“Clamo por vós, meu Deus, porque me
atendestes; inclinai vosso ouvido e escutai-me. Guardai-me como a pupila dos
olhos, à sombra das vossas asas abrigai-me” (cf. Sl 16,6.8).
Meus queridos irmãos,
Mais
um domingo nos é dado para nossa vida de oração, uma oração insistente que
provoca a Justiça de Deus. As leituras de hoje, iniciando pela primeira leitura
(cf. Ex 17,8-13), nos lembram a história de como Moisés contribuiu para a
vitória de seu general Josué sobre os amalecitas, os eternos inimigos de
Israel. Enquanto Moisés, segurando o bastão da força divina, ergue as mãos
sobre os combatentes, Israel vence; quando as deixa baixar, perde.
Na
batalha contra os amalecitas, quem decide a vitória não é Josué, mas Moisés, o
homem de Deus, que ora de braços estendidos desde a manhã até a noite. Sendo
Moisés o enviado de Deus, torna-se evidente que sua postura é um meio de tornar
presente a força do Senhor no combate. O gesto de levantar as mãos indica o
relacionamento com o Altíssimo: levantar as mãos a Deus sem cessar é a grande
lição do livro de Êxodo.
Convém
lembrar que as tradições sobre a libertação (Ex 1-18) têm como objetivo
primordial fazer uma catequese sobre o Deus libertador, que salvou o seu povo
da opressão e da morte, que o fez atravessar o mar Vermelho e o conduziu pelo
deserto. Não interessa aqui a reportagem jornalística dos acontecimentos;
importa a catequese sobre esse Deus a quem Israel é convidado – pela história
afora – a agradecer por sua vida e liberdade.
A
catequese que o texto propõe sublinha a importância da oração. Os teólogos de
Israel sabiam que é preciso invocar o Deus libertador com perseverança e
insistência. Para vencer as duras batalhas da vida, é necessário ter a ajuda e
a força de Deus, que brotam de um diálogo contínuo, nunca interrompido, entre o
crente e o Senhor.
Hoje,
somos convidados a percorrer um caminho semelhante, a descobrir o Deus
libertador vivo e atuante na nossa história, agindo no coração e na vida de
todos aqueles que lutam por um mundo mais justo, mais livre e mais humano.
Israel descobriu que, no plano de Deus, aquilo que oprime e destrói os homens
não tem lugar; sempre que alguém luta para ser livre, Deus está com essa pessoa
e age nela. Por isso, os catequistas de Israel sublinham o papel da oração:
quem sonha com um mundo melhor e luta por ele precisa viver num diálogo
contínuo e profundo com Deus, pois é nesse diálogo que se percebe o projeto
divino e se recebe a força para vencer tudo o que oprime e escraviza o homem.
Estimados irmãos,
O
Evangelho de hoje (cf. Lc 18,1-8) nos revela a qualidade da oração. Jesus é
apresentado como orante a caminho de Jerusalém, próximo de sua morte,
ressurreição e glorificação. A oração é colocada sob a perspectiva da
escatologia, isto é, das coisas últimas da vida humana e do destino reservado à
criatura. Jesus, justo Senhor e Juiz Universal, ensinou a rezar pela vinda do
Reino. Mas quando ele se completar, na parusia do Filho do Homem, ainda haverá
fé na terra? Até lá, é tempo de oração. Devemos reconhecer nossa carência e
assumi-la na oração insistente. Se não clamarmos a Deus para fazer justiça, sua
vinda nos encontrará sem fé.
No
contexto dos primeiros tempos após a paixão, morte e ressurreição de Jesus,
alguns seguidores imaginavam que ele voltaria logo. Muitos se desfaziam de seus
bens, pois não haveria tempo para usufruí-los, e alguns até deixavam de
trabalhar. A indagação permanecia: “Qual será o dia do retorno de Jesus?”.
Passados
dois mil anos, ainda aguardamos o Juízo final dentro do contexto cristão,
devendo estar firmes na fé. Devemos esperar confiantes. Jesus ensinou que o fim
viria, mas não determinou o tempo exato. Como disse, virá de repente; aqueles
que estiverem despertos verão a Deus.
O
que fazer neste tempo de espera? Frutificar os talentos, socorrer os irmãos,
praticar o bem e buscar uma conversa sincera e absoluta com Deus. A oração
continuada, confiante e humilde é a melhor forma de esperar a segunda vinda, a
vinda gloriosa do Cristo Senhor, que certamente acontecerá. Rezemos neste
sentido!
Caros amigos,
De
esperança em esperança em Cristo, homens e mulheres vencerão todas as
adversidades do mundo. O Evangelho nos fala de um juiz humano, sem fé, que faz
justiça apenas para não se aborrecer. Quanto mais fará Deus, que é todo atenção
ao seu povo eleito! Deus, justo, misericordioso e verdadeiro Juiz, que luta
contra o mal, vencerá a iniqüidade. Ele veio morar em nosso meio para remover o
pecado e a maldade do mundo.
A
viúva do Evangelho representa a humanidade, homens e mulheres que lutam contra
a maldade do mundo. Deus nos ensina a pedir, lutar e procurar vê-Lo. O
sofrimento e o desespero se prolongam, mas Deus fará justiça rapidamente, pois
para Ele mil anos são como um dia.
Os
textos da Sagrada Escritura pediam proteção para as viúvas: “Defendei as
viúvas” (cf. Is 1,17). A viúva é a humanidade pecadora, cercada de injustiças e
fome de Deus. O desespero não é a saída: foi o caminho de Judas. As
bem-aventuranças apontam para o caminho não-violento. O cristão é lutador
paciente, corajoso, dinâmico e não resignado, contra todas as formas de
maldade. Todos devemos lutar com fé, única capaz de abrir as portas e caminhos
de Deus.
