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Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, C.


“Com grande alegria rejubilo-me no Senhor, e minha alma exultará no meu Deus, pois me revestiu de justiça e salvação, como a noiva ornada de suas jóias”

 

Meus queridos irmãos,

O Brasil está unido, de norte a sul, de leste a oeste, para a grande festa de nossa excelsa padroeira: a Virgem da Conceição, Aparecida, das águas do Rio Paraíba, no vale do mesmo nome, no ano de 1717. A devoção à Virgem Maria nos abre o caminho mais rápido para contemplarmos a Santíssima Trindade.

No majestoso Santuário Nacional de Nossa Senhora, em Aparecida, São Paulo, ou nas Catedrais, Igrejas Matrizes, Filiais e Capelanias de todo o imenso território nacional, os fiéis, precedidos por seus Pastores, louvam a Deus por intermédio de sua Mãe, que nos legou o modo mais simples e profundo de seguir a Jesus Cristo, o Redentor: “Fazei tudo o que Ele vos disser!” (cf. Jo 2,5).

Irmãos e irmãs,

Maria deve ser colocada, dentro de um bom entendimento da liturgia de hoje, como intercessora do povo, como principal padroeira do povo brasileiro. A Primeira Leitura (cf. Est 5,1b-2; 7,2b-3) nos ensina sobre a intervenção da Rainha Ester junto ao Rei Assuero em favor do povo judeu, ao qual ela mesma pertencia. Menciona-se também a graciosa beleza desta “flor do seu povo”.

Ester, judia, conseguiu a proteção de seu povo dominado graças às suas qualidades reais e à presença de Deus em sua vida. Ela é símbolo do amor que Deus dedica a qualquer nação que expressa confiança nele, reconhecendo sua obra em Maria, a “rainha”, e acolhendo sua vontade e justiça como guia do caminho. Pois não adianta implorar a intercessão da rainha se se rejeita a justa vontade do rei.

No Antigo Testamento, a consciência do amor encarnado de Deus praticamente não ultrapassava as fronteiras de Israel. Um dos momentos em que se manifestou esse amor foi a atuação da rainha Ester, que, graças às suas qualidades reais e à presença de Deus em sua vida, protegeu seu povo. Esse tema simboliza o amor de Deus a qualquer povo que expressa confiança nele e segue sua vontade e justiça. Neste dia santo, a “rainha” por excelência é Maria, mediadora junto a Jesus e a Deus, solidária com o povo. Como Ester, ela reza: “Salva meu povo”.

Veneramos a Virgem Maria, que nos trouxe a salvação, e somos chamados a amá-la com o coração de filhos, lembrando que em Jesus nos tornamos todos irmãos pelo batismo. A Virgem Aparecida nos oferece recordações importantes da vida cristã: a ternura maternal da Virgem, sua dedicação a Jesus como mulher de fé, seu serviço a toda a humanidade. Em Maria temos o mais perfeito exemplo do discípulo que cumpre os mandamentos e realiza a vontade do Pai, que se concretiza na salvação do povo de Deus.

Meus amigos,

A Virgem Maria deve ser apresentada como o modelo acabado de fidelidade do ser humano a Deus: Maria da fraternidade, Maria da acolhida, Maria da graça, Maria da partilha, Maria da misericórdia, Maria da graça santificante, Maria da generosidade, Maria do serviço!

Relembramos a visita do Conde de Assumar, em 1717, a Guaratinguetá, quando os pescadores Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso foram escalados para pescar peixes para a refeição da visita ilustre — sendo este dia uma sexta-feira, dia de abstinência de carne. Os homens simples do Vale do Paraíba nada pescaram. Quando já estavam quase desanimando, jogaram a rede novamente e retiraram uma imagem pequena de Nossa Senhora da Conceição, um pouco enegrecida pela água, sem a cabeça. Outro arremesso trouxe a cabeça da imagem, e mais um arremesso resultou em uma pesca abundante. Deus abençoava, naquele momento, os três pescadores.

A imagem da Virgem da Conceição, feita de barro cozido, enegrecida pelas águas e pelo tempo, medindo 36 cm, foi levada para o culto divino. Em 1745, foi construída uma Capela no alto do Morro dos Coqueiros, dando início à devoção a Nossa Senhora Aparecida, Mãe do Povo Brasileiro. Em 1888, a primitiva capela foi substituída por uma igreja. Em 1894, a Igreja e a devoção foram enriquecidas pela presença dos Missionários Redentoristas, que passaram a gerir o Santuário Nacional.

