“Meu
coração disse: Senhor, buscarei a vossa face. É vossa face, Senhor, que eu
procuro, não desvieis de mim o vosso rosto!” (cf. Sl. 26, 8s).
Meus
queridos irmãos,
A
liturgia da Santa Igreja nos apresenta, a cada ano, no segundo domingo da
Quaresma o Evangelho da Transfiguração, no início da subida de Jesus a
Jerusalém, onde ele levará a termo à vontade do Pai. Somos hoje convidados a
acompanhar Jesus neste caminho. Nesta caminhada, para não desfalecermos em
nossa fé, é bom termos diante dos olhos – como João, Tiago e Pedro, as
privilegiadas testemunhas, a glória daquele que vai ser aniquilado, o Filho e
Servo de Deus. E somos convidados a escutarmos a voz que sai da nuvem:
“Escutai-o”.
A primeira leitura (cf. Gn 12,1-4)
nos apresenta a vocação de Abraão: “Sai
da tua terra!” (cf. Gn 12,1). Largar o que consideramos adquirido é a
condição para caminhar no rumo que Deus indica. A Segunda Leitura é um breve
comentário a este largar. A Segunda Leitura (cf. 2Tm 1,8b-10) nos aponta a
vocação santa que recebemos em Cristo, no qual resplandece a vitória sobre a
morte. Essa vitória final, Pedro, Tiago e João a viram antecipadamente, e
atestada por Moisés – a Lei – e Elias – os Profetas, no monte da
Transfiguração. A visão desta glória é acompanhada pela voz: “Escutai-o”, o que lembra o “Ouve Israel” de Dt 6,4. É um prelúdio
da ressurreição – por isso as testemunhas devem guardar o silêncio até que esta
se realize.
Caros
irmãos,
A primeira leitura de hoje (cf. Gn
12,1-4a) tem como tema central a interpelação de Deus a Abraão. Segundo o autor
sagrado, Deus chamou Abraão, convidou-o a deixar a sua terra e a sua família e
a partir ao encontro de uma outra terra; ligado a este convite, aparece uma
bênção e a promessa de a família de Abraão se tornar uma grande nação. Porquê
esta iniciativa de Deus? Porquê o chamamento a este homem, em particular? O
catequista sagrado deste texto não dá qualquer tipo de explicação. Temos aqui
um exemplo perfeito desse mistério, sempre novo e sempre sem explicação,
chamado “vocação”. Como é que Abraão reage ao chamamento de Deus? É preciso ter
em conta que, para os antigos, abandonar a terra (o horizonte natural onde o
clã vive e onde tem as suas referências – inclusive em termos de paisagem), a
pátria (isto é, o espaço onde o clã encontra o afeto e a solidariedade e, além
disso, o seu espaço protegido por usos, leis e costumes) e a família (o círculo
familiar íntimo, onde o homem encontra o apoio e o seu complemento), era pouco
menos do que irrealizável. Abraão será capaz de arriscar tudo, deixando o
seguro para apostar em algo nebuloso e incerto? Diante do desafio de Deus,
Abraão permanece mudo, sem discutir nem objectar. Com consumada mestria, o
autor sagrado limita-se a descrever a sequência dos acontecimentos, como se as
ações de Abraão valessem por mil explicações: o patriarca, simplesmente, pôs-se
a caminho. O verbo “yalak” utilizado no vers. 4 (“ir”, “partir”, “pôr-se a
caminho”) tem uma força extraordinária e expressa a audácia do crente que é
capaz de arriscar tudo, de deixar o seguro para apostar em algo que não é
certo, confiando apenas na Palavra de Deus. Trata-se de um rasgo maravilhoso,
que define uma atitude de fé radical, de confiança total, de obediência
incondicional aos desígnios de Deus. Esta é uma das passagens onde o que se
conta de Abraão tem um valor de modelo: o autor sagrado pretende ensinar aos
seus concidadãos a obediência cega às propostas de Deus. Deus, por sua vez,
compromete-se com Abraão e acena-lhe com uma promessa. A promessa expressa-se,
neste contexto, através da bênção (a raiz “abençoar” é repetida cinco vezes,
nestes poucos versículos). A bênção é uma comunicação de vida, através da qual
Deus realiza a sua promessa de salvação. Na promessa aqui formulada, a bênção
concretiza-se como descendência numerosa (noutros textos das “tradições
patriarcais”, a bênção de Deus é, além da descendência numerosa, promessa de
uma terra).
