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23º DOMINGO DO TEMPO COMUM – B


“Vós sois justo, Senhor, e justa é a vossa sentença; tratai o vosso servo segundo a vossa misericórdia.” (Sl 118,137-124)

Meus queridos irmãos e minhas queridas irmãs,

Neste domingo, a Sagrada Liturgia nos convida a refletir sobre a fé e as suas et apas em nossa caminhada de salvação. O Evangelho de São Marcos (Mc 7,31-37) relata-nos a cura que ocorre em terras pagãs, do surdo-mudo. Com isso, o evangelista quer nos ensinar que os pagãos são chamados à fé e à comunhão com Deus. Curar um surdo e um mudo era um grande milagre, o que demonstrava que Jesus era o Messias.

Ante o prodígio, o povo, pasmo, elogiava as atitudes daquele que dava sinais de seu messianismo. Mas, na linguagem moderna, a moral do relato evangélico de hoje, traduz que todos nós somos convidados a abrir os ouvidos para escutar “as palavras de espírito e vida” do Divino Mestre e proclamar essas maravilhas por todas as partes, entre todos os povos, vivenciando a beleza da mensagem do Senhor Ressuscitado, vivendo-a intensamente.

Ouvir e proclamar significa, de início, colocar em prática aquilo que queremos anunciar aos nossos irmãos. A fé tem um caminho muito importante. Mas, primeiro, nós temos que crer. É crendo que poderemos dar testemunho. Crendo, vivenciaremos aquilo que cremos, ou seja, os Santos Evangelhos, transmitidos pelos apóstolos e iluminados pela Tradição da Santa Igreja. A partir do crer, do viver, transmitiremos, então, a fé que recebemos e vivenciamos. Não transmitir apenas com o anúncio, mas, sobretudo, com a vivência, com o testemunho de fé.

Assim, todos somos convidados a comunicar as maravilhas de Deus diante da comunidade eclesial e dos não batizados. Hoje, como ontem, os que se fazem surdos-mudos na sociedade são bem mais numerosos do que os que nascem deficientes.

Prezados irmãos,

A liturgia deste domingo nos convida a reanimar nossa vida de esperança, sobretudo ao observarmos a práxis de Jesus. No Evangelho, Jesus liberta o surdo-mudo de seus impedimentos. Jesus é o taumaturgo do Pai, aquele que, pela palavra Efatá – que quer dizer “abre-te” –, concede ao ser humano o dom de comunicar o amor de Deus. Na primeira leitura, o profeta Isaías restaura no coração ferido da humanidade a capacidade de continuar a crer em Deus, não obstante os desafios. Tiago, na segunda leitura, convida sua Igreja, que também é nossa, a não fazer acepção de pessoas – sobretudo em prejuízo dos pobres e marginalizados, que são especialmente queridos e amados por Deus.

Irmãos e irmãs,

As cidades por onde o Evangelho de hoje nos anunciam, Tiro e Sidônia, são consideradas comunidades pagãs. Jesus hoje se encontra no meio de pagãos. Ele estava longe e em lugar de comércio abundante, onde os judeus e os pagãos dominavam as suas gentes. No meio de um povo incrédulo, o Divino Mestre cura um surdo, uma manifestação inequívoca de que era o Messias.

A primeira Leitura de hoje, retirada de Isaías (35,4-7), escrita há 750 anos antes do tempo de Jesus, relembra que a cura de surdos e de mudos faz parte do tempo messiânico. E, para reforçar a nota, o povo exclama: “Ele fez tudo bem feito”, vislumbrando a obra messiânica da restauração do paraíso. Lembra a liturgia como Deus “fez tudo bem” desde o início, conforme já observara o escritor sagrado em Gênesis (1,31s.). O próprio Jesus dá esses milagres como sinal a João Batista de que era o Messias. Marcos é o único Evangelista a contar a cura do surdo-mudo. O deserto desolado e estéril, que os exilados terão de atravessar na caminhada de regresso à sua terra, transformar-se-á numa terra fértil, com água em abundância e onde o Povo não terá dificuldade em saciar a sua fome e a sua sede. A abundância de água no deserto, de que o profeta fala, é outra imagem para mostrar a vontade de Deus em cumular o seu Povo de vida plena e abundante. A marcha do Povo da terra da escravidão para a terra da liberdade será um novo êxodo, onde se repetirão as maravilhas operadas pelo Deus libertador aquando do primeiro êxodo; no entanto, este segundo êxodo será ainda mais grandioso, quanto à manifestação e à ação de Deus. Será uma peregrinação festiva, uma procissão solene, feita na alegria e na festa.

