“Um menino nasceu
para nós: um Filho nos foi dado! O poder repousa nos seus ombros. Ele será
chamado “mensageiro do conselho de Deus” (cf. Is 9,6).
Com Santo Agostinho sintetizamos a
festa que hoje, com júbilo e contentamento, celebramos: “Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus”. Ser deus é
um sonho permanente da criatura humana, desde o paraíso terrestre. Todos
nascemos com permanente saudade do céu. Hoje o sonho se torna realidade. Neste
dia santo se satisfaz a saudade. Neste dia não somente Deus “desceu” à terra, mas também o homem “subiu” aos céus. Divindade e humanidade
se encontram num abraço verdadeiro, feliz, eterno.
Natal é a festa que une a humanidade
e a divindade. É a grande festa da manifestação da divindade. É a festa da
união, para sempre da humanidade com Deus. Natal uma verdade que nos alegra e
nos dá a certeza da vida eterna.
Os anjos na noite santa cantaram: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra
aos homens por Ele amados”. A terra tornou-se céu, os homens, maravilhados,
se põem a caminho, como os pastores, para ver o céu ao alcance de sua mão, na
pobreza linda de uma manjedoura.
Prezados
irmãos,
A Primeira Leitura (cf. Is 52,7-10)
desta solenidade nos apresenta a alegria da boa-nova, salvação universal. Os
reis de Israel não trouxeram a salvação para o seu povo, mas o abandonaram.
Deus, ao contrário, não o abandona. Ele o reconduz e reconstrói a cidade
destruída. Ressoa agora a boa-nova: “Deus é rei”, e não só de Israel e de Judá,
mas de todos os povos. Ele os outorgará liberdade e paz, se eles quiserem
reconhecer e aceitar a sua oferta.
À Jerusalém desolada e em ruínas, chega um mensageiro com
uma “boa notícia”. Qual é essa “boa notícia” que o mensageiro traz? Ele anuncia
“a paz” (“shalom”: paz, bem-estar, harmonia, felicidade), proclama a “salvação”
e promete o “reinado de Deus”. A questão é, portanto, esta: Deus assume-se como
“rei” de Judá. Ele não reinará à maneira
desses reis que conduziram o Povo por caminhos de egoísmo e de morte, de
desgraça em desgraça até à catástrofe final do Exílio; mas Deus exercerá a
realeza de forma a proporcionar a “salvação” ao seu Povo – isto é, inaugurando
uma era de paz, de bem-estar, de felicidade sem fim. Num desenvolvimento muito
bonito, o profeta/poeta põe as sentinelas da cidade (alertadas pelo anúncio do
“mensageiro”) a olhar na direção em que deve chegar o Senhor. De repente, soa o
grito das sentinelas. Não é, no entanto, um grito de alarme, mas de alegria
contagiante: elas vêem o próprio Deus regressar ao encontro da sua cidade. Com
Deus, Jerusalém voltará a ser uma cidade bela e harmoniosa, cheia de alegria e
de festa. O profeta/poeta convida as próprias pedras da cidade em ruínas a
cantar em coro, porque a libertação chegou. E a salvação que Deus oferece à sua
cidade e ao seu Povo será testemunhada por toda a terra, como se o mundo
estivesse de olhos postos na ação vitoriosa de Deus em favor de Judá.
A alegria contagiante das sentinelas e os brados de
contentamento das próprias pedras da cidade convidam-nos a acolher com alegria
e em festa o Deus que veio nos libertar. Se temos consciência da opressão que,
dia a dia, nos rouba a vida e nos impede de ser livres e felizes, certamente
sentiremos um grande contentamento ao deparar com essa proposta de liberdade
que Jesus veio trazer. As sentinelas atentas que, nas montanhas em redor de
Jerusalém, identificam a chegada do Deus libertador são um modelo para nós: nos
convidam a ler, atentamente, os sinais da presença libertadora de Deus no mundo
e a anunciar a todos os homens que Deus aí está, para reinar sobre nós e para
nos dar a salvação e a paz.
O salmo responsorial nos leva a cantar a bondade e a
fidelidade de Deus para com o seu povo: “Os confins do universo contemplaram a
salvação do nosso Deus!”(cf. Sl 97(98),1.2-3ab.3cd-4.5-6).
