“Céus,
deixai cair o orvalho; nuvens, chovei o justo; abra-se a terra e brote o
Salvador!” (cf. Is. 45,8).
Meus queridos amigos,
Chegamos ao último domingo do Advento. Advento que é tempo propício de vigilância. Assim, este domingo é o domingo do Emanuel, o “Deus conosco”. Já cantamos na antífona da entrada: “Céus, fazei descer o orvalho e faz brotar da terra a salvação, o Salvador”. (cf. Is 45,8). Jesus, gerado pelo orvalho do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, é a realização plena do sinal da presença de Deus que o profeta Isaías anunciou ao rei Acaz, setecentos anos antes: o nascimento de um filho da jovem princesa – da “virgem”, como diz a tradução grega do Antigo Testamento, como também o Evangelho. Quem assume o nascimento de Jesus como Pai de Família é o carpinteiro José, da casa de Davi: por causa dele, Jesus nasce como filho de Davi. Mas a mensagem do anjo deixa claro que Jesus é “obra do Espírito Santo”(cf. Mt 1,20). Filiação dupla de Jesus que é mencionada na segunda leitura de Romanos: humanamente falando – segundo a carne – Jesus é filho de Davi, mas quanto à ação divina – segundo o Espírito – Ele é filho de Deus, como se pode constatar sua glorificação depois de ressuscitado dentre os mortos.
Caros irmãos,
Na Primeira Leitura(cf. Is 7,10-14)
o “sinal” de Deus é este: “a jovem (em hebraico: “ha-‘almah”) conceberá e dará
à luz um filho, e o seu nome será Deus conosco” (em hebraico: “‘Imanu El”)
(vers. 14). O profeta refere-se a quê, em concreto?
Certamente ao fato histórico da gravidez da jovem esposa do rei (Abia, filha de
Zacarias; o título “a jovem” aparece, aliás, em certos textos de Ugarit para
designar a esposa do rei) e posterior nascimento do filho Ezequias, que veio a
ocupar o trono de Judá quando Acaz morreu. O nascimento desse bebê será a
garantia de que a descendência de David continuará e de que, apesar do ataque
dos inimigos (Pecah de Israel e Rezin de Damasco), Judá terá um futuro. Este
bebê é, portanto, um sinal de que “Deus está conosco” e que continua a cuidar do
seu Povo e a oferecer-lhe um futuro de esperança.
Ao abordar este texto, a versão grega dos “Setenta”
utilizou o vocábulo “parthénos” (“virgem”) para traduzir o hebraico “‘almah”
(“jovem”). Por isso, desde o séc. II a.C. (ou até antes), uma parte da tradição
judaica viu neste nascimento excepcional uma referência ao Messias, que haveria
de nascer de uma “virgem”. A tradição cristã, naturalmente, aplicou este
oráculo a Jesus; e Maria, a mãe de Jesus, passou a ser essa “virgem” nomeada no
texto grego de Is 7,14.
A afirmação de que Deus não abandona o seu Povo, mas que é e será sempre o “Deus-conosco” é o centro da primeira leitura. A próxima celebração do nascimento de Jesus recorda e celebra esse facto fundamental: Deus nos ama de tal forma que continua a vir ao nosso encontro. Neste tempo de espera da vinda, somos convidados a tomar consciência do amor de Deus, que se manifesta numa presença permanente a nosso lado; com Ele a dar-nos a mão e a palmilhar conosco a estrada da vida, podemos enfrentar todos os desafios. A partir deste texto e do ambiente em que ele nasce, podemos também pôr o problema das falsas seguranças e das falsas esperanças. Acaz confiava mais na segurança dos exércitos estrangeiros do que em Deus. Acaz não quis ou não soube “ler” os “sinais” que Deus colocou diante dos seus olhos, não conseguiu fazer a escolha acertada e acabou por conduzir o seu Povo por caminhos de morte e de desgraça. Isto coloca-nos o problema dos “sinais”: um erro na leitura do radar pode fazer em destroços um avião ou um navio; uma falha na sinalização luminosa causa um desastre inevitável.
