarar as
“trevas” e denunciar as obras e os comportamentos daqueles que escolhem viver
nas “trevas” do egoísmo, da mentira, da escravidão e do pecado. O cristão não
deve só escolher a luz, mas deve também desmascarar as obras das “trevas”, de
forma aberta e decidida.
“Luz” e “trevas” são, nesta passagem, duas esferas de poder capazes de tomar conta do homem e de condicionar a sua vida, as suas opções, os seus valores e comportamentos. O cristão, no entanto, é aquele que optou por “viver na luz”. Para São Paulo, não chega “viver na luz” e dar testemunho da “luz”. É preciso, também, denunciar – de forma aberta e decidida – as “trevas” que desfeiam o mundo e que mantêm os homens escravos. A expressão “desperta tu que dormes”, citada por Paulo, convida-nos à vigilância. O cristão não pode ficar de braços cruzados diante da maldade, do egoísmo, da injustiça, da exploração, dos contra-valores que enegrecem a vida dos homens e do mundo. O cristão tem de manter uma atitude de vigilância atenta e de denúncia ousada e corajosa.
Estimados irmãos,
As trevas são a solidão, a dor, a
noite, a escuridão. A Luz é o dia, a claridade, a vida, a presença de Deus. O
cego vivia nas trevas e, pela ação e graça de Cristo, viu a luz. Mas que luz o
cego viu? A luz que é o Cristo em sua pessoa divina e humana; e como tal, se
torna a salvação para o homem, tal qual viu o cego do Evangelho hodierno.
Viver no mundo das trevas é não
reconhecer Jesus, Deus e Homem, como o Salvador e Redentor. E aqui está o maior
de todos os pecados que se pode cometer.
Os fariseus de hoje, ao contrário
dos habitantes de Sicar do domingo passado, tinham um coração fechado, repleto
de auto-suficiência, de homens velhos que não queriam abrir-se a graça de Deus.
Jesus hoje se apresenta como a Luz. Luz da razão e do coração. Luz que é capaz de fazer ver o rosto de Deus, reconhecê-lo, proclamá-lo e nele encontrar a sua segurança, o seu refúgio, o seu único repouso. A cegueira curada hoje ilumina as obras de Deus, especialmente, a maior, que é a criação e a encarnação de Seu Filho Jesus. É o que fala o Santo Evangelho de hoje (cf. Jo 9,1-41 ou o mais breve Jo 9,1.6-9.13-17.34-38) em que o cego foi, lavou-se e voltou enxergando.
Amados irmãos,
Os cegos eram tidos como pecadores
pelos hebreus. Isso por duas razões: primeiro, porque se fossem pessoas boas,
Deus não os teria castigado com a cegueira. Segundo, porque, como cegos, não
tinham possibilidade de cumprir todos os mandamentos, e por conseguinte, se não
eram, se tornavam pecadores. Mentalidade curta, legalista, ritualista que não
liberta o homem. Aí vem o Cristo, a curar o cego, a nos advertir que a sua Luz,
a adesão ao seu seguimento, ilumina todos os homens e mulheres que querem
experimentar a salvação.
Do Messias era esperado restituir a
vista aos cegos. Esperança doce dos hebreus que se realizou no Cristo.
Realizou-se de maneira plena, principalmente, quando o cego curado exclama com
fé: “Eu Creio, Senhor!” (cf. Jo 9,38),
se ajoelhando diante de Jesus.
Várias são as cegueiras, além da
cegueira física: a cegueira do coração, a cegueira do egoísmo, a cegueira da
auto-suficiência, a cegueira da falta de caridade, a cegueira do ódio, a
cegueira da violência, a cegueira da inveja; a cegueira da maldade de coração,
a cegueira da língua, a cegueira dos ouvidos. Jesus veio curar de todas estas
enfermidades, que teimamos em não querer a cura, ao não aceitar Jesus.
Devemos reaquecer, reavivar a piedade em Cristo, para que a sua obra salvadora se instale na terra, seja vivida e seguida por muitos que estão nas trevas dos erros e dos vícios. E vivendo a Luz a partir do mandamento sempre novo, que nunca se envelhece, o amor gratuito, generoso, paciente, que acolhe sempre o diferente.
