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Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, A.


 “O Senhor alimentou seu povo com a flor do trigo e com o mel do rochedo o saciou” (cf. Sl 80,17).

Meus queridos irmãos,

            A solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo é o prolongamento da atmosfera pascal, atmosfera do mistério de nossa redenção pelo Senhor morto e glorificado, a Igreja quer celebrar de modo mais expresso o sacramento pelo qual participamos da doação até o fim de seu corpo e sangue, conforme a palavra de Jesus na Última Ceia.

            Embora esta celebração seja uma extensão da Quinta-feira Santa, o Evangelho é o texto eucarístico de João (cf. Jo 6,51-58), que não se encontra no contexto da Última Ceia, como nos evangelhos sinóticos, mas no contexto da multiplicação do pão. Jesus explica o sentido do “sinal do pão”. Para os judeus, a multiplicação do pão significou saciação material, ou seja, messianismo político. Para Jesus, a multiplicação dos pães significava o dom de Deus que desce do céu, e que é ele mesmo, em pessoa.

Estimados irmãos,

            A festa de hoje poderia ser chamada à festa da presença de Jesus Cristo na comunidade dos fiéis, na comunidade cristã. Por isso mesmo se faz a procissão do Santíssimo, passando pelas principais vias das cidades, especialmente ornadas para a festa de hoje. Celebra-se, sim, a presença de Cristo na hóstia consagrada, mas se celebra sobretudo a Eucaristia como raiz e ápice da comunidade. Raiz porque, como a planta, a comunidade se alimenta e cresce através da Eucaristia, “Pão da Vida” (cf. Jo 6,35). Ápice, ponto mais alto, porque a comunidade não tem outra coisa mais preciosa nem outra escada mais segura para encontrar-se com o seu Deus e entrar em comunhão com Ele.

            Há dois modos de Jesus estar presente na comunidade: uma presença chamamos de espiritual. Como Deus, Jesus está presente em toda à parte. À semelhança do vento, sopra onde, quando e como quer (cf. Jo 3,8). Como Redentor, Jesus está presente e sempre operante na comunidade, porque Ele é a cabeça viva de um corpo vivo, que é a Igreja (cf. Cl. 1,18). Somos o corpo vivo do Senhor (cf. Rm 12,5). Estamos integrados numa única construção harmoniosa (cf. Ef 2,22) em que Cristo é o fundamento e é tudo para todos (cf. Cl 3,11). Essa presença dinâmica acontece de modo muito particular nos atos litúrgicos, tanto na pessoa do ministro quanto na palavra que é anunciada e no ato de louvor, pedido e adoração que sobre ao céu. Podemos dizer que toda oração que fazemos passa por Jesus para chegar ao seu destino, e ao chegar aos céus nossa oração já não se distingue da oração do próprio Jesus. A segunda presença de Jesus, que também escapa aos nossos sentidos, é a presença real no Pão e no Vinho consagrados. Os nossos sentidos alcançam os sinais, não a presença. A essa presença chamamos de PRESENÇA SACRAMENTAL. Embora de forma misteriosa, isto é, acima da compreensão humana, é uma presença real e verdadeira. Assim, o Catecismo da Santa Igreja ensina que: “O modo de presença de Cristo sob as espécies eucarísticas é único. Ele eleva a Eucaristia acima de todos os sacramentos e faz com que ela seja como que o coroamento da vida espiritual e o fim ao qual tendem todos os sacramentos. No Santíssimo Sacramento da Eucaristia estão contidos verdadeiramente, realmente e substancialmente o Corpo e o Sangue junto com a alma e a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, o Cristo todo. Esta presença chama-se real não por exclusão, como se as outras não fossem reais, mas por antonomásia, porque é substancial e porque por ela Cristo, Deus e homem, se torna presente completo” (cf. Catecismo da Igreja Católica n. 1.374).

            As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil ensina que: “os pais transmitir a fé e dar testemunho do amor a Jesus Cristo e à Igreja, para seus filhos, na qualidade de primeiros catequistas. A espiritualidade conjugal e familiar se expressa na oração em família, na participação na eucaristia dominical e na dedicação aos serviços pastorais da comunidade.” (cf. Doc. 4 no. 130)

Estimados Irmãos,

            A Eucaristia é o coração da comunidade cristã, seja no sentido de ser a parte central, que une a todos, seja no sentido de ser, como o faz o coração, a distribuidora do sangue da vida comunitária. Assim como podemos dizer que sem a Eucaristia a comunidade perderia sua força de ser, também podemos dizer que sem a Eucaristia a comunidade jamais chegaria a ser “um só coração e uma só alma” (cf. At 4,32), uma comunhão com Deus (cf. Jo 17,21). 

