“Batizado o Senhor, os céus se
abriram e o Espírito Santo pairou sobre ele sob forma de pomba. E a voz do Pai
se fez ouvir: Este é o meu Filho muito amado, nele está todo o meu amor!” (Mt
3,16s).
Estimados Irmãos,
A festa do
Batismo do Senhor Jesus dá termo ao tempo festivo do Natal. Saindo do âmbito da
infância, mostra Jesus na véspera de sua vida pública. A voz de Deus que
acompanha o dom do Espírito Santo a Jesus proclama-o “Filho amado” (Mt 3,17) de Deus, no qual Deus se compraz: o
beneplácito de Deus repousa n’Ele. Jesus é quem executará o projeto do Pai. Por
isso é chamado de “filho”, termo que
pode ser aplicado a todo justo, mas no caso de Jesus, de maneira única.
A
primeira Leitura (Is 42,1-4;6-7) nos apresenta o “servo” de Deus que animou o povo durante o exílio babilônico. O
cântico ressoa a eleição desse predileto para levar aos povos e mesmo às “ilhas” o verdadeiro conhecimento do
Deus de misericórdia e fidelidade. Jesus é a aliança com os povos, luz das
nações, para restaurar a paz e felicidade dos oprimidos. O “servo” recebe a
missão de anunciar a todos a misericórdia e a fidelidade de Deus. Para isso
recebe o espírito de Javé. Mais adiante encontraremos esta figura como o “Servo
Padecente”, sofrendo pelos pecados de todos. O Novo Testamento vê em Jesus
aquele que levou à plenitude estas figuras. A palavra de Deus, no Batismo de
Jesus, lembra Is 42,1.
O texto da perícope da Primeira Leitura
pertence ao “Livro da Consolação” do Deutero-Isaías (cf. Is 40-55) e consta de
duas partes que falam da eleição do “Servo” e da sua missão. A “ordenação” do
“Servo” realiza-se através do dom do Espírito. Animado por esse Espírito, o
“Servo” irá levar “a justiça às nações”. A figura misteriosa e enigmática do
“Servo” apresenta evidentes pontos de contato com a figura de Jesus. Os
primeiros cristãos irão utilizar os cânticos do “Servo” para justificar o
sofrimento e o aparente fracasso humano de Jesus. Ele é esse “eleito de Deus”,
que recebeu a plenitude do Espírito, que veio ao encontro dos homens com a
missão de trazer a justiça e a paz definitivas, que sofreu e morreu para ser
fiel a essa missão, que o Pai lhe confiou.
Meus caros irmãos,
A
segunda Leitura (At 10,34-38) fala do início do “querigma cristão”: o batismo
de Jesus. A pregação do Apóstolo Pedro representa o anúncio do Evangelho nos
primeiros tempos do cristianismo: por Jesus, Deus deu a “paz” ao mundo. Jesus
recebeu o batismo de João, Deus lhe mandou seu espírito: “ungiu-o” como
Messias.
O livro dos Atos dos Apóstolos são uma
catequese sobre a “etapa da Igreja”, isto é, sobre a forma como os discípulos
assumiram o continuaram o projeto salvador do Pai e o levaram – após a partida
de Jesus deste mundo – a todos os homens. A segunda leitura de hoje está
integrado na primeira parte dos “Atos”, onde se apresenta a difusão do
Evangelho dentro das fronteiras palestinianas, por ação de Pedro e dos Doze.
Insere-se numa perícope que descreve a atividade missionária de Pedro na
planície junto da orla mediterrânica da Palestina. Em concreto, o texto
propõe-nos o testemunho e a catequese de Pedro em Cesareia, em casa do
centurião romano Cornélio. Convocado pelo Espírito (At 10,19-20), Pedro entra
em casa de Cornélio, expõe-lhe o essencial da fé e batiza-o, bem como a toda a
sua família (At 10,23b-48). O episódio é importante porque Cornélio é o
primeiro pagão a cem por cento a ser admitido ao cristianismo por um dos Doze:
significa que a vida nova, que nasce de Jesus, se destina a todos os homens. No
seu discurso, Pedro começa por reconhecer que a proposta de salvação oferecida
por Deus e trazida por Cristo é universal e se destina a todas as pessoas, sem
distinção de qualquer tipo (vv. 34-36). Israel foi o primeiro receptor da
Palavra de Deus; mas Cristo veio trazer a “boa nova da paz” (salvação) a todos
os homens que aceitem a proposta e adiram a Jesus.
