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DIA DE FINADOS, C.

 



“Deus, que ressuscitou Jesus dentre os mortos, também dará vida aos nossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em nós” (Rm 8,11)

 

Meus queridos Irmãos,

 

A morte não é nada (Santo Agostinho)

“A morte não é nada.

Eu somente passei

para o outro lado do Caminho.

 

Eu sou eu, vocês são vocês.

O que eu era para vocês,

eu continuarei sendo.

 

Me dêem o nome

que vocês sempre me deram,

falem comigo

como vocês sempre fizeram.

 

Vocês continuam vivendo

no mundo das criaturas,

eu estou vivendo

no mundo do Criador.

 

Não utilizem um tom solene

ou triste, continuem a rir

daquilo que nos fazia rir juntos.

 

Rezem, sorriam, pensem em mim.

Rezem por mim.

 

Que meu nome seja pronunciado

como sempre foi,

sem ênfase de nenhum tipo.

Sem nenhum traço de sombra

ou tristeza.

 

A vida significa tudo

o que ela sempre significou,

o fio não foi cortado.

Porque eu estaria fora

de seus pensamentos,

agora que estou apenas fora

de suas vistas?

 

Eu não estou longe,

apenas estou

do outro lado do Caminho…

 

Você que aí ficou, siga em frente,

a vida continua, linda e bela

como sempre foi.”

 

Santo Agostinho

 

 

            Celebramos hoje a doce esperança dos cristãos. O “último inimigo é a morte” (Cf. 1Cor 15,26), e a vitória sobre a morte é o critério da esperança de todos os batizados. A morte, do ponto de vista meramente humano, é considerada, de maneira espontânea, como um ponto final, tudo, portanto acabou. Entretanto, para os que crêem em Cristo Ressuscitado, a resposta é totalmente ao contrário: “A vida não é tirada, mas transformada”, conforme anuncia o prefácio da Missa de hoje.  Certeza dos cristãos anunciada e baseada na fé na RESSURREIÇÃO de Jesus Cristo, o Salvador. Se Jesus ressuscitou, também para nós a morte não pode ser o ponto final, mas o início de uma nova jornada, a vida em Deus. Somos unidos com Jesus na vida e somos unidos com Jesus na morte, conforme anuncia o Evangelho. Jesus é a Ressurreição e a Vida: unir-se a Ele significa não morrer, não parar de existir diante de Deus, embora o corpo morra e se decomponha, voltando a ser pó.

 

Amados e Amadas em Jesus,

 

            O Mistério de Deus é colocado para a nossa reflexão neste dia em que a morte vem ao nosso encontro, como reflexão. Já na Antiga Lei, o autor de Sabedoria observa que as aparências enganam: a justiça dos justos não é um absurdo diante da morte. Pelo contrário, é o começo do “estar na mão de Deus”, que não tem nunca fim, conforme a primeira leitura. Paulo, por conseguinte, descreve a existência cristã como estar já unido com Cristo na Ressurreição, o que é simbolizado pelo batismo, conforme nos ensina a segunda Leitura.

 

Irmãos e Irmãs,

 

            A comemoração dos fiéis defuntos está muito bem colocada junto à festa de todos os Santos. As duas estão ligadas intimamente pela fé e pela esperança no destino eterno da criatura humana, redimida por Jesus Cristo. Os santos lembram a meta alcançada, onde não precisam mais da fé e da esperança, porque tudo é amor, conforme anuncia São Paulo em Coríntios 13,8.

            Hoje é a festa da esperança cristã. Não queiramos ficar tristes. Vamos ficar alegres porque não celebramos a morte, mas a vida eterna, aqueles que já estão juntos de Deus, nos precedendo no diálogo mais íntimo com o Redentor.

            Relembremos hoje a Vigília Pascal quando, de velas acessas, simbolizando o próprio Cristo em nosso meio, entoamos o “Exultet”: “A luz do Rei eterno venceu as trevas do mundo... Cristo libertou-nos da escuridão do pecado e da corrupção do mundo e nos consagrou ao amor do Pai e nos uniu na comunhão dos santos!” E, com estas mesmas velas pascais em punho, renovemos as nossas promessas batismais, isto é, o nosso grande compromisso de caminhar para a santidade nos preparando para a festa do encontro definitivo, que nós não sabemos nem o dia e muito menos a hora. Nos preparemos para este grande encontro sem medo de mudança de vida e de radical conversão.

