“Sede o rochedo que me abriga, a casa bem defendida que me salva.
Sois minha fortaleza e minha rocha; para honra do vosso nome, vós me conduzis e
alimentais” (Sl 30,3-4).
Meus
queridos irmãos,
Deus dá a liberdade para o homem
escolher entre o bem e o mal: a isso damos o nome de capacidade moral. A
primeira leitura da liturgia deste sexto domingo do tempo comum, retirada do
Livro do Eclesiástico (cf. Eclo 15,15-20) critica o pecado que é inevitável;
depois Deus não se preocupa com os humanos e os seus pecados. O homem tem o seu livre arbítrio, por isso
mesmo ele é livre para escolher entre o bem e o mal. Deus apenas quer que
sejamos fiéis a ele e optemos pelo seu caminho livre das paixões desordenadas e
pelo seu projeto de salvação.
O livro do Eclesiástico
é um livro “sapiencial” – isto é, um livro cujo objetivo é apresentar
indicações de caráter prático, deduzidas da reflexão e da experiência, sobre a
arte de viver bem, de ter êxito, de ser feliz (é essa a temática da reflexão
sapiencial no Médio Oriente, em geral, e em Israel, em particular). O seu autor
é um tal Jesus Ben Sira, um judeu tradicional, convencido que a Tora (a Lei)
dada por Deus a Israel é a súmula da sabedoria. Estamos no início do séc. II
a.C.; a cultura grega (instalada na Palestina desde 333 a.C., quando Alexandre
da Macedônia venceu Dario III, em Issos, e se apossou da Palestina e do Egito)
minava há já algum tempo, a cultura, a fé, os valores tradicionais de Israel.
Os mais jovens abandonavam a fé dos pais, seduzidos pelo brilho superior dessa
cultura universal, que era a cultura helênica. Jesus Ben Sira escreve para
ajudar os israelitas a perceber a singularidade da sua fé e da sua cultura, a
fim de que não se perca a identidade do Povo de Deus. Apresenta, na sua obra,
uma síntese da religião tradicional e da sabedoria de Israel, mostrando que a
cultura judaica não fica a dever nada à brilhante cultura grega. Nos capítulos
14 e 15 do Livro do Eclesiástico, há uma reflexão sobre como encontrar a
verdadeira felicidade. É nesse contexto que devemos situar o nosso texto:
dirigindo-se aos seus concidadãos, seduzidos pela cultura grega, Jesus Ben Sira
sugere-lhes o caminho da verdadeira felicidade e convida-os a percorrê-lo.
O tema da opção entre dois caminhos – o caminho da
vida e da felicidade e o caminho da morte e da desgraça – é um tema caro à
teologia tradicional de Israel. Para os teólogos deuteronomistas, essa é a
grande questão que condiciona o sentido da vida do homem e o sentido da
história: se o homem escolhe caminhos de orgulho e de auto-suficiência, à
margem de Deus e dos mandamentos, prepara para si e para a comunidade em que
está inserido um futuro de morte e de desgraça; mas se o homem escolhe viver no
“temor” de Deus e no respeito pelas propostas de Deus (mandamentos), ele
constrói para si e para o seu Povo um futuro de felicidade, de bem estar, de
abundância, de paz. A questão está muito bem expressa em Dt 30,15-20. A
reflexão sapiencial tradicional mantém-se na mesma linha. Os “sábios” de Israel
já perceberam (inclusive a partir da experiência que a própria história da sua
nação lhes forneceu) que, quando respeita as indicações de Deus (mandamentos),
o Povo constrói uma sociedade fraterna, livre, solidária, onde todos se
respeitam e têm o que é necessário para viver de forma equilibrada e feliz; mas
quando o Povo escolhe caminhos à margem de Jahwéh e faz “orelhas moucas” às
propostas de Deus, constrói egoísmo, exploração, divisão e, portanto,
sofrimento, privações, morte. As grandes catástrofes nacionais (nomeadamente o
exílio na Babilônia) resultaram de opções por caminhos à margem de Deus e dos
seus mandamentos. Neste texto, autor pretende colocar os homens do seu tempo –
sobretudo aqueles que oscilavam entre os valores da fé dos pais e os valores
mais “in” da cultura dominante – diante da opção fundamental que a liberdade
lhes oferece: a vida e a morte, a felicidade e a desgraça. Um pormenor notável
reside na convicção (aqui muito bem expressa) de que Deus respeita
absolutamente a liberdade do homem. O homem não é, segundo o Eclesiástico, um
títere nas mãos de Deus, ou um robot que Deus liga e desliga com o seu comando;
mas o homem é um ser livre, que faz as suas escolhas (escolhas que condicionam,
necessariamente, o seu futuro) e que tem nas suas mãos o próprio destino. Deus
indica ao homem os caminhos para chegar à vida e à felicidade; mas, depois,
respeita absolutamente as opções que o homem faz. Resta ao homem fazer as suas
escolhas e construir o seu destino: ou com Deus, ou contra Deus; ou um destino
de vida e felicidade, ou um destino de morte e de desgraça.
