Humildade:
o alicerce das virtudes. Hoje quero apresentar a virtude da humildade. Como
exercer atos de humildade na prática e por que um espírito humilde é importante
para a vida espiritual? A humildade é o alicerce sobre o qual todas as virtudes
se constroem. Ela nos ensina a reconhecer nossa verdadeira posição diante de
Deus e dos outros, sendo essencial para o nosso crescimento espiritual. Sem
humildade, a busca pela santidade se torna impossível, pois ela nos liberta do
orgulho e nos abre para a graça divina.
Além
disso, a humildade é fundamental nas nossas relações com o próximo,
permitindo-nos viver com mais leveza, compaixão e caridade. Neste artigo,
exploraremos como a humildade é importante para nos desenvolvermos
espiritualmente e como ela influencia nossas ações no cotidiano, fazendo-nos
mais próximos de Deus e dos outros.
O
que é a virtude da humildade?
A
humildade, muitas vezes mal compreendida, não é consequência de timidez ou
baixa autoestima. Pelo contrário, é a verdade vivida com integridade:
reconhecer quem somos diante de Deus, com nossas misérias e dons, sem nos
elevar acima dos outros nem nos rebaixar falsamente. Por isso, a humildade é o
fundamento de todas as virtudes, pois sem ela não há abertura para a graça.
De
acordo com São Francisco de Sales: A humildade consiste em fazer um ato para
se humilhar; o hábito da humildade é fazer isso em toda oportunidade e em todas
as ocasiões; já o espírito de humildade é se agradar na humilhação, buscar a
abjeção e a humildade em todas as coisas.
Este
santo distingue três graus de virtude. Primeiro, o ato de humildade, que
consiste em um gesto concreto de reconhecimento da própria pequenez. Depois, o
hábito da humildade, quando esse gesto se torna uma disposição constante da
alma. Por fim, o espírito de humildade, que leva a pessoa a não só buscar
sempre humilhar-se, mas alegrar-se com a humilhação.
Assim,
a verdadeira humildade não é uma negação da dignidade humana, mas uma condição
para que Deus cresça em nós. Quem se admite pequeno diante do Criador torna-se
grande aos Seus olhos: “Porque todo aquele que se exaltar será humilhado, e
todo aquele que se humilhar será exaltado”.
O
exemplo de humildade em Nossa Senhora
Maria,
em sua resposta ao Anjo Gabriel, ensina-nos a verdadeira humildade: “Eis
aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. Não há aí
nenhum vestígio de autossuficiência ou de orgulho pela graça recebida. Pelo
contrário ao responder aos louvores que o anjo lhe faz, dizendo que seria
Mãe de Deus, que o filho que havia de nascer de suas entranhas seria chamado
Filho do Altíssimo — a mais elevada dignidade que se possa imaginar — ela opõe,
digo, a todas essas grandezas, a sua baixeza e indignidade, declarando-se
escrava do Senhor.
Diante
da grandeza do chamado que recebe, Maria não se deixa seduzir pela glória que
lhe é atribuída; ela se coloca como serva do Senhor, e é nessa posição que
encontra o verdadeiro propósito de sua vida. Assim, ao oferecer-se à vontade de
Deus, Maria revela que a verdadeira grandeza aos olhos do Pai está na humildade
que a torna instrumento puro de Seu amor.
Humildade
nas pequenas ações
Viver
a humildade no dia a dia é fundamental para cultivar as relações e nos
aproximar de Deus. Ao considerar nossas limitações, vivemos com mais leveza e
honestidade, sem o peso das expectativas irreais sobre nós mesmos. Quando somos
humildes, consideramos os outros superiores a nós, valorizando suas qualidades
e tratando-os com respeito, o que, sem dúvida, transforma os nossos
relacionamentos.
Interpretar
o próximo com caridade
Interpretar
o próximo com caridade é um exercício constante de humildade e generosidade.
Muitas vezes, somos rápidos em julgar os interesses alheios, atribuindo-lhes
malícia ou erro, quando, na verdade, são nossas próprias limitações que
distorcem a percepção da realidade. São Francisco de Sales nos adverte: Devemos sempre interpretar da melhor forma
possível as ações do próximo; e, nas coisas duvidosas, devemos nos persuadir de
que o que percebemos não é algo ruim, mas que é nossa própria imperfeição que nos
causa tal pensamento.
