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26o DOMINGO DO TEMPO COMUM, C.

 “Senhor, tudo o que fizestes conosco, com razão o fizestes, pois pecamos contra vós e não obedecemos aos vossos mandamentos. Mas honrai o vosso nome, tratando-nos segundo vossa misericórdia” (cf. Dn 3,31.29s.43.42)


Meus caros irmãos,

Na primeira leitura deste domingo Amós (cf. Am 6,1a.4-7) denuncia o luxo e a luxúria das classes dominantes, enquanto o povo é ameaçado pela catástrofe da injustiça social e da invasão assíria. Por isso, esses ricaços sairão ao exílio na frente dos deportados. O Profeta Amós evoca ironicamente a gloriosa história antiga: os ricos, porque tem uma cítara para tocar, acham que são cantores como Davi. Samaria é a casa de José, mas José distribuía alimento aos de sua casa.

Fica latente que este trecho da primeira leitura é uma contundente censura de Amós à “sociedade de consumo” de Jerusalém e Samaria. Os seus habitantes aproveitam a vida, sem se importar com a ruína do povo. Por isso, a elite destas cidades tem que ir ao cativeiro, para aprender o que é a justiça e o direito. Até parece que o filme da história se repete na sociedade atual tão consumista, tão voltada para o luxo desnecessário e para o prazer desenfreado, insensível aos muitos problemas que vivemos com a pobreza e a exclusão.

A insensibilidade pelo sofrimento das pessoas mais humildes, excluídas e pobres, que estão a margem da sociedade, é também o tema inicial da parábola do rico e de Lázaro que lemos no Evangelho de hoje (Cf. Lc 16,19-31). Continuamos refletindo sobre o uso das riquezas que são dons de Deus e, assim, deve ser colocada a serviço de todos.

Jesus nos pede que tenhamos presente a dialética entre o eterno e o temporal. Aos que colocam a finalidade da sua vida nos bens temporais não é fácil convencer-se da sublimidade dos bens eternos.

Assim já nos ensinou a Bem-aventurada Virgem Maria naquele cântico maravilhoso, o Magnificat: “Depôs do trono os poderosos e elevou os humildes; encheu de bens os famintos e mandou embora os ricos de mãos vazias” (Cf. Lc 1,52-53).

Irmãos e Irmãs,

Na segunda leitura da liturgia de hoje (Cf. 1Tm 6,11-16) são nos apresentadas as virtudes dos líderes da comunidade. Os ministros da Igreja devem cuidar do tema da avareza, que chega abalar a fé. Por isso todos os que servem ao Evangelho devem cultivar as virtudes, procurando de uma maneira autêntica serem fiéis à profissão de fé que manifestaram, confiada a eles por Jesus Cristo até a sua volta e a consumação dos tempos. Tudo isso porque a Igreja está no tempo do seu crescimento e deve, ontem e hoje, conservar o que lhe é confiado. São Paulo opõe ao ideal de vida dos falsos cristãos (Cf. 1Tm 6,3-10) a elevação moral dos verdadeiros discípulos de Cristo (Cf. 1Tm 6,11-16), que Timóteo, como bispo, deve tornar exemplar em sua própria vida.

O verdadeiro “homem de Deus” (que Timóteo deve representar) tem de distinguir-se por uma vida santa, enraizada na fé e no amor aos irmãos. Em concreto, o “homem de Deus” deve cultivar a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança, a doçura. Tem de ser paciente e manso, diante das dificuldades que o serviço apostólico levanta. Deve guardar “o mandamento do Senhor” – isto é, a verdade da fé que lhe foi transmitida pela tradição apostólica. No que diz respeito ao perfil do “homem de Deus”, tudo se resume no amor para com os irmãos, no entusiasmo pelo ministério e na capacidade de transmitir a verdadeira doutrina, herdada dos apóstolos. O texto termina

com um hino litúrgico, que apresenta Deus como o Senhor dos senhores, o único soberano, aquele que possui a imortalidade, a glória e o poder universal. Trata-se de uma solene doxologia que provém, sem dúvida, do repertório das orações usadas nas sinagogas judaicas do mundo grego e que apresenta Deus em contraste com os falsos deuses e com os títulos humanos atribuídos a reis e imperadores.

