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29o. DOMINGO DO TEMPO COMUM, C.

 

“Clamo por vós, meu Deus, porque me atendestes; inclinai vosso ouvido e escutai-me. Guardai-me como a pupila dos olhos, à sombra das vossas asas abrigai-me” (cf. Sl 16,6.8).

 

Meus queridos irmãos,

Mais um domingo nos é dado para nossa vida de oração, uma oração insistente que provoca a Justiça de Deus. As leituras de hoje, iniciando pela primeira leitura (cf. Ex 17,8-13), nos lembram a história de como Moisés contribuiu para a vitória de seu general Josué sobre os amalecitas, os eternos inimigos de Israel. Enquanto Moisés, segurando o bastão da força divina, ergue as mãos sobre os combatentes, Israel vence; quando as deixa baixar, perde.

Na batalha contra os amalecitas, quem decide a vitória não é Josué, mas Moisés, o homem de Deus, que ora de braços estendidos desde a manhã até a noite. Sendo Moisés o enviado de Deus, torna-se evidente que sua postura é um meio de tornar presente a força do Senhor no combate. O gesto de levantar as mãos indica o relacionamento com o Altíssimo: levantar as mãos a Deus sem cessar é a grande lição do livro de Êxodo.

Convém lembrar que as tradições sobre a libertação (Ex 1-18) têm como objetivo primordial fazer uma catequese sobre o Deus libertador, que salvou o seu povo da opressão e da morte, que o fez atravessar o mar Vermelho e o conduziu pelo deserto. Não interessa aqui a reportagem jornalística dos acontecimentos; importa a catequese sobre esse Deus a quem Israel é convidado – pela história afora – a agradecer por sua vida e liberdade.

A catequese que o texto propõe sublinha a importância da oração. Os teólogos de Israel sabiam que é preciso invocar o Deus libertador com perseverança e insistência. Para vencer as duras batalhas da vida, é necessário ter a ajuda e a força de Deus, que brotam de um diálogo contínuo, nunca interrompido, entre o crente e o Senhor.

Hoje, somos convidados a percorrer um caminho semelhante, a descobrir o Deus libertador vivo e atuante na nossa história, agindo no coração e na vida de todos aqueles que lutam por um mundo mais justo, mais livre e mais humano. Israel descobriu que, no plano de Deus, aquilo que oprime e destrói os homens não tem lugar; sempre que alguém luta para ser livre, Deus está com essa pessoa e age nela. Por isso, os catequistas de Israel sublinham o papel da oração: quem sonha com um mundo melhor e luta por ele precisa viver num diálogo contínuo e profundo com Deus, pois é nesse diálogo que se percebe o projeto divino e se recebe a força para vencer tudo o que oprime e escraviza o homem.

 

Estimados irmãos,

O Evangelho de hoje (cf. Lc 18,1-8) nos revela a qualidade da oração. Jesus é apresentado como orante a caminho de Jerusalém, próximo de sua morte, ressurreição e glorificação. A oração é colocada sob a perspectiva da escatologia, isto é, das coisas últimas da vida humana e do destino reservado à criatura. Jesus, justo Senhor e Juiz Universal, ensinou a rezar pela vinda do Reino. Mas quando ele se completar, na parusia do Filho do Homem, ainda haverá fé na terra? Até lá, é tempo de oração. Devemos reconhecer nossa carência e assumi-la na oração insistente. Se não clamarmos a Deus para fazer justiça, sua vinda nos encontrará sem fé.

No contexto dos primeiros tempos após a paixão, morte e ressurreição de Jesus, alguns seguidores imaginavam que ele voltaria logo. Muitos se desfaziam de seus bens, pois não haveria tempo para usufruí-los, e alguns até deixavam de trabalhar. A indagação permanecia: “Qual será o dia do retorno de Jesus?”.

Passados dois mil anos, ainda aguardamos o Juízo final dentro do contexto cristão, devendo estar firmes na fé. Devemos esperar confiantes. Jesus ensinou que o fim viria, mas não determinou o tempo exato. Como disse, virá de repente; aqueles que estiverem despertos verão a Deus.

O que fazer neste tempo de espera? Frutificar os talentos, socorrer os irmãos, praticar o bem e buscar uma conversa sincera e absoluta com Deus. A oração continuada, confiante e humilde é a melhor forma de esperar a segunda vinda, a vinda gloriosa do Cristo Senhor, que certamente acontecerá. Rezemos neste sentido!

 

Caros amigos,

De esperança em esperança em Cristo, homens e mulheres vencerão todas as adversidades do mundo. O Evangelho nos fala de um juiz humano, sem fé, que faz justiça apenas para não se aborrecer. Quanto mais fará Deus, que é todo atenção ao seu povo eleito! Deus, justo, misericordioso e verdadeiro Juiz, que luta contra o mal, vencerá a iniqüidade. Ele veio morar em nosso meio para remover o pecado e a maldade do mundo.

A viúva do Evangelho representa a humanidade, homens e mulheres que lutam contra a maldade do mundo. Deus nos ensina a pedir, lutar e procurar vê-Lo. O sofrimento e o desespero se prolongam, mas Deus fará justiça rapidamente, pois para Ele mil anos são como um dia.

Os textos da Sagrada Escritura pediam proteção para as viúvas: “Defendei as viúvas” (cf. Is 1,17). A viúva é a humanidade pecadora, cercada de injustiças e fome de Deus. O desespero não é a saída: foi o caminho de Judas. As bem-aventuranças apontam para o caminho não-violento. O cristão é lutador paciente, corajoso, dinâmico e não resignado, contra todas as formas de maldade. Todos devemos lutar com fé, única capaz de abrir as portas e caminhos de Deus.