A
fé, capaz de remover montanhas, transplantar árvores na crista de ondas,
acalmar o mar, sustenta nosso esforço, reanima o cansaço da espera, ilumina o
mistério da caminhada e dá certeza à esperança, mesmo contra todas as
esperanças humanas. Deus nunca nos abandona; abre seus braços e nos chama: “Vem
e segue-me!”
Vamos
manter viva e confiante a fé em meio às tribulações e escândalos, como Cristo
enfrentou em Jerusalém, sem perder a confiança no Pai, expressa em sua última
frase do Evangelho: “Em tuas mãos, Pai” (cf. Lc 23,46).
Caros irmãos,
São
Lucas contextualiza a parábola para uma comunidade cercada pela hostilidade do
mundo, prestes a enfrentar perseguições e desanimada, pensando que Deus não
ouvia os crentes. A resposta é clara: Deus não abandonou o seu povo, nem é
insensível. Ele tem seu plano e seu tempo para intervir. Aos crentes resta
moderar a impaciência e confiar em Sua intervenção libertadora.
A
parábola nos mostra a necessidade de rezar sempre, sem desanimar (Lc 18,1).
Mesmo no aparente silêncio de Deus, não devemos interromper o diálogo. É nesse
diálogo que entendemos os projetos e os ritmos de Deus, transformamos nossos
corações, aprendemos a entregar-nos e a confiar n’Ele. A perseverança na oração
intensifica o amor e a relação com Deus.
Muitas
vezes, Deus não dá o que pedimos porque: pedimos coisas que nos competem,
coisas que parecem boas mas prejudicam a longo prazo, ou que causam sofrimento
a outros. Devemos considerar se nossos pedidos têm sentido à luz da lógica
divina. Como disse Dom Darci José Niciolli: “Rezar resolve tudo!”.
Meus irmãos,
A
segunda leitura (cf. 2Tm 3,14-4,2) nos convida à pregação da Palavra do
Evangelho, oportuna ou inoportunamente. O tempo é breve. O homem moderno é
objetivo, quer saber logo o assunto.
A
fé é graça de Deus, mas também se aprende: o conteúdo e a atitude.
Especialmente quem lidera comunidades deve fortalecer sua fé pela leitura da
Escritura, pela experiência vital e transmissão desinteressada da Palavra. Só o
convicto pode convencer.
A
segunda carta a Timóteo convida os batizados, e os animadores em particular, a
redescobrir entusiasmo pelo Evangelho e defender-se de tudo que ameaça a
verdade recebida de Jesus.
A
posse da verdade está garantida quando o que ensina é sucessor legítimo dos
apóstolos e transmite fielmente a verdade recebida, em conformidade com a
Escritura, inspirada por Deus (“théopneustos”) e fonte de sabedoria que leva à
salvação (3,15). A Escritura serve para ensinar, persuadir, corrigir e formar,
formando o “homem perfeito” (3,17).
Nos
últimos versículos (4,1-2), Timóteo é exortado a proclamar a Palavra a qualquer
hora, com paciência e doutrina, mesmo quando a ocasião não parece propícia, sem
medo e sem respeitos humanos.
Papa
Leão XIII disse que a Escritura é “uma carta outorgada pelo Pai Celeste ao
género humano viandante” (Providentissimus Deus, nº 4). Ela deve ocupar lugar
central em nossas vidas pessoais e comunitárias. Quem anuncia a Palavra deve
fazê-lo sempre, sem atenuar sua radicalidade, preparando-se para que chegue ao
coração de quem a escuta.
Prezados irmãos,
O
juiz da parábola faz justiça não para manter a lei, mas para evitar incômodos.
É a perseverança da mulher que o faz atender ao pedido. Aos olhos do Senhor,
conta a perseverança. A confiança não tem limites. Jesus pergunta: “Quando o
Filho do Homem vier, encontrará fé sobre a terra?” Nossa oração mede a fé e
deve tornar-se perseverança.
Por
que Deus permite tanta miséria, injustiça e sofrimento? Ele não é insensível,
mas nossa compreensão é limitada. A oração nos ajuda a lidar com os silêncios
de Deus, a confiar, e a agir com esperança. Orar é abrir-se para os dons
divinos, reconhecer Sua presença contínua. A espera e a ausência fortalecem o
amor.
A
fé deve ser cultivada e transmitida. Já estivemos mais preocupados em converter
os outros do que a nós mesmos. É tempo de passar do estático “ser cristão” para
o dinâmico “tornar-se cristão”. A fé se mantém viva quando dá sentido à vida
humana, não apenas como enunciados.
Prezados irmãos,
Rezar
não é mero gesto exterior ou obrigação. A Palavra de Deus ensina que a oração
deve estar antes, durante e depois de tudo. A vida espiritual madura não é
conquista pessoal, mas abertura para que a graça de Deus realize maravilhas,
exigindo disciplina, persistência e resistência. Este domingo é oportunidade de
refletir sobre a qualidade da nossa oração.
O
modelo de súplica é Jesus no Getsêmani: “Pai, se queres, afasta de mim este
cálice! Contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua” (Lc 22,42). O
crente não quer obrigar Deus, mas conformar sua vontade à dele. A oração
autêntica gera energia para agir: orar pela paz leva a empenhar-se por ela;
orar pelo sofrimento leva a ajudar o sofredor.
Rezem
sempre, com fé! O homem deve ser solidário, a serviço do próximo, tornando-o
mais humano e divino, consagrando o mundo a Deus e unindo seu sofrimento ao de
Cristo para a salvação da humanidade. Não separemos oração da vida. Confiando
na misericórdia de Deus, podemos cantar com confiança: “Em tuas mãos, Pai,
amém!”.
Padre Wagner
Augusto Portugal.
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