A proposta que aqui é feita a Timóteo deve, sobretudo, caracterizar a vida daqueles que têm responsabilidades na animação das comunidades cristãs. Os animadores das nossas comunidades devem, efetivamente, ser pessoas cheias de amor, de mansidão, de paciência, de capacidade de doar a vida e de servir os irmãos e irmãs.

Caros fiéis,

No Evangelho deste Domingo – Lc 16,19-31 – temos a história dos ricos e a sua avareza. Os ricos não têm nome. O pobre é Lázaro que recebeu de presente o céu. Todos somos convidados hoje a refletir sobre a misericórdia, especialmente, na dialética do rico e do pobre, do eterno e do transitório. Misericórdia que é Justiça que devem andar de mãos dadas e unidas.

O trecho da perícope mais original é à parte que fala dos irmãos do Rico, isto é, aquelas pessoas que vivem neste mundo à semelhança do rico da parábola. Origem também é o nome dado ao pobre. É a única parábola do Evangelho em que o protagonista principal tem um nome próprio: Lázaro. E é simbólico, porque “Lázaro” significa “Deus ajuda”. Via de regra o pobre é anônimo, ou pouco nos interessa como se chame. Jesus lhe dá um nome, valoriza-o. O rico é quem fica sem nome. Como os ricos são conhecidos pelo nome, os leitores da parábola lhe deram um nome: chamaram-no Epulão, que significa “comilão”.

Meus caros irmãos,

Os irmãos de Epulão, o rico deste mundo transitório, não ouviram Moisés e os profetas. Por isso mesmo em nada iriam ouvir quem viesse da visão beatífica, porque já não ouviam aos profetas. Moises ensinou como seguir uma vida santa: tinha uma série de obrigações para com os pobres, sobretudo os órfãos e viúvas e alguns profetas haviam sido muito explicito na defesa dos pobres e dos excluídos.

Moisés e os profetas da antiga Lei ensinaram com clareza. Muitos não os escutaram. Será que um morto ressuscitado seria um professor melhor? Jesus ressuscitou dos mortos. É ele mais escutado que Moisés e os antigos profetas? Não continuam as riquezas do mundo, que pertencem a todos, acumuladas nas mãos de pouquíssimos? Não estão nossos olhos contemplando uma versão gigantesca da parábola do Epulão e do Lázaro?

Assim a Parábola nos projeta para a continuidade de nossa vida na presença de Deus, nas chamadas alegrias eternas. Na vida presente somos livres de viver como queremos: no altruísmo ou no egoísmo, na virtude ou no pecado. A morte não zera tudo, como gostariam que alguns que acontecesse. A morte revela-nos o sentido da vida na terra. É a morte, que o Evangelho chama de “fim dos tempos”, que fixa para sempre o destino futuro da criatura humana, destino eterno que depende de como vivemos o pequeno espaço de tempo na terra.

Deus nos julga, depois da morte, pelas escolhas que fizemos na vida presente. Quem é egoísta ou deixa de lado os pobres terá um julgamento à altura de seus atos. A liberdade é dos maiores dons que Deus nos concede. Mas ela tem margens que a limitam: os preceitos divinos. Esses nos foram ensinados pelos profetas, pelo Evangelho. A vida presente, portanto, é decisiva. É nesta via que jogamos nosso destino eterno. É na vida presente que escolhemos a eternidade.

Caros irmãos,

Durante a sua vida, o rico de quem ignoramos o nome conheceu uma certa felicidade, enquanto o pobre Lázaro conheceu a infelicidade. A felicidade nesta terra é efêmera pois está ligada às riquezas. A infelicidade é provisória porque a verdadeira riqueza será dada. Então, é preciso que a morte intervenha para que cada um encontre o seu verdadeiro lugar e a justiça seja feita: o pobre é elevado, ele que tinha sido rebaixado, ele a quem os cães vinham lamber as chagas. Quanto ao rico, é enterrado, ele que trazia vestes de luxo e fazia festins suntuosos. São os pobres que são exaltados porque esperam a consolação de Deus. São os ricos que são enterrados, porque procuram a sua própria consolação.

Caros irmãos,

Vivemos tempos terríveis de aguda desigualdade social e indiferença com os descartados da sociedade. Alguns pensadores cunharam a palavra “aporofobia” para designar a rejeição aos pobres, que vários setores da sociedade desenvolvem. A mensagem do Evangelho de Jesus nos convoca para o inverso dessa postura comum atualmente.