Na primeira leitura (cf. Eclo 15,15-20) a questão fundamental que é posta é esta: existem
caminhos diversos, opções várias, que dia a dia nos interpelam e desafiam. Em
cada momento, corremos o risco da liberdade, assumimos o supremo desafio de
escolher o nosso destino. A outra proposta leva à morte. É o caminho daqueles
que escolhem o egoísmo, a auto-suficiência, o orgulho, o isolamento em relação
a Deus e às suas sugestões. Ao fechar-se em si e ao ignorar as propostas de
Deus, o homem acaba por escolher os seus interesses e por manipular o mundo e
os outros homens, introduzindo desequilíbrios que geram injustiça, miséria,
exploração, sofrimento, morte. Talvez nenhum de nós escolha, conscientemente,
este caminho; mas o orgulho, a ambição, a vontade de afirmar a nossa
independência e liberdade, podem levar-nos (mesmo sem o notarmos) a passar ao
lado dos “sinais” de Deus e a ignorá-los, resvalando por atalhos que vão dar ao
egoísmo, ao fechamento em nós. Em cada dia que começa, é preciso fazer o
balanço do caminho percorrido e renovar as nossas opções. A primeira leitura
coloca a questão da liberdade. A Palavra de Deus que aqui nos é proposta deixa
claro que Deus nos criou livres e que respeita absolutamente as nossas opções e
a nossa liberdade. Deus não é um empecilho à liberdade e à realização plena do
homem. Ele coloca-nos diante das diferentes opções, diz-nos onde elas nos
levam, aponta o caminho da verdadeira felicidade e da realização plena e…
deixa-nos escolher.
Caros fiéis,
O Evangelho deste domingo nos é
muito caro (cf. Mt 5,17-37 ou 5,20-22a.27-28.33-34a.37) que nos apresenta a
verdadeira JUSTIÇA. Não esta justiça míope, midiática que muitas vezes estamos
assistindo, que não se atêm aos autos, mais ao aplauso fácil. Não esta justiça
dos que a triunfam pelos advogados caros.
Jesus tem uma relação coma LEI.
Jesus não quer facilitar, não quer abolir a Lei, mas quer reformar a Lei,
salvando-a do puro formalismo, a observância meramente exterior para
"ganhar o céu". A verdadeira Lei é aquela que nos coloca diante de Deus,
a lei que liberta, que é amor, que é caridade, que é acima de tudo fazer
somente a vontade do Pai, conforme o desejo de Jesus.
Nós todos sabemos que não basta
seguir as leis para ser justo. Afinal de contas quem usa muito a lei para punir
os outros está escondendo a sua própria perversidade. As leis devem ser
observadas de maneira pessoal, consciente daquilo que estamos fazendo, tentando
realizar o bem que a Lei propõe. Vivamos o espírito da Lei, tanto a Lei de
Deus, resumida nos dez mandamentos e resumida no mandamento maior: "Amar a
Deus sobre todos as coisas e ao próximo como a si mesmo". Já dizia um
velho pregador mineiro que quem não ama o seu irmão é réu da sua própria
condenação. O Espírito da Lei Divina é aquela que produz a vida, que liberta,
que transforma.
A Lei Mosaica, venerada pelos
patriarcas e profetas, é a sabedoria e o espírito de Deus, conforme cantarmos
na missa deste domingo: “Feliz o homem sem pecado em seu caminho, que na lei
do Senhor Deus vai progredindo!” (cf. Sl 119). O que o salmo nos ensina,
andando nos caminhos de Deus, para ser justo é o seguimento perfeito do caminho
de Deus. Por isso, já neste salmo, encontramos que a Lei é uma luz, um caminho,
uma razão de orgulho perante os outros povos. Por isso os mandamentos lhes eram
oferecidos para poderem apanhar o bem que Deus lhes propunha.
Observamos que os fariseus faziam
uma barganha com Deus, cumprindo rigorosamente o que mandava a lei, sendo
justos e pensavam ganhar o paraíso. Eles ficaram donos da Lei para fazer dela
até um instrumento de dominação. E, infelizmente, isso continua no mundo atual
quando os déspotas e ditadores, os autossuficientes, os donos da verdade, usam
da lei para dominar, para humilhar, para perseguir, para matar, passando por
cima de tudo e chegando-se ao absurdo de se acharem impunes ou imunes da Lei de
Deus. O adágio popular canta: "A lei dos homens pode ser comprada, mais a
lei de Deus não, e o castigo vem a cavalo, a quem usurpa da lei para conseguir
seus propósitos".
