“O Senhor me disse: “És o meu Filho, eu hoje te gerei!”(cf. Sl 2,7).
Meus queridos irmãos,
Seguindo antiguíssima tradição da
Igreja se celebra, na meia noite do dia 24 de dezembro para o dia 25 de
dezembro, a missa da Noite de Natal em que somos convidados a refletir que o
amor eterno se fez criança em Belém.
A Primeira Leitura (cf. Is 9,1-6)
anuncia a chegada de “um menino”, da descendência de David, dom de Deus ao seu
Povo; esse “menino” eliminará a guerra, o ódio, o sofrimento e inaugurará uma
era de alegria, de felicidade e de paz sem fim. O panorama é sombrio e parece
não haver saída, pois os reis de Judá já provaram ser incapazes de conduzir o
seu Povo em direção à felicidade e à paz. Mas, de repente, aparece uma “luz”.
Essa luz acende a esperança e provoca uma explosão de alegria. Para descrever
essa alegria, o profeta utiliza duas imagens extremamente sugestivas: é como
quando, no fim das colheitas, toda a gente dança feliz celebrando a abundância
dos alimentos; é como quando, após a caçada, os caçadores dividem a presa
abundante. É Jesus, o “menino de Belém”, que dá sentido pleno a esta profecia
messiânica de Isaías. Ele é “aquele que veio de Deus” para vencer as trevas e
as sombras da morte que ocultavam a esperança e instaurar o mundo novo da
justiça, da paz e da felicidade. O nascimento de Jesus que celebramos esta noite
significa que, efetivamente, este “Reino” chegou e incarnou no meio dos homens.
Acolher Jesus, celebrar o seu nascimento, é aceitar esse projeto de justiça e
de paz que Ele veio trazer aos homens. Isaías diz que só podemos confiar em
Deus e nesse “menino” que Ele mandou ao nosso encontro, se quisermos encontrar
a “luz” e a paz. Reparemos, ainda, no “jeito” de Deus: Ele não se serve da
força e do poder para intervir na história e para mudar o mundo; mas é através
de um “menino” – símbolo máximo da fragilidade e da dependência – que Deus
propõe aos homens o seu projeto de salvação.
Caros irmãos,
O Evangelho desta missa da noite (cf.
Lc 2,1-14) apresenta a realização da promessa profética: Jesus, o “menino de
Belém”, é o Deus que vem ao encontro dos homens para lhes oferecer – sobretudo
aos pobres e marginalizados – a salvação. A proposta que Ele traz não será uma
proposta que Deus quer impor pela força; mas será uma proposta que Deus oferece
ao homem com ternura e amor.
Jesus nasce em Belém, da
descendência de David, anunciado pelos profetas (cf. Miq 5,1). Fica, desta
forma, claro que o nascimento de Jesus se integra no plano de salvação que Deus
tem para os homens – plano que os profetas anunciaram e cuja realização o Povo
de Deus aguardava ansiosamente. São Lucas descreve pormenorizadamente a pobreza
e a simplicidade que rodeiam a vinda ao mundo do libertador dos homens: a falta
de lugar na hospedaria, a manjedoura dos animais a fazer de berço, os panos
improvisados que envolvem o bebé, a visita dos pastores. Claramente é na
pobreza, na simplicidade, na fragilidade, que Deus Se manifesta aos homens e
lhes oferece a salvação. Os esquemas de Deus não se impõem pela força das
armas, pelo poder do dinheiro ou pela eficácia de uma boa campanha
publicitária; mas Deus escolhe vir ao encontro dos homens na simplicidade, na
fraqueza, na ternura de um menino nascido no meio de animais, na absoluta
pobreza. É assim que Deus entra na nossa história. É assim a lógica de Deus.
