“Alegremo-nos todos no Senhor, celebrando a festa de todos os Santos. Conosco alegram-se os Anjos e glorificam o Filho de Deus”.
Irmãos e Irmãs,
A
Solenidade de todos os santos engloba os três momentos do tempo, além da
dimensão universal do espaço. Realmente, celebramos os justos do passado,
celebrando a vocação à santidade futura – ou seja, o céu – e celebramos a
santidade como dom – graça – presente e atuante na história.
A santidade presente ou atual, que muitas vezes é menosprezada, é o centro da liturgia desta festa, pela mensagem do Santo Evangelho: as Bem-aventuranças devem ser entendidas como uma proclamação, pronta e acabada, do Reino de Deus para as pessoas que vão ficar felizes com o acontecimento do Reino entre nós. São, por conseguinte, ao mesmo tempo, a proclamação da amizade de Deus para aqueles que participam do espírito que é evocado num programa de vida que todos nós somos chamados a viver: a pobreza, a consolação, a mansidão, a justiça, a misericórdia, a pureza e a paz. Tudo que vem de Deus e retorna para o mesmo Deus, o da vida plena.
Meus queridos irmãos,
Celebramos
hoje o mistério pascal de Cristo. E isto não é novidade, porque em todas as
missas o que celebramos é a vida no Cristo Ressuscitado. Todos nós somos
convidados por São Mateus à alegria da presença de Cristo em nossa vida e na
história: “Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa
nos céus”.
Alegria da solenidade de hoje que vem muito bem
colocada junto à comemoração dos fiéis Defuntos. As duas celebrações, a da
última quarta-feira e a de hoje estão ligadas pela fé e pela doce esperança
cristã no destino eterno da criatura humana, redimida por Jesus Cristo. Os
santos lembram a meta alcançada, onde não precisam mais da fé e da esperança,
porque tudo é amor. A celebração de hoje é envolvida de esperança e de fé e,
por isso, bastante voltada para as boas obras realizadas por nossos mortos,
quando vivos, ou que devemos fazer nós, para alcançar a coroa da vida plena, da
vida eterna.
Na
noite santa da Vigília Pascal, ao entoarmos o “Exsultet”, cantamos jubilosos: “A
Luz do Rei eterno venceu as trevas do mundo... Cristo libertou-nos da escuridão
do pecado e da corrupção do mundo e nos consagrou ao amor do Pai e nos uniu na
comunhão dos santos!” E com as velas em punho, elevando a nossa alegria,
renovamos as promessas do Batismo, isto é, o nosso ingente compromisso de
caminhar na santidade.
A Luz, o próprio Cristo Ressuscitado, celebrado no Batismo e reafirmado em cada Eucaristia é a mesma Luz que advém das velas acessas por ocasião de um velório ou sepultamento. É a mesma Luz, o mesmo Cristo, luz do mundo e salvação dos homens e das mulheres, que nos arrancou das trevas do erro e da condenação, revestindo-nos da gloriosa condição de filhos de Deus, e que nos conduz para a luz eterna, onde “o Senhor Deus nos iluminará e reinaremos pelos séculos dos séculos” (cf. Ap 22,5).
Meus queridos Irmãos,
O
caminho natural da vida é nascer e um dia morrer. Ninguém vai fugir da única
certeza que é a morte. De Deus viemos e para Deus voltaremos, porque Cristo
conseguiu a vitória sobre a morte e levou a criatura a participar da vida
incorruptível e eterna de Deus. O mesmo Senhor que nos legou a vida nos dá a
morte: “Tu, Senhor, tens poder sobre a
vida e sobre a morte” (cf. Sb 16,13). Assim, o mesmo Senhor que nos criou
por amor, acolhe-nos para um amor infinito, para uma perfeita comunhão com Ele.
Nós,
homens e mulheres, de maneira completa, corpo e alma, pertencemos ao Senhor. A
morte é um encontro festivo do amor divino e da vida humana. São Paulo
mostra-nos que é “preciso que este corpo
corruptível se revista de incorrupção e que este ser mortal se revista de
imortalidade” (cf. 1Cor 15,53). A morte, portanto, é a ponte entre a bela
vida terrena e passageira para a belíssima vida celeste, divina e eterna junto
de Deus.
Os mortos não retornam a este mundo, mas nós formamos com eles que se encontram na chamada COMUNHAO DOS SANTOS, uma verdadeira comunhão. O que significa que há uma possibilidade de comunicar-nos com eles pela oração, pelas missas que celebramos pelo seu eterno repouso. Nos ajudamos mutuamente, rezando pelos falecidos que estão na comunhão dos santos, fazendo a sua memória no Cristo Ressuscitado.