Desde 1953, a festa de Nossa Senhora Aparecida é celebrada em 12 de outubro. Desde 1930, Nossa Senhora Aparecida é a Padroeira Nacional. Em 4 de julho de 1980, o Sumo Pontífice João Paulo II consagrou o novo Santuário Nacional. Em 13 de maio de 2007, o Papa Bento XVI abriu a V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho, nos convidando a “ser discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que todos tenham vida e vida plenamente”. Na véspera, no interior da majestosa Basílica, o Santo Padre rezou o terço com ministros e povo de Deus, em homenagem a Maria. Em 24 de julho de 2013, o Santo Padre Francisco, antes de iniciar a JMJRio 2013, rezou pela primeira vez, como Pontífice, a nova consagração a Virgem Aparecida, com viés cristológico:

“Ó Maria Santíssima, pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo, em vossa querida imagem de Aparecida, espalhais inúmeros benefícios sobre todo o Brasil. Eu, embora indigno de pertencer ao número de vossos filhos e filhas, mas cheio do desejo de participar dos benefícios de vossa misericórdia, prostrado a vossos pés, consagro-vos a minha língua para que sempre vos louve e propague sua devoção; consagro-vos o meu coração; para que, depois de Deus, vos ame sobre todas as coisas. Recebei-me, ó Rainha incomparável, vós que o Cristo crucificado deu-nos por Mãe, acolhei-me debaixo de vossa proteção; socorrei-me em todas as minhas necessidades, espirituais e temporais, sobretudo na hora de minha morte. Abençoai-me, ó celestial cooperadora, e com vossa poderosa intercessão, fortalecei-me em minha fraqueza, a fim de que, servindo-vos fielmente nesta vida, possa louvar-vos, amar-vos e dar-vos graças no céu, por toda a eternidade. Assim seja!”

Meus queridos amigos,

O Evangelho de hoje (cf. Jo 2,1-11), das Bodas de Caná, se passa em família. Nossa Senhora deve ser lembrada como padroeira das famílias. Assim, nossas famílias, toda Mariana, devem buscar em Maria a protetora para suas necessidades e intercessora junto a Deus, porque o que se pede à Mãe, o Filho atende. Maria intercede junto a Jesus e, assim, também intercede pelo povo brasileiro em suas múltiplas necessidades. Maria, mãe da misericórdia, cuja ternura toca o coração, recebe e atende nossos pedidos, dos mais simples aos mais complexos.

Maria deposita toda a sua confiança em Jesus, no poder salvador dele, na sua misericórdia e na largueza de seu imenso coração. Faltava o vinho, e Maria intercede pedindo aos serventes que “fizessem tudo o que Ele dissesse”. Houve abundância de vinho. A riqueza desta graça que Maria distribui também é abundante para todos que a ela recorrem. Dela podemos dizer o mesmo que a Carta aos Hebreus aconselha sobre o Sumo Sacerdócio de Jesus: “Aproximemo-nos confiantemente do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia” (cf. Hb 4,16).

Maria Santíssima é apresentada como a “senhora mãe” (como indica a linguagem bíblica ao chamar de “mulher”). Ela se sente responsável por sua família: a presença de Jesus e de seus amigos a faz interceder diante da falta de vinho. Conhecendo o filho, confia a situação a Ele: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (cf. Gn 41,55). Talvez às cegas, mas confiante no projeto de Deus, Maria assume sua missão de confiar o mundo a Jesus. O milagre realizado não é apenas um “sinal”, mas um sinal da missão de Cristo, do dom que Ele mesmo é, mostrando o início de sua obra (cf. Jo 2,11).

Irmãos,

A segunda leitura (cf. Ap 12,1.5.13a.15-16a) nos remete à liturgia da Assunção. Maria protege a humanidade e a Igreja, exercendo a missão de Mãe e Mestra. Maria gerou o Salvador e presenciou sua vitória, unindo-a à Igreja, que leva o Salvador ao mundo e testemunha sua vitória.