Queridos irmãos,
Somos convidados hoje a vivenciarmos
o nosso Batismo. Os sacramentos são sinais visíveis e eficazes da graça de
Deus, já nos ensina a antiga escolástica canônica. De nada nos cura as águas do
batismo se o Cristo não conseguir nos tocar primeiro. Os dois sentidos da
cegueira, o espiritual e o físico, bem acentuados hodiernamente, quando Jesus
usa o “cuspir” no chão, fazer lodo,
para, por conseguinte, pôr no olho do cego, mandando que o mesmo lave a sua
impureza tem um grande significado como sinal. O cego faz uma atitude que
poucos de nós faz: ele não questiona a ordem de Jesus, ele a obedece com fé. O
ceguinho teve uma atitude de humildade, confiança e esperança, sem a qual não
há caminho de acesso ao Senhor. Depois o
ceguinho pensa que Jesus é um profeta, ou uma pessoa boa. Por fim, o cego pensa
que Jesus tem poderes especiais oferecidos por Deus. Só, a partir daí, que ele
reconhece que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, o escolhido, o santo dos
Santos, o Senhor, a quem ele vai se prostrar para adorar em espírito e em
Verdade.
Já os fariseus percorreram, de sua
vez, o caminho contrário. Sabiam tudo a respeito de Jesus, de sua missão e de
seu poder, mas se julgaram auto-suficientes, não precisando de nada.
Qual deve ser o nosso caminho? Ter a atitude confiante do ceguinho? Ou anunciar aos quatro ventos que somos quase-deuses, e de nada precisamos de Jesus? Ter a cegueira curada, como o ex-cego, e a graça de reconhecer a divindade de Jesus é uma atitude que todos nós devemos ter no dia a dia. A nossa fé começa a partir do momento em que acreditamos naquilo que não vemos, mas sentimos no irmão e na irmã, no Cristo que se fez comunidade conosco e que vem ao nosso auxílio sob as espécies do Pão e do Vinho da Salvação.
Caros irmãos,
Nós, os batizados, não podemos fechar-nos num pessimismo estéril, decidir que o mundo “está perdido” e que à nossa volta só há escuridão. No entanto, também não podemos esconder a cabeça na areia e dizer que tudo está bem. Há, objetivamente, situações, instituições, valores e esquemas que mantêm o homem encerrado no seu egoísmo, fechado a Deus e aos outros, incapaz de se realizar plenamente. A catequese que São João nos propõe hoje garante-nos: a realização plena do homem continua a ser a prioridade de Deus. Jesus Cristo, o Filho de Deus, veio ao encontro dos homens e mostrou-lhes a luz libertadora: convidou-os a renunciar ao egoísmo e auto-suficiência que geram “trevas”, sofrimento, escravidão e a fazerem da vida um dom, por amor. Receber a “luz” que Cristo oferece é, também, acender a “luz” da esperança no mundo.
Estimados Irmãos,
Davi foi lembrado na Primeira
Leitura (cf. 1Sm 16,1b.6-7,10-13a) pela sua unção. Destacando a dignidade de
rei e sacerdote, nos lembra o Cristo-Ungido-Mestre e, ao mesmo tempo, nossa
unção batismal em Cristo.
A primeira leitura fala, claramente, sobre o tema da
eleição. A lógica
de Deus é bem diferente, neste capítulo, da lógica dos homens. Antes de mais,
Davi é apresentado como o eleito de Jahwéh. É sempre Jahwéh que escolhe aqueles
a quem quer confiar uma missão. Nem a Samuel – o seu enviado – Deus dá qualquer
explicação. A eleição não resulta da iniciativa do homem, mas sim da iniciativa
e da vontade livre de Deus. Em segundo lugar, impressiona a lógica da escolha
de Deus. Samuel raciocina com a lógica dos homens e pretende ungir como rei o
filho mais velho de Jessé de Belém, impressionado pelo seu belo aspecto e pela
sua estatura; mas não é essa a escolha de Deus. Samuel percebe, finalmente, que
a escolha de Deus recai sobre Davi – o filho mais novo de Jessé – um jovem
anônimo e desconhecido que andava a guardar o rebanho do pai. A história da
eleição de Davi quer sublinhar a lógica de Deus, que escolhe sem ter em conta
os méritos, o aspecto ou as qualidades humanas que costumam impressionar os
homens. Pelo contrário, Deus escolhe e chama, com frequência, os pequenos, os
mais fracos, aqueles que o mundo marginaliza e considera insignificantes; e é
através deles que age no mundo. Fica, assim, claro que quem leva a cabo a obra
da salvação é Deus; os homens são apenas instrumentos, através dos quais Deus
realiza a sua obra no mundo.