Particularmente importante, neste
contexto da promessa é a ideia de que o Povo nascido de Abraão será uma fonte
de bênção para todas as nações (vers. 3c): inaugura-se, aqui, a ideia de que
Israel é o centro do mundo e de que a sua “vocação” é ser testemunha da
salvação de Deus diante de todos os povos da terra. Não se trata de um
privilégio concedido a Israel, mas de uma responsabilidade.
A figura de Abraão que nos foi
apresentada pelos catequistas de Israel tem sido, ao longo dos tempos, uma
figura inspiradora para todos os batizados. Abraão é o homem que encontra Deus,
que está atento aos seus sinais e sabe interpretá-los, que responde aos
desafios de Deus com uma obediência total e com uma entrega confiada. Esta
figura constitui uma interpelação muito forte a esse homem moderno que nunca
tem tempo para encontrar Deus nem para perceber os seus sinais, pois está
demasiado ocupado a ganhar dinheiro ou a construir a carreira profissional.
A figura de Abraão questiona, também,
o homem instalado e comodista, que prefere apostar na segurança do que já tem,
em vez de arriscar na novidade de Deus, ou deixar que a Palavra de Deus ponha
em causa os seus velhos hábitos, a sua forma de vida e a sua instalação.
Por detrás da história da humanidade
há um Deus que tem um projeto para os homens e para o mundo e que esse projecto
é de amor e de salvação. Apesar de os homens O ignorarem e prescindirem das
suas orientações e propostas, Deus continua a vir ao seu encontro, a
desafiá-los a caminhar em direcção ao novo, a propor-lhes ir mais além. O
homem, por sua vez, é convidado a participar neste projecto, por meio da fé
(entendida como adesão plena aos planos de Deus).
Estimados
Irmãos,
Jesus veio refazer em definitivo e
ampliar ao máximo a aliança de Deus com o povo. A grande aliança de Deus com o
povo no deserto acontecera no alto do Sinai, e as tábuas da Lei eram o sinal
concreto, visível e viável do pacto entre Deus e o povo eleito: “Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu
povo” (cf. Lv 26,12). Jesus está agora caminhando para o momento decisivo
da recriação da aliança entre Deus e o povo, está para fazer “a nova e eterna aliança”, como dizem as
palavras da Consagração da Missa, já não mais gravada em pedra, mas escrita com
seu sangue no coração de cada criatura humana.
No Sinai, o povo traiu a aliança, e
preferiu um bezerro de ouro (cf. Ex 32). Agora, pouco antes do episódio da
Transfiguração, o povo se divide: a maioria se nega a aceitar a pregação de
Jesus; e a minoria torna-se a dividir: uns esperam para logo um reino terreno
de liberdade política, liderado por Jesus; outros estão perplexos, apesar da
declaração de Pedro, que professara em nome dos doze: “Tu és o Cristo, Filho do Deus vivo” (cf. Mt 16,16). Tanto a incredulidade da maioria quanto o
comportamento dúbio da minoria vêm anotados por Mateus no contexto da
Transfiguração. Jesus seleciona três entre os que ainda podiam crer, e que se
tornariam “as colunas da Igreja” (Cf.
Gl 2,9), e os leva para o monte, confirma-lhes o caminho da paixão como
passagem obrigatória para a ressurreição, o milagre-prova para todo o sempre da
nova e eterna aliança.
Amados
irmãos,
Abraão vivia em Ur dos Caldeus,
aproximadamente 1800 anos antes de Cristo. Ur seria o Iraque atual. Deus o
chama e ele obedece. Vamos notar que é Deus que o chama. Na história da
humanidade e na história de cada um há sempre um chamado de Deus. Deus sempre
precede aos nossos pensamentos e decisões. Contudo, o chamado gratuito de Deus
se perde, se não houver a colaboração nossa com respeitosa resposta, pronto
atendimento ao chamado do Senhor. Deus nos deu a inteligência, à vontade e os
sentimentos suficientes para perceber o chamado divino e decidir aceitar ou não
aceitar a sua convocação. O chamado de Deus – e está tão claro na história de
Abraão – nem sempre vem com explicações ou com promessa de recompensas; pode
ser até muito exigente, como o foi no caso de Abrão: teve de deixar sua terra,
sua tribo, sua família; teve de partir para uma terra desconhecida. Teve de “morrer” para um passado e recomeçar
tudo do nada, até mesmo sem saber o que significava esse recomeçar.
Simplesmente confiou, plena e completamente, na vontade de Deus. Essa deve ser,
caros amigos, a nossa atitude.
