“Eis que veio o Senhor dos senhores, em suas mãos, o poder e a realeza” (cf. Ml 3,1; 1Cr 19,12).
Estimados irmãos e irmãs,
Com a festa de hoje, a Epifania, nós encerramos o tempo litúrgico do Natal. A Epifania é a magna celebração da manifestação de Deus ao mundo, na figura dos reis magos que, representando o mundo inteiro, vão adorar ao menino Jesus na gruta de Belém.
A liturgia de hoje retoma o tema da luz – luz que brilha não só para o povo oprimido de Israel, mas para todos os povos, segundo a visão do profeta universalista que escreveu o fim do livro de Isaías, conforme se viu na proclamação da Primeira Leitura (Is 60, 1-6). A adoração universal em Jerusalém é anunciada em Is 9,1 a nova luz para a região da Galiléia, despovoada pelas deportações (732 a.C). Duzentos anos depois, um profeta da escola de Isaías repete a mesma imagem, aplicando-a a Sião, ao povo de Judá que, de volta do exílio, se meteu em reconstruir a cidade e o templo (Is 60,1). “Torna-te luz”, esquece a fadiga e o desânimo, Deus está perto. As nações devolvem a Israel seus filhos e filhas que ainda vivem no estrangeiro, e oferecem suas riquezas ao Deus que realmente salva seu povo. No Novo Testamento, os magos que vêm do Oriente realizam esta profecia; a eles, o Cristo apareceu como a misteriosa “luz”.
Inspirado pelo sol nascente que ilumina as belas pedras brancas das construções de Jerusalém e faz a cidade transfigurar-se pela manhã (e brilhar no meio das montanhas que a rodeiam), o profeta sonha com uma Jerusalém muito diferente daquela que os retornados do Exílio conhecem; essa nova Jerusalém levantar-se-á quando chegar a luz salvadora de Deus, que dará à cidade um novo rosto. Nesse dia, Jerusalém vai atrair os olhares de todos os que esperam a salvação. Como consequência, a cidade será abundantemente repovoada (com o regresso de muitos “filhos” e “filhas” que, até agora, assustados pelas condições de pobreza e de instabilidade, ainda não se decidiram a regressar); além disso, povos de toda a terra – atraídos pela promessa do encontro com a salvação de Deus – convergirão para Jerusalém, inundando-a de riquezas (nomeadamente incenso, para o serviço do Templo) e cantando os louvores de Deus.
A primeira leitura (cf. Is 60,1-6) se assenta na afirmação da eterna preocupação de Deus com a vida e a felicidade desses homens e mulheres a quem Ele criou. Sejam quais forem as voltas que a história dá, Deus está lá, vivo e presente, acompanhando a caminhada do seu Povo e oferecendo-lhe a vida definitiva. Esta “fidelidade” de Deus aquece-nos o coração e renova-nos a esperança. Caminhamos pela vida de cabeça levantada, confiando no amor infinito de Deus e na sua vontade de salvar e libertar o homem. É preciso, sem dúvida, ligar a chegada da “luz” salvadora de Deus a Jerusalém (anunciada pelo profeta) com o nascimento de Jesus. O projeto de libertação que Jesus veio apresentar aos homens será a luz que vence as trevas do pecado e da opressão e que dá ao mundo um rosto mais brilhante de vida e de esperança. Na catequese cristã dos primeiros tempos, esta Jerusalém nova, que já “não necessita de sol nem de lua para a iluminar, porque é iluminada pela glória de Deus”, é a Igreja – a comunidade dos que aderiram a Jesus e acolheram a luz salvadora que Ele veio trazer (cf. Ap 21,10-14.23-25).
Caros irmãos,
São Paulo, na sua carta aos Efésios (Ef 3,2-3a.5-6), comenta na segunda leitura que a revelação é um mistério de Deus também para os pagãos. Não só para os crentes, mas a salvação, por Jesus, foi inaugurada para todos. Os gentios, portanto, passam a participar das promessas divinas em Jesus Cristo. As promessas do Antigo Testamento se dirigem a Israel. Mas Deus vê mais longe. Isso, já os antigos profetas o sabiam, mas o judaísmo o esqueceu. Até Paulo o aprendeu com surpresa: a revelação do grande mistério, de que também os gentios são chamados à paz messiânica; e a revelação de sua missão pessoal, de levar esta Boa-Nova aos pagãos.