Se olharmos para o mundo com olhos de esperança, vemos muitas pessoas que realizam coisas bonitas, que lutam contra a miséria, o sofrimento, a injustiça, a doença, o analfabetismo, a violência. Não há mal nenhum em admirarmos a sua disponibilidade e em aprendermos com o seu empenho e compromisso. No entanto, nós os batizados somos convidados a olhar mais além e a ver Deus por detrás de cada gesto de amor, de bondade, de coragem, de compromisso com a construção de um mundo melhor. O nosso Deus continua a construir, dia a dia, a história da salvação; e chama homens e mulheres para colaborarem com Ele na salvação do mundo. A primeira leitura mostra, mais uma vez, que Deus tem critérios diferentes dos critérios humanos e que a sua lógica nem sempre coincide com a nossa. “Não olhes para a sua aparência nem para a sua grande estatura, porque eu o rejeitei. Não julgo segundo os critérios do homem: o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração”(cf. 1Sm 16,7) – diz o texto. É preciso entrar na lógica de Deus e aprender a ver, para além da aparência, da roupa que a pessoa veste, do “curriculum” profissional ou acadêmico; é preciso aprender a ver com o coração e a descobrir a riqueza que se esconde por detrás daqueles que parecem insignificantes e sem pretensões. É preciso, sobretudo, aprender a respeitar a dignidade de cada homem e de cada mulher, mesmo quando não parecem pessoas importantes ou influentes.
Caros irmãos,
Viver na luz
de Deus é o tema central das leituras deste domingo. No relato da eleição de
Davi, conforme o primeiro livro de Samuel, vemos que Deus chama as pessoas não
com base nas aparências. Ele não segue o padrão dominante da sociedade. A unção
de Davi aponta para nosso batismo. Fomos ungidos: revestidos de Cristo. Fomos
eleitos por Deus, que concede a cada um de nós uma missão, segundo os
diferentes dons. Deus quis contar com Davi para que assumisse a missão de
servir o povo como um governante justo. É uma indicação muito importante para
quem assume cargos de responsabilidade social. Deus conta conosco para levar
adiante seu plano de amor e justiça no mundo. Ele é a Luz que brilha nas
trevas. A salvação que ele oferece à humanidade depende da resposta que damos
ao seu chamado.
Jesus é a Luz
do mundo. Caminhou neste mundo fazendo o bem, curando as pessoas e dissipando
as trevas. A cura do cego de nascença vai além do sentido físico. É libertação
das influências das ideologias dominantes. Somos cegos quando entramos no jogo
da ambição de poder e deixamos de servir humildemente o próximo; quando nos
consideramos superiores aos outros e quebramos a fraternidade; quando
acumulamos para nós mesmos o que Deus ofereceu para a vida de todos… Jesus
curou o cego misturando sua saliva com a terra. A terra que Deus nos deu é
sagrada, manifesta sua bondade, oferece recursos para uma vida saudável.
Nós devemos viver como filhos da luz. Deus nos concede a liberdade de escolha: caminhar na luz ou nas trevas. São bem conhecidas as obras das trevas: corrupção, mentira, violência, hedonismo e tudo o que prejudica o ser humano e a natureza. É tempo de revisão de vida e de conversão: Deus nos oferece a oportunidade de sair das trevas para a luz. O discípulo missionário de Jesus escolhe o caminho da verdade, da justiça e da bondade; assume o risco de ser autêntico e se empenha na construção de outro mundo possível.
Caros irmãos,
Jesus
demonstra que mais cego são aqueles que não desejam ver; explicitamente, os que
se julgam detentores da verdadeira religião e juízes de todos os outros que são
diferentes do “modelo” que construíram. Porque são cegos, não conseguem ser luz
para aqueles que vivem na periferia da vida. Jesus, aproximando-se do homem
cego e mendigo, mostra, de forma bastante clara, que nos aproximamos de Deus
quando nos aproximamos dos sofredores deste mundo. Jesus é luz, mas existem
aqueles que preferem viver na escuridão da noite. Negligenciam a luz tanto
interior quanto exterior.
Aqueles que vivem na luz produzem frutos enquanto caminham: quais seriam os frutos? Bondade, justiça e verdade. Indiquemos em quais ações e/ou comportamentos podemos encontrar os frutos da luz.
Prezados irmãos,
A Quaresma deve ser vista como o tempo propício à
proclamação renovada de nossa fé batismal. A partir daí Cristo nos iluminará.
Que possamos viver a intensidade deste tempo, renovando o nosso batismo,
assumindo-o conscientemente anunciando a todos Jesus, a Luz do Mundo!
Amém!
Padre
Wagner Augusto Portugal.
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