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22o. Domingo do Tempo Comum, C.

 “Tende compaixão de mim, Senhor, clamo por vós o dia inteiro; Senhor, sois bom e clemente, cheio de misericórdia para aqueles que vos invocam” (cf. Sl 85,3.5)

Meus queridos Irmãos,

A liturgia de hoje está toda envolvida na pobreza. Buscando a modéstia e a gratuidade nós agradaremos ao Senhor Deus. Assim Jesus ao hospedar na casa de uma pessoa nunca ficou refém de seu hospedeiro. Hoje Jesus é hóspede de um anfitrião ilustre: um chefe dos fariseus. A casa do chefe dos fariseus está repleta de seus correligionários e asseclas, estes não muito bem-intencionados, como sói ocorrer com as pessoas do mal. De início Jesus relativiza o repouso sabático, defendendo a liberalidade de seu cumprimento. Depois Jesus critica a atitude comezinha dos fariseus de serem bajulados e honrados por sua virtude, também nos banquetes, onde gostam sempre de ser aqueles que ocupam os primeiros lugares. Assim Jesus, na contramão, nos ensina que no Reino de Deus, a gente deve estar numa posição de receptividade, não de autossuficiência.

A segunda Parábola nos ensina Jesus que não devemos convidar para o banquete somente aqueles que estão ao nosso entorno. Mais do que isso devemos convidar aqueles que não tem condições de estar conosco, os mais pobres, os mais humildes, os verdadeiros excluídos, incluindo-os em nosso grêmio.

Caros irmãos,

A Primeira Leitura desta liturgia dominical (cf. Eclo 3,17-18.20.28-29) nos apresenta a verdadeira modéstia de vida. Não se trata da falsa modéstia da raposa, mas da verdadeira, que consiste na consciência de que só Deus é poderoso e bom. O homem deve sempre recorrer a ele. Daí a atitude do sábio: segurança frente aos poderosos, pois sua confiança está em Deus; e magnanimidade para com os fracos, pois pode contar com Deus.

A perícope primeira apresenta uma “instrução” que um pai dá ao seu filho. O tema fundamental desta “instrução” é o da humildade. Para Jesus Ben Sira, a humildade é uma das qualidades fundamentais que o homem deve cultivar. Garantir-lhe-á estima perante os homens e “graça diante do Senhor”. Não se trata de uma forma de estar e de se apresentar reservada aos mais pobres e menos preparados; mas trata-se de algo que deve ser cultivado por todos os homens, a começar por aqueles que são considerados mais importantes. O autor não entra em grandes pormenores; limita-se a afirmar a importância da humildade e a propô-la, sem grandes desenvolvimentos nem explicações. O “sábio” autor destas “máximas” não tem dúvida de que é na humildade e na simplicidade que reside o segredo da “sabedoria”, do êxito, da felicidade.

A humildade é uma das virtudes que mais agrada a Deus. Por isso ser humilde significa assumir com simplicidade o nosso lugar, pôr a render os nossos talentos, mas sem nunca humilhar os outros ou esmagá-los com a nossa superioridade. Ser humilde significa pôr os próprios dons ao serviço de todos, com simplicidade e com amor. Quando somos capazes de assumir, com simplicidade e desprendimento, o nosso papel, todos reconhecem o nosso contributo, aceitam-nos, talvez nos admirem e nos amem. É aí que está a “sabedoria”, quer dizer, o segredo do êxito e da felicidade.

Humildade como caminho de sabedoria. O Eclesiástico nos convida a reconhecer que a verdadeira grandeza está na simplicidade e no serviço. Como podemos cultivar a humildade em nossas relações diárias?

Prezados irmãos,

A Segunda Leitura (cf. Hb 12,18-19.22-24a) demonstra que Deus se tornou manifesto e acessível em Cristo. A manifestação de Deus no Antigo Testamento no Monte Sinai era inacessível. No Novo Testamento, verifica-se o contrário: agora vigora uma ordem melhor: a manifestação de Deus em Cristo é agora acessível, menos “terrível”, porém, mais comprometedora. Não é por ser mais humana, que ela seria menos divina. Antes pelo contrário! No homem Jesus, Deus se torna presente. Esta presença chama-se “Monte de Sião”, “Cidade do Deus Vivo”, “Jerusalém Celeste!”.

O autor da Carta aos Hebreus convida os destinatários da epístola à fidelidade à vocação cristã. Para isso, estabelece um paralelo entre a antiga religião (que os destinatários da carta conheciam bem) e a nova proposta de salvação que Cristo veio apresentar. Os crentes são, assim, convidados a redescobrir a novidade do cristianismo – essa novidade que, um dia, os atraiu e motivou – e a aderir a ela com entusiasmo… Recordemos – para que as coisas façam sentido – que o escrito se destina a uma comunidade instalada, preguiçosa, que precisa descobrir os fundamentos reais da sua fé e do seu compromisso, a fim de enfrentar – com coragem e com êxito – os tempos difíceis de perseguição e de martírio que se aproximam.