            A Primeira Leitura (cf. Dt 8,2-3.14b-16a) serve para preparar o reto entendimento do sinal do pão, ao qual o Evangelho faz alusão. Já no Dt 8,3, o dom do maná, do “pão caído do céu”, é interpretado num sentido não material, mas teologal: o homem vide de tudo que sai – da boca – do Senhor: sua palavra, sua Lei. Ora, a Palavra por excelência é Jesus Cristo. Na primeira leitura ouvimos Deus pedir ao povo “lembra-te de todo o caminho por onde o Senhor teu Deus te conduziu(...). Não te esqueças do Senhor teu Deus que fez sair do Egito” (cf. Dt 8,2.14). Deus pede ao povo que conserve a memória de todos os seus atos realizados no meio dele e de toda a experiência da ação salvadora que o povo fizera. Os atos divinos não são acontecimentos que pertencem ao passado. Eles têm significado, valor e força para cada nova geração que os acolhe, que os conserva e que reflete sobre eles.

            O Salmo 147 relaciona, exatamente, o dom do trigo com a palavra que Deus manda para a terra (Salmo Responsorial).

            Na Segunda Leitura (cf. 1Cor 10,16-17), São Paulo lembra que o cálice da sagrada bênção e o pão repartido na assembléia cristã são participação e comunhão do sangue e do corpo do Senhor; participação ou “mistério” que nos faz reviver a doação de Cristo e realizá-la em nossa vida. E essa comunhão do único pão nos torna o único Corpo do Cristo. Na Ceia Eucarística comungamos a existência (corpo) e morte (sangue) de Cristo. Sendo uma esta vida que comungamos, formamos um só corpo também. Isto não é um jogo de palavras: quem despreza o “corpo de Cristo” – Igreja – ao participar da Ceia do seu Corpo sacramentado, exclui-se a si mesmo da comunhão de vida (1Cor 11,29). Quem comunga em Cristo, não pode comungar com os ídolos – de qualquer tipo – 1Cor 10,14.

            No Santo Evangelho (cf. Jo 6,51-58) Jesus, consciente do valor salvífico da memória dos atos divinos, cria um ato que, cada vez que é celebrado, rememora, atualiza e presenfica todos os atos divinos e salvíficos realizados na história da salvação. Jesus, na última ceia, institui a Eucaristia e diz: “fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19; 1Cor 11,24). Este ato, pelo poder divino da Palavra de Jesus, torna-nos presente, real e eficaz no sacrifício de Jesus na cruz; a oferta de sua vida por amor a cada pessoa humana; a vida mesma e inteira de jesus em corpo, alma e divindade. Toda a história da salvação é contida, conservada e presentificada neste ato. Além disso, a história da salvação é uma história que acontece no tempo, mas também está além dele.

            Devemos assimilar, em nós, a existência de Cristo por nós, sua “pós-existência”, como dizem os teólogos. Assimilar, pela fé, pela adesão existencial, dando razão a Jesus e conformando nossa vida com a sua. E o sinal sagrado, o sacramento disto, é realmente comer o pão que é seu corpo e beber o vinho que é o seu sangue. Realizando autenticamente este sinal, teremos a vida divina que ele nos comunica. A “carne” é a existência humana, carnal, mortal – pois Jesus morreu; e o sangue é o sangue derramado, sua morte violenta: são estes que devemos assimilar em nós pelos sinais sagrados. A estas realidades devemos aderir na fé, assimilada pelo sacramento. Devemos “engolir” Jesus bem assim como ele foi: dado até a morte sangrenta. A Santa Eucaristia é antegosto e antecipação da vida futura e bem-aventurada que Jesus nos prometeu. Por isso, como Jesus afirmou no Evangelho de hoje, a Eucaristia é o pão divino, é o alimento da imortalidade, é a vida divina que nos é oferecida de modo sensível, real e verdadeiro (cf. Jo 6,51.54-58).

