“Que toda a terra se prostre diante de vós, ó Deus, e proclame louvores
ao vosso nome, Deus altíssimo” (cf. Sl. 65,4).
Estimados Irmãos,
Estamos
celebrando hoje as primícias do tempo comum. Este tempo magnífico das coisas
quotidianas em que somos convidados a viver a vida olhando e contemplando o
Cristo, Cordeiro de Deus que tira nossos pecados e nos salva, nos legando a
vida em Deus, a vida eterna.
Assim nos
próximos domingos, incluindo o de hoje, iremos refletir em grandes linhas, os
passos da vida pública de Jesus, desde o seu Batismo por João até o conflito
final em Jerusalém e o anúncio do Último Juízo com a Solenidade de Jesus Cristo
Rei do Universo.
Neste ano
estudaremos o Evangelho de Mateus. Hoje, entretanto o Evangelista João quer
iluminar o Batismo de Jesus. Enquanto Mateus nos contou no domingo passado o
acontecimento do Batismo sob o ângulo do cumprimento da vontade do Pai, João
considera o Batismo sob o ângulo da revelação: João Batista veio para que o “Cordeiro de Deus” seja conhecido por
Israel. Isso porque João é o Evangelista que coloca a manifestação de Deus em
Jesus Cristo e atribuiu ao Batista o papel de sua testemunha.
No testemunho
de João Batista segundo São João devemos destacar dois elementos: 1 – A
antítese “batizar com água” – “batizar
com o Espírito Santo” (cf.
Mt 3,11= Mc, 1,7-8= Lc 3,16). Mas, enquanto para os evangelistas sinóticos –
Mt, Mc e Lc – isso significa que em Jesus vem até nós o batismo escatológico – “em espírito e fogo” – Mt 3,11, João
interpreta isso a partir de sua experiência eclesial: desde a morte e
ressurreição de Cristo, a Igreja é guiada por seu Espírito. Cristo é aquele que
dá o Espírito como dom permanente: o espírito desce sobre Jesus e permanece. 2
– O Evangelho de João atribui a Jesus o título bem particular de Cordeiro de
Deus. É uma viva alusão ao Servo de Deus, que, tal um cordeiro, não abre a boca
e dá sua vida em prol dos seus irmãos. Mas isso parece relacionar-se com o
cordeiro pascal e com o dom do Espírito. Pois tirar o pecado do mundo é
precisamente o legado que Jesus, com o dom do Espírito, deixa aos seus quando
de sua ressurreição.
Estimados Irmãos,
Hoje a Igreja
nos informa, pela sua Santa Liturgia, qual é a razão fundamental do seguimento
de Jesus: Jesus é o Filho de Deus, que veio com a força divina para limpar a
criatura humana e o pecado e dar-lhe a santidade e a vida de Deus. Jesus tem
descrita a maneira pela qual vai cumprir a sua missão.
João Batista
proclama Jesus Cristo Filho de Deus, eterno Senhor do tempo, o Messias
esperado, aquele que batizará no Espírito Santo. João, o Evangelista, une
imediatamente esta glória triunfal à imagem do cordeiro imolado, à cruz. A
exaltação de Jesus como Senhor do mundo e da história se dará quando Ele for “levantado da terra” e suspenso no
lenho. A hora da glória é a hora da cruz. Todo o Evangelho de João procura
mostrar que a estrada gloriosa do Senhor passa pela paixão e morte, vistas como
momentos de triunfo, e não de derrota. Jesus age em comunidade com o Pai e o
Espírito Santo, portanto não age sozinho. O Batista liga o Antigo ao Novo
Testamento pelo exemplo antecipado do verdadeiro cristão: crer, aceitar e dar
testemunho da pessoa divina e salvadora de Jesus que, aparecendo no tempo, é
eterna como Deus e, recriando o homem, o diviniza, eternizando-o.
Meus queridos irmãos,
Somos hoje
convidados a DAR TESTEMUNHO DE QUE JESUS DE NAZARÉ É O FILHO DE DEUS. João
Batista é enfático ao afirmar: “Ele está
à minha frente, Ele existiu antes de mim” (cf. Jo 1,30), isto é, Jesus é
maior do que eu, Ele já existia antes que o tempo existisse. João Batista
anuncia e afirma a eternidade de Jesus. E eterno só é Deus. Jesus se fez homem
com uma missão divina: salvar a humanidade, resgatar o homem e a mulher da
antiga culpa, do pecado original. E João Batista é a testemunha desta doce
verdade: “Eu vi e dou testemunho”.
