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QUARTA-FEIRA DE CINZAS, A.


 


“Ó Deus, vós tendes compaixão de todos e nada do que criastes desprezais: perdoais nossos pecados pela penitência porque sois o Senhor nosso Deus” (Cf. Sb. 11,24s.27).

Meus queridos Irmãos,

               Com a Quarta-Feira de Cinzas, inicia-se o tempo da Quaresma. São quarenta dias, de um grande retiro de penitência e conversão, que vai até a 4a. feira Santa. Na solenidade de Cinzas o tema central é a PENITÊNCIA. A Liturgia insiste, hoje, na autenticidade da penitência, como “rasgar o coração, não apenas as vestes”, como anuncia a Primeira Leitura, retirada da Profecia de Joel. Também, a Liturgia ressalta o caráter interior do jejum, juntamente com as outras “boas obras”, como a esmola e a oração, conforme o ensinamento do Evangelho. A Segunda Leitura retirada da Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios, por sua vez, proclama o “tempo da reconciliação” com Deus, pregada por São Paulo com vistas à iminência da Parusia.

Caros irmãos,

               Na primeira leitura (Jl 2,12-18) Joel é provavelmente um sacerdote-profeta, que vive no Templo, depois do exílio. Fiel ao serviço da Casa de Deus, exorta o povo, que passa por uma grave carestia provocada por uma invasão de gafanhotos (1, 2-2, 10), à oração e à conversão. O próprio culto, no templo, tinha cessado (1, 13.16). O profeta, que sabe ler os sinais dos tempos, anuncia a proximidade do “dia do sennot”, e convida o povo ao jejum, à súplica e à penitência (2, 12.15-17). “Convertei-vos”, grita o profeta. O termo hebraico subjacente é schOb que significa arrepiar caminho, regressar. O povo que virara costas a Deus, devia voltar novamente o coração para Ele, e retomar o culto no templo, um culto autêntico, que manifestasse a conversão interior. O povo pode voltar novamente para Deus, porque Ele é misericordioso (v. 13), e também pode mudar de ideia e voltar atrás (v. 14). Um amor sincero a Deus, uma fé consistente, e uma esperança que se torna oração coral e penitente, darão ao profeta e aos sacerdotes as devidas condições para implorarem a compaixão de Deus para com o seu povo.

 

Prezados irmãos,

Na segunda leitura (cf. 2Cor 5,20-6,2) o Apóstolo clama: “Reconciliai-vos com Deus”, é o apelo de Paulo. A reconciliação é possível, porque essa é a vontade do Pai, manifestada na obra redentora do Filho e no poder do Espírito que apoia o serviço dos apóstolos. O v. 21 é o ponto alto do texto, pois proclama o juízo de Deus sobre o pecado e o seu incomensurável amor pelos pecadores, pelos quais não poupou o seu próprio Filho (cf. Rm 5, 8; 8, 32). Cristo carregou sobre si o pecado do mundo e expiou-o na sua própria carne. Assim, podemos apropriar-nos da sua justiça-santidade. O Inocente tornou-se pecado para nos pudéssemos tornar justiça de Deus. E, agora, o tempo favorável para aproveitar essa graça: deixemo-nos reconciliar (katallássein) com Deus. O termo grego indica a transformação da nossa relação com Deus e, por consequência, da nossa relação com os outros homens. Acolhendo o amor de Deus, que nos leva a vivermos, não já para nós mesmos, mas para Aquele que morreu e ressuscitou por nós (cf. Rm 5,14s.), podemos tornar-nos nova criação em Cristo (cf. Rm 5, 18).

Caros irmãos,

No Evangelho (cf. Mt 6,1-6;16-18) Jesus pede aos seus discípulos uma justiça superior à dos escribas e fariseus, mesmo quando praticam as mesmas obras que eles.: “Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles”. Agora aplica esse princípio a algumas práticas religiosas do seu tempo: a esmola, o jejum e a oração. Há que estar atentos às motivações que nos levam a dar esmola, a orar, a jejuar, porque o Pai vê o que está oculto, os sentimentos profundos do coração. Se buscamos o aplauso dos homens, a vanglória, Deus nada tem para nos dar. Mas se buscamos a relação íntima e pessoal com Ele, a comunhão com Ele, seremos recompensados. Se não fizermos as boas obras com recta intenção somos hypokritoi, isto é, comediantes, e mesmo ímpios, de acordo com o uso hebraico do termo.

