Pular para o conteúdo principal

30o. DOMINGO DO TEMPO COMUM, C.

 

“Exulte o coração dos que buscam a Deus. Sim, buscai o Senhor e sua força, procurai sem cessar a sua face”(cf. Sl 104,3s).

 

Meus queridos irmãos,

A liturgia de hoje nos lembra que Deus justifica os humildes e pecadores. Relembramos que a oração confiante e persistente, sobre a qual refletimos no último domingo, deve vir acompanhada da humildade, conforme a liturgia da Palavra deste 30º domingo do Tempo Comum. Ter humildade significa viver a condição de pequenez, de simplicidade, de descentralização, para compreender-se dentro de uma vida maior que o próprio “eu”. O testemunho de Paulo chega como uma luz: enraizado em Cristo, ele foi capaz de viver tudo, até as últimas consequências, pelo mesmo Cristo.

As formas de oração do fariseu e do publicano são como um mapa para compreender o coração da liturgia da Palavra. O fariseu, centrado em si, transforma a oração em grande discurso: fala muito, acusa muito, abre-se pouco. O publicano, de sua parte, usa poucas palavras, com certa vergonha no olhar, e só consegue pedir por ajuda, pelo perdão dos próprios pecados. O trecho do livro do Eclesiástico apresenta a “justiça de Deus”, a qual se revela na opção preferencial pelos mais necessitados, pelos que conseguem viver a abertura do coração a partir da pobreza da vida.

 

Prezados irmãos,

A Primeira Leitura (cf. Eclo 35,12-14.16-18) nos ensina que Deus não conhece acepção de pessoas e faz justiça aos pequenos, aos pobres, às viúvas, aos aflitos e aos necessitados. Tudo isso vai na contramão dos poderosos, que querem agradar a Deus por meio de sacrifícios perversos. Deus não se deixa comprar pelas coisas que queremos lhe oferecer, pois não necessita de nada disso. Mas Deus nos considera justos, nos considera amigos dele, quando lhe oferecemos um coração contrito e humilde. Deus toma partido dos pobres e dos oprimidos, daqueles que estão à margem da sociedade. Deus é o Deus da justiça: não conhece acepção de pessoas e escolhe o lado dos oprimidos.

A leitura do Livro do Eclesiástico situa-se num contexto que trata das ofertas. Não é a grandeza ou a riqueza do dom que importa, mas a atitude de quem oferece, a disponibilidade para ajudar os necessitados. Oferecer a Deus o fruto da exploração é uma tentativa de suborno. Deus é reto; Ele atende os oprimidos e os necessitados.

Deus é, então, um juiz justo que não faz acepção de pessoas, que não aceita ser cúmplice dos opressores, que não se deixa subornar pelos presentes dos ricos e não desiste de fazer justiça aos pobres (são explicitamente nomeados os órfãos e as viúvas – figuras paradigmáticas dos desprotegidos, que só tinham Deus para os defender da prepotência dos grandes). Por outro lado, o Eclesiástico insiste em que Deus escuta sempre as preces dos débeis e está atento aos gritos de revolta daqueles que são vítimas da injustiça. Assim, os humildes que sofrem a opressão e a prepotência dos poderosos são convidados a apresentar a Deus suas queixas, até que Ele restabeleça o direito e a justiça.

A “verdadeira religião” não passa pelos ritos, mas por uma vida verdadeiramente comprometida com os mandamentos, especialmente com o mandamento do amor aos irmãos. Não adianta muito colaborar com a paróquia, mas sonegar impostos ou não pagar justamente seus operários. De nada adianta fazer polpudas doações na coleta do domingo, mas não respeitar a dignidade e a liberdade dos outros. De nada adianta fazer “promessas” a Deus se prejudica o irmão em negócios, nas redes sociais ou com a injúria, a calúnia e a difamação. Uma prática religiosa desligada da vida é uma religião falsa, incoerente e hipócrita, com a qual Deus não quer ter nada a ver.

Nosso Deus tem um fraco pelos pobres, pelos débeis, pelos oprimidos, por aqueles que o mundo considera “vencidos” e sem peso. Não vamos nos iludir: Deus ama acima de tudo os pobres, os débeis, os oprimidos e os “vencidos do mundo” e não deixa passar em claro qualquer injustiça cometida contra eles ou qualquer comportamento que viole sua dignidade. E os batizados, “filhos de Deus”, são convidados a atuar com a mesma lógica de Deus. A oração do pobre e do desvalido chega sempre aos ouvidos de Deus. Ele nunca vira as costas a quem chama por Ele e vê n’Ele a esperança e a salvação. Isto é algo que devemos ter sempre presente, especialmente nos momentos mais dramáticos da nossa existência, quando tudo parece desmoronar. E disso não devemos duvidar, “porque Deus não faz discriminação de pessoas” e não aceita que se maltrate os mais humildes.

