“Cantai ao Senhor um
canto novo, cantai ao Senhor, ó terra inteira; esplendor, majestade e beleza
brilham no seu templo santo” (cf. Sl 95, 1.6)
Meus queridos amigos,
Meus irmãos,
A perícope da primeira leitura
pertence à fase final da vida do profeta Isaías. Estamos no final do séc. VIII
a.C.. Os assírios (que em 721 a.C. conquistaram Samaria, a antiga capital do
reino de Israel) oprimem e humilham as tribos do Povo de Deus instaladas na
região norte do país (Zabulão e Neftali); as trevas da desolação e da morte
cobrem toda a região setentrional da Palestina. No Sul, em Jerusalém, reina
Ezequias. O rei, desdenhando as indicações do profeta (para quem as alianças
políticas com os povos estrangeiros são sintoma de grave infidelidade para com Deus,
pois significam colocar a confiança e a esperança nos homens), envia embaixadas
ao Egito, à Fenícia e à Babilônia, procurando consolidar uma frente contra a
maior e mais ameaçadora potência da época – a Assíria. A resposta de
Senaquerib, rei da Assíria, não se faz esperar: tendo vencido sucessivamente os
membros da coligação, volta-se contra Judá, devasta o país e põe cerco a
Jerusalém (701 a.C.). Ezequias tem de submeter-se e fica a pagar um pesado
tributo aos assírios. Por essa época, desiludido com os reis e com a política,
o profeta teria começado a sonhar com uma intervenção de Deus para oferecer ao
seu Povo um mundo novo, de liberdade e de paz sem fim.
O profeta fala de “uma luz” que
irá começar a brilhar por cima dos montes da Galileia e que irá iluminar toda a
terra. Essa luz eliminará “as trevas” que mantinham o Povo oprimido e sem
esperança e inaugurará o dia novo da alegria e da paz sem fim. O jugo da
opressão que pesava sobre o Povo será, então, quebrado e a paz deixará de ser
uma miragem para se tornar uma realidade. Para descrever a alegria que, nesse
novo quadro, encherá o coração do Povo, o profeta utiliza duas imagens
extremamente sugestivas: é como quando, no fim das colheitas, toda a gente
dança feliz, celebrando a abundância dos alimentos; é como quando, após a
caçada, os caçadores dividem a presa abundante.
Qual a origem dessa luz
libertadora e recriadora? O sujeito dos verbos do versículo 3 é,
indubitavelmente, Deus: será Deus quem quebrará a vara do opressor, quem
levantará o jugo que oprime o Povo de Deus, quem triturará o bastão de comando
que gera escravidão e humilhação. O mundo novo de alegria e de paz sem fim é um
dom de Deus. O nosso texto fica por aqui; mas, na sequência, o oráculo de
Isaías ainda fala num “menino”, enviado por Deus para restaurar o trono de
David e para reinar no direito e na justiça (cf. Is 9,5-6). É a promessa
messiânica em todo o seu esplendor.
É Jesus, a luz que ilumina o mundo com uma aurora de esperança, que dá sentido pleno a esta profecia messiânica de Isaías. Ele é “Aquele que veio de Deus” para vencer as trevas e as sombras da morte que ocultavam a esperança e instaurar o mundo novo da justiça, da paz, da felicidade. Acolher Jesus é aceitar esse projeto de justiça e de paz que Ele veio propor aos homens.
Caros
irmãos,
Após ter abandonado a cidade de
Corinto, São Paulo continuou em contato com a comunidade cristã. Mesmo
distante, continuava a acompanhar a vida da comunidade e inteirava-se
regularmente das dificuldades e problemas que os seus queridos filhos de
Corinto tinham de enfrentar. Quando escreveu a primeira carta aos Coríntios,
Paulo estava em Éfeso. De Corinto haviam chegado, entretanto, notícias
alarmantes. Após a partida de Paulo, tinha aparecido na cidade um pregador
cristão – um tal Apolo, judeu de Antioquia, convertido ao cristianismo. Era
eloquente, versado nas Escrituras e foi de grande utilidade para a comunidade
na polêmica com os judeus. Era mais brilhante do que Paulo – conhecido pela sua
falta de eloquência (cf. 2 Cor 10,10). Formaram-se partidos na comunidade
(embora Apolo não favorecesse essa divisão, segundo parece): uns admiravam
Paulo, outros Cefas (Pedro), outros Apolo (cf. 1 Cor 1,12). Formaram-se
“partidos”, à imagem do que acontecia nas escolas filosóficas da cidade, que
tinham os seus mestres, à volta dos quais circulavam os adeptos ou
simpatizantes: o cristianismo tornava-se, dessa forma, mais uma escola de
sabedoria, na qual era possível optar por mestres distintos.