Abraão deve ser para nós o pai da
confiança na misericórdia e na vontade de Deus. Confiou profundamente e com
tanta unção que por um fio quase sacrificou o seu filho Isaac (cf. Gn 21,1-19).
Por isso, pela sua fé radical, Deus o fez e o proclamou pai de um povo
abençoado, o povo eleito.
A fé de Abraão, de sua descendência,
brota inumeráveis bênçãos, das quais a maior de todas é Jesus de Nazaré, o
Filho de Deus que se encarna no seio de uma mulher abrâanica.
Estimados
amigos,
Os apóstolos estavam na mesma
posição de Abraão. Jesus os convoca para serem testemunhas e protagonistas da
nova criação, da nova Terra Prometida, que Jesus chamou de “Reino de Deus”. Mas tudo isso foi possível porque os discípulos
saíram de si mesmos, tiveram que deixar de pensar curto com a inteligência
humana, mas aos olhos da fé que tudo vence. Ultrapassaram a visão humana do
projeto divino. Acreditaram no desconhecido. Abraçaram a vontade de Deus.
Arrancaram seus próprios interesses para carregar a cruz com Jesus e com Ele
morrer no Calvário. Abraão creu no Senhor, mesmo quando o Senhor pedia a morte
do seu único filho. Os apóstolos, e nós hoje, devemos crer em Jesus, mesmo
vendo-o pregado na cruz. Na obediência e no serviço solidário vamos haurir as
bênçãos celestiais e a filiação por parte do Senhor Deus.
Abraão e o Calvário: duas histórias
que nos acompanham por dentro de todo o caminhar de nossa existência. Obedecer
à vontade de Deus ou compreendê-la eis o dilema para nossa vida. A Transfiguração
é escola de fé. A glória passa pelo pedágio da cruz, sem alternativa. Abraão
caminho sozinho. Os discípulos caminham com Jesus. Cristo caminha conosco.
Porque Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida.
Assim, a prática cristã exige
conversão permanente, para largarmos as falsas seguranças que a publicidade da
sociedade consumista e as ideologias do proveito próprio e do egoísmo
generalizado nos prometem, para arriscar uma nova caminhada, unida a Cristo e
junto com os irmãos. Somos convidados a dar ouvidos ao Filho de Deus, como diz
o Evangelho, e a receber de Cristo nossa vocação, para caminhar atrás dele –
até a glória, passando, se preciso, pela Cruz. Assim como Abraão ouviu a voz de
Deus e saiu de sua cidade em busca da terra que Deus lhe prometeu, devemos
também nós largar o que nos prende, para seguir o chamado do Senhor.
Prezados
irmãos,
O Evangelho de hoje (cf. Mt 17,1-9) é bem catequético, porque é destinado a ensinar
que Jesus é o Filho de Deus e que o projeto que Ele propõe vem de Deus, está
construída sobro elementos simbólicos tirados do Antigo Testamento. Que
elementos são esses?
O monte situa-nos num contexto de
revelação: é sempre num monte que Deus Se revela; e, em especial, é no cimo de
um monte que Ele faz uma aliança com o seu Povo. A mudança do rosto e as vestes
de brancura resplandecente recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai
(cf. Ex 34,29), depois de se encontrar com Deus e de ter as tábuas da Lei. A
nuvem, por sua vez, indica a presença de Deus: era na nuvem que Deus
manifestava a sua presença, quando conduzia o seu Povo através do deserto (cf.
Ex 40,35; Nm 9,18.22; 10,34).
Moisés e Elias representam a Lei e os
Profetas (que anunciam Jesus e que permitem entender Jesus); além disso, são
personagens que, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no “dia do
Senhor”, quando se manifestasse a salvação definitiva (cf. Dt 18,15-18; Mal
3,22-23).
O temor e a perturbação dos discípulos
são a reação lógica de qualquer homem ou mulher diante da manifestação da
grandeza, da omnipotência e da majestade de Deus (cf. Ex 19,16; 20,18-21).
As tendas parecem aludir à “festa das
tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em
“tendas”, no deserto.
A mensagem fundamental, amassada com
todos estes elementos, pretende dizer quem é Jesus. Recorrendo a simbologias do
Antigo Testamento, o autor deixa claro que Jesus é o Filho amado de Deus, em
quem se manifesta a glória do Pai. Ele é, também, esse Messias libertador e
salvador esperado por Israel, anunciado pela Lei (Moisés) e pelos Profetas
(Elias). Mais ainda: ele é um novo Moisés – isto é, aquele através de quem o
próprio Deus dá ao seu Povo a nova lei e através de quem Deus propõe aos homens
uma nova aliança.