Nós hoje somos também discípulos e por isso testemunhas do Ressuscitado, do
Cristo que caminha na história conosco, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do
mundo. Por isso, inicialmente, é preciso ver na pessoa humana de Jesus de
Nazaré o Filho de Deus, eterno e com missão divina. Ver, entender e compreender
este fato. Depois dar testemunho desta verdade inexorável, ou seja, passá-la
aos outros com humildade e grande convicção. “Dar testemunho” de Jesus é uma obrigação que João Evangelista
inculca ao longo de seu Evangelho.
Mas o
Evangelista fala das características deste Cordeiro de Deus: a mansidão e a
humildade que irá acompanhar Jesus de sua vida pública até a sua morte e
ressurreição por nós. João apresenta Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o
pecado do mundo. Jesus perdoa os pecados e tem este poder porque é Deus. Assim,
Jesus é o cordeiro pascal imolado pelos hebreus no Egito e seu sangue que,
derramado sobre portas, libertara o povo da morte. A expressão prevê a morte de
Jesus para dar a vida aos homens. Seu sangue será salvador.
O Cordeiro de
Deus, lembrado desde Isaías, aponta para a morte violenta de Jesus, mas recorda
seu comportamento silencioso – fazendo a vontade de Deus – e cheio de
misericórdia, mansidão, acolhida.
Somos, por
conseguinte, convidados a viver o exercício da bondade, da faternura, da
misericórdia, da mansidão a exemplo do Cristo Bom Pastor.
A dialética
presente de glória e humilhação, eternidade e morte, divindade e sofrimento
recorda a imolação e a cruz. O destino
de Jesus na terra, sem abdicar a divindade, passa pela dor e condenação. Por
isso, “quem se humilha será exaltado” (cf.
Lc 14,11 e 18,14).
Estimados
irmãos,
O importante
para o Evangelho é termos consciência de que Deus tem um projeto de salvação
para o mundo e para os homens. A história humana não é, portanto, uma história
de fracasso, de caminhada sem sentido para um beco sem saída; mas é uma
história onde é preciso ver Deus a conduzir o homem pela mão e a apontar-lhe,
em cada curva do caminho, a realidade feliz do novo céu e da nova terra. É
verdade que, em certos momentos da história, parecem erguer-se muros
intransponíveis que nos impedem de contemplar com esperança os horizontes
finais da caminhada humana; mas a consciência da presença salvadora e amorosa
de Deus na história deve animar-nos, dar-nos confiança e acender nos nossos
olhos e no nosso coração a certeza da vida plena e da vitória final de Deus.
Jesus não foi
mais um “homem bom”, que coloriu a história com o sonho ingênuo de um mundo
melhor e desapareceu do nosso horizonte; mas Jesus é o Deus que Se fez pessoa,
que assumiu a nossa humanidade, que trouxe até nós uma proposta objetiva e
válida de salvação e que hoje continua presente e ativo na nossa caminhada,
concretizando o plano libertador do Pai e oferecendo-nos a vida plena e
definitiva. Ele é, agora e sempre, a verdadeira fonte da vida e da liberdade.
Caros fiéis,
A Primeira
Leitura (cf. Is 49,3.5-6) apresenta o segundo canto do Servo de Javé; “Luz das
nações”, vocação e missão. Deus faz de seu Servo o Libertador de Israel e a Luz
das Nações. Na sua humildade revela-se a força de Deus.
É Deus que
escolhe, que chama, que envia. Referindo-se a Israel, a expressão faz alusão às
origens do Povo, à eleição e à aliança: Israel existe porque Deus o escolheu
entre todos os povos, revelou-lhe o seu rosto, constituiu-o como Povo,
libertou-o da escravidão, conduziu-o através do deserto e estabeleceu com ele
uma relação especial de comunhão e de aliança. A eleição e a aliança
pressupõem, contudo, a missão e o testemunho. A missão deste Servo a quem Deus
chamou é, em primeiro lugar, “reconduzir Jacob e reunir Israel” a Deus (vers.
5c.d). Aqui faz-se referência, provavelmente, ao regresso do Povo à órbita da
aliança (considerada rompida pelo pecado do Povo), à reunião de todos os
exilados e ao regresso à Terra Prometida.
