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16º Domingo do Tempo Comum.

 "É Deus quem me ajuda, é o Senhor quem defende a minha vida. Senhor, de todo coração hei de vos oferecer o sacrifício, e dar graças ao vosso nome, porque sois bons"(cf. Sl. 53,6.8).

 

Meus irmãos,

 

               É necessária a paciência para fazer a vontade de Deus. A sagrada liturgia deste 16º Domingo do Tempo Comum nos leva a refletir sobre o joio e o trigo. O joio representa o mal. O trigo simboliza o Reino de Deus na Terra.

            Os homens, indistintamente, experimentam do bem e do mal. Todos já praticaram o bem e o mal. Saber viver bem é uma sabedoria que vamos buscar perscrutando os caminhos do Senhor Ressuscitado.

               A resistência ao espírito do mal e a perseverança no bem se chama paciência. Os pecadores, ou seja, todos os homens e mulheres que decaem no pecado são convocados a retornarem ao aprisco do Senhor ou adentrarem no Reino das Bem-Aventuranças.

 

Irmãos e Irmãs,

               A Primeira Leitura (cf. Sb 12,13.16-19) nos leva a refletir que Deus julga com brandura e exerce seu poder com benevolência. Deus infunde nos justos a coragem, a esperança e a capacidade de amar. Amar sem limites, amar sem reducionismos, amar o pecador e repudiar o pecado.

               Deus não precisa prestar contas aos homens. Sua grandeza, Ele a demonstra julgando com benignidade, pois Ele tem suficiente poder; Deus não é escravo de sua própria força. Contrariando nossa impaciência e intolerância, Deus aguarda que talvez o injusto ainda se converta.

Deus deu provas de extrema moderação e manifestou a sua bondade, a sua misericórdia, a sua justiça. Deus não tinha que provar nada a ninguém, pois ninguém lhe podia pedir contas; se agiu dessa forma equilibrada e moderada, é porque é um Deus justo. A “justiça” não é, no Antigo Testamento, a estrita aplicação da lei; mas é, sobretudo, a fidelidade à própria essência. Ora, a essência de Deus é amor, bondade e misericórdia; por isso, ser justo equivale, para Deus, a revelar amor, benevolência e bondade na sua atitude para com os homens. O que é mais significativo aqui é que a “justiça de Deus” não se exerce sobre o Povo de Deus, mas sobre um povo “de má estirpe” e de “maldade congênita” (Sb 12,10): é a universalidade da salvação que assim é sugerida. Por outro lado, o autor vê neste comportamento “justo” de Deus uma lição para Israel. Que é que, desta forma, Deus ensina ao seu Povo? Ensina, em primeiro lugar, que Deus não quer a morte do pecador, mas sim que ele se converta e viva; por isso, “fecha os olhos” diante do pecado do homem, a fim de o convidar ao arrependimento. Ensina, em segundo lugar, que “o justo deve ser amigo dos homens” (Sb 12,19): se a lógica de Deus é uma lógica de perdão e de misericórdia, o Povo de Deus deve adotar a mesma lógica e assumir atitudes de bondade, de amor, de misericórdia, de tolerância, nas suas relações comunitárias. Mais: a bondade e a compreensão não devem ser reservadas para aqueles que são bons, mas também para aqueles que fazem insistentemente o mal.

Deus não quer a destruição do pecador, mas a sua conversão; Ele ama todos os homens que criou, mesmo aqueles que praticam ações erradas.

 

 

Meus queridos irmãos,

A parábola do joio e do trigo (cf. Mt 13,24-43) nos ensina que é preciso ter presente na vida quotidiana a paciência. Uma virtude difícil, mas necessária dentro da normalidade dos eventos da vida diária.

            Em tempos em que o homem se orgulha de dominar as tecnologias, as pessoas e as coisas, Jesus vem ensinar que a paciência é a virtude básica de vivificar os mistérios da fé e vencer as adversidades da vida presente.

               Hoje os homens gostam de viver o imediato, o hedonismo desvairado. As relações sociais e amorosas são passageiras e efêmeras, o que não gera compromisso. A juventude conjuga o verbo "ficar", enquanto é necessário com prudência "degustar" as virtudes humanas com intensidade, perpetuidade e paciência, sempre deixando fixos os olhos para a escatologia, para o céu, para a visão beatífica de Deus.