Da ação libertadora de Jesus, o novo
Moisés, irá nascer um novo Povo de Deus. Com esse novo Povo, Deus vai fazer uma
nova aliança; e vai percorrer com ele os caminhos da história, conduzindo-o
através do “deserto” que leva da escravidão à liberdade. Esta apresentação tem
como destinatários os discípulos de Jesus (esse grupo desanimado e frustrado
porque no horizonte próximo do seu líder está a cruz e porque o mestre exige
dos discípulos que aceitem percorrer um caminho semelhante). Aponta para a ressurreição,
aqui anunciada pela glória de Deus que se manifesta em Jesus, pelas vestes
resplandecentes (que lembram as vestes resplandecentes dos anjos que anunciam a
ressurreição – cf. Mt 28,3) e pelas palavras finais de Jesus (“não conteis a
ninguém esta visão, até o Filho do Homem ressuscitar dos mortos” – Mt 17,9):
diz-lhes que a cruz não será a palavra final, pois no fim do caminho de Jesus
(e, consequentemente, dos discípulos que seguirem Jesus) está a ressurreição, a
vida plena, a vitória sobre a morte.
Uma palavra final para o desejo –
manifestado por Pedro – de construir três tendas no cimo do monte, como se
pretendesse “assentar arraiais” naquele quadro. O pormenor pode significar que
os discípulos queriam deter-se nesse momento de revelação gloriosa, ignorando o
destino de sofrimento de Jesus. Jesus nem responde à proposta: Ele sabe que o
projecto de Deus – esse projeto de construir um novo Povo de Deus e levá-lo da
escravidão para a liberdade – tem de passar pelo caminho do dom da vida, da
entrega total, do amor até às últimas consequências.
A questão fundamental expressa no
episódio da transfiguração está na revelação de Jesus como o Filho amado de Deus,
que vai concretizar o projeto salvador e libertador do Pai em favor dos homens
através do dom da vida, da entrega total de si próprio por amor. Pela
transfiguração de Jesus, Deus demonstra aos crentes de todas as épocas e
lugares que uma existência feita dom não é fracassada – mesmo se termina na
cruz. A vida plena e definitiva espera, no final do caminho, todos aqueles que,
como Jesus, forem capazes de pôr a sua vida ao serviço dos irmãos.
Na verdade, os homens do nosso tempo
têm alguma dificuldade em perceber esta lógica. Para muitos dos nossos irmãos,
a vida plena não está no amor levado até às últimas consequências (até ao dom
total da vida), mas sim na preocupação egoísta com os seus interesses pessoais,
com o seu orgulho, com o seu pequeno mundo privado; não está no serviço simples
e humilde em favor dos irmãos (sobretudo dos mais débeis, dos mais
marginalizados e dos mais infelizes), mas no assegurar para si próprio uma dose
generosa de poder, de influência, de autoridade e de domínio, que dê a sensação
de pertencer à categoria dos vencedores; não está numa vida vivida como dom,
com humildade e simplicidade, mas numa vida feita um jogo complicado de
conquista de honras, de glórias e de êxitos.
Prezados irmãos,
Nos relatos dos Atos dos Apóstolos,
São Paulo encontrou Timóteo em Listra, cidade da Licaónia, no decurso da sua
segunda viagem missionária. Filho de pai grego e de mãe judeo-cristã, Timóteo
devia ser ainda bastante jovem, nessa altura (cf. At 16,1). No entanto, Paulo
não hesitou em levá-lo consigo através da Ásia Menor, da Macedônia e da Grécia.
Tímido e reservado, de saúde delicada (em 1Tm 5,23 Paulo aconselha: “não
continues a beber só água, mas mistura-a com um pouco de vinho, por causa do
teu estômago e das tuas frequentes indisposições), Timóteo tornou-se um
companheiro fiel e discreto do apóstolo no trabalho missionário. Para não ter
problemas com os judeus, Paulo fê-lo circuncidar (cf. At 16,3); e, numa data
desconhecida para nós, Timóteo recebeu dos anciãos a “imposição das mãos” (cf.
1Tm 4,14) que o designava como enviado da comunidade para anunciar o Evangelho
de Jesus.