Caros fiéis,
Jesus quer tirar a Lei dos fariseus
e escribas e renovar, como que restaurando a Lei de Deus, a vontade de Deus,
que reside unicamente no seu amor e na sua fidelidade. Jesus não veio abolir a
Lei e muito menos ele é contrário a Lei, mais quer purificar a Lei, buscando a
perfeição, superando o farisaísmo legalista e deixando o Espírito de Deus agir.
A novidade da interpretação que
Jesus faz da Escritura está na explicitação da intenção de Deus ao dar os
mandamentos. Não basta, por exemplo, não matar. Devem-se evitar as palavras de
desamor, de desprezo, de ressentimento contra o próximo. Era essa a intenção de
Deus ao dar o mandamento “não matarás”. “Deixa tua oferta diante do altar” (v.
24). No dia da expiação (ou do perdão, cf. Lv 16), os judeus confessam os
pecados cometidos contra Deus e pedem perdão durante 24 horas. Mas acreditam
que os pecados contra o “próximo” devem ser perdoados por quem sofreu a ofensa,
e não por Deus; por isso, primeiramente pedem perdão ao próximo, para depois se
dirigirem a Deus. Jesus faz uma mudança em relação ao judaísmo, afirmando que
não somente num dia especial, mas todos os dias, os cristãos devem pedir perdão
ao seu próximo para depois dirigir-se a Deus.
Ser justo passa por uma radical
conversão. Por isso o espírito da justiça até no cumprimento dos mandamentos da
Lei de Deus necessita de uma interpretação tranquila. Muitas pessoas não matam
fisicamente, mas sufocam psicologicamente o seu irmão por desprezo, rixo,
inveja, disputa de poder, mania de perseguição, destruição completa do irmão.
Lembremos, pois, que diante de Deus
ninguém é sem pecado (cf. Sl 130,3). Os fariseus viviam a lei pelos critérios
humanos. Nós somos chamados a viver a Lei pela vontade de Deus, pelo amor, pela
consciência de que Ele é nosso Pai.
Caros irmãos,
Os discípulos de Jesus são convidados a viver na
dinâmica do “Reino”, isto é, a acolher com alegria e entusiasmo o projeto de
salvação que Deus quis oferecer aos homens e a percorrer, sem desfalecer, num
espírito de total adesão, o caminho que conduz à vida plena. Cumprir um
conjunto de regras externas não assegura, automaticamente, a salvação, nem
garante o acesso à vida eterna; mas, o acesso à vida em plenitude passa por uma
adesão total (com a mente, com o coração, com a vida) às propostas de Deus.
Irmãos e Irmãs,
A Primeira Carta de São Paulo aos
Coríntios (cf. 1Cor 2,6-10) começa mostrando a fraqueza humana no início da
obra evangelizadora. Só o fiel amadurecido pode alcançar a grandeza da fé,
porque ele está vivendo o mistério, particularmente o mistério da Cruz. Deus
destrona os poderosos e exalta os humildes, os perseguidos. A sabedoria de que
São Paulo fala é a cruz, na qual Cristo revela o Deus despojado. Na fragilidade
de sua vida humana e totalmente ofertada ao Pai como dom de amor, Jesus
desvenda aquilo que Deus “preparou desde toda a eternidade” para os seres
humanos: o amor ao extremo. É, pois, na adesão à vida de Cristo que consiste em
a sabedoria divina, não reconhecida pelos poderosos, porque foge da lógica
deste mundo. Somente aquele que se despoja da própria vida será capaz de
reconhecer a sabedoria de Deus, que é Jesus Cristo crucificado.
Continuamos no ambiente da comunidade cristã
de Corinto e à volta da discussão sobre a verdadeira sabedoria. Recordemos que
o ponto de partida para a reflexão de São Paulo é a pretensão dos coríntios em
equiparar a fé cristã a um qualquer caminho filosófico, que devia ser
percorrido sob a orientação de mestres humanos (para uns, Paulo, para outros
Pedro, para outros Apolo), à maneira do que se fazia nas escolas filosóficas
gregas. Os coríntios corriam, dessa forma, o risco de fazer da fé uma
ideologia, mais ou menos brilhante conforme as qualidades pessoais ou a
elegância do discurso dos mestres que defendiam as teses. São Paulo está
consciente, no entanto, que o único mestre é Cristo e que a verdadeira
sabedoria não é a que resulta do brilho e da elegância das palavras ou da
coerência dos sistemas filosóficos, mas é a que resulta da cruz. Depois de
denunciar a pretensão dos coríntios em encontrar nos homens a verdadeira
proposta de sabedoria para chegar a uma vida plena, São Paulo vai apresentar –
de forma mais desenvolvida – a “sabedoria de Deus”.