As “testemunhas” do nascimento de Jesus são os pastores. Trata-se
de gente considerada rude, violenta, marginal, que invadiam com os rebanhos as
propriedades alheias e que tinham fama de se apropriar da lã, do leite e das
crias do rebanho em benefício próprio. Eram, com frequência, colocados ao lado
dos publicanos e dos cobradores de impostos pela rígida moral dos fariseus: uns
e outros eram pecadores públicos, incapazes de reparar o mal que tinham feito,
tantas eram as pessoas a quem tinham prejudicado. Ora, São Lucas coloca,
precisamente, esses marginais como as “testemunhas” que acolhem Jesus. O
evangelista sugere, desta forma, que é para estes pecadores e marginalizados
que Jesus vem; por isso, a chegada de um tal “salvador” é uma “boa notícia”: a
partir de agora, os pobres, os débeis, os marginalizados, os pecadores, dos
lascados, daqueles que vivem nas “periferias existenciais” que são convidados a
integrar a comunidade dos filhos amados de Deus. Eles vêm ao encontro dessa
salvação que Deus lhes oferece em Jesus e são convidados a integrar a
comunidade da nova aliança, a comunidade do “Reino”.
Jesus é chamado pelos anjos que anunciam o nascimento: Ele é “o
salvador, Cristo Senhor”. O título “salvador” era usado, na época de Lucas,
para designar o imperador ou os deuses pagãos; Lucas, ao chamar Jesus desta
forma, apresenta-O como a única alternativa possível a todos os absolutos que o
homem cria… O título “Cristo” equivale a “Messias”: aplicava-se, no judaísmo
palestinense do séc. I, a um rei da descendência de David, que viria restaurar
o reino ideal de justiça e de paz da época davídica; dessa forma, Lucas sugere
que o “menino de Belém” é esse rei esperado. O título “Senhor” expressa o
carácter transcendente da pessoa de Jesus e o seu domínio sobre a humanidade.
Com estes três títulos, a catequese lucana apresenta Jesus aos homens e define
o seu papel e a sua missão.
Caros irmãos,
O menino de Belém leva-nos a contemplar o incrível amor de um Deus
que Se preocupa até ao extremo com a vida e a felicidade dos homens e que envia
o próprio Filho ao mundo para apresentar aos homens um projeto de salvação/libertação.
Nesse menino de Belém, Deus grita-nos a radicalidade do seu amor por nós.
O presépio nos apresenta a
lógica de Deus que não é, tantas vezes, igual à lógica dos homens: a salvação
de Deus não se manifesta nos encontros internacionais onde os donos do mundo
decidem o destino dos homens, nem nos gabinetes ministeriais, nem nos conselhos
de administração das multinacionais, nem nos salões onde se concentram as
estrelas do jet-set, mas numa gruta de pastores onde brilha a fragilidade, a
dependência, a ternura, a simplicidade de um bebé recém-nascido.
A presença libertadora de Jesus neste mundo é uma “boa notícia”
que devia encher de felicidade os pobres, os débeis, os marginalizados e
dizer-lhes que Deus os ama, que quer caminhar com eles e que quer oferecer-lhes
a salvação.
Prezados irmãos,
Na segunda leitura (cf. Tt 2,11-14) nos lembra as razões pelas
quais devemos viver uma vida cristã autêntica e comprometida: porque Deus nos
ama verdadeiramente; porque este mundo não é a nossa morada permanente e os
valores deste mundo são passageiros; porque, comprometidos e identificados com
Cristo, devemos realizar as obras d’Ele. Tito, o destinatário desta carta, é um
cristão convertido por Paulo (cf. Tt 1,4), que acompanhou o apóstolo em algumas
missões importantes (participou, com Paulo, no Concílio de Jerusalém – cf. Ga
2,1-2; esteve com ele em Éfeso; por duas vezes, foi enviado a Corinto, a fim de
resolver conflitos entre Paulo e essa comunidade – cf. 2 Cor 7,6-7; 8,16-17) e
que foi animador da Igreja de Creta (cf. Tt 1,5).