A Liturgia da Palavra hoje nos oferece a orientação correta para vivermos frutuosamente a Quaresma, tempo favorável de graça, dia de salvação. Penitência e arrependimento não são caminho de tristeza, de depressão, mas caminho de luz e de alegria, porque, se nos levam a reconhecer a nossa verdade de pecadores, também nos abrem ao amor e à misericórdia de Deus.

O profeta, em nome de Deus, convida o povo a percorrer o caminho da esperança, fazendo penitência; os apóstolos recebem de Deus o ministério da reconciliação; a Igreja repete a boa nova: “É este o tempo favorável” é este o dia da salvação” (cf. 2 Cor 6, 2). Com todo o povo de Deus, somos convidados a arrepiar caminho, a voltar-nos para o Senhor, a deixar-nos reconciliar, a dar a Cristo ocasião de tomar sobre Si o nosso pecado, porque só Ele o conhece e pode expiar. Renovados pelo amor, podemos viver alegre e confiadamente na presença de Deus, nosso Pai, cumprindo humildemente tudo quanto Lhe agrada e é útil para os irmãos. E a presença do Pai, no mais íntimo de nós mesmos, garante-nos a verdadeira alegria.

Jesus, no Evangelho, nos mostra qual deve ser a nossa atitude quando praticamos obras de penitência (tais como a esmola, a oração, o jejum), e insiste na rectidão interior, garantida pela intimidade com o Pai. Era essa a atitude e a orientação do próprio Jesus em todas as suas palavras e obras. Nada fazia para ser admirado pelos homens. Nós podemos ser tentados a fazer o bem para obtermos a admiração dos outros. Mas essa atitude, por um lado, fecha-nos em nós mesmos, por outro lado projeta-nos para fora de nós, tornando-nos dependentes da opinião dos outros.

Há, pois, que fazer o bem porque é bem, e porque Deus é Deus, e nos dá oportunidade de vivermos em intimidade e solidariedade com Ele, para bem dos nossos irmãos. Estar cheios de Deus, viver na sua presença, é a máxima alegria neste mundo, e garante-nos essa mesma situação, levada à perfeição, no outro.

Estimados Irmãos,

               A simbologia do número quarenta na Sagrada Escritura é vasta e rica de significados. Quarenta foram os dias em que Jesus jejuou e rezou no deserto (cf. Mt 4,3), antes de começar a sua vida pública de anúncio do Reino de Deus. Quarenta foram os dias em que Moisés permaneceu no monte em diálogo com Deus (cf. Ex 24,18), antes de receber as tábuas da Lei, que significavam a aliança de Deus com o povo. Quarenta anos foram o tempo em que o povo judeu perambulou pelo deserto rumo à Terra prometida (cf. At 7,36). Quarenta foram os dias que os ninivitas fizeram penitência de seus pecados (cf. Jn 3,4) e quarenta foram os dias que Jesus permaneceu na terra depois de ressuscitado, confirmando os apóstolos na continuidade de sua missão redentora e salvadora.

               Assim vamos viver os quarenta dias da Quaresma deste ano lembrando de nossa condição de pecadores, em profundo jejum e continuada oração, aspirando um dia gozar das alegrias eternas, em perfeita sintonia na fidelidade à aliança com Deus, preparando-nos para uma nova missão, que é a purificação de nossos pecados e a conseqüente penitência, numa palavra especial: a conversão sincera, isto é, o retorno a Deus, que implica um voltar-se também para as necessidades do próximo.

Irmãos e Irmãs,

               Ao impor as cinzas nos fiéis o Celebrante irá anunciar: “Lembra-te que és pó e ao pó tornarás” ou a outra antífona: “Convertei-vos e crede no evangelho!” A primeira alocução nos liga ao início da Sagrada Escritura, quando se diz que Deus fez o homem de barro, e lembra muito concretamente o que sobra do corpo humano. Viemos do barro e voltaremos ao pó. Mas sobre o barro que somos, Deus soprou sua vida divina (cf. Gn 2,7) e nele plantou sementes incorruptíveis (cf. 1 Pd 1,23). Nosso destino nunca foi o pó e nem será. Nosso destino é o horizonte da imortalidade, a vida eterna. Por isso, a ressurreição de Jesus é a garantida da nossa sobrevivência, se formos fiéis ao seu Evangelho de Salvação, conversão sincera e a reta mudança de vida e de comportamento.

