Pular para o conteúdo principal

SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE, C.

 


“Bendito seja Deus Pai, bendito o Filho unigênito e bendito o Espírito Santo. Deus foi misericordioso para conosco”

Meus queridos irmãos,

Deus é o “mistério”. Isso não significa, estritamente, sua inacessibilidade ou incognoscibilidade. Significa, muito pelo contrário, que, enquanto “nele nos movemos e existimos” (cf. At 17,28), nossa compreensão não consegue englobá-lo. Por isso, Ele se manifesta exatamente naquilo que nos envolve — em primeiro lugar, na insondável sabedoria com que o universo foi feito. Assim, o judaísmo viu na sabedoria de Deus uma realidade preexistente ao próprio universo: a primeira criatura de Deus, conforme nos ensina a Primeira Leitura.

Ao longo do ano litúrgico, celebramos as grandes festas da vida cristã. Hoje celebramos o mistério da Santíssima Trindade: um Deus em três pessoas — Pai, Filho e Espírito Santo —, uma verdade fundamental da nossa fé cristã, que expressamos inúmeras vezes, por palavras e gestos, na sagrada liturgia, na oração particular, na oração pública, todas as vezes que traçamos sobre nossa fronte o sinal da doce salvação, o sinal do cristão, o “sinal da santa Cruz!” (cf. Jo 16,12-15).

Caros irmãos,

A Primeira Leitura (cf. Pr 8,22-31) nos apresenta a Sabedoria divina, que existe antes de tudo. O Antigo Testamento não conhece a revelação de Deus em três pessoas, mas fala do Deus vivo, que age e fala e que, com seu Espírito, penetra todo o ser e a história da humanidade. “Palavra”, “Espírito” e “Sabedoria” de Deus aparecem, para o pensamento do Antigo Testamento, como realidades divinas atuantes. Preparam a visão das três pessoas divinas no Novo Testamento.

O capítulo 8 do Livro dos Provérbios é um grande poema, em que a Sabedoria tem a palavra. Fala de sua origem antes dos tempos, de seu lugar ao lado de Deus na criação, mas também de sua proximidade com os homens. Paulo identificará o Cristo crucificado com a “força e a sabedoria de Deus”. Esta é a plena revelação da Sabedoria de Deus: estar junto aos homens no sofrimento e na doação até o fim.

A referência ao Deus que tudo criou para nós com sabedoria nos faz pensar num Pai providente e cuidadoso, que tem um projeto bem definido para os homens e para o mundo. Contemplar a criação é descobrir, na beleza e na harmonia das obras criadas, esse Pai cheio de bondade e amor. Olhando para a obra de Deus, aprendemos que o homem não é um concorrente de Deus, nem Deus um adversário do homem. Ao homem compete reconhecer o poder e a grandeza de Deus e se entregar, confiante, nas mãos desse Pai que tudo criou com cuidado e que tudo nos entrega com amor.

Irmãos e irmãs,

A Segunda Leitura (cf. Rm 5,1-5) nos apresenta o amor de Deus que se derramou em nós. Não por causa de privilégios nossos, mas porque Cristo morreu por nós, somos justos diante de Deus. Nisso reconhecemos que Deus quer nos salvar e nos amar; por isso, esperamos. Que sejamos capazes de participar de sua vida é obra do seu Espírito em nós.

No momento em que o Apóstolo Paulo escreve aos Romanos, por volta dos anos 57 ou 58, ele está concluindo sua terceira viagem missionária e se prepara para partir para Jerusalém. São Paulo havia terminado sua missão no Oriente (cf. Rm 15,19-20) e

queria levar o Evangelho ao Ocidente. Sobretudo, São Paulo aproveita a carta para contatar a comunidade de Roma e apresentar aos romanos — e a todos os batizados — os principais problemas que o ocupavam, entre os quais sobressaía a questão da unidade, um problema bem presente na comunidade de Roma, afetada por dificuldades de relacionamento entre judeu-cristãos e pagão-cristãos.

A justiça é, mais do que um conceito jurídico, um conceito relacional. Define a fidelidade a si próprio, à sua maneira de ser e aos compromissos assumidos no âmbito de uma relação. Ora, se Javé se manifestou na história do seu povo como o Deus da bondade, da misericórdia e do amor, dizer que Deus é justo não significa dizer que Ele aplica os mecanismos legais quando o homem infringe as regras. Antes, significa que a bondade, a misericórdia e o amor — próprios do “ser” de Deus — se manifestam em todas as circunstâncias, mesmo quando o homem não foi correto no seu proceder.

