Celebremos, jubilosos, a festa dos apóstolos Pedro e
Paulo, e firmemos nossa fé na Santa Igreja. Honramos hoje solenemente os santos Pedro e Paulo, “apóstolos
de Cristo, colunas e fundamento da cidade de Deus”, como canta a liturgia
hodierna. O seu martírio é considerado como o verdadeiro e próprio acto de
nascimento da Igreja de Roma. Os dois Apóstolos prestaram o seu testemunho
supremo à distância de pouco tempo e espaço um do outro: aqui, em Roma, foi
crucificado São Pedro e sucessivamente foi decapitado São Paulo.
O seu sangue fundiu-se assim quase num único testemunho a
Cristo, que levou Santo Ireneu, Bispo de Lião, a meados do século II, a
falar da “Igreja fundada e constituída em Roma pelos dois gloriosíssimos
apóstolos Pedro e Paulo” (Contra as heresias, 3, 3, 2). Pouco tempo
depois, na África setentrional, Tertuliano exclamava: «Quanto é
abençoada esta Igreja de Roma! Foram os próprios Apóstolos que lhe derramaram,
com o seu sangue, toda a doutrina» (A prescrição contra os heréticos, 36). […]
São
Pedro, junto com seu irmão André(cf. Mt 4,18), está entre os primeiros
discípulos de Jesus. Escolhido por Cristo para ser o fundamento da Igreja(cf.
Mt 16,13-19) e testemunha privilegiada dos milagres e da vida de Jesus, na sua
pessoa e na de seus sucessores, é o sinal visível da unidade e da comunhão na
fé e na caridade.
São Paulo, chamado pelo Cristo Ressuscitado, no caminho
de Damasco, para ser apóstolo(cf. At 9,1-16), foi o instrumento escolhido para
evangelizar os pagãos. Sua atividade missionária e apostólica foi muito mais
extensa que a dos demais apóstolos, estendendo-se por grande parte da Europa e
da Ásia mediterrâneas. Ambos foram martirizados em Roma, por volta do ano 67.
No prefácio da Missa da Vigília e da Solenidade de São
Pedro e de São Paulo rezamos: “Hoje, vós nos concedeis a alegria de festejar os
Apóstolos São Pedro e São Paulo, o primeiro a proclamar a fé, fundou a Igreja
primitiva sobre a herança de Israel. Paulo, mestre e doutor das nações,
anunciou-lhes o Evangelho da Salvação. Por diferentes meios, os dois
congregaram a única família de Cristo e, unidos pela coroa do martírio, recebem
hoje, por toda a terra, igual veneração”.
Meus irmãos,
Na primeira leitura (cf. At 3,1-10) entre o aleijado e
Pedro desenrola-se um diálogo silencioso. O aleijado é pobre, é doente, está
sozinho e logicamente pensa numa ajuda imediata. Pedro não gostaria de frustrar
as esperanças daquele infeliz, mas não pode dar-lhe ouro nem prata. Então
oferece-lhe a saúde física, como sinal e antecipação da saúde completa, a
escatológica: ele, de fato, age em nome de Outro e sabe que está oferecendo
algo que não lhe pertence. O poder salvador do nome de Jesus crucificado e
ressuscitado, é que opera tais maravilhas.
O
homem coxo de nascença da primeira leitura se aproxima de Pedro e João como se
aproxima de qualquer um, sem divisar nos dois os Apóstolos de Jesus. Como faz
com qualquer outro, pede algo que socorra sua pobreza e lhe sirva para estancar
a fome. Pelo relato, vemos que o coxo não olha para os Apóstolos, tão
acostumado está a ser tratado não com dignidade, mas ser posto entre a escória
e imerecedor de tratamento mais digno. O primeiro gesto de Pedro e João foi
olhar bem para o coxo. Esse olhar bem, significa ver a dor do outro a partir de
sua situação; compreender o quanto aquele coxo não era nem respeitado e muito
menos amado. Olhe para nós, pediram Pedro e João. Os olhos do coxo podiam agora
ver ao Apóstolos, mas acostumado a ser tratado como um indigente, esperava
ainda dinheiro ou pão. Contrariando a expectativa do coxo, Pedro anuncia que na
ordem do material nada ele tinha para lhe oferecer, mas tudo tinha na ordem do
espiritual e foi logo, em nome de Cristo, o ressuscitado, ordenando: levanta-te
e anda! Espantado com o milagre e percebendo que não recebera dinheiro ou pão,
mas a cura de suas pernas e com elas a possibilidade de conseguir seu próprio
sustento, o coxo transforma-se em gratidão e alegria, louvando a Deus.
