“Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O Senhor está perto!”(cf. Fl 4,4s).
Meus
queridos irmãos,
Celebramos
o terceiro domingo do advento, que é conhecido na história da Igreja em
conformidade com a antífona de entrada de hoje: o domingo chamado GAUDETE, ou
seja, o domingo alegre, ou ainda, o domingo das alegrias. Este é o espírito que
deve permear toda a liturgia hodierna: a alegria.
A
primeira leitura (cf. Is 35,1-6a.10), mais uma “utopia” de Isaías que tem seu
correspondente no Evangelho – que fala dos cegos e dos coxos curados: a obra do
Messias; e o Salmo Responsorial, cantando a bondade de Deus que abre os olhos
aos cegos.
O
júbilo da natureza, a cura dos enfermos, e a volta dos exilados é o que
nos anuncia Isaías, pelo sonho da salvação. A vinda salvadora de Deus
transforma o deserto em paraíso, cura os enfermos, vence a maldição do pecado
de Adão. Liberdade, alegria, felicidade: a gente, hoje em dia, gostaria de vê-las
antes de acreditar que existem. Mas Deus dá um novo modo de ver, ouvir e falar.
Recebemos novas capacidades para acatar a verdade e a realidade de Deus. E isto
é o essencial em nossa vida.
Os
capítulos 34-35 do Livro de Isaías são habitualmente chamados “pequeno
apocalipse de Isaías” (para distinguir do “grande apocalipse de Isaías”,
que aparece nos capítulos 24-27); descrevem os últimos combates travados por
Deus contra as nações, particularmente contra Edom, e a vitória definitiva do
Povo de Deus. Estes dois capítulos parecem poder ser relacionados com os
capítulos 40-55 do Livro de Isaías (cujo autor é esse Deutero-Isaías que atuou
na Babilônia entre os exilados, na fase final do Exílio). Depois de apresentar
o julgamento de Deus (cf. Is 34,1-4) e o castigo de Edom (cf. Is 34,5-15), o
autor descreve, por contraste, a transformação extraordinária do deserto sírio,
pelo qual vão passar os israelitas libertados, que retornam do Exílio. A intenção
do profeta é consolar os exilados desanimados, frustrados e mergulhados no
desespero, porque a libertação tarda e parece que Deus os abandonou. Este tema
será desenvolvido em profundidade nos capítulos 40-55 do Livro de Isaías.
O
profeta começa por interpelar a natureza e pedir-lhe que se prepare para a ação
libertadora de Deus em favor do seu Povo: o deserto e o descampado, estéreis e
desolados, são convidados a revestir-se de vida abundante (como o Líbano, o
monte Carmelo ou a planície do Sharon, zonas proverbiais de vida e de
fecundidade) e a enfeitar-se de flores de todas as formas e cores (vers. 1-2).
Dessa
forma, a própria natureza manifestará a sua alegria pela intervenção salvadora
de Deus; mas, sobretudo, será o cenário adequado para essa intervenção de Deus,
destinada a levar vida nova ao Povo. Além disso, a magnificência das árvores e
das plantas será a imagem da glória e da beleza do Senhor e falará a todos da
grandeza de Deus, da sua capacidade para fazer brotar vida onde só há morte,
desolação, esterilidade. Depois, a palavra do profeta dirige-se aos homens
(vers. 3-4).
Nada
de desânimo, nada de covardia, nada de baixar os braços: Deus aí está para
salvar e libertar o seu Povo. Os exilados devem unir-se à natureza nessa
corrente de alegria e de vida nova, pois a libertação chegou. O resultado da
iniciativa salvadora e libertadora de Deus será que os olhos dos cegos se
abrirão e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. O coxo não apenas andará, mas
saltará como um veado; o mudo não apenas falará, mas cantará de alegria (vers.
5-6).
A
ação de Deus é excessiva, verdadeiramente transformadora e geradora de vida
nova em abundância. A marcha do Povo da terra da escravidão para a terra da
liberdade será, pois, um novo êxodo, onde se repetirão as maravilhas operadas
pelo Deus libertador aquando do primeiro êxodo; no entanto, este segundo êxodo
será ainda mais grandioso quanto à manifestação e à ação de Deus. Será uma
peregrinação festiva, uma procissão solene, feita na alegria e na festa. O
resultado final desse segundo êxodo será o reencontro com Sião, a eterna
felicidade, a alegria sem fim (vers. 10).
