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15o. DOMINGO DO TEMPO COMUM – C.

 “Contemplarei, justificado, a vossa face; e serei saciado quando se manifestar a vossa glória” (cf. Sl 16,15)

Meus queridos Irmãos,

            Estamos vivendo o tempo comum. A liturgia deste dia do Senhor nos fala do amor ao próximo e da solidariedade. Um bom conselho vale mais do que ouro. Para os teólogos deuteronomistas a Lei de Moisés era um inigualável tesouro de sabedoria, um rumo seguro para a vida, em todas as circunstâncias. Para tê-la sempre diante dos olhos, deviam colocá-la numa faixa, na testa. Os deuteronomistas enfrentavam um tempo de afrouxamento em Israel, mais ou menos como nós, hoje. A quem achava as orientações de Deus, na Lei, bastante difíceis, Deuteronômio responde: “Não é verdade, A Lei não é coisa do outro mundo, ninguém a precisa procurar no céu ou no inferno”.

Caros irmãos,   

           A Primeira Leitura (cf. Dt. 30,10-14) nos ensina que o mandamento de Deus não é inalcançável. Deus tornou Israel seu povo, não por ser este importante, mas por amor e fidelidade à sua promessa (cf. Dt 7,7-8). O amor de Deus para Israel não tem explicação, mas conseqüências sim: Israel deve amar a deus com todas as suas forças (cf. Dt 6,4-5). Deve escutar sua voz e não se afastar de suas orientações: e, quando isso acontecer, deve “voltar”. Israel diz que a Lei é difícil. Javé responde que não: não é coisa de um outro mundo. Está perto, ao alcance de quem ama a Deus.

Nós estamos diante de um convite a aderir com todo o coração e com todo o ser às propostas e aos mandamentos de Deus. O caminho que Deus propõe não é um caminho escondido, misterioso, revelado só aos iniciados ou iluminados; mas é um caminho que está claramente inscrito no coração e na consciência de cada homem. Para perceber o projeto de salvação, de liberdade e de felicidade que Deus tem para os homens, basta olhar para o nosso coração e para a nossa consciência; é aí que Deus nos fala e é aí que nós escutamos as suas propostas e as suas indicações. Muitas vezes os interesses egoístas, as nossas ambições, as nossas paixões, os nossos esquemas e projetos pessoais abafem a voz de Deus e nos impeçam de escutar as suas propostas.

Prezados irmãos,

            A Segunda Leitura (cf. Cl 1,15-20) é um hino cristológico. A Carta aos Colossenses responde à introdução de falsas doutrinas na comunidade. Alguns ensinam que além de Cristo se devem venerar também outros seres transcendentes, como o espiritismo e a sua falácia. É difícil ser livre! Por isso, São Paulo realça o lugar central exclusivo de Cristo. A Redenção por sua vida, dada até a morte, só a compreenderemos bem quando conscientes de que ele é também o criador. Ele assume nossa vida e nosso mundo não por fora, mas por dentro. No íntimo do ser homem, ele vive a plenitude de ser Deus. Quando todos chegarem a esta plenitude, a criação estará completa.

Um dado fundamental da vida cristã é a consciência desta centralidade de Cristo na nossa experiência e na nossa existência que apresentou a segunda leitura. Tudo isso é importante porque para muitos dos nossos contemporâneos, Jesus não é uma referência fundamental. Quando muito, foi um homem bom, que deu a vida por um sonho, um visionário, um idealista, que a história se encarregou de digerir e que hoje é, apenas, uma peça de museu; por isso, não tem qualquer espaço nas suas vidas. por Cristo foram reconciliadas com Deus todas as criaturas na terra e nos céus: Por Cristo a criação inteira, marcada pelo pecado, recebeu a oferta da salvação e pôde voltar a inserir-se na família de Deus.