O seguimento de Jesus nos insere na realidade do mundo e nos torna sensíveis a quem se aproxima de nós. Não basta só assistir a noticiários ou saber a respeito dos pobres; precisamos nos envolver com quem precisa de nós e abandonar a cultura da indiferença. As leituras de Amós e do Evangelho denunciam o desdém dos que possuem mais e mostram o fim deles.

De modo contrário, os que põem a confiança em Deus, a exemplo de Paulo e Lázaro, experimentam um êxito diferente. Eles sabem “combater o bom combate” e esperar o galardão imaterial dado por Deus. Quem partilha de si e das próprias coisas experimenta uma riqueza melhor, que não se acaba.

Encerrando este mês da Bíblia, constatamos que a leitura das Escrituras deve nos ajudar a viver melhor uns com os outros e com os bens deste mundo. O modo de vida proposto é a caridade, considerada a plenitude da Lei (Rm 13,10).

Prezados irmãos,

Jesus desafia os fariseus a construir novas relações – em primeiro lugar, entre as pessoas e, depois, com os bens da terra. Atentar para o abismo que “separa” os dois personagens principais – Lázaro e Epulão – é fundamental para compreender que a Boa Notícia de Jesus não é um código moral, um conjunto de normas, senão que o esforço cotidiano de diminuir as distâncias e viver nova fraternidade. O profeta Amós e a carta de Paulo a Timóteo iluminam este grande convite de Jesus: perceber as grandes injustiças, denunciá-las e dar um testemunho exigente de fidelidade, que dá sentido real à vida.

A morte é um acontecimento inevitável. Adélia Prado, grande poetisa mineira em um poema, chama-a de “minha comadre”. Ela está sempre diante dos nossos olhos, mas a liturgia da Palavra nos recorda que a morte não deve ser pensada apenas como um “depois”, e sim como real continuidade do hoje. O perigo maior é de não viver. Não viver significa gastar a vida com coisas supérfluas, com máscaras, com divisões e separações, com ostentação, com uma vida rasa, sem propósito, que dança conforme o vento. Uma vida perdida. Consigo acolher uma vida que supera os abismos? Uma vida relacional e desapegada tem espaço no meu projeto de vida? Muitos, infelizmente, vivem como se não fossem morrer. E pior, vivendo no pecado, não entrarão no Reino dos Céus! Quem só ajunta tesouros deste mundo não ganhará o tesouro do céu!

Meus amigos,

Os ricos são infelizes, via de regra, porque se rodeiam de bens como de uma fortaleza. São incomunicáveis. Vivem defendendo-se a si e a suas riquezas. Os pobres não têm nada a perder. Por isso, as mãos mais pobres são as que mais se abrem para tudo dar.

Em nosso mundo de competição, a riqueza transforma as pessoas em concorrentes. A riqueza não é vista como gerência daquilo que deve servir para todos, mas como conquista e expressão de status. Tal atitude marca a riqueza financeira, a riqueza cultural e a riqueza afetiva.

São Paulo, por conseguinte, na segunda leitura, nos fala do testemunho de Cristo neste mundo não é nada pacífico. É uma luta: um bom combate. Devemos travá-lo até o fim, para que vivamos para sempre com aquele que possui o fim da História.

A aventura do amor, inaugurada por Cristo e prosseguida depois dele, convidando o homem a consentir ativamente na lei da liberdade, causou, de fato, mudança progressiva nas relações dos homens. O Evangelho não nos ensina nada sobre revolução. Tentar construir uma teologia da revolução a partir do Evangelho é iludir-se e não captar o essencial. Os cristãos, conquistados pela aventura do amor e só na medida que aceitam vivê-la como Cristo e em seu seguimento, estarão mais atentos em fazer com que ela não degenere em novas opressões e em novo legalismo.

Deus não exige que os ricos se desfaçam de todos os bens, mas que sejam generosos e seus bens aproveitem também aos mais necessitados. Deus faz opção pelos pobres. Não a pobreza pela pobreza, mas a pobreza pela grandeza de generosidade, perdão e amor.

Pe. Wagner Augusto Portugal. 

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