“Eis os pensamentos do seu coração, que permanecem ao longo das gerações: libertar da morte todos os homens e conservar-lhes a vida em tempo de penúria” (cf. Sl 32, 11.19).
Comecemos este dia com um pouco de história: a devoção católica ao Coração de Jesus foi iniciada com os místicos dos séculos XI e XII, que encorajavam os fiéis a meditar sobre a Paixão do Senhor, a venerar as sagradas chagas e a refugiar-se no coração aberto pela lança do soldado (Cf. Jo 19,34). São Boaventura pode ser considerado um dos maiores místicos devotos do Coração de Jesus. A primeira igreja dedicada ao Coração de Jesus foi edificada em 1585 no Brasil. Com São João Eudes, à partir do século XVII, e de Santa Margarida Maria Alacoque, que teve visões de Jesus com o coração flamejante à vista sobre o peito, como são as imagens do Coração de Jesus de nossos dias. Essa devoção, diante do jansenismo, pregara à universalidade da graça, isto é, que Deus é misericordioso para com todos, que se encarnou para salvar a todos os homens e mulheres, que não há pecado no mundo que não possa ser perdoado pelo sangue redentor de Cristo. A festa de hoje foi instituída, oficialmente, somente em 1856 sob o pontificado do Papa Pio IX e o Sumo Pontífice Leão XIII consagrou o mundo ao Sagrado Coração de Jesus. Já o Papa Pio X prescreveu que a consagração ao Coração de Jesus fosse renovada todos os anos, diante do Santíssimo Sacramento exposto. A Ladainha do Coração de Jesus, o mês de junho particularmente dedicado a esta devoção, e o nascimento do Apostolado da Oração com os seus zeladores, zeladores as intenções que mês a mês, com o Sumo Pontífice vamos rezando.
Celebramos a solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Nas suas duas dimensões queremos bendizer as maravilhas que o Coração do Cristo nos presenteia: em primeiro lugar a misericórdia de Deus encarnada em Jesus de Nazaré e, em segundo lugar, a reparação pelos pecados individuais e da sociedade.
Ligada a festa de Jesus Bom Pastor, segundo antiguíssima tradição, a Igreja celebrava a dimensão da misericórdia. É Jesus, o Bom Pastor, que conhece as ovelhas e as chama pelo nome, o pastor que procura a ovelha perdida, o pastor que coloca ternamente a ovelha encontrada nos ombros, o pastor que faz festa por ter recuperado a ovelha, o pastor que dá a vida pelas ovelhas. Por isso é bom sempre lembrarmos que a ovelha simboliza a criatura humana, que é pecadora, buscada e encontrada por Jesus e sempre de novo perdoada por Ele.
A reparação, desenvolvida pela teologia, à medida que se foi compreendendo que, assim como Jesus ofereceu a sua vida em resgate dos pecados cometidos pelas criaturas humanas, também nós podemos “pagar” os pecados do próximo, podemos ser, em uma linguagem familiar, a vassoura de limpeza, e podemos apresentar a Deus, amor, onde há ódio e vingança; pureza de coração, onde há devassidão e ganância; piedade e adoração, onde há desprezo e ateísmo.
Meus caros irmãos,
Gostaria de ressaltar nesta solenidade duas dimensões fundamentais: a HUMILDADE e a MANSIDÃO. Essas dimensões que o Coração do Cristo se nos apresenta são características fundamentais da Vocação Cristã. Por isso, São Mateus, em seu Evangelho de hoje Mt 11, 25-30, nos apresenta a auto-revelação de Jesus sobre a sua origem divina, a sua missão aqui na terra e o caminho que a criatura humana deve percorrer para revestir-se da misericórdia de Deus e entrar em comunhão com o Senhor. Jesus nos ensina que o seu coração é “manso e humilde”. Quando Jesus fala que o seu coração é manso e humilde é Ele inteiro que encarna a mansidão e a humildade. À semelhança dos mestres do seu tempo, Jesus anda rodeado pelos seus discípulos a quem revela a paternidade divina, isto é, que Deus é Pai, sobretudo de Jesus e, por meio d´Ele, dos crentes. É o máximo que se pode dizer da relação de Deus com os homens e dos homens com Deus. Ao contrário do que acontecia, Jesus não recruta os seus seguidores entre os sábios e poderosos do seu tempo, mas entre os pequenos e humildes, aqueles que efetivamente esperam o Reino e estão dispostos a acolhê-lo. Jesus introduzir os seus discípulos na compreensão do Mistério de Deus, descobrindo assim o segredo da alegria e da verdadeira felicidade.