Caros irmãos,
A
Primeira Leitura desta solenidade (Ap 7,2-4.9-14) nos fala de uma grande
multidão, que ninguém podia contar. Entre as visões das catástrofes do fim do
mundo, surge a visão da glória dos eleitos, fruto da salvação que vem “de nosso
Deus... e do Cordeiro” (cf. Ap 7,10). Por seu sacrifício, o Cordeiro venceu a
morte. Desta vitória participam os que, especialmente no sacrifício do
martírio, “branquearam suas vestes no sangue do Cordeiro”. Não o número dos
eleitos é o que esta leitura quer mostrar, mas a vitória sobre as forças que se
opõem a Cristo e a sua comunidade”.
As primeiras
perseguições tinham feito cruéis destruições nas comunidades cristãs, ainda tão
jovens. Iriam estas comunidades desaparecer, acabadas de fundar? As visões do
profeta trazem uma mensagem de esperança nesta provação. É uma linguagem
codificada, que evoca Roma, perseguidora dos cristãos, sem a nomear
diretamente, aplicando-lhe o qualificativo de Babilónia. A revelação proclamada
é a da vitória do Cordeiro. Que paradoxo! O próprio Cordeiro foi imolado. Mas é
o Cordeiro da Páscoa definitiva, o Ressuscitado. Ele transformou o caminho de
morte em caminho de vida para todos aqueles que O seguem, em particular pelo
martírio, e eles são numerosos; participam doravante ao seu triunfo, numa festa
eterna.
A
Segunda Leitura (cf. 1 Jo 3,1-3) nos mostra que já somos filhos de Deus, e
ainda não é manifesto o que seremos – Quem não se sabe amado por Deus não
entende o que significa ser “filho de Deus”. E sabe-o quem o pratica. Mas este
saber fica ainda velado. Só na glória manifesta-se em plena clareza. Mas na
esperança já participamos da santidade de Deus, se vivermos como seus filhos.
Estamos diante
de uma segunda mensagem de esperança. Ela responde às nossas interrogações
sobre o destino dos fiéis defuntos. Que vieram a ser? Como sabê-lo, pois
desapareceram dos nossos olhos? E nós próprios, que o seremos? A resposta é uma
dedução absolutamente lógica: se Deus, no seu imenso amor, faz de nós seus
filhos, não nos pode abandonar. Ora, em Jesus, vemos já a que futuro nos conduz
a pertença à família divina: seremos semelhantes a Ele.
A liturgia fala unicamente de santidade. Porém, para sabermos qual é o caminho da santidade, devemos
subir com os Apóstolos ao monte das Bem-Aventuranças, aproximar-nos de Jesus e
colocar-nos à escuta das palavras de vida que saem dos seus lábios. Também hoje
Ele nos repete: Bem-aventurados os pobres em espírito, porque possuirão
o reino dos céus! O Mestre divino proclama “beatos” e, poderíamos dizer,
"canoniza" em primeiro lugar os pobres em espírito, ou seja,
aqueles que têm o coração livre de preconceitos e condicionamentos e por isso
são totalmente disponíveis à vontade divina. A adesão integral e confiante a
Deus supõe o despojamento e o desapego coerente de si mesmo. Bem-aventurados os aflitos! É a bem-aventurança não só daqueles que sofrem pelas
inumeráveis misérias inerentes à condição humana mortal, mas também de quantos
aceitam com coragem os sofrimentos derivantes da profissão sincera da moral
evangélica. Bem-aventurados os puros de coração! São proclamados ditosos
aqueles que não se contentam com a pureza exterior ou ritual, mas procuram a
absoluta retidão interior que exclui qualquer mentira e ambiguidade. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça! A justiça humana já é uma meta excelsa, que enobrece o
ânimo de quem a procura, mas o pensamento de Jesus tem em vista a justiça mais
elevada, que consiste na busca da vontade salvífica de Deus: feliz é
sobretudo quem tem fome e sede desta justiça. Com efeito, Jesus diz: “Só
entrará [no Reino do Céu] aquele que põe em prática a vontade do meu Pai que
está no Céu” (Mt 7, 21).
Bem-aventurados os misericordiosos! Ditosos são aqueles que vencem a dureza de coração e a
indiferença, para reconhecerem de forma concreta a primazia do amor compassivo
a exemplo do Bom Samaritano e, em última análise, do Pai "rico em
misericórdia" (Ef 2, 4).