Meus caros irmãos,
A Segunda Leitura (cf. Hb 1,1-6) nos apresenta as palavras
provisórias e a Palavra definitiva de Deus. Em Cristo, plenificaram-se todas as
manifestações de Deus. Ele venceu a morte e o pecado: a glória de Deus se
manifestou n’Ele. A fé na sua obra redentora e glorificação junto ao Pai é a
base da esperança de nossa própria arrematação.
Na segunda leitura temos as coordenadas fundamentais da
história da salvação. Deus é o protagonista dessa história. O texto alude ao
projeto salvador de Deus. Esse projeto manifestou-se, numa primeira fase,
através dos porta-vozes de Deus – os profetas; eles transmitiram aos homens a
proposta salvadora e libertadora de Deus.
Veio, depois, uma segunda etapa da história da salvação: “nestes dias que são
os últimos”, Deus manifestou-se através do próprio “Filho” – Jesus Cristo, o
“menino de Belém”, a Palavra plena, definitiva, perfeita, através da qual Deus
vem ao nosso encontro para nos “dizer” o caminho da salvação e da vida nova. O
nosso texto reflete então – sem, contudo, desenvolver uma lógica muito ordenada
– sobre a relação de Jesus com o Pai, com os homens e com os anjos (o que nos
situa no ambiente de uma comunidade que dava importância excessiva ao culto dos
“anjos” e que lhes concedia um papel preponderante na salvação do homem). Como
é que se define a relação de Jesus com o Pai? Para o autor da Carta aos
Hebreus, Jesus, o “Filho”, identifica-Se plenamente com o Pai. Ele é o
esplendor da glória do Pai, a imagem do ser do Pai, a reprodução exata e
perfeita da substância do Pai: desta forma, o autor da carta afirma que Jesus
procede do Pai e é igual ao Pai. N’Ele manifesta-se o Pai; quem olha para Ele,
encontra o Pai. Definida a relação de Jesus com Deus, o autor reflete sobre a
relação de Jesus com o mundo. O Filho está na origem do universo (e, portanto,
também do homem); por isso, Ele tem um senhorio pleno sobre toda a criação.
Essa soberania expressa-se, inclusive, na encarnação e redenção: Ele veio ao
encontro do homem e purificou-o do pecado: dessa forma, Ele completou a obra
começada pela Palavra criadora, no início. É como “o Senhor” – que possui
soberania sobre os homens e sobre o mundo, que cria e que salva – que os homens
o devem ver e acolher.
A igualdade fundamental do “Filho” com o Pai fá-lo muito superior aos anjos: os
anjos não são “filhos”; mas Jesus é “o Filho” e o próprio Deus proclamou essa
relação de filiação plena, real, perfeita. Não são os anjos que salvam, mas sim
“o Filho”.
Sendo a Palavra última e definitiva de Deus, Ele deve ser escutado pelos homens
como o caminho mais seguro para chegar a essa vida nova que o Pai nos quer
propor. É tendo consciência desse facto que devemos acolher o “menino de
Belém”.
Celebrar o nascimento de Jesus é, em primeiro lugar,
contemplar o amor de um Deus que nunca abandonou os homens à sua sorte; por
isso, rompeu as distâncias, encontrou forma de dialogar com o homem e enviou o
próprio Filho para conduzir o homem ao encontro da vida definitiva, da salvação
plena. No dia de Natal, nunca será demais insistir nisto: o Deus em quem
acreditamos é o Deus do amor e da relação, que continua a nascer no mundo, a
apostar nos homens, a querer dialogar com eles, e que não desiste de propor aos
homens – apesar da indiferença com que as suas propostas são, às vezes,
acolhidas – um caminho para chegar à felicidade plena.
Meus
irmãos,
No Evangelho da Vigília de Natal
lemos que “José subiu da Galiléia para a
Judéia” (cf. Lc 2, 4). A Palestina estava dividida naquele tempo em três
províncias políticas: Judéia (onde se situava Jerusalém, Belém e Jericó);
Galiléia(onde ficava Nazaré, Cafarnaum, Caná e o Lago de Genesaré) e a Samaria,
entre a Galiléia e a Judéia (com a cidade de Samaria e o famoso Poço de Jacó,
em Sicar). De Nazaré a Jerusalém são, mais ou menos, 170km. Primeiro, se desce
até Jericó, atravessando a Samaria e acompanhando o vale do Rio Jordão. Depois,
se sobe a quase mil metros, para alcançar Jerusalém. De Jerusalém a Belém são
uns 15 km. Maria teria feito a viagem no lombo de um burrinho.
