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10º Domingo do Tempo Comum - A

 “O Senhor é minha luz e minha salvação, a quem poderia eu temer? O Senhor é o baluarte de minha vida, perante quem tremerei? Meus opressores e inimigos, são eles que vacilam e sucubem” (cf. Sl 26,1s).

Meus irmãos,

Celebramos hoje a misericórdia de Deus que não tem parâmetros para excluir, mas para incluir todos, principalmente os que estão à margem da sociedade. Uma sociedade que valoriza mais o individualismo, o consumismo, o ter em detrimento do ser, do prazer em detrimento do amor gratuito, a liturgia de hoje nos convida a construir o Reino de Deus, à partir do apelo para que todos se convertam e venham para o seguimento de Jesus, nunca fechando nossos corações, mas sempre abertos para ouvir a Palavra de Deus.

Irmãos e Irmãs,

               A Primeira Leitura de hoje (Os 6,3-6) nos oferece um entendimento de que os julgamentos externos devem ser deixados de lado em favor da gratuidade do Senhor Deus da Vida. O amor sempre agrada a Deus. Os sacrifícios, por outro lado, nem sempre agradam a Deus, porque sempre vem desvinculada dos vínculos de justiça, caridade, amor, acolhimento. Oferecer a Deus bens que foram injustamente ajuntados ou subtraídos de outras pessoas mais pobres é como seguir a advertência do Eclesiástico: “É como imolar o filho na presença do pai oferecer um sacrifício retirado dos bens dos pobres”.

               O importante na vida do cristão é amar sem limites, com misericórdia, acolhimento, partilha, sem “retratos falados” ou reducionismos que mais oprimem do que acolhem os que estão fora do aprisco. O anúncio missionário nos pede que amemos aqueles que estão ao largo, distante da Igreja, para que eles entrem dentro de nossa realidade pastoral, eclesial e comunitária.

Meus amigos,

               O Evangelho de hoje (Mt 9,9-13) nos pede unidade no meio do pluralismo. O que vem a ser isso? Para o Salvador não é a pureza ritual da lei que conta, mas a pureza do coração, isto é, é a amizade com Deus, a busca contínua de debater com o pecado, acolhendo não o pecado, mas o pecador, procurando tirar dos corações das pessoas as maldades para que dêem testemunho do Senhor Ressuscitado.

               Ninguém hoje pode ser como os fariseus, saduceus, escribas e chefes do povo do tempo de Jesus que cumpriam toda a lei ritual, mas esqueciam de viver o amor e a caridade. Dentro do próprio Direito Canônico o último cânon ilumina toda a vida jurídica da Igreja: se for preciso salvar as almas vamos salvá-la, porque a SALUS ANIMARUM SUPREMA LEX, ou seja, A SALVAÇÃO DAS ALMAS, COMO O AMOR, A ACOLHIDA, A PARTILHA, É A SUPREMA LEI DA IGREJA, é doce página do Evangelho que hoje refletimos indo contra “toda esperança humana, mas guiados pela fé” a exemplo de Abraão, nosso Pai na Fé.

               Jesus acolheu aqueles que estavam à margem da classe sacerdotal e ritualista de seu tempo anunciando que o Reino de Deus é para todos. Basta seguir o preceito maior da Lei da acolhida: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”. Essa é a pedagogia, o jeito de ser Igreja que nós queremos. Como Jesus acolheu e pregou para todos, nós também queremos imitá-Lo e segui-Lo.

               Nisso está a riqueza da Igreja: aqueles que pensam diferente de minha espiritualidade ou de meu “modus pastoralis” também tem direito de pertencer ao grêmio da Igreja. Pelo Batismo todos somos constituídos cidadãos da Igreja, portanto, estamos credenciados para vivificar nossa fé, na UNIDADE, em meio a tanta diversidade de espiritualidades.

Irmãos e irmãs,

               Saber todas as ciências humanas e eclesiásticas, como Filosofia, Teologia e mestrados e doutorados nisso e naquilo somente terá valor se o coração do Ministro e do Fiel, do Padre e da Liderança, estiver contaminado de Misericórdia, a exemplo da Misericórdia “do Coração de Jesus e de Maria que marcam profundamente a vida de nossa Igreja”.