 

Estimados irmãos,

Neste sentido, o Evangelho de hoje (cf. Lc. 18,9-14) nos ensina que fora do amor não há humildade; fora da humildade, não há amor. Assim, a qualidade fundamental da oração que iniciamos a refletir no domingo passado é a seguinte perseverança: a HUMILDADE. A prece que sobe ao céu de coração contrito e humilde será ouvida por Deus, que ama e auxilia os pobres e humildes, os cheios de coração misericordioso.

Rezar é muito importante, principalmente quando se reza com humildade. Mas somos convidados hoje a rezar com grande intensidade e contínua perseverança. Quando nos humilhamos e nos colocamos em atitude de súplica e de humildade, nossa oração será ouvida por Deus. Quem reza de maneira contrita será ouvido pelo Senhor Deus Uno e Trino.

A oração e o nosso comportamento serão avaliados pelo Senhor da Vida. Assim, o verdadeiro e sincero reconhecimento da própria nulidade diante da infinita misericórdia de Deus deve ser considerado. Não só a maneira de rezar, mas o modo de rezar e, por conseguinte, o modo de viver a vida, sempre se colocando como servidor, como último e pequeno diante da grandeza do Senhor. O próprio Cristo se fez manso e humilde de coração para servir com maior gratuidade. A Virgem Maria, que sempre soube ouvir e amar em tudo, se declarou à serva humilde e obediente do Senhor, conforme cantamos no cântico do Magnificat.

 

Meus caros amigos,

Dois homens rezam: o fariseu e o publicano. Os fariseus cumpriam as leis do Antigo Testamento com grande perseverança, sempre fiéis à Lei. No grupo dos fariseus estavam os escribas, considerados mestres da Lei e parte da classe sacerdotal. A Lei era, para eles, a expressão da vontade de Deus. Cumprir a Lei na sua totalidade e em todas as suas prescrições era seu objetivo. O fariseu rezava em público, no Templo, lugar privilegiado para a oração, e agradecia por fazer as coisas melhor do que a obrigação legalista.

Onde está o fundamental que anula a oração, impedindo sua justificação ou santificação? São dois os erros: primeiro, o desprezo pelos outros, ainda que pecadores. Amamos a Deus não na medida do cumprimento das leis, mas na medida do amor que temos ao próximo, incluindo os que não nos amam ou não pensam como nós. O Apóstolo Paulo, no capítulo 13 da Carta aos Coríntios, enumera todas as qualidades possíveis numa pessoa, para dizer: “Mas, se eu não for caridoso, nada sou” (cf. 1 Cor 13,1-3).

O segundo erro do fariseu é a autojustificação. Ele deixa entender que se santifica a si mesmo e nada precisa de Deus, exceto recompensa. Não é o fato de enumerar boas ações que o faz errar; há salmos que também enumeram bens feitos. Mas nosso fariseu esquece que toda justificação vem de Deus, pois só Ele é a fonte da santidade.

 

Irmãos amados,

O publicano, por sua vez, também era pecador, pois era cobrador de impostos. Ele se coloca como pecador, bate no peito, mas não olha para o céu, porque sabe que olhos impuros não podem contemplar a face de Deus. O publicano nos apresenta três qualidades importantes da oração: sente-se necessitado de Deus, tem certeza de que Deus pode ajudá-lo e deseja a misericórdia divina. Tudo deve provir de Deus. Nós não podemos duvidar de Deus; ao contrário, devemos colocar tudo nas mãos Dele para conduzir nossas lutas, construir um mundo melhor e melhorar nossa vida.

O amor misericordioso de Deus é destacado quando o pecador pede misericórdia. Todos devemos evitar duas atitudes comuns: a presunção de santidade diante de Deus e o sentir-nos melhores que os outros. Todos somos servos simples e humildes. Assim, a criatura não pode viver sem oração e sem se colocar nas mãos misericordiosas de Deus, que nos ama, perdoa e acolhe com generosidade, enchendo as vidas humanas com o próprio Coração de Jesus.