 

Meus caros irmãos,

 

            A Luz que acendemos nos velórios para homenagear nossos mortos é a mesma luz de nosso batismo e que relembramos em toda a Vigília Pascal. É o Cristo que caminha na vida e na história nos velando e nos abençoando. Cristo, luz do mundo e salvação dos homens e das mulheres, arrancou-nos das trevas do erro e da condenação, revestiu-nos da gloriosa condição de filhos de Deus, e nos conduz para a luz eterna, onde “já não haverá noite nem necessidade de velas nem mesmo da luz do sol, porque o Senhor Deus nos iluminará e reinaremos pelos séculos dos séculos” (Cf. Ap 22,5).

 

Irmãos e Irmãs,

 

            A morte é um caminho que todos nós teremos que percorrer hoje, amanhã ou algum dia. É uma verdade que ninguém poderá escapar dela. O destino é certo: Cristo conseguiu a vitória sobre a morte e levou a criatura a participar da vida incorruptível e eterna de Deus. Deus que nos dá a vida nos oferece, por conseguinte a morte, nos acolhendo de braços abertos, pelos méritos de nossa caminhada, na comunhão perfeita com ele, a chamada comunhão dos santos.

            Tudo pertence a Deus: a vida e a morte, os bens que recebemos e que tivemos a possibilidade de frutificá-los neste mundo. Assim quando chegar o tempo da morte nós somos convidados a exclamar: “Nas tuas mãos, Senhor, me entrego!” (Cf. Lc 23,46). Assim a morte é a ponte entre a bela vida terrena e passageira para a belíssima vida celeste, divina e eterna.

            A Comemoração dos fiéis defuntos é toda PASCAL: Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Assim hoje enfeitamos as sepulturas de nossos entes queridos. Cristo ressuscitou no escuro de uma madrugada, transformando as trevas da morte em luz sem fim, por isso se entoa hoje, ontem e sempre o ALELUIA, RESSUSCITOU VERDADEIRAMENTE O SENHOR JESUS!

 

Prezados irmãos,

 

            Neste dia em que lembramos daqueles que já partiram para o Pai, a comemoração de Todos os Fiéis Defuntos nos coloca diretamente dentro do mistério pascal: “Nele brilhou para nós a esperança da feliz ressurreição. Para os que crêem em Cristo a vida não é tirada, mas transformada. E, desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível”. Isso porque, “um por todos, ele aceitou morrer na cruz para nos livrar a todos da morte. Entregou de boa vontade a sua vida, para que pudéssemos viver eternamente”. “Salvos pela morte de vosso Filho, ao vosso chamado, despertaremos para a ressurreição”.

 

Prezados irmãos,

 

Pensemos por um momento na cena do Calvário e voltemos a ouvir as palavras que Jesus, do alto da Cruz, dirige ao malfeitor crucificado à sua direita: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Pensemos nos dois discípulos no caminho de Emaús quando, depois de terem percorrido um trecho da estrada com Jesus Ressuscitado, O reconhecem e, sem hesitar, partem rumo a Jerusalém para anunciar a Ressurreição do Senhor (cf. Lc 24, 13-35). Voltam à mente com clareza renovada as palavras do Mestre: “Não se turve o vosso coração: credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, ter-vo-lo-ia dito; pois vou preparar-vos um lugar?” (Jo 14, 1-2). Deus revelou-se verdadeiramente, tornou-se acessível e amou de tal modo o mundo, “que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16), e no supremo gesto de amor da Cruz, mergulhando no abismo da morte, venceu-a, ressuscitou e abriu também para nós as portas da eternidade. Cristo sustém-nos através da noite da morte que Ele mesmo atravessou; é o Bom Pastor, a cuja guia podemos confiar sem qualquer temor, porque Ele conhece bem o caminho, até através da obscuridade.

 

Caros irmãos,

 

Senhor, quero hoje rezar pedindo à Santíssima Trindade por aqueles que desapareceram no mistério da morte. Dá o descanso àqueles que expiam, luz aos que esperam, paz aos que anseiam pelo teu infinito amor. Descansem em paz: na paz do porto seguro, na paz da meta alcançada, na tua paz, Senhor. Vivam no teu amor aqueles que amaste, aqueles que me amaram. Não esqueças o bem que me fizeram, o bem que fizeram a outros. Esquece tudo o mal que praticaram, risca-o do teu livro. Aos que passaram pela dor, àqueles que parecem ter sido imolados por um iníquo destino, revela, com o teu rosto, os segredos da tua justiça, os mistérios do teu amor. Concede-me aquela vida interior que permite comunicar com o mundo invisível em que se encontram os nossos defuntos: esse mundo fora do tempo e do espaço, esse mundo que não é lugar, mas estado, e mundo que não está longe de mim, mas à minha volta, esse mundo que não é de mortos, mas de vivos. Ámen.