Para São Paulo, contudo, o
cristianismo não era a escolha de uma determinada filosofia de vida, defendida
mais ou menos brilhantemente por um mestre qualquer; mas era a adesão a Jesus
Cristo, o único e verdadeiro mestre. São Paulo não mede as palavras: a Cristo e
unicamente a Cristo os cristãos, todos, foram consagrados pelo baptismo. É
Cristo e só Cristo a única fonte de salvação. Ser batizado é entrar a fazer
parte do corpo de Cristo e participar no acontecimento salvador do qual Cristo
é o único mediador. Dizer que se é de Paulo, ou de Cefas, ou de Pedro é,
portanto, desvirtuar gravemente a essência da fé cristã.
Deve ficar bem claro que o
importante não é quem batizou ou quem anunciou o Evangelho: o importante é
Cristo, do qual Paulo, Cefas e Apolo são simples e humanos instrumentos. Os
coríntios são, portanto, intimados a não fixar a sua atenção em mestres humanos
e a redescobrir Cristo, morto na cruz para dar vida a todos, como a essência da
sua fé e do seu compromisso. Dessa forma, a comunidade será uma verdadeira
família de irmãos, que recebe vida de Cristo, que vive em unidade e comunhão.
A situação preocupou
enormemente São Paulo: além dos conflitos e rivalidades que a divisão
provocava, estava em causa a essência da fé. O cristianismo corria, dessa
forma, o perigo de se tornar mais uma escola de sabedoria, cuja validade
dependia do brilho dos mestres que apresentavam a ideologia e do seu poder de
convicção.
A experiência cristã é, fundamentalmente, um encontro com Cristo; é d’Ele e só d’Ele que brota a salvação. A vivência da nossa fé não pode, portanto, depender do carisma da pessoa tal, ou estar ligada à personalidade brilhante deste ou daquele indivíduo que preside à comunidade. Para além da forma mais ou menos brilhante, mais ou menos coerente como tal pessoa anuncia ou testemunha o Evangelho, tem de estar a nossa aposta em Cristo; é n’Ele e só n’Ele que bebemos a salvação; é a Ele e só a Ele que o nosso compromisso batismal nos liga.
Estimados irmãos,
Pela
conversão somos introduzidos na família de Deus. Jesus, na alegoria de São
Mateus (cf. Mt 4,1-12-23 ou Mt 4,12-17), ao recordar Isaías, é a plenitude dos
tempos e de todas as promessas. Mateus demonstra que a pregação de Jesus é
salvadora e religa o homem à vida imortal de Deus. Mateus nos introduz na
pedagogia de Jesus que nos pede um novo modo de viver, sem distinção de raça e
culturas, com a condição única de uma conversão sincera, autêntica,
evangelizadora e santificadora. Por isso hoje somos convidados a nos converter
com sincera vontade e desejo.
A graça
de Deus está presente no mundo e é uma verdade inexorável. Entretanto, também
está presente no mundo a maldição para os que rejeitam o Cristo e preferem
continuar cegos no meio da luz salvadora. O destino reservado a Cafarnaum será
o destino dos que preferem permanecer na treva. O tema da luz, como motor da
salvação, está presente em toda a liturgia de hoje.
Dentro do
programa de salvação de Jesus, Ele começa a falar da salvação anunciando que
João Batista está preso. Preso inocente, por fidelidade a Deus, ao anunciar que
alguém mais importante do que ele viria batizar com o Espírito Santo. É à
vontade de Deus que acompanha Jesus, a partir deste Evangelho, no início de sua
vida pública. E tudo o que acontecer com o Senhor é a mais genuína vontade de
Deus.