A Carta quer dar aos cristãos razões válidas para viver uma vida
cristã autêntica e comprometida. Quais são essas razões? A primeira é o amor
(“kharis”) de Deus, que foi oferecido a todos os homens. É esse amor que
possibilita a renúncia à impiedade e aos desejos deste mundo e a vivência da
temperança, da justiça e da piedade; sendo os destinatários desse amor
transformador e renovador, temos de viver uma vida nova e comprometida com o
Evangelho. A segunda é a esperança na manifestação gloriosa de Cristo, que
convida os homens a perceber que a terra não é a sua pátria definitiva; quem
espera a segunda vinda de Cristo, percebe que só faz sentido olhar para os bens
essenciais; consequentemente, desprezará os bens materiais, que só interessam a
este mundo. A terceira é a obra redentora levada a cabo por Cristo. Cristo
entregou-Se totalmente, até à morte, para nos salvar do egoísmo, do orgulho, do
pecado e para fazer de nós homens novos. Ligados a Ele pelo baptismo,
tornamo-nos um com Ele e recebemos vida d’Ele… Se estamos ligados a Cristo e se
recebemos d’Ele vida, essa vida tem de manifestar-se na nossa existência
diária.
Prezados irmãos,
O Menino Jesus, que nasce pobre em Belém, é que dá sentido às
profecias anunciadas por Isaías. Ele é aquele que vem arrancar o povo da
escuridão e das sombras da morte. O nascimento de Jesus, que celebramos nesta
noite, significa que Ele é, para nós, a esperança da nova ordem que as
profecias apontam. E acolhê-lo implica entrar na dinâmica de seu projeto de
paz. Sua chegada nos interpela: é realmente nele que depositamos toda a nossa
confiança e esperança?
O presépio nos ajuda a contemplar que a lógica de Deus é muito
diferente da lógica do mundo em que vivemos. Deus se manifesta na pequenez de
uma criança, que nasce cercada de pessoas simples e de seres da natureza, e não
em um ambiente de riqueza e esplendor. É na manjedoura, na fragilidade, na
simplicidade que a luz do mundo brilha. Sua chegada é Boa Notícia, é ternura
que enche de felicidade aqueles que estão à margem.
Nossa cultura globalizada institucionalizou e sacralizou muitos
valores efêmeros, como dinheiro, status, bens de
consumo, sucesso, poder e visibilidade midiática, e montou um sistema
publicitário que nos induz à busca da felicidade falsa ou aparente. No entanto,
esses valores frequentemente levam as pessoas a uma vida vazia e sem sentido. A
celebração do Natal nos confronta, fazendo-nos pensar nos valores que norteiam
nossa vida. É Jesus Cristo nossa referência? É ele que conduz nossa vida, ou
preferimos seguir as propostas das autoridades deste mundo, que não passam de
ídolos?
Caros irmãos,
Depois de termos cantado nesta noite, depois da expectação
adventícia, irrompendo o Glória a Deus nas alturas, em ação de graças pelo
nascimento de Jesus que nasceu para nos salvar. A alegria do Glória deve
inundar de alegria o tempo de Natal e nos renovar no compromisso com uma vida
renascida na simplicidade e no discipulado do Menino que se fez homem para a
remissão do gênero humano do pecado original.
Levemos para nossas casas o menino nascido para redimir a
humanidade. Alegremo-nos diante de Jesus Menino. Nas trevas e no caos de uma
sociedade que só crê na força, na violência, na guerra, queremos reafirmar que
o Natal é a inversão destes valores. «Deus está conosco” numa Criança, no
Menino Jesus.
Na aventura da nossa fé, de
vencer o mal e a violência anunciemos a luz de Cristo que nos ensina a
humildade entre os humildes para mostrar que Jesus nasce particularmente nos
corações simples. Na singeleza da manjedoura, o filho de Deus, que é a
esperança ao mundo nos convida, como os anjos disseram aos pastores: “Não
tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que o será para todo o povo.
Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor!” (Cf.
Lc 2,10b-11). Que nosso Natal seja de iluminar a todos os homens e mulheres com
a paz e a vida nova que nasce de Jesus e que devemos transmitir a todos. Feliz
Natal!
Padre Wagner Augusto Portugal.

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