A Carta aos Efésios apresenta-se como uma “carta de cativeiro”, escrita por Paulo da prisão. É, de qualquer forma, uma apresentação sólida de uma catequese bem elaborada e amadurecida. A carta parece apresentar uma espécie de síntese do pensamento paulino. O tema mais importante da Carta aos Efésios é aquilo que o autor chama “o mistério”: trata-se do projeto salvador de Deus, definido e elaborado desde sempre, escondido durante séculos, revelado e concretizado plenamente em Jesus, comunicado aos apóstolos e, nos “últimos tempos”, tornado presente no mundo pela Igreja. Na parte dogmática da carta (cf. Ef 1,3-3,19), São Paulo apresenta a sua catequese sobre “o mistério”: depois de um hino que põe em relevo a ação do Pai, do Filho e do Espírito Santo na obra da salvação (cf. Ef 1,3-14), o autor fala da soberania de Cristo sobre os poderes angélicos e do seu papel de cabeça da Igreja (cf. Ef 1,15-23); depois, reflete sobre a situação universal do homem, mergulhado no pecado e afirma a iniciativa salvadora e gratuita de Deus em favor do homem (cf. Ef 2,1-10); expõe, ainda, como é que Cristo – realizando “o mistério” – levou a cabo a reconciliação de judeus e pagãos num só corpo, que é a Igreja (cf. 2,11-22). O texto que nos é proposto vem nesta sequência: nele, Paulo apresenta-se como testemunha do “mistério” diante dos judeus e diante dos pagãos (cf. Ef 3,1-13).
É esse “mistério” que São Paulo aqui desvela aos batizados da Ásia Menor. São Paulo insiste que, em Cristo, chegou a salvação definitiva para os homens; e essa salvação não se destina exclusivamente aos judeus, mas destina-se a todos os povos da terra, sem exceção. São Paulo é, por chamamento divino, o arauto desta novidade. Percebemos, assim, porque é que São Paulo se fez o grande arauto da “boa nova” de Jesus entre os pagãos. Agora, judeus e gentios são membros de um mesmo e único “corpo” (o “corpo de Cristo” ou Igreja), partilham o mesmo projeto salvador que os faz, em igualdade de circunstâncias com os judeus, “filhos de Deus” e todos participam da promessa feita por Deus a Abraão (cf. Gn 12,3) – promessa cuja realização Cristo levou a cabo.
A perspectiva de que Deus tem um projeto de salvação para oferecer ao seu Povo – já enunciada na primeira leitura – tem aqui novos desenvolvimentos. A primeira novidade é que Cristo é a revelação e a realização plena desse projeto. A segunda novidade é que esse projeto não se destina apenas “a Jerusalém” (ao mundo judaico), mas é para ser oferecido a todos os povos, sem exceção. A Igreja, “corpo de Cristo”, é a comunidade daqueles que acolheram “o mistério”. Nela, brancos e negros, pobres e ricos, ucranianos ou moldavos – beneficiários todos da ação salvadora e libertadora de Deus – têm lugar em igualdade de circunstâncias.
Irmãos e Irmãs,
A Festa da Epifania, no Brasil, tem um significado muito popular, porque é conhecida aqui em Minas, a católica Minas Gerais, como a festa dos Santos Reis, com as populares “folias de reis”. A festa de hoje, conforme nós vemos pela tradição, é a festa em que os magos, representando a humanidade inteira, reconheceram, no Menino de Belém, o Filho de Deus Salvador. Nos dias atuais, o homem cada vez mais dominando as técnicas do conhecimento, dever ser o homem da fé, que dobra o joelho em adoração diante do “Menino que nos foi dado”, da parte de Deus, e reconhecer neste Menino a divindade em carne humana. Em Deus Menino, que não mostra mais que aparência de criança comum, está o Deus e o Senhor do Universo, Ele vem humilde para reatar a amizade entre a terra e o céu.