Estimados irmãos,
O centro da liturgia de hoje é o
encontro do humano com o divino, ou do divino com o humano, em Jesus Cristo, o
nosso Redentor. O Evangelho de hoje(cf. Mt 1,18-24) nos conta a encarnação do
Filho de Deus no seio de Maria de Nazaré, por obra e graça do Espírito Santo.
Enquanto o evangelista Lucas se demora em descrever a anunciação, Mateus vai
direto à gravidez misteriosa de Maria. E põe na curta leitura desse domingo o
resumo de todo o seu Evangelho. Mateus aponta a finalidade de seu Evangelho:
mostrar que Jesus de Nazaré é o Messias prometido, o Filho de Deus vivo, que
libertará o povo dos pecados.
Refletimos hoje o sonho de Mateus.
Mateus usa o gênero literário do sonho. Mateus usa de um gênero literário para
transmitir um ensinamento que Maria concebeu a Jesus sem a interferência de
nenhum homem, mas com a graça de Deus, por obra do Espírito Santo. Jesus,
verdadeiro homem, porque nasceu de uma mulher, mas verdadeiramente Deus, porque
Filho de Deus por um milagre inexplicável aos olhos humanos.
Quando Maria concebeu Jesus, por obra do Espírito Santo, ainda não estava casada com José. Era apenas noiva. Mas na Galiléia, o noivado, que podia durar um ano inteiro, tinha valor, diríamos, jurídico, e ambos se deviam absoluta fidelidade. Se uma noiva aparecesse grávida de outro homem, o noivo podia repudiá-la, isto é, não tinha mais obrigações para com ela. José, não compreendendo ainda o que se passava e não querendo expor Maria a um escândalo público e a execração do povo, pensou em abandoná-la. Deus se serviu da dúvida honesta para lhe revelar o fato maravilhoso, a verdadeira encarnação de Jesus. E Mateus, narrando a dúvida de José, acentuou que o filho que nascerá é o Filho de Deus.
Irmãos e Irmãs,
José escolheu para o filho o nome de
Jesus. Jesus que é o Salvador. Jesus que “salvará
o povo”. Jesus que significa:“Deus é
a salvação”. Jesus, o Nazareno, tinha uma missão específica que era salvar
ao povo de seus pecados(cf. Mt, 1,21). Jesus veio para libertar o homem do
pecado, para que o homem retorne à comunhão com Deus. O nome Jesus carrega a
marca forte de uma missão: JESUS SERÁ O SALVADOR DOS HOMENS.
José ao colocar o nome de Jesus em
seu filho adotivo adota a criança que não nascera dele. E sendo José da família
de Davi, ao adotar o menino, o inseriu na linhagem de Davi, como haviam predito
o antigo testamento. Jesus, da estirpe de Davi, o Emanuel, que é o Deus
Conosco.
Mas cabe uma reflexão para nos
preparamos bem para o Natal do Salvador: que pecado é esse que Jesus veio
arrancar de entre os homens? Todo e qualquer pecado. O pecado tem muitos nomes
e quase sempre anda em bando. O pecado é a raiz e a fonte de toda a opressão,
injustiça e discriminação. Jesus veio libertar-nos, mostrando com seus
ensinamentos e, sobretudo, com sua vida, que é possível viver fraternalmente no
amor e na unidade, na sinceridade e na benquerença, na ajuda mútua e no perdão
dos pecados e das fraquezas, na pureza de coração e na sobriedade, na piedade
filial e na simplicidade.
O
Evangelho de hoje temos, portanto, não uma descrição de factos históricos, mas
uma catequese sobre Jesus (que é apresentada recorrendo a esquemas literários,
conhecidos dos escritores bíblicos). Então, o que é que esta catequese procura
ensinar?
Fundamentalmente, procura-se mostrar que Jesus vem de Deus, que a sua origem é
divina (Maria encontra-se grávida por virtude do Espírito Santo” – vers. 18).
Procura-se, ainda, ensinar qual será a missão de Jesus: o nome que Lhe é
atribuído mostra que Ele vem de Deus com uma proposta de salvação para os
homens (“Jesus” significa “Deus salva”). Também se diz, de forma clara, que Ele
é o Messias de Deus, da descendência de David, que os profetas anunciaram (a
referência ao seu nascimento de uma “virgem” não deve ser vista como a
afirmação do dogma da virgindade de Maria, mas como a afirmação de que Jesus é
o Messias anunciado pelos profetas – nomeadamente pelo texto de Is 7,14 –
enviado por Deus para restaurar o reino de David).