A comunidade-Igreja tem a missão de continuar a prática
libertadora de Jesus e não pode ficar indiferente ao sofrimento das pessoas.
Antes de participarem de um ato religioso, os apóstolos praticam um gesto de
caridade, atendendo a um necessitado.
Caros irmãos,
Na segunda leitura (cf. Gl 1,11-20) não pode haver outro
evangelho porque o evangelho anunciado por São Paulo exclui qualquer origem
humana. De fato, ele foi objeto da revelação que se cumpriu em Jesus (cf. Gl
1,11-12; Jo 1,18; Mc 1,14-15; Mt 11,25-27). Com referência ao caso particular
de Paulo, bem se pode dizer que o seu evangelho é de origem divina. Ninguém de
fato, pode afirmar que ele tenha sido influenciado por algum fator humano na
sua conversão ao evangelho. Basta observar o que ele fazia antes de se
converter (cf. Gl 1,13-14; At 8,1-3;26,4-5) como aconteceu a sua conversão (cf.
Gl 1, 15-16a; At 9,3-19) e sua atitude após a conversão (cf. Gl 1,16b-19):
esperou bastante antes de confrontar com os outros apóstolos a revelação
recebida. Em suma, inúmeros são os dados na Igreja primitiva a nos garantir que
este anúncio de salvação = evangelho, vem diretamente de Deus.
Paulo apresenta como que uma “autodefesa”: começa falando
de seu passado de zelo no judaísmo e de perseguidor da Igreja e, a seguir,
lembra que sua vocação é de origem divina, assim como o Evangelho por ele
pregado. Paulo não tem receio de revelar suas fraquezas, ao mesmo tempo que
reconhece seu valor. O encontro com Pedro confirma sua integração ao grupo dos
apóstolos.
Prezados irmãos,
No Evangelho (cf. Jo 21,15-19) São João aparece
registrando aqui o diálogo entre o Senhor e Simão Pedro. Primeiramente as três
perguntas seguidas que lembram a Pedro a tríplice negação (cf. Mt 27,57-75) e
sua resposta sincera: “sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. A essa tríplice
profissão de amor, Jesus responde confiando-lhe a missão de apascentar as suas
ovelhas; confere, pois, a Pedro a sua própria missão pastoral deve estar sempre
fundada sobre o amor e sobre a fé em Jesus (cf. 6,66-69), do contrário se reduz
a uma fria instituição. Enfim, Jesus acrescenta a profecia da futura morte de
Pedro. Através do comentário do redator já se percebe a veneração dos primeiros
cristãos pelo mártir Pedro: “Disse isto para indicar com que espécie de morte
ele teria glorificado a Deus” (cf. Jo 21,19c) qualificam Pedro como discípulo:
“Segue-me!”
Depois de Jesus lhe perguntar por três vezes se o amava,
Pedro entristece, sem entender o significado desse questionamento. Após ter a
certeza de seu amor pelo Mestre, o apóstolo é convidado a conduzir a
comunidade-Igreja. A missão precisa estar sempre fundada sobre o amor e sobre a
fé em Jesus, para não fracassar. Somente quem ama de verdade consegue assumir o
compromisso com Jesus e com o seu projeto e se manter fiel na missão.
Prezados irmãos,
O
que mais atrai sobre nós a benevolência do Alto é a nossa solicitude para com
Jesus na pessoa do próximo. Foi por isso que Cristo o exige de Pedro: Simão,
filho de João, tu me amas mais do que estes? A resposta de Pedro por outro
lado não esconde a sua satisfação e opção por Jesus. E então responde: Sim,
Senhor, tu bem sabes que eu te amo. E Jesus lhe diz: Apascenta as minhas
ovelhas.