               Em virtude da suma misericórdia que Jesus sentou-se à Mesa do impuro cobrador de impostos Mateus e jantou com ele. Partilhar uma refeição na linguagem bíblica é ser amigo, fazer-se presença amorosa e generosa de partilha, acolhimento, amor, caridade. Porque se os fariseus criticavam Jesus de sentar-se à mesa com pecadores, o médico das almas procura os doentes, porque os sãos já estão credenciados, pela coerência de sua fé, a ter acesso ao Reino das Bem-aventuranças, atendendo ao apelo do Profeta: “Eu quero amor, e não holocaustos” (cf. Os 6,6.).

               Deus se aproxima dos homens não para julgar, mas para amar. Dentro deste contexto sempre considerei o exemplo de Dom Eurico dos Santos Veloso, na sua vida simples e discreta, que nos dá uma prova de grande sabedoria, própria dos Sucessores dos Apóstolos, Dom Eurico sabe amar com a intensidade e a acolhida do Coração de Jesus, que molda os corações dos homens para a beleza do seguimento com misericórdia, na diversidade de carismas, na prontidão da busca da santidade cotidiana.

Meus irmãos e Irmãs,

               Jesus hoje nos convida para segui-Lo diuturnamente, no quotidiano de nossas vidas. Deus nos chama, respeitando nossa liberdade, nos mostrando um caminho, nos chamando a abrir a porta, sentando-se à mesa com o Senhor da Vida, nunca duvidando que a fé nos encaminha, a lançar de corpo e alma na proposta de minimizar nossos pecados, procurando emenda de vida, com obsequioso e misericordioso dever de sentar a Mesa, da Palavra e da Eucaristia, para dar, na diversidade, testemunho da UNIDADE TRINITÁRIA.

               Tenhamos todos a mesma atitude que teve Mateus ao chamado de Jesus: a prontidão. Mateus ouviu o convite: “Segue-me!” (cf. Mt 9,9). Em virtude do doce convite levantou-se e seguiu Jesus. Em seqüência veio o momento sublime da ceia, em que tomaram refeição juntos. A prontidão em atender ao chamado agrada ao Senhor. A mesma atitude teve a Virgem Maria que escutou a proposta de Deus e lhe disse um imediato e pronto SIM, e passou a ser abençoada por todas as gerações. Vamos lançar nossa confiança absoluta em Deus. Não importa os nossos pecados ou as nossas limitações. As condições para seguir a Jesus são as seguintes: ter um coração misericordioso, assim, a conversão de vida, escutar o chamado e seguir o Senhor, fazendo com Ele, Nele e Por Ele um só Coração e uma Só Alma. Assim todos nós seremos protagonistas da construção do Reino de Deus!

               Ao convite de Jesus para o pecador Mateus todos nós devemos ter a atitude do cobrador de impostos. Imediatamente deixando as preocupações do mundo somos convidados ao discipulado-missionário de Jesus, recebendo em cada Eucaristia que recebemos, o renovado ânimo de adesão a Jesus, ao seu Reinado, levando a todos, particularmente os mais pobres e pequenos, a confiança da misericórdia de Deus, que é a verdadeira medicina para as nossas almas e para a santificação de nosso cotidiano. Que Jesus, nosso Redentor, médico pleno, nos ajude, Amém!

Prezados irmãos,

               Jesus chama pecadores, o que causa grande escândalo junto a certos que se estimam piedosos. Mas Jesus veio exatamente para transformar os doentes em sãos, os pecadores em justo. Jesus veio buscar o “que estava perdido”. É esta a missão do Messias. O ensejo para isto está no chamado do publicado Mateus para ser seu discípulo e por ter comunhão de mesa com esta gente. Jesus veio cumprir o plano de Deus, prefigurado nas Escrituras, Jesus lembra a palavra de Os 6: “Misericórdia quero, e não sacrifício” – e aplica: “Eu vim para chamar os pecadores, não os justos”. São os enfermos que precisam de médico, não os que (se julgam) sãos.