               As cinzas nos alertam para as nossas origens e para a nossa morte corporal, nossa origem divina e destino eterno.

               O Tempo da Quaresma tem exatamente o significado de morrer para a velha vida e renascer para a vida da santidade. Ou como nos ensina São Paulo, Apostolo das Gentes, de “nos despojar do homem velho e corrompido... para nos revestir do homem novo, criado segundo Deus, em justiça e verdadeira santidade” (cf. Ef 4,22-24).

Estimados amigos,

               O homem, quando queima no fogo da penitência seus apetites mundanos e seus ídolos, o que sobra são cinzas castas, um coração puro, inteiramente pronto para, da morte, passar para a vida eterna. Devemos gemer de dor pelos dores dos pecados e erros cometidos. Por isso, as cinzas devem significar uma morte a um passado errado e o compromisso de uma vida nova para o dia de amanhã. Causa dor a muitos que, vendo o erro, mesmo procurando uma conversão sincera, não conseguem de muitos irmãos e irmãs de caminhada uma compreensão de sua conversão sincera e de seu propósito de vida. E isso brada aos céus, que pede que perdoemos os pecadores arrependidos quantas vezes forem necessárias, para que sejam associados ao Reino de Deus.

               A cinza, simbolizando a dor e o sofrimento dos pecados, nos quer lembrar que a Quaresma quer ser um retorno aos valores duradouros. É um propício templo de reflexão sobre a transitoriedade das coisas, por mais ricas, preciosas e caras que sejam. As coisas deste mundo, lembra o salmista “são como a erva: de manhã floresce e viceja, de tarde murcha e seca” (cf. Sl. 90,6). Também a palavra e as promessas humanas passam. Viva e eterna é a palavra Salvadora de Deus (cf. 1Pd 1,23). O tempo da Quaresma, portanto, é propício para fazermos um balanço das coisas perecíveis e das coisas eternas.

               Que as cinzas, impostas em sinal de Cruz na fronte de cada fiel, oriundo dos ramos do domingo de Ramos do ano precedente, nos lembre a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, nos lembrando que é preciso morrer para o pecado, porque é morrendo que se vive para a vida eterna.

Caros irmãos,

A Campanha da Fraternidade (CF) 2026, promovida pela CNBB, terá como tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). A campanha visa conscientizar sobre o direito à moradia digna, enfrentando o déficit habitacional no Brasil e focando na dignidade humana, inspirada na figura bíblica da encarnação. 

Detalhes Principais da CF 2026:

  • Tema: Fraternidade e Moradia.
  • Lema: "Ele veio morar entre nós" (Jo 1,14).
  • Objetivo: Promover a moradia digna como direito fundamental e um desafio pastoral, combatendo a visão de moradia como mera mercadoria.
  • Contexto: A campanha aborda um déficit habitacional de 6 milhões de moradias, além de 26 milhões de residências inadequadas e o aumento de pessoas em situação de rua.
  • Ação: A iniciativa, solicitada pela Pastoral da Moradia e Favela, convida à conversão social e à defesa de políticas públicas.
  • Identidade Visual: Apresenta a escultura “Cristo sem-teto”, de Timothy Schmalz, destacando Jesus nas periferias. 

A Quaresma é o tempo favorável para a conversão, e sua primeira exigência é a reconciliação com Deus e com o próximo, o que pressupõe o cultivo de relações sinceras e fraternas. A intimidade com Deus depende substancialmente da maneira de lidar com o próximo. Incentivar a participação intensa nos sacramentos, para que todos aproveitem “o tempo favorável”. Recomendar a prática da esmola, da oração e do jejum em sintonia com as necessidades concretas da comunidade e com o tema da Campanha da Fraternidade.

O Jesus que jejua, o Jesus que se dedica à oração, deve ser visto à luz do Cristo transfigurado. Toda a caminhada de conversão dos cristãos só tem sentido à luz da ressurreição pregustrada no Tabor. Celebremos, pois, com estas cinzas a vocação do ser humano, chamado à imortalidade feliz, contanto que realize o mistério pascal de morte e vida em sua vida terrena. Amém!

 

Padre Wagner Augusto Portugal.

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