 Irmãos e Irmãs,

               O caminho sinuoso, pedregoso, que ia de Jerusalém a Jericó, em apenas 28 km descia mil metros, Jericó, uma das mais velhas cidades do mundo, está a 350 m abaixo do nível do mar, formando um oásis numa região desértica. (cf. Evangelho de Lucas 10,25-37)

            O caminho entre Jericó e Jerusalém era conhecido pelos assaltos. O deserto, as cavernas e gargantas facilitavam o esconderijo e a fuga. O caminho era bastante usado, por ser, então, a única subida do vale do Jordão para a Cidade Santa. Negócios, obrigações legais e religiosas faziam movimentar a estrada perigosa, onde os viajantes costumavam subir ou descer em grupos, para se protegerem. Muitos sacerdotes, que prestavam serviços no templo de Jerusalém, moravam em Jericó, assim como os levitas, que eram os serviçais e cantores do templo.

              A lição de Jesus está em dizer que a misericórdia exige que se deixe de lado o bem-estar pessoal para socorrer um necessitado. Mas suponhamos que se insista na desculpa de não se poder tocar no defunto, para melhor servir a Deus no culto, observando a Lei. É justamente nesse ponto que Jesus dá a grande lição: um irmão necessitado tem precedência, e, se não lhe dermos precedência, nossa oração é falha e errado é nosso culto. Noutra ocasião, Jesus foi ainda mais explícito, citando o profeta Oséias: “Quero misericórdia e não quereis sacrifícios”.

            Jesus não quer sacrifícios de animais no templo: a misericórdia tem precedência até mesmo sobre a obrigação da Missa dominical.

            Quem perguntou sobre o infeliz que caiu nas mãos dos ladrões foi um doutor da lei, portanto, um judeu. E os judeus restringiam muito os que podiam ser denominados próximo: eram só familiares, os que tinham o mesmo sangue, os compatriotas observantes da Lei Mosaica, os pagãos que adotassem as leis, a fé e as tradições judaicas, desde que circuncidados. Ficavam expressamente excluídos os estrangeiros, os que trabalhavam para estrangeiros, os inimigos de qualquer espécie, a plebe ignorante, os que exerciam certas profissões que facilitavam a impureza legal - a pesca, o pastoreio, o curtimento de couros -, os pobres e os leprosos. A lição de Jesus é clara e inovadora, de maneira forte: a misericórdia não tem fronteiras religiosas, geográficas ou de sangue. A misericórdia não faz restrições, ela é obrigação de todos.

 Meus queridos Irmãos,

             O semimorto é um desconhecido, um anônimo, mas um ser humano. Quem o atende é um samaritano que, para o doutor da lei, é estrangeiro, inimigo e pecador. O homem desprezado pelo escriba é apresentado por Jesus como exemplo de misericórdia, porque socorreu um irmão necessitado, sem saber quem era, sem medir perigos e conseqüências. Assim deve ser o verdadeiro discípulo de Jesus na nova comunidade. A dureza de coração e a supremacia dos interesses pessoais, mesmo se sagrados, devem ceder lugar à misericórdia. O próprio Jesus é o grande modelo: deixou seu paraíso para recolher e curar o ser humano assaltado pela força do mal e deixado ferido à beira da estrada da vida.

            Se vemos Jesus figurado no samaritano, podemos dizer que Jesus é o modelo perfeito do verdadeiro discípulo. Ele é a encarnação da misericórdia divina, verdade que Lucas tanto acentua em seu Evangelho. Jesus, para curar-nos do pecado, dá-nos seu sangue – que pode ser simbolizado no vinho – e sua benção fraterna e salvadora – simbolizada no óleo derramado nas feridas. Jesus é o nosso próximo mais próximo. E cada um de nós é o próximo mais próximo dele.

 Caros irmãos,

O que fazer para chegar à vida plena, à felicidade? Como dar, verdadeiramente, sentido à vida?” A resposta eterna é: “faz de Deus o centro da tua vida, ama-O e ama também os outros irmãos”. Trata-se, portanto, de fazer com que o amor percorra as duas coordenadas fundamentais da nossa existência – a vertical (relação com Deus) e a horizontal (relação com os outros homens). É por aqui que passa a nossa realização plena. 

Muitos se questionam: O que é isso do amor ao próximo? Até onde se deve ir? É preciso exagerar? Não se trata de exagerar. Trata-se de ver em cada pessoa – sem exceção – um irmão e de lhe dar a mão sempre que ele necessitar. Qualquer pessoa ferida com quem nos cruzamos nos caminhos da vida tem direito ao nosso amor, à nossa misericórdia, ao nosso cuidado.