A fé, capaz de remover montanhas, transplantar árvores na crista de ondas, acalmar o mar, sustenta nosso esforço, reanima o cansaço da espera, ilumina o mistério da caminhada e dá certeza à esperança, mesmo contra todas as esperanças humanas. Deus nunca nos abandona; abre seus braços e nos chama: “Vem e segue-me!”

Vamos manter viva e confiante a fé em meio às tribulações e escândalos, como Cristo enfrentou em Jerusalém, sem perder a confiança no Pai, expressa em sua última frase do Evangelho: “Em tuas mãos, Pai” (cf. Lc 23,46).

 

Caros irmãos,

São Lucas contextualiza a parábola para uma comunidade cercada pela hostilidade do mundo, prestes a enfrentar perseguições e desanimada, pensando que Deus não ouvia os crentes. A resposta é clara: Deus não abandonou o seu povo, nem é insensível. Ele tem seu plano e seu tempo para intervir. Aos crentes resta moderar a impaciência e confiar em Sua intervenção libertadora.

A parábola nos mostra a necessidade de rezar sempre, sem desanimar (Lc 18,1). Mesmo no aparente silêncio de Deus, não devemos interromper o diálogo. É nesse diálogo que entendemos os projetos e os ritmos de Deus, transformamos nossos corações, aprendemos a entregar-nos e a confiar n’Ele. A perseverança na oração intensifica o amor e a relação com Deus.

Muitas vezes, Deus não dá o que pedimos porque: pedimos coisas que nos competem, coisas que parecem boas mas prejudicam a longo prazo, ou que causam sofrimento a outros. Devemos considerar se nossos pedidos têm sentido à luz da lógica divina. Como disse Dom Darci José Niciolli: “Rezar resolve tudo!”.

 

Meus irmãos,

A segunda leitura (cf. 2Tm 3,14-4,2) nos convida à pregação da Palavra do Evangelho, oportuna ou inoportunamente. O tempo é breve. O homem moderno é objetivo, quer saber logo o assunto.

A fé é graça de Deus, mas também se aprende: o conteúdo e a atitude. Especialmente quem lidera comunidades deve fortalecer sua fé pela leitura da Escritura, pela experiência vital e transmissão desinteressada da Palavra. Só o convicto pode convencer.

A segunda carta a Timóteo convida os batizados, e os animadores em particular, a redescobrir entusiasmo pelo Evangelho e defender-se de tudo que ameaça a verdade recebida de Jesus.

A posse da verdade está garantida quando o que ensina é sucessor legítimo dos apóstolos e transmite fielmente a verdade recebida, em conformidade com a Escritura, inspirada por Deus (“théopneustos”) e fonte de sabedoria que leva à salvação (3,15). A Escritura serve para ensinar, persuadir, corrigir e formar, formando o “homem perfeito” (3,17).

Nos últimos versículos (4,1-2), Timóteo é exortado a proclamar a Palavra a qualquer hora, com paciência e doutrina, mesmo quando a ocasião não parece propícia, sem medo e sem respeitos humanos.

Papa Leão XIII disse que a Escritura é “uma carta outorgada pelo Pai Celeste ao género humano viandante” (Providentissimus Deus, nº 4). Ela deve ocupar lugar central em nossas vidas pessoais e comunitárias. Quem anuncia a Palavra deve fazê-lo sempre, sem atenuar sua radicalidade, preparando-se para que chegue ao coração de quem a escuta.

 

Prezados irmãos,

O juiz da parábola faz justiça não para manter a lei, mas para evitar incômodos. É a perseverança da mulher que o faz atender ao pedido. Aos olhos do Senhor, conta a perseverança. A confiança não tem limites. Jesus pergunta: “Quando o Filho do Homem vier, encontrará fé sobre a terra?” Nossa oração mede a fé e deve tornar-se perseverança.

Por que Deus permite tanta miséria, injustiça e sofrimento? Ele não é insensível, mas nossa compreensão é limitada. A oração nos ajuda a lidar com os silêncios de Deus, a confiar, e a agir com esperança. Orar é abrir-se para os dons divinos, reconhecer Sua presença contínua. A espera e a ausência fortalecem o amor.

A fé deve ser cultivada e transmitida. Já estivemos mais preocupados em converter os outros do que a nós mesmos. É tempo de passar do estático “ser cristão” para o dinâmico “tornar-se cristão”. A fé se mantém viva quando dá sentido à vida humana, não apenas como enunciados.

 

Prezados irmãos,

Rezar não é mero gesto exterior ou obrigação. A Palavra de Deus ensina que a oração deve estar antes, durante e depois de tudo. A vida espiritual madura não é conquista pessoal, mas abertura para que a graça de Deus realize maravilhas, exigindo disciplina, persistência e resistência. Este domingo é oportunidade de refletir sobre a qualidade da nossa oração.

O modelo de súplica é Jesus no Getsêmani: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua” (Lc 22,42). O crente não quer obrigar Deus, mas conformar sua vontade à dele. A oração autêntica gera energia para agir: orar pela paz leva a empenhar-se por ela; orar pelo sofrimento leva a ajudar o sofredor.

Rezem sempre, com fé! O homem deve ser solidário, a serviço do próximo, tornando-o mais humano e divino, consagrando o mundo a Deus e unindo seu sofrimento ao de Cristo para a salvação da humanidade. Não separemos oração da vida. Confiando na misericórdia de Deus, podemos cantar com confiança: “Em tuas mãos, Pai, amém!”.

Padre Wagner Augusto Portugal.

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