“Tenho
os olhos sempre fitos no Senhor, porque livra os meus pés da armadilha. Olhai
para mim, tende piedade, pois vivo sozinho e infeliz” (cf. Sl. 24, 15s).
Meus
estimados Irmãos,
Como nós já havíamos refletido no
primeiro domingo da Quaresma, nos primórdios da Igreja, a Quaresma era o tempo
de preparação dos catecúmenos para a solenidade do Batismo. E o terceiro
domingo da Quaresma era o momento em que os catecúmenos prestavam o exame de
admissão, ou seja, os escrutínios. Neste dia liam-se os grandes textos bíblicos
com alusões ao Batismo em referência ao Evangelho de João. Na renovação da vida
Litúrgica da Igreja os textos que se referem ao Batismo são lidos e refletidos
de hoje até ao 5o. Domingo da Quaresma.
A Primeira Leitura deste domingo (cf.
Ex 17,3-7) e o Evangelho (Jo 4,5-15.19b-26.39a.40-42 – forma breve)
relacionam-se como figura e realização: a água pedida pelos israelitas no
deserto prefigura a água viva que Jesus dá. Mas a água exigida pelos hebreus
era coisa que eles conheciam e queriam; murmuraram até, pondo Deus à prova,
conforme nos anuncia o Salmo Responsorial: “Não fecheis, irmãos, o vosso coração, como
outrora no deserto!” (cf. Sl. 94). A samaritana, entretanto, não
conhece nem pede o dom que Jesus, misteriosamente, lhe oferece gratuitamente.
Jesus tem de conduzi-la para além de sua incompreensão. E assim, ela mesma
provoca a busca dos samaritanos, que acabam se dirigindo a Jesus.
A liturgia deste domingo coloca em
evidência a água no sentido simbólico que se apresenta no Santo Batismo.
Significa o dom de Deus, que é Jesus mesmo. E como nos ensina a Segunda Leitura
(cf. Rm 5,1-2.5-8), esse dom de Deus é gratuito: seu representante, seu Filho,
deu a vida por nós enquanto éramos seus inimigos! Receber essa água, no
batismo, é deixar-se envolver com esse amor gratuito de Deus em Jesus Cristo, é
comprometer-se com essa imensurável bondade. Isso só é possível porque Deus nos
amou primeiro.
Caros
irmãos,
A primeira leitura (cf. Ex 17,3-7) narra um episódio paradigmático, que
reproduz as vicissitudes e as dificuldades da caminhada histórica do Povo de
Deus. Desde que o Povo fugiu do Egito, até chegar a este lugar (Massa/Meribá,
segundo os autores do relato), Deus manifestou, de mil formas, o seu amor por
Israel. No episódio da passagem do mar (cf. Ex 14,15-31), no episódio da água
amarga transformada em água doce (cf. Ex 15,22-27), no episódio do maná e das
codornizes (cf. Ex 16,1-20), Deus mostrou o seu empenho em conduzir o seu Povo
para a liberdade e em transformar a experiência de morte numa experiência de
vida. Deus mostrou, sem margem para dúvidas, estar empenhado na salvação do seu
Povo. Depois dessas experiências, Israel já não devia ter qualquer dúvida sobre
a vontade salvadora de Deus e sobre o seu projeto de libertação. No entanto,
não é isso que acontece. Diante das dificuldades da caminhada, o Povo esquece
tudo o que Jahwéh já fez e manifesta as suas dúvidas sobre os objetivos de
Deus. A falta de confiança em Deus (“o Senhor está ou não no meio de nós?” –
vers. 7) conduz ao desespero e à revolta. O Povo entra em contenda com Moisés
(o nome “meribá” vem da raíz “rib” – “entrar em contencioso”) e desafia Deus a
clarificar, através de um gesto espectacular, de que lado está (o nome “massa”
vem da raíz “nsh” – “tentar”, no sentido de “provocar”). Acusam Deus de ter um
projecto de morte, apesar de Ele, tantas vezes, ter demonstrado que o seu projeto
é de vida e de liberdade. Afinal, depois de tantas provas, Israel ainda não fez
uma verdadeira experiência de fé: não aprendeu a confiar em Deus e a
entregar-se nas suas mãos.
Como é que Deus reage à ingratidão e à
falta de confiança do seu Povo? Com “paciência divina”, Deus responde mais uma
vez às necessidades do seu Povo e oferece-lhe a água que dá vida. À pergunta do
Povo (“o Senhor está ou não no meio de nós?”), Deus responde provando que está,
efetivamente, no meio do seu Povo. Desta forma os israelitas – e os crentes de
todas as épocas – são convidados a reter esta verdade definitiva: o Senhor é o
Deus que está sempre presente na caminhada histórica do seu Povo oferecendo-lhe,
em cada passo da caminhada, a vida e a salvação.