Irmãos e
Irmãs,
O Batismo de
Jesus maracá o início de sua vida pública, de sua missão redentora no mundo.
Assim também deve ser o nosso batismo que assinala a nossa entrada na
comunidade cristã e o conseqüente início de nossa colaboração com Cristo.
Pelo
batismo nossos pecados são apagados, a antiga culpa é dissipada e formamos um
só corpo com o Senhor Jesus e somos chamados à mesma missão salvadora e ao
mesmo destino eterno. Todos, depois de instruídos, devem ser batizados, desde
os tempos dos Apóstolos e isso é efetivado pela Sagrada Escrituras em vários
textos como em At 2,37-41.
O
Batismo é o sacramento porta. O Batismo é o primeiro dos sacramentos e condição
para receber os demais. O Batismo é o fundamento de toda a vida cristã, a porta
de entrada na comunidade dos crentes. Assim foi com Jesus que se fez batizar
por João Batista, o precursor para iniciar a sua vida pública, a pregação do
Reino de Deus. Por isso quem é batizado sela um compromisso com Jesus de
iniciar uma vida de pregação do Reino de Deus e de vivência completa e
autêntica do Evangelho.
Estimados
amigos,
O Batismo tem
vários significados, ressaltando que: é a purificação externa e interna da
pessoa; a procura de um acréscimo de forças vitais e dom da imortalidade; o
batismo é o rito de iniciação cristã; de introdução na comunidade fiel e de
assunção das obrigações e vantagens religiosas.
O
Batismo de João acentua a CONVERSÃO. E isso vai a encontro à pregação de Jesus,
cuja primeira condição para ser cristão é a conversão do coração.
Assim
o Batismo de Jesus, mesmo não tendo pecado, procurou o batismo para começar a
cumprir toda a Justiça, isto é, tudo aquilo que foi ordenado por Deus ao
Salvador. Jesus se batiza para cumprir a vontade do Pai, como o fará em várias
ocasiões durante a sua vida pública.
O
Evangelho desta Solenidade (Mt 3,13-17) destaca que o Batismo confirma a missão
de Jesus sobre a terra. A partir do Batismo Jesus inicia a sua vida pública, ou
seja, a sua profecia ministerial, que exercerá com a força e o poder de Deus, e
em nome do mesmo Deus, anunciar a conversão e a santidade.
O
“céu se abriu”, afirma o Evangelista. São Mateus quer afirmar que começou uma
nova etapa na história da salvação, começou a era messiânica, há um novo
relacionamento entre o céu e a terra, tudo o que é do céu pode passar a terra,
tudo o que é da terra pode entrar nos céus.
Quando João Batista vê Jesus que, em fila
com os pecadores, vem para ser batizado, fica admirado; reconhecendo nele o
Messias, o Santo de Deus, Aquele que é sem pecado, João manifesta o seu
desconcerto: ele mesmo, o batizador, teria desejado receber o batismo de Jesus.