Apesar das aparências, Deus não esqueceu o seu Povo. Judá deve recobrar ânimo e preparar-se para acolher o Senhor. O próprio Deus irá realizar a libertação; Ele fará justiça e recompensará o seu Povo por todos os sofrimentos suportados no tempo do cativeiro (vers. 4). O resultado da iniciativa salvadora e libertadora de Deus traduzir-se-á no despertar do Povo, paralisado e desanimado, para uma vida nova. O encontro com o Deus libertador e salvador transformará o Povo, dar-lhe-á de novo a liberdade, a alegria, a coragem para enfrentar o caminho, a vida em abundância. Nas imagens dos cegos que voltam a contemplar a luz, dos surdos que voltam a ouvir, dos coxos que saltarão como veados e dos mudos a cantar com alegria (vers. 5-6), o profeta representa essa vida nova, excessiva, abundante, transformadora, que Deus vai oferecer a Judá. O profeta é o homem que rema contra a maré… Quando todos cruzam os braços e se afundam no desespero, o profeta é capaz de olhar para o futuro com os olhos de Deus e ver, para lá do horizonte do sol poente, um amanhã novo. Ele vai então gritar aos quatro ventos a esperança, fazer com que o desespero se transforme em alegria e que o imobilismo se transforme em luta empenhada por um mundo melhor.

Caros irmãos,

Jesus poderia ter operada essa cura em silêncio (cf. Mc 7,31-37). Entretanto, sabendo que se tratava de um pagão, não podendo ouvir a Sua palavra, necessitava de gestos visíveis para compreender que estava sendo curado por uma força superior, uma graça de Deus. Usando a saliva, como em todos os povos, Jesus utilizava-se de um sentido terapêutico. Tocando a saliva com a mão Ele transmite a graça de Deus. Por isso, a Igreja Santa conservou no ritual do Batismo esse gesto da cura do surdo-mudo, no momento em que o Batismo abre no catecúmeno os ouvidos para escutar a Palavra de Deus e para que seja solta a sua língua, para proclamar a bondade infinita de Deus, nosso Criador e Senhor.

Entretanto, seria bom notar que Jesus retirou-se para o lado com o surdo-mudo, para que a multidão não o confundisse com os muitos curandeiros de então. Nesse episódio, observa-se, ainda, os gestos de súplica e de reverência que dirige ao Pai: “eleva os olhos para o céu”, como fizera na multiplicação dos pães para demonstrar que todo o seu poder vinha do Pai que está nos céus e é a origem de todos os bens.

Irmãos e irmãs,

Todos nós, mesmo que batizados, trazemos sempre um pouco de surdo-mudo, quando não sabemos ligar as realidades terrenas a Deus, sumo bem e fonte de toda a vida.

O curado abriu primeiro os ouvidos para ouvir a Palavra de Deus, e depois começou a falar para dar testemunho das maravilhas do Senhor. Assim deve ser a nossa vida de fé: ouvir com entusiasmo os mistérios da salvação, colocando-os em prática em nossa vida, para depois dar testemunho do que acreditamos.

A grande novidade do Evangelho de hoje é que a religião serve para o bem de todos, eliminando exploração e discriminação, conforme nos ensina a segunda leitura. Para dar chances a uma ordem melhor, provoca até revoluções, se as estruturas que estão vigendo produzem desigualdades e injustiça. Para a Justiça é a exigência mínima do amor.

Jesus nos ensina a ser bom, a fazer o bem a todos, como Ele fez. Para reconhecê-lo como Messias, é preciso que o homem esteja aberto. Ora, nem mesmo os discípulos eram fáceis de se abrir. Jesus não apenas “faz as coisas bem feitas”, mas Ele abre também o coração para ver o Reino de Deus, que esta aí, onde se faz a sua vontade e se revela o seu amor. Marcos hoje insiste, assim, na imposição das mãos, no aplicar a saliva, elevar os olhos, gemer, dizer “effatá” = abre-te.

Não é fácil abrir o homem para o mistério de Deus. Peçamos, então, a Deus para que possamos abrimo-nos a Ele, ao misericordioso Jesus, infundidos pelas graças do Espírito Santos, para nutrirmo-nos com a Palavra e com a Eucaristia, fortalecendo-nos em nossa caminhada e dispondo-nos a tornarmos co-responsáveis pela obra de Cristo, como discípulos e missionários.

O surdo-mudo, incapaz de escutar a Palavra de Deus, representa esses homens que vivem fechados aos projetos e aos desafios de Deus, ocupados em construir a sua vida de acordo com esquemas de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, que não precisam de Deus nem das suas propostas. O homem do nosso tempo já nem gasta tempo a negar Deus; limita-se a ignorá-l’O, surdo aos seus desafios e às suas indicações.