Caros irmãos,
A perícope evangélica desse Domingo é uma pérola preciosa que nos ajuda a conhecer um pouco daquilo que era a oração de Jesus. Evidentemente, o mais importante da oração não é aquilo que dizemos a Deus, mas o que Ele nos diz, que uma vez acolhido será testemunhado pelas nossas atitudes, dispensando até mesmo as palavras.
Podemos identificar três elementos fundamentais da oração de Jesus como encontramos nesse relato. Antes de tudo, a oração de Jesus é ação de graças: “Eu te louvo, ó Pai”. É uma oração que explode de um coração cheio de gratidão, fruto de um reconhecimento diante daquilo que gratuitamente já foi oferecido pelo Criador, pois é Ele o: “Senhor do céu e da terra”. Esta ação de graças de Jesus não se perde em louvores genéricos, nem repetições vazias de palavras bem elaboradas e retoricamente bonitas, mas manifesta o reconhecimento diante da ação de Deus que não cria apenas o mundo, mas se faz presente na história concreta dos homens, revelando-lhes os seus desígnios e a sua vontade que é sabedoria para os simples e humildes.
Considerando que o mais importante na oração não são as palavras humanas, mas aquilo que Deus revela, só os pequeninos são capazes de acolher essa manifestação. A palavra que geralmente se traduz por pequeninos (grego: nepioi) tem uma conotação específica que ajuda a compreender a necessária atitude para quem reza. Pequenino em grego significa “aquele que não fala” (o bebê, infante). Sem dúvida, a capacidade de se expressar através da palavra é uma das experiências mais vislumbrantes, porém pode-se correr o risco de provocar um desequilíbrio a ponto de se fazer um mau uso das palavras, transformando-as em instrumentos de dominação das pessoas e manipulação ideológica da realidade.
A criança que ainda não fala não significa que não se comunica, mas o faz de modo mais intensivo pois é todo o seu ser que se expressa. A mãe que conhece intimamente o seu bebê compreende toda a sua comunicação, as suas necessidades, o que sente e está passando sem precisar ouvir uma só palavra. Mais do que a explicação de palavras que podem complicar, é a vivência profunda da relação que comunica o que há de mais necessário.
A própria tradição sapiencial atesta que o louvor perfeito vem dos pequeninos: “Quão poderoso é teu nome… Pela boca das crianças e bebês tu o firmaste…” (Sl 8,1s).
O segundo elemento da oração de Jesus é a sua consciência em relação ao Pai: “Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho senão o Pai”, reconhece assim a sua total dependência do Pai, e a sua condição de servo ao assumir a natureza humana, fazendo-se pequenino, passando também pela experiência de bebê, infante. Sendo Ele mesmo o Verbo eterno, a Palavra da vida, entra no mundo em silêncio e aprende a falar como homem cuja palavra atinge a sua forma mais perfeita e elevada na oração. Mais uma vez entre o Pai e o Filho não há palavras genéricas, conceitos teóricos, mas relacionamento, pois se conhecem, e isto não é possível sem convivência. A oração é experiência de conhecimento mútuo; o orante cresce no conhecimento de Deus com quem se relaciona e convive, e ao mesmo tempo toma consciência que Deus o conhece profundamente, e por isso não carece de suas informações, deseja apenas relacionamento amoroso.
O terceiro elemento é o convite: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos”, a autêntica oração torna-se testemunho de atração, convite para que outros também sintam o desejo e a necessidade de estabelecer relacionamento com Deus. A oração, mais do que palavras, é experiência de encontro que imprime no orante uma marca, algo que será visto pelos outros. Jesus ao convidar os cansados e fatigados a virem até Ele, está propondo um caminho a ser seguido, não apenas um lugar para acomodar-se: “Aprendei de mim”. Consequentemente, a oração é escola do discípulo. É lá que os simples e pequeninos ouvirão mais do que falarão.
Nessa oração de ação de graças de Jesus deve se espelhar toda oração cristã. Mais do que palavras de entendidos e sábios, a oração é escuta da Palavra que Deus dirige como convite a seguir seu Filho, e por isso exige a sabedoria dos que não falam: o silêncio de quem quer aprender.