Caros irmãos,

              

               Na segunda leitura – Rm 4,18-25 – fala-se da fé de Abraão. São Paulo explicou que Deus justifica o homem não por causa das obras – da lei – mas por causa da fé. Mas que implica a fé? Não dizer “Sim” a uma fria teoria, mas entregar-se à promessa, como Abraão. Acreditar, dar crédito a Deus – pois ele é fiel à sua palavra – também quando promete transformar a morte em vida. Paulo explica sua tese – a fé é que salva – pelo exemplo de Abraão. Pois este teve muita fé para acreditar que, na sua idade e na de Sara, teriam ainda um filho. Mas ele acreditou e isto lhe foi atribuído como justiça (Gn 15,6; Rm 4,22). Devemos acreditar no inexplicável em nossa vida, naquilo que escapa da garra da nossa racionalidade. É bom sermos racionais, lá onde convém: na ciência, no negócio, na tecnologia... Mas não temos poder sobre o mistério de nossa vida; este pertence a Deus; aí devemos dar crédito, acreditar; é isto que significa o maravilhoso fato do nascimento de Isaac e toda maravilha em nossa vida. Sem esta capacidade de maravilhar-nos, ficaremos cegos para aquele que nos dá a vida e tudo. Ficaremos mortos como teria ficado o seio de Sara, se Abraão não tivesse crido. Esta é uma atitude tão fundamental, que a podemos aplicar também ao que vimos no Evangelho: que Deus faz maravilhas com as pessoas a quem nós não damos importância.

Irmãos e irmãs,

Jesus é aquele que nos vê, nos chama e nos restaura em meio aos nossos dilemas humanos, permeados de maldade, pecados e angústias. Esse seu movimento gera em nós dom de comunhão e participação, de modo que o Senhor continua próximo a nós, amparando-nos, protegendo e socorrendo. Ele usa de misericórdia, bondade e paciência com cada um de nós.

Devemos ter consciência da importância de perseverar no caminho de fé e de obediência a Deus: em tempos de liquidez, é preciso (re)encontrar a prática do amor e da justiça, que nos conduzem ao próprio Senhor. A fé, dessa maneira, torna-se o elã vital que nos sustenta e nos revigora. Cabe-nos crer no Senhor Jesus com profundidade e sinceridade de coração, para que avistemos a salvação. É preciso dizer não a uma religião de pura externalidade, e sim a uma prática religiosa que nos converta e converta nossas estruturas, tocando nossa interioridade. Jesus é aquele que nos vê pessoalmente, nos chama e nos devolve a dignidade de sermos chamados filhos e filhas de Deus.

Prezados irmãos,

               As religiões se cercam de ritos, costumes, práticas e regras para se organizarem e ajudar as pessoas em seu processo espiritual. Todavia, algumas vezes as normas se sobrepõem ao humano, prejudicando-o na finalidade de crescimento pessoal. As leituras mostram que Deus prefere a sinceridade interna para a conversão a uma externalidade julgadora do próximo. Quem são hoje os que observam mais os outros que a si mesmos? Quem são os que ficam recomendando o que Deus deve ou não fazer com as pessoas, como se fossem “donos” de Deus? Quem são os apegados às rubricas e à letra da Lei para julgar os outros? Cada um deve dirigir essas questões primeiramente a si próprio, a fim de se abrir livremente para a misericórdia consigo e com os outros. Por fim, o Papa Francisco, na Carta Apostólica de conclusão do Jubileu da Misericórdia, afirma que “a misericórdia é esta ação concreta do amor que, perdoando, transforma e muda a vida. É assim que se manifesta o seu mistério divino. Deus é misericordioso” (Misericordia et Misera, n. 2). Nosso modo de viver reflete nossa fé em Deus. Se crermos em um Deus castigador e severo, assim seremos com as pessoas. Se confiarmos na misericórdia divina, agiremos com compaixão uns com os outros.

Padre Wagner Augusto Portugal.

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