 Irmãos e Irmãs,

            A Segunda Leitura é uma das obras primas do Novo Testamento. A idéia principal é a unidade da ordem da criação e da redenção, em Cristo. Cristo é a cabeça da redenção, assumindo a todos na sua glória, porque ele é também a cabeça da criação. O hino de Cl 1,15-20 expressa isso em termos que lembram facilmente o prólogo de João e os textos que falam da Sabedoria como hipóstase unida a Deus desde antes da criação do mundo. A figura da Sabedoria que preside à criação, identificada com Cristo, é combinada com a imagem paulina de Cristo, cabeça da Igreja, que é seu corpo. No pensamento bíblico, todo o corpo participa da realidade de seu princípio vital. No sacrifício e na glória de Cristo, assume-se todos o universo na reconciliação com Deus. A plenitude mora nele: a plenitude de Deus, englobando todos os seus filhos.

 Prezados irmãos,

         A primeira leitura nos faz um convite para aderir de todo o coração às propostas de Deus, levando-nos a questionar a qualidade de nossa adesão. Nosso compromisso com o Senhor e com nossa comunidade de fé tem de ser radical, não podemos apenas querer acomodar todos os nossos interesses pessoais em primeiro lugar. Pode ocorrer que nossos projetos pessoais abafem ou neutralizem a voz de Deus e nos impeçam de escutar sua proposta. Até que ponto estou disponível para acolher e pôr em prática os preceitos que Deus propõe? A pergunta do mestre da Lei é típica dos doutores: muito acadêmica. Ele desejava uma resposta com clareza doutrinal. Jesus leva-o a refletir a partir do coração, e não da racionalidade. Trata-se de pôr o amor no centro de nossa ação. Sua resposta nos faz refletir que Deus deve ser o centro de nossa vida, e o amor aos outros vem naturalmente, como consequência. Trata-se, portanto, de fazer que o amor percorra as coordenadas fundamentais de nossa existência, traduzindo-se em obras concretas que transformem também a vida das pessoas que precisam de nós. O amor deixa suas marcas positivas, tanto em nossa vida como na daqueles que nos rodeiam. Permito que minha vida seja pautada por ações que me encaminham para a vida plena com Deus e com os irmãos e irmãs?

 Caríssimos irmãos,

            A Palavra é viva e transformadora. O Deuteronômio nos lembra que a Palavra de Deus está ao nosso alcance, pronta para ser vivida. Em um mundo onde tantas vozes geram divisão e incerteza, como podemos tornar essa Palavra presente em nossas escolhas diárias e ser luz nas trevas?

Cristo como centro e reconciliação. Cristo reconcilia todas as coisas. Em tempos de guerra, desastres ambientais e polarizações, como nós, indivíduos e comunidade, podemos ser agentes dessa reconciliação, promovendo a paz e a solidariedade?

Compaixão como caminho para a vida eterna. A parábola do bom samaritano nos ajuda a expandir nossa compreensão de “próximo”. Estamos dispostos a romper barreiras, acolher os marginalizados e amar como Deus ama, mesmo diante de tantas desigualdades e conflitos no mundo?

 Queridos Irmãos,

           Quem ama os irmãos revela Deus. O amor do cristão revela Deus. Por isso devemos fazer uma opção pelo homem acima de todas as coisas: do dinheiro, da profissão, das estruturas. Optar pela sua libertação. Por isso Se Deus é amor, se Cristo é a revelação de Deus porque se entregou à morte pelo homem, o cristão revelará Deus ao mundo com seu amor concreto pelo próximo.    

            Este domingo leva a Comunidade eclesial a experimentar profundamente sua vocação ao amor ao próximo. A sublime capacidade de imitar a Deus no amor. A parábola do bom samaritano nos mostra que não basta o conhecimento; é preciso saborear, pôr em prática.

            Neste domingo a Comunidade transforma em ação de graças toda a dedicação de seus membros na vivência do segundo mandamento, que é igual ao primeiro: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Isto só será possível em Cristo Jesus, a imagem do Deus invisível, em que foram criadas todas as coisas.

 

Padre Wagner Augusto Portugal.


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