De qualquer forma, a figura de José desempenha aqui um papel muito
interessante. O anjo dirige-se a ele como “filho de David” (vers. 20) e
pede-lhe que receba Maria e que ponha um nome à criança (vers. 21). A imposição
do nome é o rito através do qual um pai recebe uma criança como filha. Assim,
Jesus passa a fazer parte da família de David e a ser, naturalmente, a
esperança para a restauração desse reino ideal de paz e de felicidade pelo qual
todo o Povo ansiava. Pela obediência de José, realizam-se os planos e as
promessas de Deus ao seu Povo.
Caríssimos irmãos,
A “Carta aos Romanos” é uma carta escrita no final da
terceira viagem missionária de São Paulo. Preparando-se para partir de Corinto
a caminho de Jerusalém, o apóstolo sente que terminou a sua missão no
Mediterrâneo oriental e prepara-se para continuar o seu trabalho missionário no
ocidente. O seu olhar dirige-se, agora, para Roma e para a Península Ibérica
(cf. Rm 15,24): os seus planos passam por anunciar aí o Evangelho de Jesus.
Estamos no ano 57 ou 58. São Paulo está preocupado com o futuro da Igreja, pois
manifestam-se algumas dificuldades de relacionamento entre judeus-cristãos e
pagãos-cristãos, fruto das diferenças sociais, culturais e religiosas
subjacentes aos dois grupos. Na comunidade de Roma, essas diferenças sentem-se
com alguma intensidade e ameaçam a unidade da Igreja. Nesta situação, São Paulo
escreve para sublinhar aquilo que a todos une e insiste que todos – judeus e
não judeus – fazem parte do mesmo Povo de Deus e devem viver no amor e na
fraternidade.
O texto que nos é hoje proposto é parte da introdução à carta. Sabendo que se
trata de uma comunidade que não foi fundada por ele, Paulo adota singulares
precauções diplomáticas, a fim de não melindrar os cristãos de Roma. Começa por
se apresentar e por definir a missão que Deus lhe confiou.
São Paulo define-se a si mesmo com três apelativos: ele é
servo de Jesus Cristo, é apóstolo por chamamento divino e é eleito para
anunciar o Evangelho.
Dizer que é “servo de Jesus Cristo” significa dizer que ele pôs a sua vida,
incondicionalmente, ao serviço de Jesus Cristo. A designação “servo” não tem
aqui qualquer conotação com escravidão (o que, de resto, estaria em contradição
com a consciência que Paulo tem da liberdade cristã); mas deve ser entendida
como entrega amorosa a Cristo. Desta forma, São Paulo define o sentido da sua
atividade missionária: é um serviço a Cristo e ao seu projeto libertador em
favor dos homens.
Dizer que é “apóstolo por chamamento divino” equivale a dizer que ele é uma
testemunha fiel de Jesus e da sua mensagem. Deus chamou-o para dar esse
testemunho; e Paulo, consciente desse fato, está disposto a enfrentar todas as
dificuldades, a fim de ser fiel a esse chamamento. Dizer que é “escolhido para
o Evangelho” quer dizer que Paulo tem consciência de ser, desde sempre
(inclusive, antes do seu nascimento), eleito por Deus para a tarefa de levar a
Boa Nova da libertação aos homens de toda a terra. Ele nasceu para anunciar o
Evangelho e para ser testemunha do projeto de salvação que Deus quer oferecer
aos homens. Estes três apelativos têm como centro o anúncio do “Evangelho”. Na
perspectiva de Paulo, o “Evangelho” é a proposta libertadora de Deus, que se
tornou viva e presente no mundo através da pessoa de Jesus Cristo, o Messias, e
que se destina à salvação de todos os homens. Não se trata de uma coleção de
textos mortos, ou de uma doutrina bem ou mal articulada; mas trata-se de uma
proclamação viva, ativa, transformadora, capaz de gerar vida nova e liberdade
plena naqueles que a escutam e a acolhem. Paulo sente que toda a sua vida está
ao serviço desse projeto e que a sua missão é levá-lo a todos os homens. No
nosso texto há, ainda, uma primitiva fórmula, na qual Paulo afirma a sua fé em
Jesus Cristo, nascido da descendência de David, mas constituído Filho de Deus
pelo Espírito que santifica; o seu poder manifestou-se na ressurreição – a
“prova provada” da sua filiação divina.