São Paulo, ao falar do homem justificado, está falando do homem pecador que, por exclusiva iniciativa do amor e da misericórdia de Deus, recebe um veredicto de graça que o salva do pecado e lhe dá, de modo totalmente gratuito, acesso à salvação. Ao homem é pedido apenas que acolha, com humildade e confiança, uma graça que não depende de seus méritos e que se entregue completamente nas mãos de Deus. Este homem, objeto da graça de Deus, é uma nova criatura (cf. Gl 6,15): é o homem ressuscitado para a vida nova (cf. Rm 6,3-11), que vive do Espírito (cf. Rm 8,9.14), que é filho de Deus e co-herdeiro com Cristo (cf. Rm 8,17; Gl 4,6-7).

Na Solenidade da Santíssima Trindade, somos convidados a contemplar o amor de um Deus que nunca desistiu dos homens e que sempre soube encontrar formas de vir ao nosso encontro, de fazer caminho conosco. Apesar de os homens insistirem, tantas vezes, no egoísmo, no orgulho, na autossuficiência e no pecado, Deus continua a amar e a nos fazer propostas de vida. Trata-se de um amor gratuito e incondicional, que se traduz em dons não merecidos, mas que, uma vez acolhidos, nos conduzem à felicidade plena.

A vinda de Jesus Cristo ao encontro dos homens é a expressão plena do amor de Deus e o sinal de que Deus não nos abandonou nem esqueceu, mas quis até partilhar conosco a precariedade e a fragilidade da nossa existência para nos mostrar como nos tornarmos “filhos de Deus” e herdeiros da vida em plenitude. A presença do Espírito acentua em nosso tempo — o tempo da Igreja — essa realidade de um Deus que continua presente e atuante, derramando o seu amor ao longo do caminho que dia a dia percorremos e nos impelindo à renovação e à transformação, até chegarmos à vida plena do Homem Novo.

Irmãos e irmãs,

O Catecismo da Igreja Católica define a Santíssima Trindade como: “O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. Só Deus no-lo pode dar a conhecer, revelando-se como Pai, Filho e Espírito Santo” (cf. CIC, n. 261).

A comunidade cristã é a nova família desse Deus uno e trino, origem e finalidade de toda criatura humana. Portanto, este mistério é a maior novidade trazida por Jesus no Novo Testamento. Jesus confirmou o Deus único, criador e Senhor do mundo, em quem os hebreus acreditavam e em torno de quem organizavam, com rigor, suas vidas, leis, cultos e atividades. Mas Jesus levou-nos para além da dimensão Deus-criaturas; mostrou-nos a vida de Deus no seu lado de dentro e revelou-nos que o amor do Pai se personifica no Filho.

Na Última Ceia, quando o apóstolo Filipe pediu que Jesus lhes mostrasse o rosto do Pai, Jesus respondeu: “Quem me vê, vê o Pai...” “Eu estou no Pai e o Pai está em mim... Tudo o que o Pai possui é meu” (cf. Jo 14,11; 16,15). É também na Ceia que Jesus fala do Espírito Santo, que o Pai haveria de enviar em seu nome (cf. Jo 14,16-17).

Jesus é um com o Pai. Ele é a imagem visível do Deus invisível (cf. Jo 10,30; 14,10; 17,11.21; Cl 1,15). Em Jesus está a plenitude da divindade (Cl 2,9); por isso, quem o vê, vê o Pai (cf. Jo 12,45; 14,9). É, sobretudo, o Evangelho de João que descreve o Espírito Santo como pessoa divina (cf. Jo 14,16-26), presente e operante nos fiéis como estão presentes e operam o Pai (cf. Jo 17,21-23) e o Filho (cf. Jo 14,18).

O prefácio da Missa de hoje formula assim essa verdade essencial da fé: “Sois um só Deus e um só Senhor, não uma única pessoa, mas três pessoas em um só Deus. Adoramos cada uma das pessoas, na mesma natureza e igual majestade”.

Se Nosso Senhor Jesus é a encarnação do amor do Pai, foi também por amor que o Pai o enviou ao mundo. Se Jesus provém do amor do Pai para expressar o amor de Deus, todos os seus gestos, passos e ensinamentos serão feitos de amor. O gesto mais amoroso de todos foi dar às criaturas humanas a garantia da vida eterna, isto é, a certeza de que poderão participar da vida e do amor de Deus. A condição que Jesus impõe é lógica: que creiamos nele como enviado do Pai e na sua força salvadora.

Meus queridos irmãos,

Entender a Trindade é beber da fonte do amor de Deus por nós. Trindade é amor. Nós somos frutos desse cândido amor.

Deus nos imaginou. Deus nos amou. Deus nos criou e nos colocou no mundo. Somos, por conseguinte, seres saídos do amor trinitário de Deus, a caminho do retorno ao mesmo amor. Nossa origem e nosso fim é a Trindade, que nos espera para fazer-nos participantes de sua glória. Pertencemos à Trindade, porque somos criaturas queridas e criadas por ela.

A Trindade faz parte de nossas vidas desde o momento do Batismo. Somos batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A partir daí, a Trindade passa a habitar em nossa vida, em nosso ser, em nossa existência.