Bem-aventurados os pacificadores! A paz, síntese dos bens messiânicos, constitui uma tarefa
exigente. Num mundo que apresenta tremendos antagonismos e obstáculos, é
necessário promover uma convivência fraterna inspirada no amor e na partilha,
superando inimizades e contrastes. Felizes aqueles que se comprometem neste
nobilíssimo empreendimento. Os Santos levaram
a sério estas palavras de Jesus. Acreditaram que a “felicidade” haveria de lhes
advir se a traduzissem concretamente na sua própria existência. E
experimentaram a sua verdade no confronto quotidiano com a experiência:
não obstante as provações, as obscuridades e as adversidades, saborearam já
aqui na terra a profunda alegria da comunhão com Cristo. N’Ele descobriram,
presente no tempo, o gérmen inicial da futura glória do Reino de Deus.
As
“bem-aventuranças” são fórmulas relativamente frequentes na tradição bíblica e
judaica. Aparecem, quer nos anúncios proféticos de alegria futura (cf. Is
30,18; 32,20; Dn 12,12), quer nas ações de graças pela alegria presente (cf. Sl
32,1-2; 33,12; 84,5.6.13), quer nas exortações a uma vida sábia, refletida e
prudente (cf. Prov 3,13; 8,32.34; Sir 14,1-2.20; 25,8-9; Sl 1,1; 2,12; 34,9).
Contudo, elas definem sempre uma alegria oferecida por Deus.
As
“bem-aventuranças” evangélicas devem ser entendidas no contexto da pregação
sobre o “Reino”. Jesus proclama “bem-aventurados” aqueles que estão numa
situação de debilidade, de pobreza, porque Deus está a ponto de instaurar o
“Reino” e a situação destes “pobres” vai mudar radicalmente; além disso, são
“bem-aventurados” porque, na sua fragilidade, debilidade e dependência, estão
de espírito aberto e coração disponível para acolher a proposta de salvação e
libertação que Deus lhes oferece em Jesus (a proposta do “Reino”).
As quatro
primeiras “bem-aventuranças” referidas por Mateus (vers. 3-6) estão
relacionadas entre si. Dirigem-se aos “pobres” (as segunda, terceira e quarta
“bem-aventuranças” são apenas desenvolvimentos da primeira, que proclama:
“bem-aventurados os pobres em espírito”). Saúdam a felicidade daqueles que se
entregam confiadamente nas mãos de Deus e procuram fazer sempre a sua vontade;
daqueles que, de forma consciente, deixam de colocar a sua confiança e a sua
esperança nos bens, no poder, no êxito, nos homens, para esperar e confiar em
Deus; daqueles que aceitam renunciar ao egoísmo, que aceitam despojar-se de si
próprios e estar disponíveis para Deus e para os outros.
Os “pobres em
espírito” são aqueles que aceitam renunciar, livremente, aos bens, ao próprio
orgulho e auto-suficiência, para se colocarem, incondicionalmente, nas mãos de
Deus, para servirem os irmãos e partilharem tudo com eles.
Os “mansos”
não são os fracos, os que suportam passivamente as injustiças, os que se
conformam com as violências orquestradas pelos poderosos; mas são aqueles que
recusam a violência, que são tolerantes e pacíficos, embora sejam, muitas
vezes, vítimas dos abusos e prepotências dos injustos… A sua atitude pacífica e
tolerante torná-los-á membros de pleno direito do “Reino”.
Os “que
choram” são aqueles que vivem na aflição, na dor, no sofrimento provocados pela
injustiça, pela miséria, pelo egoísmo; a chegada do “Reino” vai fazer com que a
sua triste situação se mude em consolação e alegria…
A quarta
bem-aventurança proclama felizes “os que têm fome e sede de justiça”.
Provavelmente, a justiça deve entender-se, aqui, em sentido bíblico – isto é,
no sentido da fidelidade total aos compromissos assumidos para com Deus e para
com os irmãos. Jesus dá-lhes a esperança de verem essa sede de fidelidade
saciada, no Reino que vai chegar.
O segundo
grupo de “bem-aventuranças” (vers. 7-11) está mais orientado para definir o
comportamento cristão. Enquanto que no primeiro grupo se constatam situações,
neste segundo grupo propõem-se atitudes que os discípulos devem assumir.
Os
“misericordiosos” são aqueles que têm um coração capaz de compadecer-se, de
amar sem limites, que se deixam tocar pelos sofrimentos e alegrias dos outros
homens e mulheres, que são capazes de ir ao encontro dos irmãos e estender-lhes
a mão, mesmo quando eles falharam.