               O homem moderno não suporta mais o sofrimento, a derrota, as adversidades, a resignação. É próprio desta sociedade procurar uma solução para tudo e para todos os problemas. Não se tem paciência nem para as coisas espirituais. As pessoas não compreendem mais o tempo de Deus, o tempo da graça, o tempo da conversão, o tempo da amizade com o Senhor Ressuscitado.

               O homem hoje quer satisfações imediatas. O homem quer eliminar os seus opositores, cortando etapas, abrindo caminhos tortuosos, antiéticos.

               Entretanto, as coisas de Deus, as coisas do Reino do Divino Salvador acontecem lentamente, e muitas vezes, com sofrimento e resignação. Por causa disso muitos hoje não enxergam a beleza do arco-íris, do pôr do sol, a leveza das plantas, o perfume dos campos, a grandiosidade da criação e do crescimento das plantações.

 

Meus irmãos,

Jesus trouxe o tempo da graça e da salvação. Jesus compara este tempo com o plantio e o crescimento do trigal. O Reino de Deus na sua realização terrena, embora sendo de graça e santidade, não nos dispensa da paciência diante do mal e da luta paciente contra o mal, que é o pecado que nos distancia do Senhor Jesus.

               Muitos se revoltam contra Deus perguntando por que existe ou coexiste no mundo o Mal. O homem tenta explicar as guerras, a fome, à exclusão social, à falta de emprego, de comida, de dignidade. Mas o homem não consegue explicar o mal que provém do Mistério (cf. 2Ts 5, 2-7).

               O homem que é colocado diante do mal deve resistir e superar o mal. Isso é sua obrigação. Se Deus é o exemplo da paciência é sempre bendito o esforço humano para vencer o mal. Isso é paciência. Uma luta, ou seja, um combate espiritual contra o mal que somente será totalmente vencido ou superado no céu.

 

Meus irmãos,

               O Reino de Deus é o trigal. Cristo veio semeá-lo em nossos corações e na nossa sociedade. É trigo bom, de amor, de justiça, de verdade, de perdão, de misericórdia. Somos uma comunidade de santos e de pecadores. Neste contexto todos somos convidados para a conversão, começando pelas pequenas coisas, até chegar às grandes coisas de nossa vida quotidiana. É na paciência que o Evangelho nos ensina que, com prudência e grade força de vontade, que os homens são convidados a lutarem contra o mal, contra o pecado, contra o Príncipe das Trevas, voltando par ao aprisco do trigal Celestial, pela mediação da Santa Igreja Católica.

 

Irmãos e Irmãs,

               A Segunda Leitura de hoje (Rm 8,26-27) mereceria uma atenção especial, como descrição daquilo que chamaríamos "espiritualidade". Pois, para muitas pessoas, espiritualidade é uma espécie de conquista de si mesmo, um treinamento militar, uma ascese, tanto que, antigamente, "ascese e espiritualidade" eram estudadas no mesmo tratado teológico. Ora espiritualidade cristã existe quando o Espírito de Cristo vive em nós, toma conta de nós. Isto não tem nada que ver com ascetismo, uma vez que o Espírito adota até a nossa fraqueza. Nós nem sabemos rezar como convém, mas "o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis" (cf. Rm 8, 26). Portanto, o importante é deixar-se envolver por este Espírito e não o expulsar pela auto-suficiência de nosso próprio espírito. Aliás, da nossa fraqueza, o Espírito de Cristo é que consegue dar conta; o nosso, dificilmente.

É Deus que nos dá a força de viver “segundo o Espírito”. No entanto, devemos continuamente pedir a Deus, nosso Pai, essa graça. Na verdade, nem sempre sabemos o que devemos pedir, pois nem sempre conseguimos discernir entre a vida “segundo a carne” e a vida “segundo o Espírito”. No entanto, o próprio Espírito Santo “vem em auxílio da nossa fraqueza” (Rm 8,26a). O Espírito Santo é nosso “intérprete” e intercessor, elevando-nos ao Deus que conhece o coração. E esta oração (que o Espírito dirige em nosso lugar, ou que o Espírito “apoia”) é sempre acolhida por Deus, pois está em conformidade com os planos e os projectos de Deus (Rm 8,27).