 

Prezados irmãos,

A Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos nos ajudam a pensar na vida eterna e como estamos caminhando neste mundo: com Deus ou sem Ele. A fé na vida eterna nos ajuda a adotar um estilo de vida em conformidade com o projeto de salvação que o Senhor nos oferece. Esse projeto de salvação consiste em continuamente nos esforçarmos para crescer na justiça, na concretização do amor ao próximo, na construção de um mundo segundo os ensinamentos de Jesus, buscando não a sabedoria deste mundo, mas a sabedoria divina.

Mas e as perseguições e as dificuldades do cotidiano? Os sofrimentos da existência presente não são um drama sem sentido e sem finalidade. A liturgia deste dia nos recorda que somos chamados a viver na esperança e na confiança; mesmo em meio a dores, cabe-nos caminhar em direção à vida plena que Deus nos oferece, em comunhão com ele e com todos aqueles que nos precederam nesse caminho.

Podemos fazer hoje a memória dos profetas e profetisas de nossos tempos. Podemos também levantar as situações de morte que nos desafiam hoje e valorizar as diversas ações que estão sendo desenvolvidas em favor da vida, estimulando a participação e a criatividade para novas iniciativas.

Abraçar a fé cristã significa viver na confiança em Deus, que nos oferece uma vida plena. Por isso, nossa tarefa é nos comprometermos com a luta pela paz e pela justiça, na certeza de que as forças do mal não podem pôr em risco a vida que nos anima. Na medida em que nos comprometermos com o mundo novo, adotando atitudes que protegem a vida, estaremos aptos para habitar o novo céu e a nova terra que o Senhor preparou para nós.

O Magno Papa Bento XVI ensinou que rezar pelos mortos é uma prática de amor, esperança e um testemunho da fé na vida eterna, que fortalece a comunhão entre os vivos e os falecidos, especialmente aqueles que se encontram no purgatório. A oração é um ato de carinho para com aqueles que já partiram, expressando que o amor não termina com a morte e que Deus é o Senhor tanto da vida quanto da morte. 

Ato de amor e esperança: Rezamos pelos mortos porque nosso amor por eles não pode parar. A oração é uma forma de expressar esse amor quando não podemos oferecer mais cuidados físicos. É um ato de esperança, pois cremos que a vida terrena é uma caminhada para a casa do Pai e que um dia nos reencontraremos na eternidade.

Fortalecimento da comunhão: A oração pelos mortos enraíza a comunhão entre os vivos e os falecidos, pois ela se conecta com a Comunhão dos Santos, a união que existe entre a Igreja militante (os vivos), a Igreja padecente (no purgatório) e a Igreja triunfante (no céu).

Ajuda às almas no purgatório: A oração é um ato de piedade que alivia as almas no purgatório, que estão em processo de purificação antes de entrarem no céu. A oração é uma forma de suplicar a Deus que seja misericordioso com essas almas.

Testemunho da fé: Ao rezar pelos mortos, reafirmamos nossa fé na ressurreição de Cristo e na vida eterna, mostrando que a morte não é o fim definitivo, mas uma passagem.

Compromisso cristão: A prática de rezar pelos falecidos é um compromisso de fé que nos convida a refletir sobre a nossa própria condição humana e a renovar nossas opções de vida em função do amor a Deus e ao próximo. 

 

Meus amigos,

 

            A Igreja militante está aqui hoje contemplando a Igreja triunfante do céu e a Igreja padecente. Os santos acabados do céu, ou seja, a Igreja triunfante – e os santos em fase de acabamento, ou seja, as almas do purgatório – são solidários com os que ainda estamos a caminho da santidade, a Igreja militante aqui da terra, deste vale de lágrimas. Esta é a comunhão de todos os santos que celebraremos no próximo domingo e que já celebramos hoje. Temos presentes os que nos precederam, não nos fixando na sua imperfeição, mas no destino glorioso que lhes foi designado por Deus. Assim recordamos os nossos pais, que nos deram a vida e a fé cristã; os nossos irmãos e amigos que lembramos com a grata saudade, por tudo o que bem fizeram pela nossa Igreja e pela nossa sociedade. E pensamos também em todos aqueles que estão ainda a caminho, os que estão lutando lado a lado pela santidade de vida e por um mundo melhor.

            Vivamos, pois, neste dia a intensidade do mistério pascal de Cristo, que pelo seu Corpo místico, manifestado na Igreja peregrina, na Igreja padecente e na Igreja triunfante nos chama hoje para a conversão e para a santidade. Que nossos fiéis defuntos, pela misericórdia de Deus, descansem em paz! Amém!

 

Pe. Wagner Augusto Portugal.

 

 

 

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