Na experiência cristã não há nada de assustador, de terrível, de opressivo. Pelo Batismo, os cristãos aproximaram-se do próprio Deus, numa experiência de proximidade, de comunhão, de intimidade, de amor verdadeiro. A experiência cristã é, portanto, uma experiência festiva, de verdadeira alegria. Por essa experiência, os cristãos associaram-se a Deus, o santo, o juiz do universo, mas também o Deus da bondade e do amor; foram incorporados em Cristo, o mediador da nova aliança, irmanados com Ele, tornados co-herdeiros da vida eterna; associaram-se aos anjos, numa existência de festa, de louvor, de ação de graças, de adoração, de contemplação; associaram-se aos outros justos que atingiram a vida plena, numa comunhão fraterna de vida e de amor.

Somos convidados a uma redescoberta da nossa fé e do sentido das nossas opções, a fim de superarmos a instalação, o comodismo e a preguiça que nos levam, tantas vezes, a uma caminhada cristã morna, sem exigências, sem compromissos, que facilmente cede e recua quando aparecem as dificuldades e os desafios. Jesus insiste a cada batizado a superar a perspectiva de um Deus terrível, opressor, vingativo, de Quem o homem se aproxima com medo; em seu lugar, Ele apresentou-nos a religião de um Deus que é Pai, que nos ama, que é misericordioso, que nos convoca para a comunhão com Ele e com os irmãos e que insiste em associar-nos como “filhos” à sua família.

Acesso ao Reino. A carta aos Hebreus nos lembra que, em Cristo, temos acesso direto a Deus. Como vivemos essa realidade em nossa experiência de fé e comunidade?

Irmãos caríssimos,

Tomar a refeição na cada de qualquer pessoa sempre foi uma demonstração de carinho e de reconhecimento. Tomar refeição com Jesus, sobremaneira, era um sinal de amizade e de estima. Depois que Jesus provavelmente tenha falado na sinagoga, ao sábado, foi convidado para um banquete na casa do fariseu (cf. Lc 14,1.7-14). O fariseu convidou para o seu banquete somente seus amigos e correligionários. O fariseu deixou a margem os pobres e os excluídos da sociedade. Os pobres e as pessoas com deficiências físicas – que não foram convidados e que não podiam participar, porque eram tidos e havidos como impuros e pecadores – costumavam ficar ao lado de fora, observando, e, de certa maneira, escutando as conversas desenvolvidas durante o banquete.

O cenário se desenvolveu no sábado, dia sagrado para os hebreus. No sábado se recorda a passagem pelo Mar Vermelho, do exílio no Egito, para a terra prometida. Na sinagoga se lia os profetas e a Lei. Todos rezavam os salmos de louvor. Era o dia de fazer a unidade com Deus. Jesus vai a refeição do fariseu. O cenário deve nos remeter a desigualdade que continua imperando nos dias modernos: muitos nada tem para comer e uma elite, uma casta, tem dinheiro sobrando pelo ladrão.

Mais importante do que o sábado, do que aquele encontro em que estavam o fariseu, seus partidários, os chamados membros da elite daquela sociedade, a disputa pelo primeiro lugar, pela visibilidade, é a caridade e a humildade. Quem quiser participar do banquete do Reino deve fazer-se pequeno, deve superar o egoísmo, tendente a nos fazer o centro de tudo e de todos.

Ser pequeno e ser bastante desapegado é condição primordial e básica para se entrar no Reino, ou seja, para se compreender a mensagem e o modo de viver terreno e eterno que Jesus ensinou. Deus é glorificado e reconhecido como redentor pelos pequenos e humildes. Não é a ciência e os doutoramentos, nem mesmo a fama, que conta: o primordial no cristão é a humildade de coração, possível em quem tem grandes conhecimentos e também no analfabeto e excluído.

A humildade nos leva a reconhecer nossos limites, sua dependência de Deus como criatura. Só é criatura humana humilde aquele que com gratuidade serve ao próximo, desinteressadamente.

Mais importante do que a observância do sábado é a humildade, o desprendimento, o amor e o perdão, a acolhida sem limites e amarras.

Incluir os excluídos. O Evangelho desafia as normas sociais de exclusão. Quem são os excluídos em nosso meio? Estamos dispostos a convidá-los à mesa do Reino?

Caros irmãos,

Na sociedade hodierna, agressiva e competitiva, o valor da pessoa mede-se pela sua capacidade de se impor, de ter êxito, de triunfar, de ser o melhor. Quem tem valor é quem consegue ser presidente do conselho de administração da empresa aos trinta e cinco anos, ou o empregado com mais índices de venda, ou o condutor que, na estrada, põe em risco a sua vida, mas chega uns segundos à frente dos outros. Todos os outros são vencidos, incapazes, fracos, olhados com comiseração. Vale a pena gastar a vida assim? Estes podem ser os objetivos supremos, que dão sentido verdadeiro à vida do homem? A Igreja, fruto do “Reino”, deve ser essa comunidade onde se torna realidade a lógica do “Reino” e onde se cultivam a humildade, a simplicidade, o amor gratuito e desinteressado. Nestas quatro palavras estão resumidas a liturgia deste domingo e o convite de Jesus para vive-la no cotidiano de nossas vidas. Por isso sejamos homens e mulheres humildes, simples, que vivam o amor gratuito e desinteressado.