A caminhada dos hebreus pelo deserto
é, um pouco, o espelho da nossa caminhada pela vida. Todos nós fazemos, todos
os dias, a experiência de um Deus libertador e salvador, que está presente ao
nosso lado, que nos estende a mão e nos faz passar da escravidão para a
liberdade. No entanto, ao longo da travessia do deserto que é a vida,
experimentamos, em certas circunstâncias, a nossa pequenez, a nossa
dependência, as nossas limitações e a nossa finitude; as dificuldades, o
sofrimento e o desencanto fazem-nos duvidar da bondade de Deus, do seu amor, do
seu projeto para nos salvar e para nos conduzir em direcção à verdadeira
felicidade. No entanto, a Palavra de Deus deste domingo garante a cada batizado:
Deus nunca abandona o seu Povo em caminhada pela história. Ele está ao nosso
lado, em cada passo da caminhada, para nos oferecer gratuitamente e com amor a
água que mata a nossa sede de vida e de felicidade.
Ao longo da caminhada do Povo de Deus
pelo deserto vêm ao de cima as limitações e as deficiências de um grupo humano
ainda com mentalidade de escravo, agarrado à mesquinhez, ao egoísmo e ao
comodismo, que prefere a escravidão ao risco da liberdade. No entanto, Deus lá
está, ajudando o Povo a superar mentalidades estreitas e egoístas, fazendo-o ir
mais além e obrigando-o a amadurecer. À medida que avança, de mãos dadas com
Deus, o Povo vai-se renovando e transformando, vai alargando os horizontes,
vai-se tornando um Povo mais responsável, mais consciente, mais adulto e mais
santo.
É esta, também, a experiência que
fazemos. Muitas vezes somos egoístas, orgulhosos, comodistas que passam a vida
a lamentar-se e a acusar Deus e os outros pelos “dói-dóis” que a vida nos faz.
No entanto, as dificuldades da caminhada não são um castigo ou uma derrota;
são, tantas vezes, parte dessa pedagogia de Deus para nos forçar a ir mais
além, para nos renovar, para nos amadurecer, para nos tornar menos orgulhosos e
auto-suficientes. Devíamos, talvez, aprender a agradecer a Deus alguns momentos
de sofrimento e de fracasso que marcam a nossa vida, pois através deles Deus
faz-nos crescer.
Estimados
amigos,
O episódio da samaritana (cf. Jo
4,5-42 ou mais breve Jo 4,5-15.19b-26.39a.40-42) nos é apresentado porque ele
dá um encantamento a quaresma que é tempo de penitência, de jejum e de oração
para bem celebrarmos a Páscoa do Senhor. E este episódio coloca em evidência
que a samaritana nos ensina a adorar verdadeiramente a Deus, e com isso nos diz
como manter vivo e intenso o contacto entre nós e Deus.
Assim, a conversão é um reavivamento
do nosso Batismo, onde a água, pela força divina, nos lavou dos pecados, nos
abriu as portas do céu. Não a água em si, mas aquele que ela significa: o
Redentor, o Salvador, o Cristo Senhor.
O Batismo não pode ficar preso
apenas a um ritualismo de tirar a criança do paganismo. O Batismo envolve toda
a vida do cristão e gera um compromisso de participar da vida da comunidade, de
crescer em sabedoria, em caminhar em santidade para termos três atitudes
básicas na vida dos batizados: o louvor, a reverência e o serviço a
Cristo pelos irmãos.
Meus
irmãos,
Jesus usa, por doze vezes, o termo
mulher no Evangelho de hoje. Por isso é importante notar que a Samaritana se
torna o modelo de verdadeira discípula de Jesus. Isso porque ela convida seus
conterrâneos com as palavras da fé: “vinde e vereis!”. Verdadeira
discípula porque a samaritana ouve, abre o coração e a mente à verdade, crê com
fidelidade e dá ao mundo o testemunho. Essa deve ser a nossa atitude
nesta preparação mais próxima para a Páscoa.
Isso porque Jesus, um Judeu,
passando pela Samaria, teria que superar uma antiga rivalidade entre os judeus
e os samaritanos, que se evitavam, se odiavam e se provocavam mutuamente. E
isso, muitas vezes, infelizmente ocorrem em nossas famílias, em nossas
comunidades e em nossas Paróquias. Jesus estava sentado ao lado do poço, Ele o
Filho predileto do Pai do Céu, capaz de dar não apenas um poço de água
corrente, mas água viva, que jorra para a vida eterna.