Os “puros de
coração” são aqueles que têm um coração honesto e leal, que não pactua com a
duplicidade e o engano.
Os “que
constroem a paz” são aqueles que se recusam a aceitar que a violência e a lei
do mais forte rejam as relações humanas; e são aqueles que procuram ser – às
vezes com o risco da própria vida – instrumentos de reconciliação entre os
homens.
Os “que são
perseguidos por causa da justiça” são aqueles que lutam pela instauração do
“Reino” e são desautorizados, humilhados, agredidos, marginalizados por parte
daqueles que praticam a injustiça, que fomentam a opressão, que constroem a
morte… Jesus garante-lhes: o mal não vos poderá vencer; e, no final do caminho,
espera-vos o triunfo, a vida plena.
Na última
“bem-aventurança” (vers. 11), o evangelista dirige-se, em jeito de exortação,
aos membros da sua comunidade que têm a experiência de ser perseguidos por
causa de Jesus e convida-os a resistir ao sofrimento e à adversidade. Esta
última exortação é, na prática, uma aplicação concreta da oitava
“bem-aventurança”.
No seu
conjunto, as “bem-aventuranças” deixam uma mensagem de esperança e de alento
para os pobres e débeis. Anunciam que Deus os ama e que está do lado deles;
confirmam que a libertação está a chegar e que a sua situação vai mudar;
asseguram que eles vivem já na dinâmica desse “Reino” onde vão encontrar a
felicidade e a vida plena.
O Papa Bento XVI ensinou que: “No mundo
terrestre, a Igreja é o início deste mistério de comunhão que une a humanidade,
um mistério totalmente centrado sobre Jesus Cristo: Ele introduziu no gênero
humano esta dinâmica nova, um movimento que o conduz para Deus e ao mesmo tempo
para a unidade, para a paz em sentido profundo”. O Papa Bento XVI
precisou também que “os Santos –aqueles que a Igreja proclama como tais, mas
também todos os santos e as santas que só Deus conhece, e que também hoje
celebramos– viveram intensamente esta dinâmica. Em cada um deles, de maneira
pessoal, fez-se presente Cristo, graças a seu Espírito que age mediante a
Palavra e os Sacramentos”.
“De fato, o estar unidos a Cristo, na Igreja, não anula a personalidade, mas, a
transforma com a força do amor, e lhe confere, já aqui sore a terra, uma
dimensão eterna”, sublinhou o Papa (01 de Novembro de 2012).
Prezados irmãos,
A Solenidade deste domingo nos ajuda a celebrar a
esperança na ressurreição, pois os santos e santas de Deus foram aqueles que
viveram o batismo de forma radical, no espírito das bem-aventuranças. Apesar de
terem limites e defeitos, esforçaram-se para se aproximar da luz divina e se
deixaram transformar pelos valores evangélicos. Encontramos em cada um deles um
perfil diferente, mas todos buscaram a fidelidade ao chamado e às inspirações
que receberam de Deus.
A
santidade não é o destino de uns poucos, mas de uma imensa multidão conforme
nos ensina a primeira leitura: todos aqueles que, de alguma maneira, até sem o
saber, aderiram e aderirão à causa do Cristo e do Reino entrarão na comunhão ou
comunidade dos santos.
São
João nos ensina na segunda leitura o mesmo pensamento: já somos filhos de Deus,
e nem imaginamos o que seremos! Mas uma coisa temos certeza: seremos
semelhantes a Ele, realizaremos a vocação de nossa criação. O amor de Deus
tomará totalmente conta de nosso ser, ao ponto de nos tornar iguais a Ele.
Ser
santo significa ser de Deus. Não é preciso ser anjo para ser santo. Santidade
não é angelicalismo. Significa uma fé encarnada, libertadora, modo de vida autêntico
baseado no santo Evangelho. Sair de si e ir ao encontro do outro, especialmente
do mais humilde e necessitado.
Por
isso elevemos nossos olhos a Deus e demos graças pela vitória de sua graça em
todos os eleitos; somos impelidos a alegrar-nos com sua felicidade e somos
encorajados a viver no espírito dos pobres, ou seja, das bem-aventuranças. A
Igreja militante deste mundo se une a Igreja padecente na prece humilde para
que a Igreja triunfante do céu venha ao nosso socorro, nos fazendo cidadãos do
céu e peregrinos do infinito na Trindade. Amém!
Padre Wagner Augusto Portugal.
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