A missão do Servo é, depois, ampliada “às nações” (vers. 6): Israel deve dar
testemunho da salvação de Deus, de forma a que a proposta salvadora e
libertadora chegue, por intermédio do Servo/Povo aos homens e mulheres de toda
a terra. Não deixa de impressionar a grandiosidade da missão confiada, em
contraste com a situação de opressão, de apagamento, de fragilidade em que
vivem os exilados. Aqui afirma-se o jeito de Deus, que age no mundo, salva e
liberta recorrendo a instrumentos frágeis e indignos.
Na primeira
leitura somos convidados a tomar consciência da vocação a que somos chamados e
das suas implicações. Não se trata de uma questão que apenas atinge e empenha
algumas pessoas especiais, com um lugar à parte na comunidade eclesial (os
padres, os diáconos, as freiras, as lideranças pastorais…); mas trata-se de um
desafio que Deus faz a cada um dos seus filhos, que a todos implica e que a
todos empenha. A figura do Servo de Javé nos convida, em primeiro lugar, a
tomar consciência de que na origem da vocação está Deus: é Ele que elege, que
chama e que confia a cada um uma missão. A nossa vocação é sempre algo que tem
origem em Deus e que só se entende à luz de Deus. A vocação não se esgota, contudo, na
aproximação do homem a Deus, mas é sempre em ordem a um testemunho e a uma
intervenção no mundo (mesmo que se trate de uma vocação contemplativa). O homem
chamado por Deus é sempre um homem que testemunha e que é um sinal vivo de
Deus, dos seus valores e das suas propostas diante dos outros homens. Ao refletirmos
na lógica da vocação, é preciso estarmos cientes de que toda a vocação tem
origem em Deus, é alimentada por Deus, e de que Deus se serve, muitas vezes, da
nossa fragilidade, caducidade e indignidade para atuar no mundo. Aquilo que
fazemos de bom e de bonito não resulta, portanto, das nossas forças ou das
nossas qualidades, mas de Deus. O coração do profeta não tem, portanto,
qualquer razão para se encher de orgulho, de vaidade e de autossuficiência:
convém ter consciência de que por detrás de tudo está Deus, e que só Deus é
capaz de transformar o mundo, a partir dos nossos pobres gestos e das nossas
frágeis forças.
Caros
irmãos,
A Segunda
Leitura (cf. 1Cor 1,1-3) nos apresenta a vocação de São Paulo ao apostolado e a
nossa vocação à vida de santidade. No início da Primeira Carta aos Coríntios,
na qualidade de vocacionado de Cristo, São Paulo lembra aos coríntios a sua
santa vocação. Pela vontade de Deus, apóstolo e comunidade formam uma só realidade.
Daí a paixão pela unidade da comunidade, nos primeiros capítulos da carta.
No decurso da
sua segunda viagem missionária, Paulo chegou a Corinto, depois de atravessar
boa parte da Grécia, e ficou por lá cerca 18 meses (anos 50-52). De acordo com
At 18,2-4, Paulo começou a trabalhar em casa de Priscila e Áquila, um casal de judeu-cristãos.
No sábado, usava da palavra na sinagoga. Com a chegada a Corinto de Silvano e
Timóteo (2 Cor 1,19; At 18,5), Paulo consagrou-se inteiramente ao anúncio do
Evangelho. Mas não tardou a entrar em conflito com os judeus e foi expulso da
sinagoga.
Corinto era
uma cidade nova e muito próspera. Servida por dois portos de mar, possuía as
características típicas das cidades marítimas: população de todas as raças e de
todas as religiões. Era a cidade do desregramento para todos os marinheiros que
cruzavam o Mediterrâneo, ávidos de prazer, após meses de navegação. Na época de
Paulo, a cidade comportava cerca de 500.000 pessoas, das quais dois terços eram
escravos. A riqueza escandalosa de alguns contrastava com a miséria da maioria.
Como resultado da pregação de Paulo, nasceu a comunidade cristã de Corinto. A
maior parte dos membros da comunidade eram de origem grega, embora em geral, de
condição humilde (cf. 1 Cor 11,26-29; 8,7; 10,14.20; 12,2); mas também havia
elementos de origem hebraica (cf. At 18,8; 1 Cor 1,22-24; 10,32; 12,13).
De uma forma geral, a comunidade era viva e fervorosa; no entanto, estava
exposta aos perigos de um ambiente corrupto: moral dissoluta (cf. 1 Cor
6,12-20; 5,1-2), querelas, disputas, lutas (cf. 1 Cor 1,11-12), sedução da
sabedoria filosófica de origem pagã que se introduzia na Igreja revestida de um
superficial verniz cristão (cf. 1 Cor 1,19-2,10).