Naquele tempo, nenhum homem descente
abordava uma mulher em público, conforme o costume, tanto judeu quanto
samaritano. Assim, um judeu que se prezasse não pedia jamais um favor a um
samaritano. Jesus, entretanto, quebra dois preconceitos ao mesmo tempo, coisa
que escandalizou aos seus próprios discípulos: conversa com a samaritana,
mulher e pede a ela que lhe desse de beber.
Isso tem um significado muito
especial para todos nós: Jesus veio para chamar os pecadores à conversão, não
importando qual a categoria de seu pecado, se leve ou grave, se público ou
privado, Jesus veio dar um rio de água viva, que é a mudança de vida, a emenda
de comportamento e a graça pela santidade.
Jesus chocou os hebreus que
detestavam os pecadores. Os hebreus que não acolhiam o diferente, como a
samaritana que era pagã, de vida desregrada, e, infelizmente mulher. Seria uma
insanidade perder tempo, qualquer rabino que fosse passando ensinamentos para
uma mulher.
Jesus vai na contramão: tem uma
atitude de misericórdia, abrindo o coração a uma pessoa necessitada de sua
ajuda.
Essa
“água viva” de que Jesus fala faz-nos pensar no batismo. Para cada um de nós,
esse foi o começo de uma caminhada com Jesus… Nessa altura acolhemos em nós o
Espírito que transforma, que renova, que faz de nós “filhos de Deus” e que nos
leva ao encontro da vida plena e definitiva. A minha vida de cristão tem sido,
verdadeiramente, coerente com essa vida nova que então recebi? O compromisso
que então assumi é algo esquecido e sem significado, ou é uma realidade que
marca a minha vida, os meus gestos, os meus valores e as minhas opções?
Atentemos no pormenor do “cântaro” abandonado
pela samaritana, depois de se encontrar com Jesus… O “cântaro” significa e
representa tudo aquilo que nos dá acesso a essas propostas limitadas, falíveis,
incompletas de felicidade. O abandono do “cântaro” significa o romper com todos
os esquemas de procura de felicidade egoísta, para abraçar a verdadeira e única
proposta de vida plena. Eu estou disposto a abandonar o caminho da felicidade
egoísta, parcial, incompleta, e a abrir o meu coração ao Espírito que Jesus me
oferece e que me exige uma vida nova?
Caros
irmãos,
Todas as conquistas do nosso tempo não conseguem calar a nossa sede de
eternidade, de plenitude, dessa “mais qualquer coisa” que nos falta para
sermos, realmente, felizes. A afirmação essencial que o Evangelho de hoje faz
é: só Jesus Cristo oferece a água que mata definitivamente a sede de vida e de
felicidade do homem. Essa “água viva” de que Jesus fala nos faz pensar no
batismo. Para cada um de nós, esse foi o começo de uma caminhada com Jesus.
Nessa altura acolhemos em nós o Espírito que transforma, que renova, que faz de
nós “filhos de Deus” e que nos leva ao encontro da vida plena e definitiva.
Atentemos no pormenor do “cântaro”
abandonado pela samaritana, depois de se encontrar com Jesus. O “cântaro”
significa e representa tudo aquilo que nos dá acesso a essas propostas
limitadas, falíveis, incompletas de felicidade. O abandono do “cântaro” significa
o romper com todos os esquemas de procura de felicidade egoísta, para abraçar a
verdadeira e única proposta de vida plena. A samaritana, depois de encontrar o
“salvador do mundo” que traz a água que mata a sede de felicidade, não se
fechou em casa a gozar a sua descoberta; mas partiu para a cidade, a propor aos
seus concidadãos a verdade que tinha encontrado.
Irmãos e irmãs,
A segunda leitura (cf. Rm 5,1-2.5-8)
demonstra que quando São Paulo escreve aos Romanos, ele está a terminar a sua
terceira viagem missionária e prepara-se para partir para Jerusalém. O apóstolo
sentia que tinha terminado a sua missão no oriente (cf. Rom 15,19-20) e queria
levar o Evangelho a outros cantos do mundo, nomeadamente ao ocidente.