O
Advento é o tempo em que se anuncia e espera a intervenção salvadora de Deus em
favor do seu Povo. No entanto, Ele só virá se eu estiver disposto a acolhê-l’O;
Ele só intervirá se eu estiver disposto a receber de braços abertos a proposta
de libertação que Ele me vem fazer.
O
profeta é o homem que rema contra a maré, isso porque, quando todos cruzam os
braços e se afundam no desespero, o profeta é capaz de olhar para o futuro com
os olhos de Deus e ver, para lá do horizonte do sol poente, um novo amanhã. Ele
vai, então, gritar aos quatro ventos a esperança, fazer com que o desespero se
transforme em alegria e que o imobilismo se transforme em luta empenhada por um
mundo melhor.
Caros
irmãos,
A
alegria também permeia a segunda leitura (cf. Tg 5,7-10), dentro de um contexto
bem diferente: recordando a espera da primeira vinda de Jesus, preparamo-nos
para a segunda vinda de Cristo. São Tiago nos ensina a manter nossa fé
preservada até a segunda vinda, com a paciência do lavrador que aguarda a
chuva. Grande constância a que somos chamados: temos diante dos olhos a
inefável proximidade do Senhor, que é a nossa única alegria. Todos nós somos
convidados a aguardar sem desistência a vinda do Senhor. Depois da pregação
escatológica aos ricos (Tg 5,1-6), São Tiago dirige-se aos seus irmãos, os
pobres: eles devem viver em firmeza permanente até que venha o Senhor. A fé do
pobre é esperança; o rico não pode esperar, porque o medo o oprime. A
proximidade da vinda do Senhor provoca uma segunda admoestação: diante do juízo
próximo, mútua acusação e rixa são proscritas. Tiago ilustra suas admoestações
com exemplos: 1) o agricultor, que firmemente aguarda a colheita; 2) os
profetas, que não se cansam em falar a palavra de Deus; e 3) a paciência de Jó.
A
carta foi enviada “às doze tribos que vivem na Diáspora” (Tg 1,1).
Provavelmente, a expressão alude a cristãos de origem judaica, dispersos no
mundo greco-romano, sobretudo nas regiões próximas da Palestina – como a Síria
ou o Egito; mas, no geral, a carta parece dirigir-se a todos os batizados,
exortando-os a que não percam os valores cristãos autênticos herdados do
judaísmo através dos ensinamentos de Cristo. Denuncia, sobretudo, certas
interpretações consideradas abusivas da doutrina paulina da salvação pela fé,
sublinhando a importância das obras; e ataca com extrema severidade os ricos
(cf. Tg 1,9-11; 2,5-7; 4,13-17; 5,1-6). A perícope deste domingo pertence à
terceira parte da carta (Tg 3,14-5,20), em que o autor apresenta, num conjunto
de desenvolvimentos e de sentenças aparentemente sem ordem nem lógica,
indicações concretas destinadas a favorecer uma vida cristã mais autêntica.
O
autor da carta de São Tiago dirige-se aos pobres e convida-os a esperar com
paciência a vinda do Senhor (como o agricultor, depois de ter feito o seu
trabalho, fica pacientemente, mas cheio de esperança, à espera que a terra
produza os seus frutos). Todo o enquadramento está dominado pela perspectiva da
vinda do Senhor.
A questão é, portanto, esta: os pobres vivem
numa situação intolerável de exploração e de injustiça; mas não devem resolver
o seu problema com queixas e violências: devem confiar em Deus e esperar a
intervenção que os salvará e libertará. A paciência e a espera confiada no
Senhor são as atitudes corretas nestes tempos em que se prepara a intervenção
final de Deus na história.
São
Tiago, diante da injustiça, do medo, do sofrimento, dos que vivem à margem da
vida, privados de dignidade, tem uma palavra de fé, ao dizer-lhes: “apesar
do sem sentido da vida, apesar do sofrimento, Deus não vos abandonou nem
esqueceu, mas vai libertar-vos; aproxima-se a dia da intervenção salvadora de
Deus… Esperai-O, não com o coração cheio de revolta (que vos destrói e que
magoa todos aqueles que, sem ter culpa, vivem e caminham a vosso lado), mas com
esperança e confiança”.