Como sabemos “não havia lugar na hospedaria” (cf. Lc 2, 7): não devemos pensar a
hospedaria de Belém como um hotel hoje. A hospedaria era um terreiro cercado de
muros de pedra, ao relento. Num dos cantos, pernoitavam os camelos e os burros;
noutro, os homens; noutro as mulheres, noutro eram depositadas as mercadorias.
Compreende-se que José não tenha querido expor Maria a um parto público. E saiu
à procura de uma das muitas grutas existentes na região. E foi assim, na maior
das simplicidades, numa gruta sem dono, no meio da noite, abrigado pela dureza
da pedra, aquecido pelo carinho de José, envolto na ternura de uma jovem mãe,
que nasceu Jesus, o Filho de Deus entre os homens.
Amados
amigos,
Quando Jesus nasceu Otaviano era o
Imperador. Jesus nasceu em Belém da Judéia, longe de Nazaré, onde fora
concebido e onde era a casa de Maria e José, e nasceu dentro da história dos
homens, dentro de um ambiente, dentro de uma família hebréia pobre que devia
obedecer, à risca, as leis civis e os decretos das autoridades. Toda a história
de Jesus acontece dentro da história da humanidade. Jesus não é um mito, é uma
realidade histórica. É Deus em carne e osso humanos. Se a nossos olhos, a grandeza
de Deus se apequena, a pequenez do homem se agiganta, tornando-se “participante da natureza divina” (cf.
2Pd 1,4).
Caros
irmãos,
A missa do dia de Natal ressalta a
eterna grandeza de Jesus. Poderemos cantar a glória, o Senhorio de Cristo. A
Palavra de Deus se tornou existência humana (cf. Jo 1,1-18 ou 1,1-5,9-14).
Jesus é tudo o que é manifestação, “palavra” de Deus para nós, desde a palavra
da criação, e mesmo antes! Ora, esta manifestação de Deus, sua Palavra é
“carne”, existência humana mortal, morando no nosso meio – mas, nesta moradia
carnal, nesta existência humana vivida até a morte, se nos revela a glória de Deus,
como no seu Templo. E para nós, isto significa decisão: adesão ou rejeição.
Caros
irmãos,
O prólogo ao Quarto Evangelho começa com a expressão “no
princípio”: dessa forma, João enlaça o seu Evangelho com o relato da criação
(cf. Gn 1,1), oferecendo-nos assim, desde logo, uma chave de interpretação para
o seu escrito. Aquilo que ele vai narrar sobre Jesus está em relação com a obra
criadora de Deus: em Jesus vai acontecer a definitiva intervenção criadora de
Deus no sentido de dar vida ao homem e ao mundo… A atividade de Jesus, enviado
do Pai, consiste em fazer nascer um homem novo; a sua ação coroa a obra
criadora iniciada por Deus “no princípio”.
João apresenta, logo a seguir, a “Palavra” (“Lógos”). A “Palavra” é – de acordo
com o autor do Quarto Evangelho – uma realidade anterior ao céu e à terra,
implicada já na primeira criação. Esta “Palavra” apresenta-se com as
características que o “Livro dos Provérbios” atribuía à “sabedoria”:
pré-existência (cf. Prov 8,22-24) e colaboração com Deus na obra da criação
(cf. Prov 8,24-30). No entanto, essa “Palavra” não só estava junto de Deus e
colaborava com Deus, mas “era Deus”. Identifica-se totalmente com Deus, com o
ser de Deus, com a obra criadora de Deus. É como que o projeto íntimo de Deus,
que se expressa e se comunica como “Palavra”. Deus faz-Se inteligível através
da “Palavra”. Essa “Palavra” é geradora de vida para o homem e para o mundo, concretizando
o projeto de Deus. Essa “Palavra” veio ao encontro dos homens e fez-se “carne”
(pessoa). João identifica claramente a “Palavra” com Jesus, o “Filho único
cheio de amor e de verdade”, que veio ao encontro do homem. Nessa pessoa
(Jesus), podemos contemplar o projeto ideal de homem, o homem que nos é
proposto como modelo, a meta final da criação de Deus. Essa “Palavra” “montou a
sua tenda no meio de nós”. O verbo “skênéô” (“montar a tenda”) aqui utilizado
alude à “tenda do encontro” que, na caminhada pelo deserto, os israelitas
montavam no meio ou ao lado do acampamento e que era o local onde Deus residia
no meio do seu Povo (cf. Ex 27,21; 28,43; 29,4…). Agora, a “tenda de Deus”, o
local onde Ele habita no meio dos homens, é o Homem/Jesus. Quem quiser
encontrar Deus e receber d’Ele vida em plenitude (“salvação”), é para Jesus que
se tem de voltar.