Sobretudo, Paulo aproveita a ocasião para contatar a comunidade de Roma e para
apresentar aos Romanos os principais problemas que o ocupavam (entre os quais
avultava o problema da unidade – um problema bem atual na comunidade cristã de
Roma, então afectada por alguma dificuldade de relacionamento entre
judeo-cristãos e pagano-cristãos). Estamos no ano 57 ou 58. São Paulo aproveita
para dizer aos Romanos e a todos os cristãos que o Evangelho deve unir e
congregar todo o crente, sem distinção de judeu, grego ou romano. Para desfazer
algumas ideias de superioridade (e, sobretudo, a pretensão judaica de que a
salvação se conquista pela observância da Lei de Moisés), São Paulo nota que
todos os homens vivem mergulhados no pecado (cf. Rom 1,18-3,20) e que é a
“justiça de Deus” que a todos dá a vida, sem distinção (cf. Rom 3,1-5,11). No
texto que a segunda leitura deste domingo nos propõe, São Paulo refere-se à
ação de Deus, por Jesus Cristo e pelo Espírito, no sentido de “justificar” todo
o homem.
São Paulo parte da ideia de que todos
os crentes – judeus, gregos e romanos – foram justificados pela fé. Que
significa isto? Na linguagem bíblica, a justiça é, mais do que um conceito
jurídico, um conceito relacional. Define a fidelidade a si próprio, à sua
maneira de ser e aos compromissos assumidos no âmbito de uma relação. Ora, se
Jahwéh se manifestou na história do seu Povo como o Deus da bondade, da
misericórdia e do amor, dizer que Deus é justo não significa dizer que Ele
aplica os mecanismos legais quando o homem infringe as regras; significa, sim,
que a bondade, a misericórdia e o amor próprios do ser de Deus se manifestam em
todas as circunstâncias, mesmo quando o homem não foi correto no seu proceder.
São Paulo, ao falar do homem justificado, está a falar do homem pecador que,
por exclusiva iniciativa do amor e da misericórdia de Deus, recebe um veredicto
de graça que o salva do pecado e lhe dá, de modo totalmente gratuito, acesso à
salvação. Ao homem é pedido somente que acolha, com humildade e confiança, uma
graça que não depende dos seus méritos e que se entregue completamente nas mãos
de Deus. Este homem, objeto da graça de Deus, é uma nova criatura (cf. Gal
6,15): é o homem ressuscitado para a vida nova (cf. Rom 6,3-11), que vive do
Espírito (cf. Rom 8,9.14), que é filho de Deus e co-herdeiro com Cristo (cf.
Rom 8,17; Gal 4,6-7).
Quais os frutos que resultam deste
acesso à salvação que é um dom de Deus?
Em primeiro lugar, a paz (vers. 1). Esta paz não deve ser entendida em sentido
psicológico (tranquilidade, serenidade), nem em sentido político (ausência de
guerra), mas no sentido teológico semita de relação positiva com Deus e,
portanto, de plenitude de bens, já que Deus é a fonte de todo o bem. Em segundo
lugar, a esperança (vers. 2-4 – embora os versículos 3 e 4 não apareçam no
texto que nos é proposto). Trata-se desse dom que nos permite superar as
dificuldades e a dureza da caminhada, apontando a um futuro glorioso de vida em
plenitude. Não se trata de alimentar um otimismo fácil e irresponsável, que
permita a evasão do presente; trata-se de encontrar um sentido novo para a vida
presente, na certeza de que as forças da morte não terão a última palavra e que
as forças da vida triunfarão. Em terceiro lugar, o amor de Deus ao homem (vers.
5-8). O cristão é, fundamentalmente, alguém a quem Deus ama. A prova desse amor
está em Jesus de Nazaré, o Filho amado a quem Deus “entregou à morte por nós
quando ainda éramos pecadores”. Como pano de fundo, o nosso texto propõe-nos o
cenário do amor de Deus. São Paulo garante algo que já encontrámos na primeira
leitura de hoje: Deus nunca abandona o seu Povo em caminhada pela história. Ele
está ao nosso lado, em cada passo da caminhada, para nos oferecer gratuitamente
e com amor a água que mata a nossa sede de vida e de felicidade (a paz, a
esperança, o seu amor).
A segunda leitura nos leva a
contemplar o amor de um Deus que nunca desistiu dos homens e que sempre soube
encontrar formas de vir ao nosso encontro, de fazer caminho conosco. Apesar de
os homens insistirem, tantas vezes, no egoísmo, no orgulho, na auto-suficiência
e no pecado, Deus continua a amar e a fazer-nos propostas de vida. Trata-se de
um amor gratuito e incondicional, que se traduz em dons não merecidos, mas que,
uma vez acolhidos, nos conduzem à felicidade plena.