Deus está conosco pela Trindade. Assim, a Trindade não é algo inacessível. Pelo contrário, a Trindade demonstra que nosso Deus é um Deus aberto, comunidade, dialogante, que se manifesta, que nos ama, que age, que cria, que quer ser procurado e se deixa encontrar.

Trindade que é riqueza inesgotável e que a Igreja nos aponta para que saibamos onde Deus abre seu íntimo para nós: no seu Filho Jesus e no Espírito de Jesus que nos anima. Lá encontramos Deus — e o encontramos não como um bloco de granito, monolítico, fechado, mas como pessoas que se relacionam, tendo cada uma sua própria atuação: o Pai que nos ama e nos chama à vida; o Filho, Jesus, que fala do Pai para nós e mostra como o Pai é, sendo bom e fiel até o dom da própria vida na cruz; e o Espírito Santo, que, de outro modo, permanece sempre conosco. O Espírito Santo atualiza em nós a memória da vida e das palavras de Jesus e anima a ação evangelizadora da sua Igreja. E todos os três — Pai, Filho e Espírito Santo — estão unidos e formam uma unidade naquilo que Deus essencialmente é: amor.

Prezados irmãos,

O Evangelho desta Solenidade — Jo 16,12-15 — vem confirmar a perfeita comunhão entre Jesus, o Pai e o Espírito. Assim como Jesus ensinou aos seus discípulos e estes à primeira comunidade cristã, assim a Igreja, em nossos dias, continua anunciando. É a presença do Espírito ao longo dos séculos, iluminando cada povo, cultura, língua e nação, no sentido de perceber a presença de Jesus por meio do amor que se manifesta nas comunidades e no mundo.

Faça caminhada com o Espírito e peça que Ele ore por ti e leve para junto de Deus tudo aquilo de que precisas neste dia.

Padre Wagner Augusto Portugal

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Deus Pensa em Você

Deus está sempre pensando em você e amando você! Às vezes, podemos cair na crença de que Deus não se importa conosco e está ausente em nossas vidas, quando, na verdade, Ele está sempre pensando em nós. Durante nossas horas mais sombrias, é comum acharmos que Deus não nos ama ou que, de alguma forma, nos abandonou em nossa miséria. É justamente nesses momentos que precisamos ser lembrados do amor constante de Deus por nós e de como Ele está sempre atento a cada um de nós. Estamos em seus braços neste exato momento. São João Eudes, sacerdote do século XVII conhecido por promover a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, refletiu sobre essa realidade em um texto incluído no livro Meditações sobre diversos assuntos. Ele se concentra, em particular, no fato de que Deus pensa em nós a cada instante de nossa vida: “Desde o momento da minha criação até agora, Ele me carregou em seus braços, em seu seio e em seu Coração, com mais cuidado e amor do que uma mãe carrega seu filho, e não...

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS E DOS HOMENS

“Hoje surgiu a luz para o mundo: O Senhor nasceu para nós. Ele será chamado Admirável, Deus, Princípe da paz, Pai do mundo novo, e o seu reino não terá fim” (Is 9,2.6; Lc 1,33)   Meus queridos Irmãos,               A Solenidade de Hoje é muito antiga dentro da Tradição Litúrgica da Igreja Católica. Remonta ao Concílio Ecumênico de Éfeso, que foi realizado nesta cidade no ano de 431 da era cristã, em que a Igreja concedeu a Virgem Maria o Título de “Mãe de Deus”. Se Maria é Mãe de Deus, também por ser por obra e graça do Espírito Santo Mãe de Cristo, ela também é Mãe de todos os viventes, de todos os homens e de todas as mulheres.             Maria, pela celebração de hoje, está inscrita no livro da vida eterna. Está inserida no projeto de salvação e, também, se reafirma que Jesus Cristo é o verdadeiro Filho de Deus encarnado em Maria. Professar a Maternidade...

Tio Antônio Machado Rocha

  Tio Antônio Machado Rocha. Nascido em Campo do Meio, MG, em 04 de janeiro de 1945. Falecido em Campo do Meio, MG, em 26 de janeiro de 2026.             A semana iniciou-se mais triste com o repentino falecimento nas primeiras horas de hoje, dia 26 de janeiro de 2026, em Campo do Meio, MG, do querido Tio Antônio Machado Rocha. Ele nasceu em 04 de janeiro de 1945.           Do seu matrimônio com a irmã de minha mãe, Tia Vanda Inês Viana Rocha, em 30 de julho de 1972 na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, em Campo do Meio, MG, nasceram quatro filhos: Sheila, Cleiton Alexandre, Gleib e Luiz Ricardo.           Servidor público municipal dedicado passou a sua vida centrado em três pilares: sua família, sua fé católica firme e o trabalho dedicado como calceteiro do Município de Campo do Meio.        ...