Por
que, deixando os outros apóstolos de lado, Jesus se dirige a Pedro? É que Pedro
era o primeiro entre os apóstolos, o que falava em nome deles, o chefe do seu
grupo, tanto que o próprio Paulo vem consultá-lo um dia, e não aos outros. Para
demonstrar a ele que podia confiar plenamente. E porque que sua negação fora
anulada, Jesus lhe dá agora a primazia entre os seus irmãos. Não menciona que o
negou, nem o envergonha com o seu passado. “Se tu me amas, diz ele, Tome
conta das minhas ovelhas que também são os teus irmãos. Ou seja, permanece
à frente de teus irmãos; e dê provas, agora, daquele amor apaixonado que sempre
demonstraste por mim, com tanta alegria! A vida, que dizias estar pronto a dar
em meu favor, eu quero que a dês pelas minhas ovelhas. Está exigência é feita
também a ti e a mim meu irmão. Se amamos a Deus devemos manifestá-lo em nossos
irmãos e irmãs.
Interrogado
uma primeira vez e depois uma segunda, Pedro apela para o testemunho daquele
que conhece o segredo dos corações. Interrogado uma terceira vez, ele se
perturba, e o temor o domina. Lembra-se de que outrora fizera afirmações
solenes, que os acontecimentos haviam desmentido. E é por isso que procura,
agora, apoiar-se em Jesus: O senhor sabe tudo e sabe que eu o amo, Senhor!
É como se dissesse Senhor, Tu conheces tudo, o presente quanto o futuro. Vede
como se tornou melhor e mais humilde, como perdeu sua arrogância e seu espírito
de contradição! Perturbou-se ao pensamento de que podia ter a impressão de
amar, sem amar realmente. Tanto estava seguro de mim mesmo no passado, pensa
ele, como agora me sinto confuso. Jesus o interroga três vezes, e três vezes
lhe dá a mesma ordem: Apascenta as minhas ovelhas. Demonstra assim o
apreço que tem pelo cuidado de suas ovelhas, pois faz, de tal cuidado, a maior
prova de amor para com ele.
Depois
de ter falado a Pedro deste amor, Jesus prediz o martírio que lhe está
destinado. Manifesta desse modo toda a confiança que deposita nele. Para nos
dar um exemplo de amor e mostrar a melhor forma de amar, diz ele: Quando
você era moço, você se aprontava e ia para onde queria. Mas eu afirmo a você
que isto é verdade: quando for velho, você estenderá as mãos, alguém vai
amarrá-las e o levará para onde você não vai querer ir.
Era,
aliás, o que Pedro tinha querido e desejado outrora; por isso é que Jesus lhe
fala assim. Pedro dissera, com efeito: Eu darei a minha vida por ti! (Jo
13, 37). E também: Ainda que eu tenha de morrer contigo, não te negarei!
(Mt 26, 35; Mc 14, 31). Jesus consente o seu desejo. Fala-lhe desse modo não
para amedrontá-lo, mas para reanimar seu ardor. Conhece seu amor e sua
impetuosidade; pode anunciar-lhe o gênero de morte que lhe reserva no futuro.
Pedro sempre desejara enfrentar perigos por Cristo. Tem confiança, diz Jesus,
teus desejos serão satisfeitos; o que não suportaste em tua mocidade suportará
na velhice. E, para nos chamar a atenção, São João acrescenta: Jesus disse
isso para dar a entender com que morte Pedro iria glorificar a Deus. E esta
palavra nos ensina que a nossa honra e glória está em dar a nossa vida por
Cristo em nossos irmãos e irmãs que lutam por um lugar ao sol.
Caros irmãos,
Celebrando esta Vigília, com alegria, imploremos o
auxílio divino para a Santa Igreja de Deus espalhada por toda a terra e para
todas as necessidades do mundo inteiro, pela saúde, rezando, particularmente,
pelo Santo Padre o Papa Leão XIV, a fim de que, como sucessor de Pedro, governe
o povo de Deus com solicitude paterna!
São Pedro e São Paulo foram colunas inabaláveis no início da Mãe Igreja e nos deixaram o exemplo da fé comprometida com o Reino de Deus. Diante das adversidades e indiferenças para com Deus em nossos dias, temos muito o que deles aprender para testemunhar a fé. Sejamos, pois, corajosos, como eles e tantos outros o foram no anúncio do Cristo Ressuscitado!
Padre Wagner Augusto Portugal.
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