A vinda de Jesus Cristo ao encontro
dos homens é a expressão plena do amor de Deus e o sinal de que Deus não nos
abandonou nem esqueceu, mas quis até partilhar connosco a precariedade e a
fragilidade da nossa existência, a fim de nos mostrar como nos tornarmos
“filhos de Deus” e herdeiros da vida em plenitude.
A presença do Espírito acentua no nosso tempo
– o tempo da Igreja – essa realidade de um Deus que continua presente e
actuante, derramando o seu amor ao longo do caminho que, dia a dia, vamos
percorrendo e impelindo-nos à renovação, à transformação, até chegarmos à vida
plena do Homem Novo. É esse caminho que a Palavra de Deus nos convida a
percorrer, neste tempo de Quaresma.
Caros
irmãos,
Deus liberta o
povo da escravidão do Egito. Caminha com ele pelo deserto. Mesmo quando o povo
se queixa e duvida da presença de Deus, este não o condena nem o abandona. Ouve
a oração de Moisés e das outras lideranças e faz nascer água da rocha. Sacia a
sede do povo para que este não desanime na caminhada para a Terra Prometida.
Essa caminhada de quarenta anos é lembrada pela Igreja, de modo especial, neste
tempo da Quaresma. É preciso caminhar com perseverança, confiando na presença
de Deus. Ele ouve nossas preces, perdoa-nos e nos acompanha na caminhada de
nossa vida. É tempo de superar os queixumes e arregaçar as mangas para que a
terra que Deus nos deu seja realmente a casa de todos, conforme nos interpela a
Campanha da Fraternidade de 2023, sem que ninguém passe fome ou viva situações
de insegurança alimentar.
Jesus tomou a
iniciativa de ir ao encontro dos samaritanos, inimigos dos judeus. Estabelece
um diálogo com a mulher, representante do povo da região de Samaria. Do diálogo
nasce a mútua compreensão. Por meio do diálogo, Jesus se revela: ele é a fonte
de água viva. Para manter a intimidade com Jesus, bebemos de sua Palavra e nos
alimentamos de seu corpo na Eucaristia. Além de nos saciar, tornamo-nos fonte
de água viva. Como fez a samaritana, tornamo-nos discípulos missionários,
portadores da Boa Notícia da salvação de Deus para todos.
Uma vez
reconciliados com Deus, é impossível não irradiar seu amor. Assim fez São
Paulo, a ponto de entregar-se totalmente como ministro da reconciliação. Muitos
caminhos que o mundo moderno nos oferece dificultam a compreensão e a acolhida
da graça divina e a paz entre pessoas e povos. Vivemos dispersos, divididos,
confusos, inseguros, apegados aos bens materiais, à fama, ao que nos satisfaz
momentaneamente… Somente a paz que vem do amor de Deus é capaz de construir a
família humana e nos realizar verdadeiramente. Para isso, precisamos resgatar o
valor do silêncio, da meditação da Palavra de Deus, da oração pessoal, familiar
e comunitária, da contemplação, do cuidado e da promoção dos direitos comuns.
Estimados
Irmãos,
A misericórdia que tem muitas faces:
misericórdia que gera justiça, misericórdia que dá o pão a quem tem fome. E o
pão que interessa é o pão da vida eterna, que dá alimento para o contacto com o
Criador. Por isso somos convidados a nos esforçarmos não pelo pão que perece,
mas pelo alimento capaz de dar a vida eterna, a vida em Deus, conforme nos
ensinou Jo 6,27.
A água do Batismo gera a fonte da
vida eterna. O Batismo é o sacramento porta, que abre as portas da eternidade,
apagando nossos pecados e nos tornando herdeiros da vida divina. No Batismo nos
tornamos morada da Santíssima Trindade.
Para ser Batizado é necessário
conhecer o dom de Deus; reconhecendo no Cristo o Messias e Salvador e sair do
pecado e de si mesmo e ir ao encontro de Jesus, fazendo a vontade do Pai,
realizando no mundo as obras que o Pai quer e continuar a missão de Jesus na
terra, dando sempre o testemunho da pessoa divina-humana de Jesus.
Amados
Irmãos,
Se seguimos Jesus, precisamos, de todas as formas, falar e
agir como ele falava e agia. A demonstração de amor de Jesus pode ser
considerada a maior demonstração de solidariedade. Jamais a humanidade foi
amada a ponto de alguém dar a vida por ela. Ao
lado do poço, onde a humanidade vem buscar a água que mata a sede e purifica o
corpo, Jesus se apresenta como a água viva, capaz de satisfazer por inteiro a
sede espiritual da humanidade. Jesus é a fonte de água viva e quem beber desta
água nunca mais terá sede. Amém!
Padre Wagner Augusto Portugal.

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