Caros irmãos,
A Epifania nada mais é do que a adoração dos magos do Oriente. No novo povo de Deus, não importa ser judeu ou gentio, mas importa a fé. O Evangelho de hoje (cf. Mt 2,1-12) termina com a missão de evangelizar “todas as nações” (cf. Mt 28,18-20). Mas já no início, os “magos” representam esta realidade. Em oposição a eles, os doutores judaicos de Jerusalém sabiam onde devia nascer o Messias, mas a estrela da fé não os conduziu até lá.
Estimados Irmãos,
A figura de Herodes, o grande, o Rei inescrupuloso que construiu suntuosos palácios e era o Rei da Judéia, deve estar bem presente, porque o facínora queria cooptar dos Magos o lugar em que estava o Salvador.
Se a literatura bíblica soube afirmar quem era Herodes, não teve a sutileza de demonstrar quem eram os Reis Magos. A tradição foi passada de geração em geração dizendo que eram três os Magos: Belquior, Baltasar e Gaspar, o Negro, representando assim a humanidade pelas três raças: branca, negra e amarela. Os Magos não eram reis. Mas foram elevados a condição de Reis para serem valorizados diante do orgulho do falso Rei Herodes.
Mas o que os Magos levaram para Jesus? Os presentes foram significativos: ouro, incenso e mirra (cf. Mt 2,11). Ouro para significar a realeza de Jesus; incenso para significar a divindade de Jesus e mirra – uma resina cheirosa, em pó ou líquido, usada para perfumar e compor os óleos sagrados, porque Cristo quer dizer “ungido”.
Meus irmãos,
A estrela de Belém significa o firmamento que desce das alturas para reverenciar seu Criador, agora na gruta de Belém. Afinal, Jesus não veio só para salvar o homem, mas para redimir a natureza inteira, incluídos os animais e os astros.
Na festa da Epifania, naquele poético cenário de Belém, ainda estavam os animais representados pelo boi, pelo burro, pelas pedras, pelas plantas, todas as categorias estavam lá no teatro do nascimento do Divino Infante. O universo criado por amor, se inclina humilde e reverente diante do Criador que, por amor, se fez criatura semelhante a todas as criaturas, sem deixar sua condição divina. O Doutor Angélico viu nos pastores os homens de perto, e nos magos viu os homens de longe: o perto e o longe se encontram hoje aos pés de Jesus, porque, a partir de agora, não existem distâncias possíveis de separar Deus e a humanidade, o Criador e as criaturas. E muito menos separação entre os homens e mulheres. São Paulo, na magnífica página bíblica de hoje, nos confirma que a Salvação vem para todos e por isso devemos nos tratar como irmãos. Aqueles que estão excluídos ou a margem da Igreja devem se sentirem incluídos. E os incluídos devem perdoar mais e amar sempre.
Caros irmãos,
Impressiona no relato de Mateus, a “desinstalação” dos “magos”: viram a “estrela”, deixaram tudo, arriscaram tudo e vieram procurar Jesus. Somos capazes da mesma atitude de desinstalação, ou estamos demasiado agarrados ao nosso sofá, ao nosso colchão especial, à nossa televisão, à nossa aparelhagem? Somos capazes de deixar tudo para responder aos apelos que Jesus nos faz através dos irmãos? Os “magos” representam os homens de todo o mundo que vão ao encontro de Cristo, que acolhem a proposta libertadora que Ele traz e que se prostram diante d’Ele. É a imagem da Igreja – essa família de irmãos, constituída por gente de muitas cores e raças, que aderem a Jesus e que O reconhecem como o seu Senhor.