Jesus, no Evangelho de hoje, volta para a Galiléia. A Galiléia é o campo da missão, do trabalho missionário de Jesus. A profecia de hoje coloca o tempo e o espaço, enaltecendo o lado humano de Jesus, e a missão salvadora, ou seja, a luz, o lado divino de Jesus, distinguindo as suas duas naturezas.
Meus caros irmãos,
Cafarnaum
não aceitou a pregação de Jesus e será comparada a Sodoma – cidade que
simboliza o pecado – e condenada com rigor, conforme Mateus 11,23ss. Mateus
insinua a sorte dos que, apesar de receberem a graça da salvação, não a
aceitam, desprezam-na e assim se autocondenam. Mateus chegou a chamar Cafarnaum
“sua cidade”, isto é, cidade de
Jesus, e apesar de tanta honra concedida, Cafarnaum não quis a luz da graça
salvadora (cf. Mt 9,1). Em Cafarnaum habitavam pessoas de várias raças, desde
gentios a hebreus. Por isso, ao falar de Cafarnaum, Cristo nos anuncia que vem
para todos, e não só para os hebreus. Cristo vem como luz para desfazer trevas,
vem para vivificar a morte. Luz significa vida e salvação. O centro da pregação
de Jesus é a vida e a salvação. A pessoa de Jesus, em si mesma, é vida e
salvação. Ao homem cabe deixar-se iluminar por essa luz. Por isso, mas para
frente, Jesus vai dizer: “Eu sou a luz do
mundo” (Cf. Jo 8.,12), completando
para o povo ao exclamar: “E vós sois a
luz do mundo” (Mt 5,14).
Ao começar, no dia de hoje, a sua vida pública Jesus escolhe os primeiros apóstolos. Não os escolhe entre os doutores, os estudados, os letrados, os poderosos, os sabidos, mas os elege dentre os que são pecadores, gente muito mal-vista pelos maiorais, porque, como pecadores, não podiam observar todas as leis e, por isso mesmo, eram considerados “pecadores”. Mas, era sobretudo para os pecadores que Jesus começava a vida pública, era sobretudo ao coração e à mente dos simples e “pecadores” que pedia para se voltarem – se converterem – para Deus, porque era sobre eles que o Pai do Céu queria derramar toda a sua misericórdia.
Estimados amigos,
O
Evangelho de hoje nos ilumina para duas reflexões: a conversão e o Reino de
Deus. Implantar na terra o Reino de Deus é a razão pela qual Jesus se encarnou,
morreu e ressuscitou. E pertencer a esse Reino é a razão pela qual o homem
aceita a pessoa e a doutrina de Jesus. No esforço de afastar tudo o que impede
essa aceitação está a conversão.
A
salvação foi trazida por Jesus. A escolha dos homens e mulheres é livre! Os
discípulos aceitaram o vinde e Vede e seguiram a Jesus e passaram a ouvir a sua
pregação. Depois da audição é necessário a vivência, a abertura a esta
pregação, programa de vida, de conversão e, por conseguinte, de santidade. Esse
esforço de conversão é de cada um, sendo até um “combate espiritual”.
Por isso ao falar da proximidade do Reino de Deus Jesus nos anuncia que a conversão deve ser urgente, deve ser rápida, para que o Cristo passe a viver e dominar com a sua graça a nossa vida. Por isso a conversão é o primeiro passo para o seguimento, ou seja, refazer os mesmos passos de Jesus, querer a mesma vontade de Deus Pai e santificar a vida de todos.
Caros irmãos,
Jesus é o Deus que vem ao
nosso encontro para realizar os nossos sonhos de felicidade sem limites e de
paz sem fim. N’Ele e através d’Ele (das suas palavras, dos seus gestos), o
“Reino” aproximou-se dos homens e deixou de ser uma quimera, para se tornar numa
realidade em construção no mundo. Contemplar o anúncio de Jesus é abismar-se na
contemplação de uma incrível história de amor, protagonizada por um Deus que
não cessa de nos oferecer oportunidades de realização e de vida plena.