A transformação da “Palavra” em “carne” (em menino do
presépio de Belém) é a espantosa aventura de um Deus que ama até ao
inimaginável e que, por amor, aceita revestir-Se da nossa fragilidade, a fim de
nos dar vida em plenitude. Neste dia, somos convidados a contemplar, numa
atitude de serena adoração, esse incrível passo de Deus, expressão extrema de
um amor sem limites.
Caros
irmãos,
A alegria das sentinelas atentas das montanhas ao redor
de Jerusalém, a ponto de até as pedras bradarem de contentamento, é expressão
de uma linguagem simbólico-profética usada para descrever os sinais precursores
da chegada de Deus. Na verdade, o profeta nos convida a estarmos atentos e
preparados para ler os sinais da chegada do Senhor. Ele vem para transformar
realidades e atitudes que não promovem a vida. É essa alegria que nos anima,
que reina em nossa cidade, neste dia em que celebramos a chegada libertadora de
Jesus?
Celebrar o nascimento de Jesus é momento privilegiado de
contemplar o amor misericordioso de Deus, que não abandona a criatura humana
nem dela se distancia. Pelo contrário, ele rompe todas as barreiras e
distâncias para proporcionar nosso encontro com ele. O menino Jesus, que
contemplamos no presépio, é a Palavra definitiva, revelada a toda a humanidade;
é o verdadeiro caminho que conduz à salvação. Escutar e acolher essa Palavra é
o critério fundamental que deve orientar nossas escolhas e atitudes. Jesus, Palavra
viva do Pai enviada a este mundo, é, de fato, minha referência?
Em nossos dias, como no tempo em que João compôs seu
Evangelho, Jesus, a Palavra encarnada do Pai, continua a confrontar os sistemas
que destroem a vida das pessoas e de toda a obra criada por Deus, para
eliminar, na sua origem, as forças avassaladoras da morte. Acolher essa
Palavra, que veio armar sua tenda no meio de nós, exige compromisso diante das
forças do mal que ameaçam a vida em nosso planeta. Jesus é a luz que brilha em
meio às trevas e hoje nos convida a manter viva a chama do amor que ele veio acender.
Estimados
Irmãos,
Natal é festa dos homens e das
mulheres. Festa da alegria porque Deus nasceu para nos salvar. Jesus nos fez,
por seus méritos, partícipes da vida eterna. Hoje é um dia muito especial, com
festas, com confraternizações, com ternura, com amizade, com perdão, com
misericórdia, com acolhida do diferente, com abraço fraterno. Mas não vamos
fazer do NATAL uma festa profana, pura e simplesmente, só de troca de
presentes. Vamos deixar Jesus nascer na nossa vida, com uma conversão sincera,
e uma adesão a este Menino que mudou os Rumos da humanidade, nos trazendo a paz
e a salvação eterna, porque “Nasceu para
nós um menino, um filho nos foi dado (cf. Lc 2, 11)”.
Todos nós devemos nos deixar possuir
por Deus, como a sala é possuída de ar e pela luz. Não nos fechemos a Jesus.
Contemplando a simplicidade da manjedoura, todos somos chamados a sermos pobres
e santos fazendo com QUE JESUS MORE EM NOSSAS VIDAS PORQUE O SENHOR ESTEJA
CONVOSCO: ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS!
Jesus veio ao nosso encontro, morar
conosco: “Ele armou sua tenda entre nós” (cf.
Jo 1,14)
Natal é festa da comunidade, é festa
da família: a união da família divina a família humana. Assim, vivamos com
intensidade este dia santo na busca do rosto de Deus: um rosto de amor em nosso
favor.
Feliz Natal!
Padre Wagner Augusto Portugal

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