A atividade de Timóteo está bastante
ligada a Paulo, como o demonstram as contínuas referências que Paulo lhe faz
nos seus escritos. Com ternura, Paulo refere-se a Timóteo como o “nosso irmão,
colaborador de Deus na pregação do Evangelho de Cristo” (1Ts 3,2); e faz
referências a Timóteo nas Cartas aos Tessalonicenses (cf. 1Ts 11,1; 2Ts 1,1),
na 2 Coríntios (cf. 2Cor 1,1), na Carta aos Romanos (cf. Rm 16,21), na Carta
aos Filipenses (cf. Fl 1,1), na Carta aos Colossenses (cf. Cl 1,1) e na Carta a
Filémon (cf. Flm 1). Encarregou-o, também, de missões particulares entre os
Tessalonicenses (cf. 1Ts 3,2.6) e entre os Coríntios (cf. 1Cor 4,17). Em
relação à segunda Carta a Timóteo há, no entanto, um problema sério: a maioria
dos exegetas considera esta carta posterior a Paulo (o mesmo acontece com a 1
Timóteo e com a Carta a Tito), sobretudo por aí aparecer um modelo de
organização da Igreja que parece ser de uma época tardia, isto é, de finais do
séc. I ou princípios do séc. II). A questão continua em aberto. Timóteo é, por
esta altura, bispo de Éfeso, na costa ocidental da Ásia Menor. Estão a começar
as grandes perseguições; muitos cristãos estão desanimados e vacilam na fé. É
preciso que os líderes das comunidades – entre os quais está Timóteo –
mantenham o ânimo e ajudem as comunidades a enfrentar, com fortaleza, as
dificuldades que se avizinham.
A segunda leitura (cf. 2Tm 1,8b-10)
apresenta-se como uma exortação de São Paulo a Timóteo, convidando-o a superar
a sua juventude e timidez e a ser um modelo de fidelidade e de fortaleza no
testemunho da fé. O autor da segunda Carta a Timóteo apresenta os motivos que
devem impulsionar Timóteo a cumprir com fidelidade a sua missão apostólica.
Neste texto que nos é proposto, em concreto, o autor da carta recorda a Timóteo
o projeto salvífico de Deus que, de forma gratuita, quer salvar os homens e
chamá-los à santidade (cf. 2Tm 1,9). Esse projeto manifestou-se em Jesus
Cristo, o libertador, que destruiu a morte e o pecado e ofereceu a todos os
homens a vida plena e definitiva (cf. 2Tm 1,9-10). Ora Paulo (nesta altura
prisioneiro por causa do Evangelho), Timóteo e todos os outros são as
testemunhas deste projeto de Deus e não podem ficar calados diante do
enfraquecimento da vida cristã que se constata nas comunidades; mesmo no meio
das perseguições e dificuldades, eles não podem demitir-se da missão que Deus
lhes confiou. Têm de ser testemunhas vivas, entusiastas e corajosas do projecto
salvífico e amoroso de Deus.
Mais uma vez somos convidados a
recordar que Deus tem um projeto de salvação e de vida plena para os homens,
para todos os homens. Quase todos os domingos, a Palavra de Deus nos exorta a
tomar consciência desse fato; mas nunca é demais lembrá-lo, até porque os
homens do nosso tempo tendem a esquecer Deus e a viver sem a consciência da sua
presença, do seu amor, da sua preocupação com a nossa vida, a nossa realização,
a nossa felicidade. Se tivéssemos sempre consciência de que temos um lugar
cativo no projeto de Deus e que o próprio Deus está a velar pela nossa
realização e pela nossa felicidade, certamente a vida teria um outro sentido e
no nosso coração haveria mais serenidade, mais paz, mais esperança.
Urge termos consciência de que nós, os
batizados, somos, aqui e agora, as testemunhas vivas de Deus e do seu projeto
para os homens e para o mundo. Nada – e muito menos o nosso comodismo e
instalação – pode distrair-nos dessa responsabilidade. Os homens, nossos
irmãos, têm de encontrar em nós – e particularmente naqueles a quem foi
confiada a missão de animar e orientar a comunidade – sinais vivos de Deus, do
seu amor, da sua bondade e ternura, da sua preocupação com os homens.
É verdade que não é fácil ser
testemunha de Deus e do seu projeto. O mundo de hoje tende a ignorar os apelos
de Deus ou até manifesta desprezo pelos valores do Evangelho (esses valores que
temos de testemunhar, a fim de sermos sinais do mundo novo que Deus quer propor
aos homens). No entanto, as dificuldades não podem ser uma desculpa para nos
demitirmos das nossas responsabilidades e de levarmos a sério a vocação a que
Deus nos chama.