Prezados irmãos,

O abismo entre as diferentes classes sociais que compõem nossa sociedade impede a reu­nião, num mesmo banquete, de pessoas de diferentes níveis na escala social. O valor da pessoa se mede por aquilo que possui, pela capacidade de se impor, prosperar, ter êxito, possibilitar a inserção no mundo do poder ou exercer influência na sociedade. As pessoas têm valor pelos cargos que ocupam. Na comunidade cristã, a lógica deve ser outra, porque a lógica do Reino de Deus gera outro tipo de relação, na qual se cultiva a humildade, a simplicidade e o amor gratuito e desinteressado. A competição corrói as nossas comunidades! Muitas vezes, mesmo nós, cristãos, deixamos nos levar pelo espírito de competição, de quem é o melhor, o maior, buscando visibilidade, lugares de destaque na comunidade, mais do que o servir. Isso gera divisão

na comunidade e pode fazer que membros mais simples não tenham coragem de assumir responsabilidades, porque se sentem inferiores ou talvez até experimentem humilhação. Devemos acolher a todos as pessoas, indistintamente! Jesus deixa claro que, entre os discípulos, não deve haver distinção de pessoas. A comunidade cristã deve ser inclusiva, acolher a todos e viver o amor gratuito e desinteressado. Nossas relações não se baseiam em interesses comerciais ou que se fundamentem em honrarias, prosperidade e troca de favores. O Evangelho nos faz pensar sobre quem são os coxos, os cegos, os excluídos que temos de incluir, acolher e servir em nossas comunidades?

Caros irmãos,

As leituras deste domingo apontam para a essência do Reino de Deus: um chamado à humildade, à sabedoria e à inclusão. Em um mundo onde ainda vemos exclusão, desigualdades sociais e o aumento de discursos de ódio, também existem sinais de esperança: iniciativas solidárias, comunidades que promovem a inclusão e a luta por justiça. Que possamos nos inspirar no Evangelho para construir espaços de acolhida onde a dignidade de cada pessoa seja respeitada. Reconheçamos em cada gesto de solidariedade e em cada vida transformada a presença viva do amor de Deus e a esperança de que consigamos viver como irmãos e irmãs na verdadeira comunhão.

Meus caros Irmãos,

O que é elevado para os homens é “abominável para Deus” (cf. Lc 16,15). Jesus nunca proibiu festas entre os amigos e familiares. A lógica do Reino de Deus não é de recompensas ou de louvores, mas de abertura a todos, amigos e inimigos, santos e pecadores. Não é apenas uma lição de generosidade, aonde quem nos serve a Mesa é o próprio Senhor e Redentor.

Portanto a mensagem de hoje é: saber receber de graça – humildade – e saber dar a graça – gratuidade. A primeira leitura sublinha a necessidade da humildade, oposto à autossuficiência. A segunda leitura não demonstra muito parentesco temático com a primeira e o Evangelho. Contudo, complementa o tema da gratuidade, mostrando como Deus se tornou, gratuitamente, acessível para nós, em Jesus Cristo. O tom da leitura é de gratidão por este mistério. Graça, gratidão e gratuidade são os três momentos do mistério da benevolência que nos une com Deus. Recebemos sua graça, sua amizade e seu bem-querer. Por isso nos mostrarmos agradecidos, conservando a alegria nos abre para Deus e para a comunidade eclesial.

Nosso Senhor Jesus Cristo pode falar de gratuidade porque a sua vinda à terra é um dom gratuito de Deus, é uma graça, este amor gratuito, gracioso de Deus. E Deus não nos ama porque merecemos, mas porque não pode senão amar-nos, pois Ele é Amor. Então, Jesus pede ao homem, criado à imagem de Deus, para amar como Deus ama, isto é, gratuitamente, esperando ser declarado justo na ressurreição dos mortos. Trata-se de uma verdadeira revolução nas relações entre eles: pôr o dom em primeiro lugar e ter em resposta apenas a alegria de ter dado. Jesus vai mesmo ao ponto de declarar felizes aqueles que têm o sentido do gratuito nas suas relações humanas.

Assim esta gratuidade pessoal e a generosidade deve ser aberta em nossa Paróquia, para todos os nossos irmãos, pois todos participam gratuitamente da comunidade. Humildade e simplicidade, desapropriação do poder, da fama e da posse dos bens materiais supérfluos. No Reino de Deus não são os valores da competição que valem. O que realmente conta e vale é a atitude de serviço humilde e generoso aos irmãos, a todos sem distinção. Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal

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