A
humildade lembra-nos de que também somos falhos e que, assim como desejamos
compreensão, devemos também oferecê-la aos outros. Interpretar o próximo com
caridade não quer dizer ignorar as falhas alheias, mas evitar julgamentos
precipitados e substituir a suspeita pela misericórdia. Muitas vezes, a falta
de paciência para com os defeitos dos outros reflete nossas próprias
imperfeições. Agir assim não significa ignorar os erros — uma vez que o próprio
Jesus ensina-nos como exortar o próximo, quando necessário —, mas escolher um
olhar que edifica, em vez de condenar.
A
prática da abjeção
A
humildade também nos chama a renunciar a tudo aquilo que não é essencial para o
nosso crescimento espiritual. Como nos ensina São Francisco de Sales: A
humildade nos leva a nos apagar em todas as coisas que não são necessárias para
o nosso progresso na graça, como o bem falar, a boa postura, o talento no
manuseio de coisas exteriores.
A
verdadeira humildade revela-se quando nos desapegamos dessas preocupações e nos
concentramos no que realmente importa: o serviço a Deus e ao próximo. Ao
deixarmos de lado o desejo de reconhecimento nas pequenas — e, posteriormente,
nas grandes — ações, a humildade transforma-se em uma prática constante,
guiando-nos para o verdadeiro espírito humilde.
Como
cultivar a virtude da humildade?
A
humildade não é adquirida de uma só vez, mas formada por meio de atos repetidos
que moldam o coração e a alma. Para crescer nessa virtude, é necessário um
esforço contínuo de vigilância e entrega à graça de Deus.
Um
caminho seguro é aceitar as correções com serenidade, sem resistência ou
justificativas. A humildade floresce quando reconhecemos as nossas fragilidades
e evitamos fazer qualquer julgamento em relação ao outro.
Reconhecer
nossos defeitos e limitações
A
humildade começa quando aceitamos nossa fragilidade sem desânimo, mas com
confiança na misericórdia divina. Reconhecer nossas limitações torna-nos mais
pacientes com as falhas alheias, pois compreendemos que todos enfrentamos lutas
internas.
Seguindo
o conselho de São Francisco de Sales: Devemos nos humilhar pelos defeitos do
próximo como se fossem nossos, e rezar a Deus pelo seu melhoramento, com o
mesmo coração com que faríamos se estivéssemos sujeitos aos mesmos defeitos. 1Em
vez de alimentar indignação ou ressentimento, somos chamados a rezar
sinceramente pelo outro, cientes de que todos dependemos da graça de Deus.
Evitar
julgamentos temerários
A
humildade também se manifesta na maneira como interpretamos as ações alheias.
Quem é humilde não se apressa em julgar, mas procura sempre enxergar o bem
antes de suspeitar do mal. Interpretar as ações alheias com caridade livra-nos
da arrogância de nos colocarmos como juízes dos demais. Em vez de condenar
apressadamente, devemos lembrar que apenas Deus conhece plenamente os corações.
Esse olhar misericordioso ajuda-nos a viver com mais paz e a construir relações
mais harmoniosas e felizes.
São
Francisco de Sales recomenda um exercício que nos ajuda a evitar julgamentos
precipitados e a desenvolver um olhar benevolente para com os outros: É uma
boa prática da humildade não olhar as ações alheias senão para lhes destacar as
virtudes, e nunca as imperfeições; pois, se não estamos encarregados de
corrigi-las, não devemos voltar nossos olhos para esse lado, nem nossa
consideração.
O
papel da humildade no progresso espiritual
A
humildade é a virtude que abre as portas do progresso espiritual, pois nos
conduz à verdadeira santidade. Ela nos ensina a reconhecer nossa total
dependência de Deus, distanciando-nos do orgulho e da autossuficiência que
muitas vezes nos afastam do Senhor. E o meio de adquirir o espírito humilde —
destaca São Francisco de Sales — é o mesmo que para todas as outras virtudes:
por atos repetidos.
Esta
virtude é, antes de tudo, o fundamento da oração. Sem ela, nossa oração se
torna vazia, pois a verdadeira oração nasce da consciência de que somos, por
natureza, mendigos da graça divina. Como São Paulo escreveu aos Romanos 5: “não sabemos o que devemos pedir, nem orar
como convém […]”, pois só um espírito verdadeiramente humilde reconhece a
sua incapacidade de buscar o que é bom sem a ajuda de Deus.
Portanto,
cultivar a humildade é o primeiro passo para crescer em virtudes,
permitindo-nos viver uma vida de oração genuína e de entrega ao amor divino.
Padre Wagner Augusto Portugal.
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