Mas Jesus exorta-o a não opor resistência, a aceitar o cumprimento de tal
gesto, para realizar o que é conveniente para “cumprir toda a justiça”. Com
esta expressão, Jesus manifesta que veio ao mundo para fazer a vontade daquele
que O enviou, para cumprir tudo aquilo que o Pai lhe pede; foi para obedecer ao
Pai, que Ele aceitou fazer-se homem. Este gesto revela, antes de tudo, quem é
Jesus: é o Filho de Deus, verdadeiro Deus, como o Pai; é Aquele que “se
humilhou” para se fazer um de nós, Aquele que se fez homem e aceitou
humilhar-se até à morte, e morte de cruz (cf. Fl 2, 7). O batismo de
Jesus, que hoje recordamos, insere-se nesta lógica da humildade: é o gesto
daquele que quer tornar-se um de nós, que se põe em fila juntamente com os
pecadores; Ele, que é sem pecado, deixa-se tratar como pecado (cf. 2 Cor 5,
21), para carregar nos seus ombros o peso da culpa da humanidade inteira. É o “servo
de Javé”, de quem nos falou o profeta Isaías na primeira leitura (cf. 42, 1). A
sua humildade é definida pelo desejo de estabelecer uma comunhão plena com a
humanidade, pelo desejo de realizar uma verdadeira solidariedade com o homem e
com a sua condição. O gesto de Jesus antecipa a Cruz, a aceitação da morte
pelos pecados do homem. Este gesto de humilhação, com que Jesus quer
identificar-se totalmente com o desígnio de amor do Pai, manifesta a plena
sintonia de vontade e de intenções que existe entre as Pessoas da Santíssima
Trindade. Mediante este gesto de amor, o Espírito de Deus manifesta-se como
pomba e desce sobre Ele, e naquele momento o amor que une Jesus ao Pai é
testemunhado — a quantos assistem ao baptismo — por uma voz vinda do alto, que
todos ouvem. O Pai manifesta abertamente aos homens a profunda comunhão que o
une ao Filho: a voz que ressoa do alto testemunha que Jesus é totalmente
obediente ao Pai, e que esta obediência constitui a expressão do amor que os
une entre si. Por isso, o Pai põe a sua complacência em Jesus, porque reconhece
no agir do Filho o desejo de cumprir em tudo a sua vontade: “Eis o meu Filho
muito amado, no Qual pus toda a Minha complacência” (Mt 3, 17). E
esta palavra do Pai alude também, antecipadamente, à vitória da ressurreição.
Prezados irmãos,
A cena do batismo no Jordão apresenta
figuras importantes: João, o Batista; Jesus, o Filho de Deus; o Espírito em
forma corpórea de pomba (Yonah, em hebraico; peristerán, no
grego); a voz do céu (foné ek ton ouranón), para simbolizar o Pai. O
Espírito, simbolizado na pomba, faz-nos recordar o Espírito que, em Gn 1,2,
pousava sobre as águas na criação, o que recorda o batismo como fonte de nova
criação para os cristãos. Do batismo Jesus será enviado para o deserto para ser
tentado (Mt 4,1), iniciando sua vida ministerial. Em Gn 8,6-11, Noé, na nova
criação, no recomeço, envia uma pomba para trazer o ramo de oliveira, símbolo
da aliança que Deus estabelece com seu povo. Em Mt 10,16, no discurso
apostólico, Jesus envia seus discípulos em missão para serem simples como as
pombas. Elas são símbolo da simplicidade e, com seu arrulhar, parecem estar em
oração suplicante. Por fim, são também símbolo da realidade que permanece, pois
fazem seu ninho num local fixo e voltam todo ano para lá viverem a experiência
da fecundidade. A voz que veio do céu é a do Pai, que elege seu Filho
agraciado. Jesus é aquele que cumpre a vontade do Pai. Em toda sua vida,
ver-se-á descortinar a vontade de Deus, a qual se realizará plenamente no amor
derramado na cruz.