Caros irmãos,

            O Evangelho desta solenidade não repete a cena da instituição da Eucaristia. Lemos uma catequese eucarística que se desenrola em Cafarnaum (Jo 6,24-25), por consequência da multiplicação dos pães (Jo 6,1-14). O trecho bíblico em questão nos revela que a união ativa do discípulo com Jesus se expressa, doravante, mediante a metáfora do comer e do beber. Jesus sintetiza seu ensinamento, explicitando qual alimento ele oferece. O pão vivo que desceu do céu é sua carne para a vida do mundo (v. 51). O sermão poderia se concluir aqui. Antes (Jo 6,35-50), Jesus falava do pão que o Pai daria; agora, ele explicita seu anúncio, falando do dom de sua vida (sangue e carne) na cruz. Exatamente nesse momento, Jesus será, mais do que nunca, mensagem e Palavra do Pai, Palavra de amor até o fim. Evidentemente, os judeus não entendem seu ensinamento (v. 52) e murmuram contra ele, como os antepassados no deserto (Jo 6,41.43; Ex 16,2; 17,3; Nm 11,1; 14,27). Jesus não ameniza suas palavras nem diminui a força de sua mensagem por causa da incompreensão de alguns. Ele explica que quem não come a carne do Filho do Homem e não bebe seu sangue não tem vida em si. Em contrapartida, quem come (literalmente “mastiga”) sua carne e bebe seu sangue tem a vida eterna oferecida por ele e participará da ressurreição do último dia (v. 53-54). Portanto, aquelas pessoas que celebram o memorial do corpo e sangue do Senhor acolhem a eternidade por meio do comer o pão e beber o vinho. Jesus permanece nelas e elas com Jesus (v. 56-57). A palavra “carne”, preciosa para João (1,14), designa a realidade humana com suas possibilidades e fraquezas (Jo 3,6; 8,15). A humanidade de Jesus, sua existência terrena e o mistério de sua vida são oferecidos para que quem nele crê possua a vida eterna. É preciso participar da comunidade reunida em torno do sacramento, refeição material na qual Jesus se torna presente pelo dom de sua vida humana (sua carne) e de sua força vital (seu sangue derramado na cruz). Optar por Jesus não é questão meramente individual, mas também comunitária. Ninguém é fiel sozinho. Quem se alimenta do que Jesus oferece tem a vida dele em si. Por fim, a fala de Jesus se conclui com um eco do que foi lido nos v. 48-51. Jesus é o pão que desceu do céu. Não é como aquele pão que os antepassados comeram. Eles morreram! O que come deste pão viverá para sempre (v. 58). A passagem se encerra com a afirmação de que quem crê em Jesus tem a vida eterna (Jo 3,15.16.36). Ele é o pão da vida. Os antepassados dos interlocutores de Jesus comeram o maná no deserto e morreram por lá. O maná saciava apenas a matéria, que se deteriora com o tempo. Jesus é alimento que vem de Deus, pois desceu do céu para gerar vida eterna em quem dele se aproxima. Ele não apenas dá a vida, mas também possui a vida em si mesmo (Jo 1,4; 5,26). A Eucaristia dada por Jesus e celebrada por nós é o memorial dessa entrega de si que culminou na cruz. Cada vez que comungamos do pão “eucaristizado”, estamos acolhendo o dom de sua vida, entregue por amor a cada um de nós. Esse alimento gera a vida eterna em nós e nos conduz à eternidade definitiva, para a qual fomos criados.

Queridos irmãos,

            Na procissão da Quinta-Feira Santa, a Igreja acompanha Jesus ao monte das Oliveiras: a Igreja orante sente um desejo profundo de vigiar com Jesus, de não o deixar sozinho na noite do mundo, na noite da traição, na noite da indiferença de muitos. Na festa de Corpus Christi, retomamos esta procissão, mas na alegria da Ressurreição. O Senhor ressuscitou e precedeu-nos. Nas narrações da Ressurreição há uma característica comum e fundamental; os anjos dizem: o Senhor “vai à vossa frente para a Galileia. Lá o vereis” (cf. Mt 28, 7). Considerando isto mais de perto, podemos dizer que este “preceder” de Jesus exige uma dupla direção. A primeira é como ouvimos a Galileia. Em Israel, a Galileia era considerada como a porta que se abre para o mundo dos pagãos.