Caros irmãos,

O Evangelho toca no problema da atitude do homem frente a Deus. Desautoriza aqueles que se apresentam diante de Deus carregados de autossuficiência, convencidos de sua “bondade”, certos de seus méritos, como se pudessem exigir algo de Deus e ditar-Lhe condições. Propõe, em contrapartida, uma atitude de reconhecimento humilde dos próprios limites, confiança absoluta na misericórdia de Deus e entrega confiada nas mãos Dele. É esta segunda atitude que somos convidados a assumir.

Deus não é um contabilista, uma máquina de recompensas e castigos, mas o Deus da bondade, do amor, da misericórdia, da caridade, da compaixão, sempre disposto a derramar sobre o homem a salvação (mesmo que este não mereça), como puro dom. A única condição para “ser justificado” é aceitar humildemente a oferta de salvação que Ele faz. A atitude de orgulho e autossuficiência, a certeza de possuir qualidades e méritos em abundância, gera desprezo pelos irmãos, criando barreiras de separação (de um lado os “bons”, do outro os “maus”), provocando segregação e exclusão. Jesus não critica a justiça do fariseu, mas sim seu desprezo pelos outros: “Aquele que diz que ama a Deus e não ama seu irmão é um mentiroso”.

 

Meus caros irmãos,

São Paulo, na segunda leitura (cf. 2Tm 4,6-8.16-18), demonstra que se sabia pecador, mas salvo pela graça de Deus. Baseado nessa experiência, anela pelo momento de se reencontrar com aquele que, por graça, o tornou justo, o “justo Juiz”, que o justificará para sempre, enquanto diante do tribunal dos homens ninguém tomou sua defesa. A leitura situa-se no contexto do fim da vida de Paulo e da expectativa de seu encontro com o Senhor.

O exemplo vale mais do que as palavras. Paulo não só pregou; trabalhou com as próprias mãos. No fim de sua vida, ele está preso, mas não amargurado. Suas palavras revelam gratidão e esperança. Paulo permaneceu fiel ao Senhor e agora aguarda o encontro com Ele. O mistério desta vida de apóstolo é a caridade, mistério de toda vida fecunda. Ela não tem fim e se completa no oferecimento da própria vida.

Por isso, é necessário que os cristãos anunciem Cristo ao mundo como Salvador. A salvação que Ele traz não se opõe à salvação humana, mas a conduz à plenitude. Com a celebração dos sacramentos, especialmente a Eucaristia, os cristãos testemunham a necessidade da intervenção divina na vida humana, colocando-se sob a ação de Deus e fazendo a experiência privilegiada da justificação mediante a fé em Jesus Cristo.

A vida de Paulo, desde seu encontro com Cristo ressuscitado na estrada de Damasco, foi uma resposta generosa ao chamamento e um compromisso total com o Evangelho. Por Cristo e pelo Evangelho, São Paulo lutou, sofreu e gastou a própria vida para que a salvação de Deus chegasse a todos os povos. No final, sente-se como um atleta que lutou até o fim e aguarda a coroa de glória, reservada não apenas a ele, mas a todos que lutam com o mesmo denodo pelo Reino.

O caminho que São Paulo percorreu continua difícil. Descobrir Jesus e viver de forma coerente o compromisso cristão implica renúncia aos valores valorizados pelos homens, ser incompreendido e, às vezes, maltratado. Contudo, à luz do testemunho do Apóstolo, o caminho cristão vivido com radicalidade é um caminho que vale a pena, pois conduz à vida plena. Convém ter sempre presente que aquele que escolhe Cristo não está só; o Senhor está ao lado, dá força, anima e livra de todo o mal.

 

Irmãos e irmãs,

A humildade de São Paulo está na sua confiança até o fim: “Agora está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que esperam com amor sua manifestação gloriosa”. “Esperar com amor” é atitude confiante, uma forma de viver que o fariseu do Evangelho não alcançou. Quem aprende a “esperar com amor” não se vangloria, não acusa o outro de pecador nem despreza ninguém, porque sabe que, antes de tudo, somos os primeiros pecadores, os primeiros que necessitam de ajuda. Essa pobreza encontra lugar especial no coração e na justiça divina.

 

Caros irmãos,

No Evangelho de Lucas, os discípulos haviam pedido que o Mestre os ensinasse a orar (Lc 11,1). Jesus ensina-os agora por meio de uma parábola sobre como se deve orar e se postar diante de Deus.

Os interlocutores de Jesus se sentiam justos, possivelmente por cumprirem os preceitos da Lei, e desconsideravam os outros, sobretudo os pecadores. Esta é atitude inversa à do Deus revelado em Jesus Cristo, misericordioso e acolhedor dos pecadores. Lucas mostra esse aspecto repetidamente em seu Evangelho, e percebemos isso também na primeira leitura e na vida pessoal de Paulo, retratada na segunda carta a Timóteo.