Prezados irmãos,
E São Paulo tem razão ao pedir aos Efésios que tenham “humildade e mansidão”, porque elas são características da vocação crista (cf. Ef 4,1-2). Se Jesus se apresenta cheio de ternura e manso de coração, ou seja, humilde, os homens e mulheres deveriam ser reconhecidos pela sua vida humilde, pacífica, terna, simples, de um coração compreensivo para com todos. Para compreender a pessoa de Jesus temos que entender as categorias de sua humildade e de sua mansidão, no seu agir, no seu comportamento, na sua pregação, na sua conduta de redentor e salvador da Humanidade. Por isso o Coração de Jesus não exclui ninguém. É na acolhida ao outro que o Cristo nos ensina a vivermos em comunidade.
Prezados irmãos,
A Primeira Leitura (Cf. Dt 7,6-11) diz “Tu és um povo consagrado ao Senhor, teu Deus” (v. 6). Esta definição é feita pelo profeta no contexto da pregação do mandamento capital: “Escuta, Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor!” (6, 4). O povo violou este mandamento aceitando divindades cananeias. Daí a catástrofe do exílio. O autor sagrado coloca na boca de Moisés o discurso que os profetas faziam desde o século VIII a. C. Trata-se simultaneamente de uma denúncia e de uma promessa: Israel não está a morrer, mas no transe para renascer como novo povo de Deus, preparando-se para entrar na terra prometida. Conhecida a própria identidade, - ser um povo consagrado ao Senhor - há que viver em consonância com ela. A libertação, e a escolha feita por Deus, devem-se unicamente ao Seu amor. A resposta de Israel só pode ser amar o Senhor, fazendo a sua vontade, expressa nos mandamentos.
Na Segunda Leitura (Cf. 1Jo 4,7-16) relata que Deus é amor em Si mesmo, e é a verdadeira fonte do amor para nós. O único caminho para chegar a Deus é o amor. O amor de Deus foi-nos mostrado em Cristo, para nossa salvação. São João afirma que, pela sua fé, teve a felicidade de reconhecer presente no mundo, na Pessoa de Jesus, o amor de Deus. Levar os outros homens a descobrir este amor de Deus presente no mundo, é missão de todo o cristão. É através do testemunho do nosso amor fraterno, através da nossa doação efetiva aos outros, que podemos levar os homens a acreditar no amor de Deus, que enviou ao mundo o seu Filho. O Coração de Jesus é o que há de mais profundo na humanidade assumida pelo Verbo. É o “ponto” onde toda a humanidade de Jesus se recolhe e encontra com a divindade, realizando, assim, o grande mistério de Deus feito homem. Se toda a humanidade de Jesus é o sacramento primordial da salvação, o seu Coração é-o de modo muito especial.
Porque é que a Igreja nos propõe o Coração como sinal concreto do amor divino-humano de Jesus, como expressão mais evocadora do amor com que Deus nos ama? Porque, na Bíblia, o coração é a parte mais nobre e mais importante do homem. É o “núcleo íntimo da pessoa”, sede da sua vida espiritual, lugar por excelência do encontro com Deus. Do coração nasce o que inquina o homem, mas também o que o santifica. O coração representa, pois, aquilo que, hoje, chamamos o “eu” profundo, o “eu” secreto. No culto ao Coração de Jesus, honramos toda a pessoa do Redentor e somos conduzidos à fonte dos seus sentimentos e das suas ações salvíficas. Esta concentração de interesse à volta do Coração de Jesus remonta já ao Novo Testamento, ao momento da morte de Cristo. São João, com a extraordinária – e, quase diríamos, desproporcionada – importância que dá à transfixão de Jesus na cruz, abre o caminho que conduzirá à contemplação do Lado aberto e ao culto do Coração de Jesus. O seu comentário ao episódio: “Hão-de olhar para aquele que trespassaram”, revelar-se-á uma profecia.