Isto
não significa instalar-se numa resignação que aliena e numa passividade que é
renúncia à própria dignidade humana. Isto significa, sobretudo, não deixar que
sentimentos agressivos e destrutivos tomem posse de nós, pois a libertação de
Deus não pode chegar a qualquer coração dominado pelo ódio, pelo rancor, pelo
desejo de vingança.
Estimados
Irmãos,
Isaias
nos ensinou as coisas bonitas que virão com a chegada do Messias: fecundidade,
alegria, flores, presença de Deus, coragem, esperança, salvação, libertação e
recompensa. Tiago, por seu turno, na segunda leitura, ressalta que devemos ter
uma grande paciência na espera da vinda gloriosa de Cristo Jesus como justo
Juiz. Nós somos cristãos; por isso, urge estarmos sempre preparados, pois não
sabemos nem o dia e nem a hora. É sempre necessário estarmos vigilantes desde a
aurora, ansiosos pelo Senhor que vem nos julgar.
Agora,
entre as coisas bonitas e a vigilância paciente da vinda do Cristo, temos que
contemplar o que pede o Evangelho: fazer acontecer o Reino de Deus entre nós.
Esta é a nossa missão, que deve ser uma missão de alegria.
O
Evangelho (cf. Mt 11,2-11) nos ensina que Jesus é mesmo a quem devemos esperar.
Jesus cura os enfermos, traz boa-nova para os pobres. Os judeus se defrontam
com a pergunta se Jesus é “o que deve vir”, o Messias, em quem a lei e os
profetas chegam à plenitude. João Batista, depois de O ter anunciado como juiz
escatológico, coloca-O agora, como representante do Antigo Testamento, com a
pergunta decisiva: “És tu?”.
João
Batista, o precursor, e Maria, a Virgem, são os dois protagonistas da chegada
do Salvador. Jesus, encarnando-Se no Seio Virginal da Mãe, concretiza na
humanidade o Reino de Deus. Em vez de olhar para o Menino que vai nascer, a
Madre Igreja olha para as razões de seu nascimento. Elogiando João Batista,
Jesus elogia a todos quantos perceberam os sinais da chegada do Salvador, a
todos que crerem na boa-nova que Ele traz, levarem a sério os seus ensinamentos
e facilitarem os seus caminhos. Quem assim fizer participará do Reino dos Céus,
como João Batista.
Temos
que ter presente o Reino de Deus pela sensibilidade dos olhos, dos ouvidos, da
pele, dos ossos, da própria vida e do estado de pobreza do homem. O Reino de
Deus acontece aqui e agora, no meio dos homens e das mulheres, no nosso meio,
inserido dentro da história humana. O Reino de Deus tem que transformar o mundo
e fecundá-lo para o viés da eternidade.
Caros
irmãos,
O
Evangelho de hoje pode ser dividido em duas partes: na primeira, Jesus responde
à pergunta de João e dá a entender que Ele é o Messias (vers. 2-6); na segunda,
temos a apreciação que o próprio Jesus faz da figura e da ação profética de
João (vers. 7-11).
Jesus
tem consciência de ser o Messias? A resposta é obviamente positiva; para dá-la,
Jesus recorre a um conjunto de citações de Isaías que definem, na perspectiva
dos profetas, a ação do Messias enviado de Deus: dar vida aos mortos (cf. Is
26,19), curar os surdos (cf. Is 29,18), dar vista aos cegos, dar liberdade de
movimentos aos coxos (cf. Is 35,5-6), anunciar a Boa Nova aos pobres (cf. Is
61,1). Ora, se Jesus realizou estas obras (cf. Mt 8-9), é porque Ele é o
Messias, enviado por Deus para libertar os homens e para lhes trazer o “Reino”.
A sua mensagem e os seus gestos contêm uma proposta libertadora que Deus faz
aos homens.
Na
segunda parte, temos a declaração de Jesus sobre o Batista. São Mateus utiliza
um recurso retórico muito conhecido: uma série de perguntas que convidam os
ouvintes a dar uma resposta concreta. A resposta às duas primeiras questões é,
evidentemente, negativa: João não é um pregador oportunista cuja mensagem segue
as modas, nem um elegante convencido que vive no luxo. A resposta à terceira é
positiva: João é um profeta e mais do que um profeta. A declaração, que começa
com uma referência à Escritura (cf. Ex 23,20; Mal 3,1), pretende clarificar
qual a relação entre ambos e o lugar de João no “Reino”: João é o precursor do
Messias; é “Elias”, aquele que tinha de vir antes, a fim de preparar o caminho
para o Messias (cf. Mal 3,23-24). No entanto, aqueles que entraram no “Reino”
através do seguimento de Jesus são mais do que Ele.