Prezados irmãos,

        Os cristãos que celebravam a Eucaristia se sentiam impelidos a assumir o que o sacramento significava, conscientes de que recordavam o que Jesus tinha sido e comprometendo-se a viver como ele viveu. É preciso sacudir nossa rotina e mediocridade. Não podemos comungar com Cristo na intimidade de nosso coração sem comungar com os irmãos e irmãs que sofrem. Não podemos compartilhar o pão Eucarístico ignorando a fome de milhões de seres humanos, privados de pão e de justiça. É uma ofensa darmos a paz uns aos outros ao mesmo tempo que somos canais propagadores de ódio, preconceito e intolerância. É um engano manifestar que estamos em comunhão junto à mesa quando, na realidade, somos mediadores da “cultura da indiferença”. Participar da Eucaristia não pode ser mero cumprimento de preceito religioso, mas deve ser comprometimento com o que se celebra. Recebemos o corpo e sangue do Senhor para nos tornarmos sua presença no mundo atual. Assim como o Senhor amou até o fim, comungamos para amar com esse amor com o qual somos amados.A Eucaristia deve ser evidenciada como o centro e o ápice da vida cristã. Como o maná é sinal prefigurativo da Eucaristia, dom do Pai para o mundo. Ressalte-se a unidade e a comunhão como aspectos importantes e necessários da vivência da Eucaristia. A Eucaristia de diversos modos, realidades e vivências para que esta festa possa ser transformada em práticas cotidianas, que aproximam a vida da fé.

Prezados irmãos,

            Quando nós olhamos para a Hóstia consagrada em adoração, o sinal da criação fala-nos. Então encontramos a grandeza do seu dom; mas encontramos também a Paixão, a Cruz de Jesus e a sua ressurreição. Mediante este olhar em adoração, Ele atrai-nos para si, para dentro do seu mistério, por meio do qual nos quer transformar como transformou a Hóstia.

            A Igreja primitiva encontrou ainda no pão outro simbolismo. A Doutrina dos doze Apóstolos, um livro escrito por volta do ano 100, contém entre as suas orações a afirmação: "Assim como este pão partido estava disperso pelas colinas e ao ser recolhido se tornou uma só coisa, também a tua Igreja dos confins da terra seja reunida no teu Reino" (IX, 4). O pão feito por muitos grãos encerra também um acontecimento de união: o tornar-se pão dos grãos moídos é um processo de unificação. Nós próprios, sendo muitos, devemos tornar-nos um só pão, um só corpo, diz-nos São Paulo (cf. 1Cor 10, 17). Assim o sinal do pão torna-se ao mesmo tempo esperança e tarefa.

            De maneira análoga nos fala também o sinal do vinho. Mas, enquanto o pão nos remete para a quotidianidade, para a simplicidade e para a peregrinação, o vinho expressa o requinte da criação: a festa da alegria que Deus nos quer oferecer no fim dos tempos e que já antecipa agora sempre de novo levemente mediante este sinal. Mas o vinho também fala da Paixão: a videira deve ser podada repetidamente para assim ser purificada; as uvas devem amadurecer sob o sol e sob a chuva e deve ser esmagada: só através desta paixão amadurece um vinho precioso.

            Na festa de Corpus Christi olhamos sobretudo para o sinal do pão. Ele recorda-nos também a peregrinação de Israel durante os quarenta anos no deserto. A Hóstia é o nosso maná com o qual o Senhor nos alimenta é verdadeiramente o pão do céu, mediante o qual Ele se doa a si mesmo. Na procissão nós seguimos este sinal e assim seguimos a Ele próprio. E imploramo-l'O: guia-nos pelos caminhos desta nossa história! Mostra sempre de novo à Igreja e aos seus Pastores o caminho justo! Olha para a humanidade que sofre, que vagueia insegura entre tantas interrogações; olha para a fome física e psíquica que a atormenta! Concede aos homens pão para o corpo e para a alma! Dá-lhe trabalho! Concede-lhe luz! Concede-te a ti mesmo a ela!

Amados Irmãos,

           Corpus Christi não é veneração supersticiosa de um pedacinho de pão, nem uma ocasião para mandar procissões triunfalistas pelas ruas. É um comprometimento pessoal e comunitário com a vida de Cristo, dada por amor até a morte. É memorial da morte e ressurreição de Cristo, mas não um mausoléu; é um memorial vivo, no qual assimilamos o Senhor, mediante da refeição da comunhão cristão, saboreando um antegozo da glória futura.

           O Cristo sacramentado hoje, em plena rua, à frente de nossa sociedade, recorda que atividade e contemplação constituem um binômio vital, inseparável e fecundo. Nosso trabalho não está separado da oração. A oração não é fuga da atividade. Na oração encontramos o verdadeiro sentido do trabalho. No trabalho celebramos a eucaristia da vida, da vida plena.

            Que nestes dias possamos diante do sacrário adorar o Cristo presença-presente e Levá-lo para a nossa vida, santificando o mundo, fazendo de todos os batizados autênticos discípulos-missionários para que todos possam experimentar a vida plena que brota do amor de Deus que se dá a nós, sem mérito algum nosso, o Pão da Vida Eterna. Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal.

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