São Paulo, na sua ação missionária ao falar
da “sabedoria de Deus” é o mesmo que falar do projeto de salvação que Deus
preparou para a humanidade (noutros textos, Paulo usa um outro conceito para
falar da mesma coisa: “mystêrion” – cf. Rm 16,25; Ef 1,3-10; 3,3.4.9; Col 1,26;
2,2; 4,3). Trata-se de um plano “que Deus preparou para aqueles que o amam”, no
sentido de os levar à salvação, à vida plena. Esse plano resulta do amor e da
solicitude de Deus pelos seus filhos, os homens. É um plano que o próprio Deus
manteve misterioso e oculto durante muitos séculos, e só revelou através do seu
Filho, Jesus Cristo (antes de revelação feita através das palavras, dos gestos,
da pessoa de Cristo, dificilmente os homens estariam preparados para
compreender o alcance e a profundidade do plano divino, da “sabedoria de Deus”).
Na leitura que São Paulo faz da história da salvação, as coisas são claras:
Deus escolheu-nos desde sempre e quis que nos tornássemos santos e
irrepreensíveis, a fim de chegarmos à vida eterna, à felicidade total, à
realização plena. Por isso, veio ao nosso encontro, fez aliança conosco,
indicou-nos os caminhos da vida e da felicidade; e, na plenitude dos tempos,
enviou ao nosso encontro o seu próprio Filho, que nos libertou do pecado, que
nos inseriu numa dinâmica de amor e de doação da vida e que nos convocou à
comunhão com Deus e com os irmãos. Na cruz de Jesus, está bem expressa esta
história de amor que vai até ao ponto de o próprio Filho dar a vida por nós. Esse
plano de salvação continua, agora, a acontecer na vida dos batizados pela ação
do Espírito: é o Espírito que nos anima no sentido de nascermos, dia a dia,
como homens novos, até nos identificarmos totalmente com Cristo.
Prezados irmãos,
Observar os mandamentos do Senhor, com toda a profundidade com
que Jesus os reinterpretou, conduz o cristão ao caminho da salvação. Nossa
observância da Palavra normativa de Deus nos possibilita a entrada no Reino de
Deus? Nossa justiça é maior do que a dos “escribas e fariseus”? A
comunidade cristã propicia criatividade e generosidade, tal como exigem as
normas divinas? Nela há espaço para todos? Promove a reconciliação entre os
irmãos e irmãs, para que a liturgia seja comunhão fraterna? Sou
maduro(a) na fé? E minha comunidade? Conheço a vontade do Pai para poder
escolher, com liberdade, o bem e a vida? Minha comunidade promove formação para
que todos tenham acesso ao conhecimento da Palavra de Deus?
Hoje, em pleno Carnaval, devemos aproveitar para aprofundar uma
reflexão mais ampliada sobre a Lei e os Profetas contidos nas Escrituras, quando
devemos perceber que a nova ética construída por Jesus está baseada no amor
profundo, compromissado com o outro, na construção de uma sociedade mais justa,
fraterna e igualitária. Deus nos ajude a compreender que as nossas ações no
cotidiano da vida têm consequências, que plantar o bem é ter a certeza de que
colheremos bondade, não obstante as vicissitudes encontradas no caminho da
existência, marcada pela finitude e, muitas vezes, por incompreensões. Esperemos,
com fé, que nossas comunidades sejam estimuladas a vivenciar com sabedoria
divina este tempo que nos prepara para a Quaresma que está chegando.
Os batizados são, em consequência deste
dinamismo de esperança que o projecto de salvação de Deus introduz na nossa
história, pessoas que olham a vida com os olhos cheios de confiança, que sabem
enfrentar sem medo nem dramas as crises, as vicissitudes, os problemas que o
dia-a-dia lhes apresenta, e que caminham cumprindo a sua missão no mundo, em
direcção à meta final que Deus tem reservada para aqueles que O amam.
Jesus pede que cada um de nós
carregue a sua cruz, e na fidelidade ao seu Evangelho, façamos a vontade do
Pai, com o auxílio do Espírito Santo, para que a lei suprema seja a caridade e
o amor ao próximo, banindo qualquer tipo de preconceito ou de perseguição pela
falsa lei e pelos falsos legisladores e intérpretes da lei que mata. A lei deve
ser libertadora!
Padre Wagner
Augusto Portugal.

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