O
Evangelho evidencia e identifica Jesus como a presença salvadora e libertadora
de Deus no meio dos homens. Neste tempo de espera, somos convidados a aguardar
a sua chegada, com a certeza de que Deus não nos abandonou, mas continua a vir
ao nosso encontro e a oferecer-nos a salvação.
Os
“sinais” que Jesus realizou enquanto esteve entre nós têm de continuar a
acontecer na história; agora, são os discípulos de Jesus que têm de continuar a
sua missão e de perpetuar no mundo, em nome de Jesus, a ação libertadora de
Deus.
Mais
uma vez, somos interpelados e questionados pela figura vertical e coerente de
João Batista. Ele não é um pregador da moda, cujas ideias variam conforme as
flutuações da opinião pública ou os interesses dos poderosos; nem é um
charlatão bem vestido, que prega para ganhar dinheiro, para defender os seus
interesses ou para ter uma vida cômoda e sem grandes exigências. Mais do que
isso, João Batista é um profeta, que recebeu de Deus uma missão e que procura
cumpri-la com fidelidade e sem medo.
A
“dúvida” de João Batista acerca da messianidade de Jesus não é chocante, mas é
sinal de uma profunda honestidade. Devemos ter mais medo daqueles que têm
certezas inamovíveis, que estão absolutamente certos das suas verdades e dos
seus dogmas, do que daqueles que procuram honestamente as respostas às questões
que a vida todos os dias põe.
Caros
irmãos,
Todo
batizado é chamado a testemunhar o projeto do amor misericordioso de Deus. Sua
salvação chega mediante um testemunho verdadeiro, quando lutamos objetivamente
para tornar realidade a superação de todas as formas de discriminação, divisão,
injustiça, violência e intolerância, de modo que a luz da esperança divina não
se apague no coração das pessoas. Estamos dispostos a esse nível de
comprometimento de fé?
As
leituras deste domingo nos interpelam sobre a figura de João. Ele não foi um
pregador midiático que buscava visibilidade. Suas dúvidas acerca do Messias
eram uma interrogação presente no coração de muitas pessoas de seu tempo. Ele
se dirige a Jesus com honestidade sincera. Sua atitude nos ensina que não
devemos ter medo de nossas dúvidas, pois não caminhamos com certezas absolutas,
mas nos cabe sempre procurar honestamente pela verdade que nos vem de Jesus
Cristo.
Estimados
irmãos,
O
NATAL não é somente um acontecimento espiritual. É um evento humano e
histórico. Cristo nasceu para salvar o homem: seu espírito e sua carne. O Reino
de Deus é para a criatura humana na plenitude de seu ser, do seu viver. Por
isso, temos que nos preocupar com todos os aspectos do homem e da mulher,
especialmente dos aspectos humanos que nos interpelam. Assim, todo aquele que
melhorar a sorte do homem na terra está construindo o Reino de Deus aqui, está
ajudando a acontecer o Natal de Jesus e o Natal dos homens.
A
Igreja, ao velar pela dignidade da pessoa humana em todos os seus aspectos,
alcança a criatura humana na sua origem, envolve-a durante toda a sua
peregrinação terrestre e a introduz na eternidade.
A
exaltação de João Batista é a confirmação da missão de Jesus e da razão de sua
presença na terra; enunciação dos sinais do Reino, previstos pelos profetas e
mostrados por Jesus de Nazaré, a não deixar dúvidas em ninguém; descrição do
caminho a ser percorrido pelo verdadeiro discípulo, construtor, com Jesus, do
Reino de Deus.
Por
isso, somos cristãos, povo de espera. Vamos pedir com fé que o Natal seja um
dia de alegria, semelhante à alegria de João Batista quando reconheceu, em
Jesus, o Messias. Perdoado o pecado, o Natal, como toda eucaristia,
apresenta-se como festa escatológica, antecipação do Natal eterno: Emanuel,
Deus conosco para sempre.
Que
o cristão saiba aguardar o Senhor como o lavrador espera amadurecer os frutos
da terra. Todos, assim, somos chamados a ser este mensageiro. O Senhor está
chegando. É preciso que, vigilantes, preparemos a sua chegada.
Pe.
Wagner Augusto Portugal

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