O surdo-mudo representa também aqueles que não se preocupam em comunicar, em partilhar a vida, em dialogar, em deixar-se interpelar pelos outros… Define a atitude de quem não precisa dos irmãos para nada, de quem vive instalado nas suas certezas e nos seus preconceitos, convencido de que é dono absoluto da verdade. Define a atitude daquele que não tem tempo nem disponibilidade para o irmão; define a atitude de quem não é tolerante, de quem não consegue compreender os erros e as falhas dos outros e não sabe perdoar. Uma vida de “surdez” é uma vida vazia, estéril, triste, egoísta, fechada, sem amor. Não é nesse caminho que encontramos a nossa realização e a nossa felicidade.

Meus irmãos,

A Segunda Leitura, retirada da Carta de São Tiago (2,1-5), coloca-nos diante da opção de Jesus: a opção preferencial pelos mais pobres. Deus não conhece acepção de pessoas, nem se deixa comprar, nem despreza o mais humilde e pobre. Ao contrário, a misericórdia e a bondade de Deus são gratuitas, por isso, cabem melhor em “mãos vazias”.

Quem está repleto das riquezas deste mundo ou de si mesmo não pode receber a riqueza divina que leva para a contemplação da vida divina. A fé em Cristo nos ensina a respeitar a todos, particularmente os mais necessitados, os mais amados e preferidos de Deus.

Deus permite a riqueza, mas condena a sua malversação ou o uso indevido. Para bem poder dar, o homem sempre deve receber de Deus. Nesse sentido, subsiste o problema do rico. Se o rico sempre está cheio de si mesmo, não é mais capaz de receber e aprender de Deus o que é graça e gratuidade. Ele perde também a capacidade de abrir sua mão e o seu coração. Daí, quem é grande e poderoso deve se tornar pobre e criança, frágil e carente, ou seja, dependente totalmente de Deus.

Jesus Cristo nunca discriminou nem nunca marginalizou ninguém, absolutamente ninguém. Jesus sentou-se à mesa com os desclassificados, acolheu os doentes, estendeu a mão aos leprosos, chamou um publicano para fazer parte do seu grupo, teve gestos de bondade e de misericórdia para com os pecadores, disse que os pobres eram os filhos queridos de Deus, amou aqueles que a sociedade religiosa do tempo considerava amaldiçoados e condenados.

A comunidade cristã é hoje, no meio do mundo, o rosto de Nosso Senhor Jesus Cristo para os homens; por isso, não faz sentido qualquer acepção de pessoas na comunidade cristã. Naturalmente, isto é uma evidência que ninguém contesta. Mas, na prática, todos são acolhidos na nossa comunidade cristã com respeito e amor? Porque vemos acontecer hoje tanta perseguição? Porque os que se dizem os melhores, e de fato não os são, querem tripudiar naqueles que tem as suas dificuldades? Tratamos com a mesma delicadeza e com o mesmo respeito quem é rico e quem é pobre, quem tem uma posição social relevante e quem a não tem, quem tem um título universitário e quem é analfabeto, quem tem um comportamento religiosamente correto e quem tem um estilo de vida que não se coaduna com as nossas perspectivas, quem se dá bem com o padre e quem tem uma atitude crítica diante de certas opções dos responsáveis da comunidade? Não esqueçamos: a comunidade cristã é chamada a testemunhar o amor, a bondade, a misericórdia, a tolerância de Cristo para com todos os irmãos, sem exceção.

O que é decisivo, na perspectiva de Deus, é a disponibilidade para acolher a sua proposta e os seus dons. O nosso texto convida-nos a despir-nos do orgulho, da auto-suficiência, dos preconceitos, para acolher com humildade e simplicidade os dons de Deus.

Caros irmãos,

Devemos compreender que Deus cuida da humanidade e a convida a reanimar-se, não ter medo, mesmo quando o mundo parece um lugar inóspito. Nota-se que comunidade cristã, ainda hoje, existe aporofobia, aversão aos pobres, e conscientizar-se de que eles devem ser respeitados e tratados com caridade, não podendo ser humilhados. Vamos fomentar nossas comunidades cristãs a acolher as pessoas com deficiência, buscando incluí-las em nossa catequese, na transmissão da fé, na convivência, participação e missão.

Estimados irmãos,

Pode existir doença, sofrimento, privação, mas não é a última palavra. Somos chamados a participar com Deus nos aperfeiçoamentos da criação. Assim, o povo saúda a chegada de Messias, exclamando: “tudo ele tem feito bem!”.

Que possamos, então, todos repetir com Jesus na nova Evangelização: “tudo estamos fazendo bem, em nome de Jesus, que nos chama a ouvir e anunciar o Seu reino de bem-aventurança”. Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal

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