A leitura apresenta a Mulher-Povo de Deus. Maria Santíssima dá à luz o Messias e é perseguida pelo Dragão, símbolo do anti-Reino. Destaca-se a solidariedade da “terra” com sua luta (12,16a). Maria exerce papel protetor em relação ao Filho messiânico. Analogamente, a Igreja assume parte da obra de Maria, gerando e levando o Salvador ao mundo e protegendo o povo, não de forma mágica, mas com nosso empenho por uma sociedade justa, conforme a vontade de Deus.

Prezados irmãos,

As mulheres das leituras revelam características de Nossa Senhora Aparecida: Ester suplica pelo povo, a Mulher do Apocalipse mantém esperança e Maria pede a Jesus que aja em favor dos aflitos. A devoção a Aparecida nos leva a perceber essas dimensões e nos compromete a viver conforme celebramos.

Cabe a nós orar e atuar em favor dos mais sofridos. Somos afligidos por dificuldades diversas, muitas vezes causadas por más ações alheias. Celebramos, contudo, com o vinho da alegria que Jesus nos traz em cada Eucaristia. Olhemos para o povo e nossa realidade social: quantas transformações ainda são necessárias para uma vida digna para muitos? O milagre acontece com a união na fé em torno do amor fraterno, da justiça e da paz.

Irmãos e irmãs,

O dia de Nossa Senhora da Conceição Aparecida nos insere na festa de Caná da Galileia, naquele “terceiro dia”. Nascemos para ressuscitar, e a ressurreição é a graça das “talhas cheias de vinho”, símbolo maior da alegria e do amor! Esta é a festa que a presença de Maria torna possível: nossos vazios, silêncios e pequenez são assumidos na direção de Jesus. “Fazei tudo o que Ele disser” são as primeiras e últimas palavras de Maria no Evangelho de João. Todas as nossas palavras devem aproximar nossa humanidade do coração amoroso do Senhor.

Caros irmãos,

Neste dia santo, pedimos a proteção constante de Maria Aparecida pelo povo brasileiro, que tenhamos abundância da Palavra de Deus e da Santíssima Eucaristia em nossas comunidades, para sermos autênticos discípulos de seu Filho: “Fazei tudo o que Ele vos disser!”. Reafirmamos nossa sã doutrina: o culto mariano está sempre em relação a Jesus. A salvação do homem consiste na comunhão com o Deus Trino, concedida pelo encontro existencial com Jesus Cristo: quem o vê, vê também o Pai (cf. Jo 14,9). A salvação é sempre em Cristo, inserida nele, cabeça do corpo e videira para os sacramentos. Nossa Senhora Aparecida constitui importante referência neste caminho. Maria, unida a Jesus de maneira única, não apenas no plano biológico, mas principalmente no espiritual, religioso e existencial, é modelo insubstituível.

Como disse São João Paulo II:

“Ajudem os fiéis a viverem sua devoção mariana como claro e corajoso testemunho de amor a Cristo, que manifeste a identidade pessoal e comunitária dos católicos, contra o perigo do secularismo e do consumismo, e ao mesmo tempo favoreça nas famílias a prática das virtudes cristãs. De igual modo, esta devoção ajudará a consolidar os vínculos de comunhão com os Pastores da Igreja de Cristo. A história ensina que Maria é a verdadeira salvaguarda da fé; em cada crise, a Igreja reúne-se à volta dela. Só assim os discípulos do Senhor poderão ser para os outros sal da terra e luz do mundo.”(cf. Mt 5,13-14)

“Feliz o povo cujo Senhor é Deus e cuja Rainha é a Mãe de Deus!”, proclamava o Papa Pio XII. Assim poderá exclamar esta dileta arquidiocese de Aparecida, se souber voltar os olhos para Aquela que gerou, por obra do Espírito Santo, o Verbo feito carne. A missão essencial da Igreja consiste em fazer nascer Cristo no coração dos fiéis (cf. Lumen Gentium, 65) pela ação do mesmo Espírito Santo, através da evangelização.

Salvos das águas pela fé e pelo Batismo, os cristãos podem alcançar algo daquilo que contemplam na Virgem Aparecida, a Imaculada, se seguirem seu conselho: “Fazei tudo o que Ele vos disser!”. Esta é a nossa missão na festa da Virgem Maria Aparecida. Amém!

 

Padre Wagner Augusto Portugal.

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