A segunda leitura é um convite implícito a tomarmos consciência do amor que Deus nos dedica e da sua preocupação com a nossa salvação, com a nossa realização plena. Não somos minúsculos grãos de areia abandonados ao sabor das tempestades cósmicas num universo sem fim; somos filhos amados de Deus, a quem Ele não desiste de indicar, todos os dias, os caminhos da felicidade e da vida definitiva. Nos momentos de crise, de derrota, de falência, é preciso conservar os olhos postos nesta certeza: Deus ama-nos; por isso, oferece-nos, de forma gratuita e incondicional, a salvação.

O Espírito de Deus, vivo e atuante na história do mundo e na vida de cada homem ou mulher é a “prova provada” do amor de Deus por nós. O Espírito nos oferece cada dia a vida de Deus, nos leva ao encontro de Deus, faz com que a nossa voz chegue ao coração de Deus. É preciso, no entanto, disponibilidade para o acolher e atenção aos sinais através dos quais Ele nos conduz ao encontro de Deus. Acolher o Espírito é sair do egoísmo, do orgulho, da auto-suficiência e procurar descobrir, com humildade e simplicidade, os caminhos de Deus, os desafios de Deus.

 

Caros irmãos,

Há pessoas que se sentem no direito de discriminar as outras por se acharem “defensoras” da moral e dos costumes na Igreja. Tomam uma atitude de juiz, pretendendo separar o justo do injusto, o preto do branco, os de cima dos de baixo, os bons dos maus. Na verdade, porém, tais pessoas se equivocam no conhecimento de Deus, da proposta do seu Reino, iniciado em Jesus Cristo. No tempo em que vivemos, marcado por tanta intolerância e superficialidade, faz-se necessária uma catequese mistagógica, centrada na Palavra de Deus, como processo de desconstrução do “Deus juiz-castigador” e de experiência profunda e transformadora do “Deus juiz-compassivo”. Só assim nós, cristãos, veremos as pessoas com os olhos bondosos e misericordiosos do Deus de amor, Pai de Jesus Cristo e nosso.

 

Prezados irmãos,

              

Em tempos tão acelerados e de cobrança de produtividade, as leituras nos convidam a contemplar a bondade e a paciência de Deus em sua pedagogia conosco.

A história do povo de Israel, apresentada no livro da Sabedoria, mostra como Deus age com misericórdia. As parábolas do Evangelho afirmam que a atuação divina não consiste na punição imediata, mas sim na consideração pela liberdade humana e na oferta permanente de reconciliação. Somente no tempo oportuno se manifestará o juízo definitivo, que cabe exclusivamente a Deus. Enquanto isso, o Espírito Santo vem em nosso auxílio para nos conduzir à comunhão com Deus na oração.

O processo de evangelização também exige de nós paciência e misericórdia. Os seres humanos não são máquinas, mas seres de liberdade que ora se dispõem à ação divina, ora a recusam. Por isso, o tempo da realização cabe sempre a Deus, que perscruta os corações.

 

Irmãos e Irmãs,

 

A “paciência de Deus” com o joio nos convida, também, a rejeitarmos as atitudes de rigidez, de intolerância, de incompreensão, de vingança, nas nossas relações com os nossos irmãos. O “senhor” da parábola não aceita a intolerância, a impaciência, o radicalismo dos “servos” que pretendem “cortar o mal pela raiz” e arrancar o mal (correndo o risco de serem injustos, de se enganarem e de meterem mal e bem no mesmo saco). Às vezes, somos demasiados ligeiros em julgar e condenar, como se as coisas fossem claras e tudo fosse, sem discussão, claro ou escuro. A Palavra de Deus convida-nos a moderar a nossa dureza, a nossa intolerância, a nossa intransigência e a contemplar os irmãos (com as suas falhas, defeitos, diferenças, comportamentos religiosa ou socialmente incorrectos) com os olhos benevolentes, compreensivos e pacientes de Deus.

               Para falar do Reino de Deus, Jesus usa as parábolas. Compara o Reino a um agricultor que lança na terra a boa semente. Fala também de uma mulher que põe o fermento na massa para que o bolo cresça. Semente e fermento é o próprio Jesus. É ele quem faz acontecer no mundo o Reino de Deus. Na sociedade há pessoas que se preocupam com a vida e com a paz e há outras que resistem ao Projeto de Deus e geram o mal no mundo. Ao celebrar o mistério Pascal de Jesus, somos chamados a ser boa semente e testemunhar a justiça e o amor que vêm do coração do Pai, Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal.

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