Tratava-se de uma comunidade forte e vigorosa, mas que mergulhava as suas
raízes em terreno adverso. Na comunidade de Corinto, vemos as dificuldades da
fé cristã em inserir-se num ambiente hostil, marcado por uma cultura pagã e por
um conjunto de valores que estão em profunda contradição com a pureza da
mensagem evangélica.
São Paulo
começa esta carta com a saudação e a ação de graças, típicas das cartas
paulinas. Na saudação, carregada de conteúdo teológico, Paulo reivindica a sua
condição de escolhido por Deus (de apóstolo), sugerindo que está revestido de
autoridade para proclamar com plena garantia o Evangelho. Esta reivindicação
sugere que, no contexto coríntio, havia quem punha em causa a sua autoridade
apostólica e o seu testemunho. Os destinatários da carta são, evidentemente, os
membros da comunidade cristã de Corinto; no entanto, a mensagem serve para os
cristãos de todas as épocas e de todas as latitudes.
Neste
parágrafo inicial, o vocábulo chamado assume um lugar especial: Paulo foi
chamado por Deus a ser apóstolo e os coríntios são uma comunidade de chamados à
santidade. Transparece aqui, como na primeira leitura, a convicção de que Deus
tem um projeto para os homens e para o mundo e que todos – quer Paulo, quer os
cristãos de Corinto, são chamados a um compromisso efetivo com esse projeto.
O que é que
significa ser chamado à santidade? No contexto paulino, os santos são todos
aqueles que acolheram a proposta libertadora de Jesus e aceitaram os valores do
Evangelho. Os “santos” são os “separados”: os coríntios são “santos” porque, ao
aceitar a proposta de Jesus, escolheram viver “separados” do mundo. “Separados”
não significa “alheados”; mas significa viver de acordo com valores e esquemas
diferentes dos valores e esquemas consagrados pelo mundo.
A palavra
“klêtos” (“chamado”), aqui usada, supõe Deus como sujeito: foi Deus que chamou
Paulo; é Deus que chama os coríntios. Mais uma vez fica claro que o chamamento
provém da iniciativa divina e que só se compreende a partir de Deus e à luz da
ação de Deus.
Realizar a
vocação à santidade não implica seguir caminhos impossíveis de ascese, de
privação, de sacrifício; mas significa, sobretudo, acolher a proposta
libertadora que Deus oferece em Jesus e viver de acordo com os valores do
Reino.
Convém ter
sempre presente que a Igreja, a comunidade dos “chamados à santidade”, é
constituída por “todos os que invocam, em qualquer lugar, o nome de Nosso
Senhor Jesus Cristo”. É importante termos consciência de que, para além da cor
da pele, das diferenças sociais, das distâncias sociais ou culturais, das
perspectivas diferentes sobre as questões secundárias da vivência da religião,
o essencial é aquilo que nos une e nos faz irmãos: Jesus Cristo e o
reconhecimento de que Ele é o Senhor que nos conduz pela história e nos oferece
a salvação.
Caros
irmãos,
Como respondo ao chamado de Deus à santidade? Deixo-me
conduzir pelo seu Espírito? E a comunidade, apresenta-se como espaço no qual a
santidade pode desabrochar ou vive fechada em si mesma? Todo aquele que
mergulha no Espírito está sempre em saída, jamais preso em si mesmo. Toda
comunidade que se deixa impregnar do Espírito de Deus se configura como
comunidade em missão!
Jesus não só oferece o perdão dos pecados, mas também
tira (leva embora) o pecado do mundo. Como vivemos a experiência do perdão?
Quando recebo o perdão ou perdoo a meu irmão, faço-o com o propósito de
extirpar o pecado do mundo? Caminhar na santidade consiste em oferecer e
receber o perdão! A comunidade caminha na santidade?
Percebo o Espírito da vida, da verdade, do amor e da
santidade agindo em mim e na comunidade? De que modo a comunidade defende a
vida, busca a verdade, vive a caridade, reveste-se de santidade? Colaboro com
isso?