Prezados
irmãos,
Pôr-nos à disposição de Deus. As leituras deste domingo
nos apontam a dinâmica do projeto libertador de Deus: deixar as seguranças que
nos engessam para nos pormos a caminho da terra que ele deseja para a
humanidade. A exemplo de Abraão e sua família, nós também podemos assumir a fé
e a total confiança em Deus, que sustenta e guia nossos passos na verdade, na
justiça e no amor. Essa é a melhor herança que podemos deixar às futuras
gerações.
Assumir a missão de evangelizar. Timóteo, “aquele que
honra a Deus”, assumiu a missão de anunciar o Evangelho de forma corajosa e
perseverante mesmo nas situações difíceis; também nós podemos ser anunciadores
da Boa Notícia de Jesus em nossas famílias, na comunidade e na sociedade. Isso
acontece pela coerência entre fé e vida, pelo testemunho de doação alegre,
também pela constância no testemunho de diálogo e de fraternidade. Assim,
estaremos respondendo à “santa vocação” a que fomos chamados pela bondade de
Deus.
A vida é permanente caminhar. Jesus foi a grande
manifestação de Deus para a humanidade. Pedro, Tiago e João foram agraciados
com uma experiência maravilhosa, participando da transfiguração de Jesus.
Também em nossa vida, Deus nos concede momentos de muita luz, consolo e força.
Tendemos, porém, a buscar o que nos garante bem-estar, prazeres, sensações
agradáveis e nos acomodar a essas coisas… Não podemos esquecer que seguir Jesus
implica “descer da montanha” do egoísmo e da acomodação. Seguir Jesus é entregar-nos
pela causa da vida digna sem exclusão, alicerçada na justiça e na igualdade.
Para isso, conforme nos convoca a Campanha da Fraternidade, faz-se necessário o
cuidado com a dignidade de todos os seres humanos, especialmente aqueles que
sofrem sob a fome e a insegurança alimentar.
Prezados
irmãos,
O discípulo de Jesus vive o Evangelho inserido na realidade
do dia a dia. Jamais é possível pensar o estilo de vida de Jesus como um
processo que conduz à alienação. Deve-se viver Jesus na realidade do dia a dia
com a missão de transformá-la. Em Deus não há o projeto do egoísmo, mas o
primado da partilha. Aquilo que ele nos concede não é apenas para nós. A ação
abençoadora de Deus acontece para que nos tornemos fonte inesgotável de bênçãos
para todos os outros.
Caros
irmãos,
Quando Jesus
está em oração, não está só, Deus seu Pai está com Ele (cf. Mt 17,1-9). O monte
é o lugar da revelação de Deus e a nuvem é símbolo da sua presença. É, pois, no
momento em que Jesus rezava que Deus Se manifesta, não somente a seu Filho, mas
também aos seus discípulos, e a presença de Moisés e de Elias recorda a antiga
aliança àqueles que vão beneficiar da nova aliança. Ao mesmo tempo que, no
monte Sinai, Deus tinha revelado o seu Nome a Moisés para fazer sair do Egito o
seu povo escolhido, também na montanha da Transfiguração Deus dá a identidade
de Jesus: “Este é o meu Filho, o meu Eleito”. E aos três apóstolos,
embaixadores de todos aqueles que reconhecerão em Jesus o Filho bem-amado, Deus
pede para O escutar. É antes de ver a nuvem e de ouvir a voz do Pai que Pedro
propõe para erguer três tendas para Jesus, Moisés e Elias, porque pensa que são
apenas três. Será necessário que Deus Se manifeste para que Pedro, um pouco
como Jacó, diga talvez: “Deus estava no monte e eu não sabia!” Será preciso
chegar à manhã de Páscoa, e o dom do Espírito no Pentecostes, para que ele
proclame a sua fé n’Aquele que Deus fez “Senhor e Messias, este Jesus que
crucificaram”.
Também na vida da Comunidade
eclesial dão-estes momentos de Tabor: a reunião da Assembléia, a escuta da
Palavra, a celebração da Eucaristia e tantos outros. Eles reanimam e
fortalecem, para que possamos descer com Cristo o monte Tabor e, tomando a sua
Cruz, segui-lo pelas planícies da vida a subir com ele a colina do Calvário,
que por sua vez se há de transfigurar.
Amém!
Padre Wagner Augusto Portugal.
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