Jesus Cristo veio ao mundo para apresentar aos homens um projeto de salvação; esse projeto é o caminho seguro para deixarmos cair as cadeias que nos oprimem e para chegarmos à vida plena que Deus nos quer oferecer. Neste tempo de Advento, esperamos a salvação de Deus, que vem ao nosso encontro oferecer-nos a vida nova. Ser cristão é ser chamado a testemunhar no mundo essa proposta de vida nova e de liberdade. Para São Paulo, o anúncio do Evangelho não é uma forma de sobressair, de se elevar acima dos outros, de adquirir importância e estatuto; mas é uma missão que Deus confia àqueles que elege e que deve ser cumprida com amor e com espírito de serviço.
Caros irmãos,
As leituras nos recordam que, na história da salvação, há
pessoas como o rei Acaz, que depositam sua confiança em falsas seguranças.
Muitos depositam sua esperança nos poderosos deste mundo. O profeta Isaías
pertence à categoria de pessoas que depositam sua esperança somente em Deus. Os
poderes deste mundo são falíveis, ao passo que Deus é o único que permanece
fiel do início ao fim da história. Neste tempo em que nos preparamos para
celebrar a vinda do Senhor, somos convidados a tomar consciência da fidelidade
amorosa de Deus, questionando-nos onde depositamos nossa confiança e esperança.
Nós, cristãos, que acreditamos no Emanuel, Deus-conosco,
somos chamados a testemunhar, no mundo, sua proposta de vida e liberdade. O
exemplo de Paulo apóstolo nos serve de inspiração, para que também nós venhamos
a pôr nossa vida totalmente a serviço do Reino que Jesus veio construir. A vida
de cada um de nós é uma missão, como nos falou recentemente o papa Francisco. A
missão que Deus me confia é única, exclusiva e necessária para o bem das
pessoas que convivem comigo.
Segundo a catequese primitiva da comunidade de Mateus,
Jesus é o Deus que vem ao encontro da criatura humana na fragilidade de uma
criança, acolhida por José e Maria. Ele foi enviado por Deus como o grande dom
para a vida e a salvação da humanidade. A celebração do Natal que se aproxima é
o momento de cada pessoa experimentar esse encontro pessoal com o menino Jesus.
Esse encontro, porém, só é possível se estivermos com o coração aberto para
acolhê-lo.
As figuras de José e Maria nos interpelam. Eles foram pessoas capazes de escutar e discernir os apelos de Deus na própria vida. Mudaram seus planos e projetos para poderem acolher a missão que Deus lhes confiou. Até que ponto somos capazes de mudar nossos esquemas mentais e desorganizar nossos projetos, quando precisamos estar disponíveis para o que Deus nos pede?
Meus irmãos,
A oração final da Santa Missa nos
fala da mensagem de Deus para nós: a mensagem do anjo é a primeira manifestação
da obra de Deus que vai desde a anunciação até a ressurreição. Maria aparece
aqui como a jovem escolhida por Deus, qual esposa do rei. A virgindade de Maria
significa sua disponibilidade para a obra de Deus nela: virgindade fecunda,
prenhe de salvação. Nela brota o fruto que, em pessoa, é o sinal de que Deus
está conosco.
O mistério de Jesus ter nascido sem que Maria deixasse de ser virgem significa que Jesus, em última instância, não é mera obra humana, mas antes de tudo um presente de Deus à humanidade. Seu nascimento é sinal de que Deus está conosco para nos salvar. Seu nome, Jesus, significa “Deus salva”; é o equivalente a Emanuel.
Estimados amigos,
O gesto de amor dos cristãos,
perdoando e amando sempre, durante o Advento, que pede uma mudança radical de
atitude rumo a santidade, nos pede que abramos nosso coração para a alegria do
Santo Natal. Assim Jesus continua nascendo de Maria para nos salvar. Amém!
Padre Wagner Augusto Portugal.
Pe.
Wagner Augusto Portugal

Comentários
Postar um comentário