Prezados
irmãos,
Esta liturgia
está interligada com a do domingo passado, festa do Batismo de Jesus. Nós somos
convidados a meditar acerca da nossa missão batismal, do que cada um de nós,
como membro batizado na comunidade faz para a evangelização. Todos os fiéis
batizados estão cooperando com o anúncio do Evangelho, na catequese, na
liturgia, nas pastorais sociais? Ressalte-se a importância da vida comunitária,
como nos ensina a segunda leitura. Iluminados pela Palavra de Deus devemos
perceber que cada fiel deve iluminar o mundo com seu testemunho, com a sua
conduta e com o anúncio da Boa-nova de Jesus.
Estimados
irmãos,
O mundo foi criado para o bem. O pecado entrou
depois e a terra tornou-se um lugar de exílio, e o homem passou a viver em
permanente saudade do céu. Hoje o Cristo vem para tirar o pecado do mundo. E o
faz através do mesmo espírito que, no início da criação, dava vida ao mundo. O
Evangelho de hoje não informa que Jesus veio não apenas dar a vida, mas a vida
divina. Recria, para bem melhor, a condição humana, refaz na criatura humana o
direito à herança do céu. E se torna para a humanidade o caminho de ligação com
a Santíssima Trindade. A Segunda Leitura se une às duas outras mediante o tema
da vocação – a vocação de Paulo como apóstolo, vocação dos fiéis de Corinto, e
de toda a Igreja, à santidade. Toda vocação participa da vocação que Deus
suscitou nos seus filhos, desde antigamente, participa, especialmente e de
maneira incomparável, da vocação de Cristo.
Jesus tira os
pecados do mundo. O homem moderno, entretanto, parece que falsamente está
convencido de ser o dono do seu destino. Hoje há um novo modo de se por e viver
o problema da salvação, de maneira equivocada. Ao homem de hoje se oferece uma
nova esperança terrena. A visão do homem passa de teocêntrica a geocêntrica e
antropocêntrica: operou-se um radical deslocamento de interesses, uma autêntica
revolução coopernicana no universo espiritual do homem. O homem atual,
desgraçadamente, não se considera mais um peregrino que percorre apressadamente
o vale de lágrimas deste mundo, todo voltado para a terra prometida da
eternidade. O homem hodierno torna-se cada vez mais sedentário; substituiu a
tenda movediça pela sólida casa de pedra. As únicas fronteiras que conhece são
as terrestres e temporais. Uma esperança humana e terrena tomou o lugar da
esperança teologal.
O homem atual
quer conquistar a sua salvação pela felicidade irreversível do mundo. A
fidelidade à terra e a preocupação com a construção da cidade terrena sobrepujaram
a fidelidade à Deus, à Igreja e à cidade celeste, à Jerusalém do Alto. O homem
confia mais nas suas próprias forças do que nas forças salvadoras de Deus.
Urge uma
mudança radical de paradigmas. Devemos relativizar as coisas humanas e
valorizar as coisas eternas, o sagrado, os sacramentos, a vida comunitária, o
anúncio da salvação, o “Cordeiro de Deus” que tira os pecados do mundo. Jesus
Cristo é o cordeiro da Nova Páscoa que, com a sua morte, inaugura e ratifica a
libertação do povo de Deus. Somente Jesus poderá vencer o mal, as drogas, a
violência, a corrupção, a maldade, o degredo, o pecado, a perdição do homem de
nossos dias. As experiências negativas e nefastas de guerras, armas nucleares,
ausência do diálogo internacional, devastação ambiental nos convida a refundar
a nossa caminhada de discípulos-missionários de Jesus Cristo que, pela palavra
de João dirigida a Jesus: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado mundo.
Dele é que eu disse: Depois de mim vem um homem que passou à minha frente,
porque existia antes de mim. Também eu não o conhecia, mas se eu vim batizar
com água, foi para que ele fosse manifestado a Israel” (cf. Jo 1,29-31). Jesus,
o Cordeiro de Deus, anunciado por João Batista é o Reino novo que veio estar
entre os homens. A Eucaristia do pão e do vinho é a continuação, no tempo,
desta revelação: “Deus está conosco”. Participar desta revelação é participar
do Banquete Eucarístico Dominical, em estado de graça, colocando a sua adesão à
realidade do Reino que vem!
Peçamos, pois,
irmãos e irmãs, que todos se empenhem na busca da justiça de Deus, porque a
nossa vocação é uma participação na do Cristo, mediante o Espírito que permanece
n’Ele e nos faz permanecer n’Ele, para que nós, como novos servos de Deus,
tiremos de todos os modos possíveis o pecado do mundo, empenhando-nos pela
justiça de Deus. Amém!
Padre Wagner Augusto Portugal

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