Prezados irmãos,
Em nossa vida e na vida de nossas comunidades, manifestamos o Senhor ou nossas “luzes” ofuscam a verdadeira luz? Nossas comunidades são verdadeiramente prolongamento do plano salvífico do Pai ou mais se parecem com um clube de amigos no qual já não há lugar para ninguém? Como podemos deixar que o Senhor se manifeste no meio de nós se nos comportamos como barreiras – com preconceitos, rivalidades, sendo os donos da verdade, os puros… – entre os irmãos e ele? Nossa fé guia-se pela luz ou, às vezes, nos deixamos seduzir pelas luzes do poder, do dinheiro, das ilusões de uma sociedade do espetáculo? Nosso encontro com o Deus salvador faz-nos optar por outro caminho, como ocorreu com os magos? Caminho de oposição a todos os sistemas que matam os inocentes e fazem dos pobres – aqueles que não têm como responder aos apelos do consumo – estranhos na sociedade, os quais, por isso, devem ser excluídos? A manifestação do Senhor nos faz profetas? Se não, será apenas mais uma luz, uma boa luz, a brilhar no grande palco montado pela “sociedade do espetáculo” para nos divertir, ou seja, alienar-nos da nossa transcendência e nos asfixiar na imanência!
Prezados irmãos,
A unidade das três leituras objetiva que toda pessoa humana tenha acolhimento na comunidade dos fiéis e seja luz para os escombros do mundo, sobretudo para os que vivem em suas “trincheiras”. Devemos perceber que o Natal do Senhor renova nossa esperança de um mundo mais justo e solidário, pois Deus mesmo veio visitar nossa história. Epifania é essa manifestação divina na história da humanidade. Toda a comunidade é chamada, nesta liturgia, a unir-se sempre mais como corpo de Cristo, convidada à salvação em Cristo. Por fim, que em cada fiel se de o propósito de ofertar-se ao Senhor tal qual os magos outrora, que o presentearam com ouro, incenso e mirra, ofertando aos mais necessitados o pão físico e espiritual, da própria existência. Assim, podemos ser um “alimento” para a vida dos outros.
Meus irmãos,
A Epifania é a festa dos pobres, dos humildes. Devemos entrar no contexto da pobreza do teatro do nascimento do Salvador, porque hoje o Menino se mostra, se revela a todos, e todos, conhecendo a sua origem divina e sabendo seu destino de redentor dos homens, se prostram cheios de fé confiança inabalável.
A manifestação de Deus aos homens em individual somente ocorrerá quando o homem reconhecer sua condição de criatura limitada e procurar o Salvador, o Senhor Jesus. Só aos humildes se revela hoje o Filho de Deus. Na medida em que nos fazemos pequenos Deus se manifestará a cada um de nós. Pobre e indefeso, Jesus é o não-poder. Ele não se defende, não tem medo. Em redor dele se unem os povos que vem de longe: “E avisados, num sonho, voltaram por outro caminho” (cf. Mt 2,12). O Caminho, na Bíblia é o símbolo da opção de vida da pessoa. Os reis magos optaram por obedecer à advertência de Deus; optaram pelo Menino Salvador, contra Herodes e contra todos os que rejeitam o “menino”, matando vida inocente.
A Igreja Católica é una e universal, mas ela pode coexistir no seu seio bendito “diversos modos” de viver a única fé. A Igreja Católica não pode ser apenas branca, negra, ou nem mesmo amarela. Ela é para todas as raças. Também Ela não pode ser proletária, burguesa, capitalista, ao contrário, a Igreja está aberta para todos. O cristão autêntico não pode refutar aprioristicamente a novidade ou a originalidade por si mesmas, mas deve antes verificar se não são elas apenas uma nova dimensão da fé no único Cristo. Muitas experiências atuais, que às vezes escandalizam os defensores da uniformidade – não da unidade – são o sinal do vigor da vida da Igreja. Cristo nos dá o sentido de tudo: Ama a Deus com todo o teu coração; amai-vos uns aos outros como eu vos amei (Mc 12,30; Jo 13,34). A festa da Epifania nos ensina o sentido eclesial correto: a estrela que devemos seguir para atingir o nosso autêntico e único centro da Unidade é Jesus Cristo, o Salvador que nos foi dado.
Que nós possamos hoje reconhecer o Salvador e fazer uma radical opção pelo seu seguimento. Amém!
Padre Wagner Augusto Portugal
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