Caros irmãos,
A liturgia da Festa do Batismo de Jesus
tem como cenário de fundo o projeto salvador de Deus. No batismo de Jesus nas
margens do Jordão, revela-se o Filho amado de Deus, que veio ao mundo enviado
pelo Pai, com a missão de salvar e libertar os homens. Cumprindo o projeto do
Pai, Ele fez-Se um de nós, partilhou a nossa fragilidade e humanidade,
libertou-nos do egoísmo e do pecado e empenhou-Se em promover-nos, para que
pudéssemos chegar à vida em plenitude. A primeira leitura anuncia um misterioso
“Servo”, escolhido por Deus e enviado aos homens para instaurar um mundo de
justiça e de paz sem fim. Investido do Espírito de Deus, Ele concretizará essa
missão com humildade e simplicidade, sem recorrer ao poder, à imposição, à
prepotência, pois esses não são os esquemas de Deus. No Evangelho, aparece-nos
a concretização da promessa profética: Jesus é o Filho/“Servo” enviado pelo
Pai, sobre quem repousa o Espírito e cuja missão é realizar a libertação dos
homens. Obedecendo ao Pai, Ele tornou-Se pessoa, identificou-Se com as
fragilidades dos homens, caminhou ao lado deles, a fim de os promover e de os
levar à reconciliação com Deus, à vida em plenitude. A segunda leitura reafirma
que Jesus é o Filho amado que o Pai enviou ao mundo para concretizar um projeto
de salvação; por isso, Ele “passou pelo mundo fazendo o bem” e libertando todos
os que eram oprimidos. É este o testemunho que os discípulos devem dar, para
que a salvação que Deus oferece chegue a todos os povos da terra. No episódio do batismo,
Jesus aparece como o Filho amado, que o Pai enviou ao encontro dos homens para
os libertar e para os inserir numa dinâmica de comunhão e de vida nova. Nessa
cena revela-se, portanto, a preocupação de Deus e o imenso amor que Ele nos
dedica. É bonita esta história de um Deus que envia o próprio Filho ao mundo,
que pede a esse Filho que Se solidarize com as dores e limitações dos homens, e
que, através da ação do Filho, reconcilia os homens consigo e fá-los chegar à
vida em plenitude. O que nos é pedido é que correspondamos ao amor do Pai,
acolhendo a sua oferta de salvação e seguindo Jesus no amor, na entrega, no dom
da vida.
Prezados irmãos,
A comunidade deve
perceber a relação entre as leituras, desde o profeta Isaías, que fala da
missão a partir de uma eleição, ao Evangelho, que evidencia ser Jesus o eleito
do Pai para cumprir uma missão soteriológica, culminando com sua morte e
ressurreição – o conteúdo anunciado pela segunda leitura. Esta celebração pode
ser uma grande mistagogia batismal, levando a comunidade cristã a revisitar o
sentido teológico e pastoral do sacramento do batismo, que nos incorpora a
todos na missão de Cristo, no povo de Deus, no corpo místico de Cristo, a
Igreja, tornando-nos templos do Espírito Santo. Desse modo, percebe-se que toda
vivência espiritual do cristão é trinitária, desde o nascimento para a fé até
sua total acolhida no coração da Santíssima Trindade. O batismo nos constitui a
todos sacerdotes, profetas e pastores para cuidar deste mundo, testemunhando o
amor de Deus pela humanidade.
Meus irmãos,
O
Batismo para a Igreja é a purificação do pecado original; se o batizando for
adulto, o fiel batizando terá o perdão de todos os pecados cometidos antes. É o
chamado rito de iniciação cristã. É um rito de novo nascimento em Cristo. Pelo
Batismo somos consagrados por Deus para a missão de evangelizar, principalmente
para a santidade. Pelo Batismo todos os fiéis participam do Sacerdócio e da
missão de Jesus.
Pelo Batismo, doando-nos a fé, o Senhor
concedeu-nos o que existe de mais precioso na vida, ou seja, o motivo mais
verdadeiro e mais belo pelo qual viver: é pela graça que cremos em Deus, que
conhecemos o seu amor, com o qual Ele deseja salvar-nos e libertar-nos do mal.
Por
isso somos chamados hoje a viver os compromissos de nosso Batismo e pautar o
nosso comportamento pessoal, familiar e comunitário, no quotidiano da vida, nos
valores trazidos e apresentados por Jesus, o Salvador.
Assim,
na Segunda Leitura, Pedro com um toque de universalidade anuncia a missão de
Jesus como Messias e Filho de Deus a partir de seu batismo por João. Nosso
Batismo deve levar-nos ao serviço de nossos irmãos. Ser batizado é tornar-se
Servo com Cristo, o Servo por excelência. Não há experiência mais bela que o
batismo infunde em nós católicos do que é a alegria de servir, acolher,
perdoar, testemunhando o Servo Jesus, fazendo-se servo. Vamos viver com
intensidade nosso Batismo na busca da solidariedade, da santidade e da
salvação. Amém!
Padre Wagner Augusto Portugal

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