Sobretudo, o anúncio de Jesus toca e enche de júbilo o coração dos pobres e
humilhados, daqueles cuja voz não chega ao trono dos poderosos, nem encontram
lugar à mesa farta do consumismo, nem protagonizam as histórias balofas das
colunas sociais. Para eles, ouvir dizer que “o Reino chegou” significa que Deus
quer oferecer-lhes essa vida plena e feliz que os grandes e poderosos insistem
em negar-lhes. Para que o “Reino” seja possível, Jesus pede a “conversão”. Ela
é, antes de mais, um refazer a existência, de forma a que só Deus ocupe o
primeiro lugar na vida do homem. Implica, portanto, despir-se do egoísmo que
impede de estar atento às necessidades dos irmãos; implica a renúncia ao
comodismo, que impede o compromisso com os valores do Evangelho; implica o sair
do isolamento e da autossuficiência, para estabelecer relação e para fazer da
vida um dom e um serviço aos outros.
A história do compromisso de
Pedro e André, Tiago e João com Jesus e com o “Reino” é uma história que define
os traços essenciais da caminhada de qualquer discípulo. Em primeiro lugar, é
preciso ter consciência de que é Jesus que chama e que propõe o Reino; em
segundo lugar, é preciso ter a coragem de aceitar o chamamento e fazer do
“Reino” a prioridade essencial (o que pode implicar, até, deixar para segundo
plano os afetos, as seguranças, os valores humanos); em terceiro lugar, é
preciso acolher a missão que Jesus confia e comprometer-se corajosamente na
construção do “Reino” no mundo.
É possível perceber a
integração desta liturgia com a dos domingos anteriores, desde o batismo de
Jesus, ministrado por João Batista, e o testemunho do precursor sobre quem
Jesus é: o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (domingo passado). Após
seu batismo, Jesus inicia sua missão pública, convidando discípulos para o
seguimento. Estimular a comunidade a perceber que todos somos chamados à missão
de ir ao encontro dos irmãos e das irmãs a fim de retirá-los de seus
sofrimentos com a mensagem do Evangelho: a proximidade do Reino de Deus, sua
hegemonia sobre a vida humana, pois Deus quer que todos sejam salvos. Que
possamos enquanto comunidade de fé viver a comunhão e a unidade em meio à
diversidade. O que não podemos permitir é que nossas diferenças se tornem
divergências e não aceitemos o outro como nosso irmão.
A quem seguimos nesta vida? Essa questão deve estar sempre
presente em nosso coração, uma vez que a fé consiste em seguir Jesus. Se de
fato queremos ser seguidores de Jesus Cristo, cabe-nos prestar ouvidos à sua
mensagem, abraçar sua causa, aderir somente a ele. Nossa comunidade está
centralizada em Cristo? Sua adesão a Cristo é total, ou seus membros não vivem
na concórdia?
Como Cristo, também a Igreja
deve, hoje como sempre, empenhar-se em libertar o homem do pecado, pois o
anúncio da conversão é o fim primário que justifica a sua própria existência.
Nela deve manifestar-se constantemente a liberdade do Espírito no serviço
recíproco, no reconhecimento e na coordenação dos dons que Deus faz a cada um
dos fiéis, e assim deveria ser, diante do mundo, o sinal visível do reino de
Deus na terra. Por isso, a Igreja como instituição também é continuamente
interpelada e julgada pela palavra de Deus. Também a Igreja está em estado de
conversão permanente. O cristão que, movido pelo Espírito, está aberto e dócil
à Palavra de Deus, segue um itinerário de conversão para ele... que pode
comportar, ao mesmo tempo, a alegria do encontro e a contínua exigência de
ulterior busca; o arrependimento pela infelicidade e a coragem de recomeçar; a
paz da descoberta e a ânsia de novos conhecimentos; a certeza da verdade e a
constante necessidade de nova luz.
À Luz do Evangelho, da Palavra
de Deus, que sempre deve iluminar a nossa vida, procuremos ver a Deus, numa
conversão sincera, em que o Cristo seja a luz santa de nossas vidas, Amém!
Padre Wagner Augusto Portugal

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