Para nós, hoje, o coração já não representa o que representava para o homem bíblico. Todavia ainda encontramos na linguagem comum e no sentimento popular expressões que se aproximam do conceito bíblico: “tem bom coração”, “tem mau coração”, “é um homem de coração”. Hoje, as funções mais nobres do homem são atribuídas ao cérebro, à inteligência, à vontade. Mas ainda há uma coisa que nos ajuda a compreender, por analogia, o significado do Coração de Jesus: o coração é o motor de todo o corpo; a vida e a morte são assinaladas por ele; está presente em todo o organismo e fá-lo vibrar com o seu próprio movimento; a ele aflui o sangue venoso, que é regenerado, reciclado e reenviado a todos os membros do corpo. É o que faz, a nível espiritual, o Coração de Jesus no grande corpo que é a Igreja! No Coração de Jesus aconteceu a primeira purificação de todos os pecados, a regeneração da esperança e do amor humano. Todo o perdão, toda a graça, toda a inspiração, toda a esperança e toda a alegria, todo o impulso de unidade e de fraternidade que experimentamos na nossa vida, parte do centro que é o Coração de Jesus. Foi esse o desígnio do Pai: que nele habitasse “toda a plenitude”, graça sobre graça (cf. Col 2, 9; Jo 1, 16). A razão de tudo isto é que, naquele Coração, sobre a cruz, se consumou um ato de obediência total e perfeita a toda a vontade de Deus; por isso, Deus O exaltou e colocou nas suas mãos a salvação de todos os homens. O Coração de Jesus é a mina em que se encontram “todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (cf. Col 2, 3).
Irmãos e Irmãs,
Tradicionalmente, a Igreja dedica todo o mês de junho ao Sagrado Coração de Jesus, e convida os cristãos a fazer seu o olhar de Cristo sobre a humanidade e a agir com os sentimentos de seu Coração, sobretudo para aliviar o sofrimento dos mais frágeis.
O Coração de Cristo simboliza seu centro pessoal, de onde brota seu amor pela humanidade: é o mistério do coração de Deus que se comove e derrama seu amor sobre todos os homens e mulheres do mundo, em todos os tempos.
Ainda que a devoção ao Coração de Cristo tenha estado sempre presente na espiritualidade cristã, o seu auge se deu com as revelações a santa Margarida Maria Alacoque e sua interpretação por São Claudio La Colombière, SJ, no séc. XVII. O Papa Pio IX proclamou a festa do Sagrado Coração em 1856; posteriormente, o Papa Leão XIII reforçou sua importância elevando-a como Solenidade em 1889.
Um bom motivo da relevância do Sagrado Coração na vida da Igreja se encontra tanto na devoção popular quanto no fato de que quatro Papas lhe dedicaram uma encíclica. Leão XIII, de quem o atual Pontífice assumiu o nome, escreveu a Annum sacrum em 1899; nela, consagra toda a humanidade ao Coração de Jesus. Em 1928, Pio XI, na Miserentissimum Redemptor, convida a reparar, com gestos de amor, as feridas causadas por nossos pecados ao Coração de Cristo. Em 1956, o Papa Pio XII publica a Haurietis aquas, na qual se aprofunda a teologia da devoção ao Sagrado Coração. Finalmente, o Papa Francisco, em 2024, escreve a Dilexit nos e propõe a devoção ao Coração de Cristo como resposta à cultura do descarte e da indiferença.
Caros irmãos,
O amor de Deus por todos os viventes é UNIVERSAL. Se a vida tem os seus percalços, as suas dificuldades, os seus problemas, e Deus tem consciência disso, devemos olhar o amor de Deus por nós, que nos acolhe, que nos ama e que nos dá a força necessária para passarmos pela noite escura. Jesus é Vida, que nos faz compreender as coisas certas. Jesus é a Verdade, para nos fazer encurtar distâncias. Jesus é o Caminho, desde que contemplemos o seu coração humilde e simples. Só pode contemplar o Coração do Cristo aqueles e aquelas que tem a largura, o comprimento e a altura do amor de Cristo derramado sobre todas as criaturas, tornando-as participantes da plena comunhão com Deus. No pleno amor e na comunhão nós contemplamos o Sagrado Coração de Jesus, a “fornalha de amor”, que destrói nossos pecados, que brota o fogo divino redentor que Jesus veio trazer à terra e que gostaria que incendiasse o mundo.
Ninguém está excluído da salvação. Ninguém está excluído da redenção. Por isso o Coração do Cristo nos pede é que sejamos como as crianças: sem maldade, sem orgulho da auto-suficiência, sem a exigência violenta de quem se julga dono do mundo.
Padre Wagner Augusto Portugal
Comentários
Postar um comentário