O ensinamento de Jesus sobre a oração corresponde à sua vida de reconhecimento de si diante de Deus e à sua íntima união com o Pai. Consequentemente, tal realidade o impulsionava a encontrar no ser humano, imagem e semelhança de Deus, seu valor maior, que não são as práticas religiosas externas, mas o interior, espaço de encontro com a transcendência.

Assim, tal como Jesus fala por meio desta parábola, nossa oração é verdadeira quando, diante de Deus, percebemos nossa verdade e rejeitamos as imagens que fazemos de nós mesmos e que os outros fazem de nós. Só Deus sabe quem realmente somos, pois nos conhece melhor do que nós mesmos.

Enfim, em cada um de nós há um fariseu e um publicano. Quando estamos verdadeiramente diante de Deus, percebemos nosso “publicanismo” e podemos ser justificados. Quando nos empolgamos com falsas imagens de nós mesmos e com práticas religiosas externas, mergulhamos no farisaísmo, fechado à oferta amorosa de Deus.

Não tenhamos medo, meus irmãos. Contemplemos no silêncio da voz de Deus que somos necessitados de sua misericórdia, porque em Deus está a confiança de nossas vidas. Somos convidados à oração autêntica, à fé eucarística e à missão de evangelizar todos os povos. Amém!

 

Padre Wagner Augusto Portugal

 

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Deus Pensa em Você

Deus está sempre pensando em você e amando você! Às vezes, podemos cair na crença de que Deus não se importa conosco e está ausente em nossas vidas, quando, na verdade, Ele está sempre pensando em nós. Durante nossas horas mais sombrias, é comum acharmos que Deus não nos ama ou que, de alguma forma, nos abandonou em nossa miséria. É justamente nesses momentos que precisamos ser lembrados do amor constante de Deus por nós e de como Ele está sempre atento a cada um de nós. Estamos em seus braços neste exato momento. São João Eudes, sacerdote do século XVII conhecido por promover a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, refletiu sobre essa realidade em um texto incluído no livro Meditações sobre diversos assuntos. Ele se concentra, em particular, no fato de que Deus pensa em nós a cada instante de nossa vida: “Desde o momento da minha criação até agora, Ele me carregou em seus braços, em seu seio e em seu Coração, com mais cuidado e amor do que uma mãe carrega seu filho, e não...

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS E DOS HOMENS

“Hoje surgiu a luz para o mundo: O Senhor nasceu para nós. Ele será chamado Admirável, Deus, Princípe da paz, Pai do mundo novo, e o seu reino não terá fim” (Is 9,2.6; Lc 1,33)   Meus queridos Irmãos,               A Solenidade de Hoje é muito antiga dentro da Tradição Litúrgica da Igreja Católica. Remonta ao Concílio Ecumênico de Éfeso, que foi realizado nesta cidade no ano de 431 da era cristã, em que a Igreja concedeu a Virgem Maria o Título de “Mãe de Deus”. Se Maria é Mãe de Deus, também por ser por obra e graça do Espírito Santo Mãe de Cristo, ela também é Mãe de todos os viventes, de todos os homens e de todas as mulheres.             Maria, pela celebração de hoje, está inscrita no livro da vida eterna. Está inserida no projeto de salvação e, também, se reafirma que Jesus Cristo é o verdadeiro Filho de Deus encarnado em Maria. Professar a Maternidade...

Tio Antônio Machado Rocha

  Tio Antônio Machado Rocha. Nascido em Campo do Meio, MG, em 04 de janeiro de 1945. Falecido em Campo do Meio, MG, em 26 de janeiro de 2026.             A semana iniciou-se mais triste com o repentino falecimento nas primeiras horas de hoje, dia 26 de janeiro de 2026, em Campo do Meio, MG, do querido Tio Antônio Machado Rocha. Ele nasceu em 04 de janeiro de 1945.           Do seu matrimônio com a irmã de minha mãe, Tia Vanda Inês Viana Rocha, em 30 de julho de 1972 na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, em Campo do Meio, MG, nasceram quatro filhos: Sheila, Cleiton Alexandre, Gleib e Luiz Ricardo.           Servidor público municipal dedicado passou a sua vida centrado em três pilares: sua família, sua fé católica firme e o trabalho dedicado como calceteiro do Município de Campo do Meio.        ...